
Cada país tem uma maneira de lidar com as concessões
de canais para veículos de comunicação. Uns
são mais liberais, outros nem tanto; alguns constróem
redes de teleducação, e outros deixam a programação
por conta do mercado. Para aprender um pouco sobre o sistema de
rádios públicas dos EUA, entrevistamos o radialista
norte-americano Steve Spencer (foto), que trabalhou em emissoras
de Nova York e em rádios públicas na Universidade
de Maryland e no estado de Missouri, onde dirigiu a KOPMF (FM),
e depois a WYSO. Atualmente, Steve está no Brasil para
estudar a implantação de sistemas de redes de rádio.
Outras fontes: NPR (www.npr.org) e CPB (www.cpb.org)
AO - Como você se interessou por rádio, como
você começou a trabalhar em rádio e quais
as suas primeiras emissoras?
SS - Eu não me lembro um momento da minha vida sem
rádio. Na verdade eu sou, provavelmente, da primeira geração
da televisão. Mas o rádio ainda tinha grande impacto
especialmente na década de 60. Eu me lembro que grandes
eventos do mundo ( nos Estados Unidos a Guerra do Vietnam, o movimento
pelos direitos civis, etc, e também, a corrida espacial,
com os russos, muitos eventos) eu fui ouvir na rádio...
AO - O rádio era então um veículo importante
para esses momentos polêmicos?
SS - Na verdade, quando eu era menino, o veículo mais importante
já era a televisão, mas o rádio era parte
da minha vida o tempo todo. Porque ainda na década de 60,
até o começo da década de 80, a AM era muito
forte, tinha muitos ouvintes para a música, especialmente
em 60, quase 70, por causa da maneira de propagação
das ondas de AM - à noite é possível ouvir
as estações à grandes distâncias. Ainda
tenho em alguma caixa na minha casa nos EUA o primeiro rádio
com transistores onde eu, toda noite, em baixo do travesseiro,
escutava as estações. Eu morei em Nova York e me
lembro das estações de Saint Louis, Chigago, Texas,
e muitos outros lugares à grandes distâncias. Era
uma revelação para mim ouvir estações
e cidades tão distantes. E isso se ampliou para o mundo,
porque em 1969 eu comecei a usar um rádio que pertencia
a dois tios meus, um rádio com válvulas (vacuum
tube), um Stromberg Carlson, um rádio fabricado em 1936
ou 39. Os meus tios me disseram que os tubos (ou válvulas)
nunca precisaram ser trocados. A Rádio tem Am e Ondas Curtas.
Eu tenho um rádio que até hoje funciona bem, o som
é muito claro, e nunca precisei mudar os tubos. Ele tem
65 anos, provavelmente todo o material é original. Me assombra
porque com esse rádio eu fiz contato com os países
do mundo inteiro, especialmente naquela época, durante
a guerra fria, a radio Moscou, vários outros países
pequenos do entorno da União Soviética.
Muito interessante para mim era a Rádio Tirana em Albânia.
Porque a Albânia detesta os russos, detesta os chineses,
detesta todo mundo, as transmissões deles eram muito engraçadas
mas muito interessantes. Por que motivo eles queriam falar o que
falavam para o mundo? É interessante. É estranho
porque, no Brasil a informação quente seria, por
exemplo, ganhar a Copa do Mundo; nos Estados Unidos, a chegada
do homem à Lua; mas a Rádio Tirana estava falando
sobre o crescimento da produção de sapatos.
Ouvia também a BBC, Rádio Austrália, NHK,
no Japão, era super interessante para mim.
Hoje em dia eu uso muito menos as ondas curtas, porque agora temos
a internet. Ainda é mais fácil usar o rádio
de ondas curtas porque temos maior mobilidade, mas a cada ano
a internet está se equiparando em facilidade ao rádio.
Rádio sempre foi muito importante na minha vida, mas eu
nunca sonhei em trabalhar no rádio. Quase no fim da década
de 70 eu comecei a escrever artigos para um Jornal Comunitário
em Nova York, eu era crítico de teatro, e fiz isso durante
uns dois anos. Ainda na época da máquina de escrever,
não elétrica. Em 1979 eu comecei a estudar na Universidade
e não queria pegar ônibus para o escritório
do Jornal, então pensei em escrever para o jornal da Universidade.
Eu fui ao Jornal, entrei e saí imediatamente. Me pareceu
muito amador. Então eu pensei que eu poderia fazer minhas
críticas na estação de rádio que tinha
perto (WVHC, 88,7 FM, hoje WHU). Eu entrei no escritório
da Rádio - um escritório grande e comprido, e no
fim desse escritório comprido estava o diretor. Meu primeiro
diretor de rádio. Ele tinha a cara muito séria e
eu não quis falar com ele. Em todas as outras mesas tinham
pessoas com caras mais simpáticas, e muito próximo
a ele estava o Diretor de programação, que estava
falando ao telefone. À esquerda tinha uma mulher muito
baixinha, que se mostrou receptiva. Eu fui à mesa dela,
me apresentei, e disse: eu quero ser o seu novo crítico
de teatro. Ela se virou para mim e disse, "nós nunca
tivemos um crítico de teatro aqui, é uma boa idéia".
Assim eu ganhei o meu primeiro trabalho no rádio. Nesta
estação eu trabalhei por 6 anos aproximadamente.
Trabalhei lá em quase todas as funções possíveis
para alguém dentro de uma rádio: jornalista, editor,
engenheiro, produtor - produzi um programa de artes em Nova York
por dois anos. Naquela época nos Estados Unidos e Canadá
- provavelmente Austrália também - nós tínhamos
a música chamada new wave. Bandas como Talking Heads, Elvis
Costello, Blondie, The Clash, muitos outros mas, nesse momento,
nenhuma estação de Rádio de Nova York tocava
essa música. Nós tocávamos. Nós tínhamos
um programa de rádio chamado The Post Punk Progressive
Pop Party - P5.
O meu chefe na rádio, Jeff Craws, se tornou um grande
amigo depois.
Em 1985 eu parei o meu trabalho na Rádio porque me mudei
para o Rio de Janeiro, e morei aqui cerca de um ano. Voltando
à Nova York não fui para o Rádio imediatamente.
Do início da minha carreira no rádio em 1979 até
agora sempre tive envolvimento com o rádio, mas não
o tempo todo. Especialmente entre 1987 até 1991. Eu fiz
várias outras coisas, incluindo rádio, mas independente,
e depois me mudei para Washington D.C., no estado do Maryland
Em 1992 retornei à minha primeira estação
de Rádio, porque meu chefe teve um ataque cardíaco
e, depois de vários outros problemas, entrou em coma e
nunca mais ressuscitou. Eu recebi um telefonema da estação
pedindo minha ajuda. Fiquei cerca de um ano e meio trabalhando
lá. Depois eu passei a trabalhar em uma estação
de Rádio Pública, do Sistema da rede NPR, no estado
do Maryland, numa área muito rural que nós chamamos
de eastern shore of Maryland, a estação WESM, na
Universidade do Maryland. Fiquei lá cerca de um ano e meio,
quase dois. Depois disso me mudei para o estado do Misouri, onde
fui o diretor geral da KOPM FM. Também fiquei lá
uns dois anos e pouco. Depois disso meu último trabalho
nos estados Unidos foi também no sistema NPR, foi com a
WYSO, também como diretor, onde fiquei uns 5 anos e meio.
AO - Faça, por favor, a distinção entre
rádio pública, rádio independente, rádio
educativa e rádio privada...
SS - ARádio Pública pode ser do governo, como é
a BBC. Tecnicamente é uma rádio do Governo. Eles
são independentes do governo, mas é uma rádio
do governo. Mas nós (nos EUA) não temos rádio
do governo. Existe, mas só para o exterior - ondas curtas
ou internet - que é a Voice of America. Mas para os ouvintes
domésticos não existe. Quando nós falamos
de Rádio Pública falamos de um sistema composto
por rádios universitárias, a maioria, cerca de 67%,
rádios comunitárias, provavelmente 30%, e rádios
municipais, ou de bibliotecas.
As estações são parte do Sistema NPR (National
Public Radio), mas a NPR não tem estações.
A maioria do financiamento do nosso sistema vem de dinheiro dos
ouvintes. Mas cada estação é diferente. Nós
temos uma estatística nacional que aponta que provavelmente
1 em 10 ouvintes contribuem com dinheiro para uma estação
local.
Nós também recebemos um financiamento do governo
de uma corporação que é quase independente,
chama-se The Corporation for Public Broadcasting. Aproximadamente
20 a 25% do financiamento nacional para a rádio Pública
vem do CPB, mas isso difere de estação para estação.
Por exemplo, as grandes estações como a WNIC, em
NY City, ou a WBIZ, em Chicago, provavelmente precisam muito menos
do dinheiro do CPB, num total de 2, 3 ou 4% do financiamento anual
deles. A WYSO precisa de 20%. Mas a idéia é que
todos possam ir baixando o total de financiamento do CPB. Quanto
mais contribuições de sócios e anúncios
menos financiamento da Corporação.
Anúncios são permitidos, mas no nosso sistema,
20% das freqüências de FM (que começa em 88,1
e vai até 107,9), de 88,1 até 91,9, são rádios
que não tem comerciais. O Departamento de Governo, The
Federal Communications Comission, destina 20% das estações
para a transmissão Noncomercial Education.
Isso foi criado na década de 40, muito anos antes das
pessoas terem rádios com FM. Originalmente as estações
NCE eram para Universidades, para professores darem conferências
no ar, e para a música clássica, porque era o começo
da era do LP. Mas no fim da década de 70 a FM cresceu muito,
e no começo de 80 a FM ultrapassa a AM.
Em 1967 Congresso Nacional aprovou um ato chamado The Public
Broadcasting Act of 1967, e criou o sistema. E cada estação
que parte do NPR é voluntária. Originalmente eram
quase 80 estações, atualmente o número é
superior a 600 estações. Há estações
de vários tamanhos. Provavelmente nos EUA 98% do país
tem áreas com uma ou mais de uma estação
do NPR.
Nós temos muitas estações públicas
mas nem todas são parte do NPR. Podemos chegar a 1300 estações
NCE fora do sistema NPR, como rádios comunitárias,
ou College Radio (rádios de Universidades). Outras que
cresceram enormemente foram as Rádios Católicas
(Christian Radio) . Todas essas são NCE e funcionam na
mesma faixa de freqüência. A idéia original
não era bem esse perfil. Mas todas essas são não
comerciais. Para essas rádios é possível
transmitir um tipo de propaganda, mas não podem dizer que
é propaganda.
AO - Como tem aqui Apoio Cultural?
SS - Nós temos underwriting anouncer. Existem diferenças
entre comerciais, propagandas e underwriting. A maioria dos ouvintes
acredita estar ouvindo um comercial, eles nos dizem eu ouvi seu
comercial. Não é um comercial mas eles pensam que
é. Porque até 1984 os anúncios eram como
você falou, apoio cultural: "a realização
desse programa foi possível graças à Fundação
Ford", por exemplo. Depois de 1984 o Congresso Nacional mudou
essas leis, e agora nós temos underwriting. Nós
podemos falar "esse programa foi possível graças
à Fundação Ford..." , dar o slogan da
Fundação, dizer que serviços oferecem e anunciar
um telefone, página na internet ou e-mail de contato. Mas
as diferenças entre isso e propaganda é que não
se pode dar preços por exemplo. Não podemos dizer
sem juros, não podemos dizer de graça. E também
não permitem usar comparativos ou superlativos, é
melhor do que, nunca esteve tão bom, etc. Não se
pode também fazer chamadas imperativas (call to action)
do tipo "ligue agora". Só informações,
só isso. Também existem outras regras. Posso dizer
"Clear Channel Comunications", grande estação
nos Estados Unidos "apresenta U2, no show do Madinson Square
Garden, neste Sábado, 3 de setembro, as 20 horas..."
tudo bem, pode, mas se você tem o mesmo anúncio com
as músicas do U2 de fundo, não pode. Porque as músicas
são consideradas promocionais.
AO - Mas é tudo muito específico, sutil...
SS - É muito difícil até para os profissionais
entenderem, quanto mais para os ouvintes. È muito difícil
para nós entendermos, e todo dia, todo dia, existe um debate
dos profissionais das rádios públicas com as pessoas
do departamento de desenvolvimento de financiamento. "É
possível usar essa frase? Desse jeito?" Tudo é
negociado. Nós temos uma lista de internet para os profissionais
de rádios públicas e todo dia temos questões
a esse respeito.
AO-A programação também é regulamentada
por um sistema? Vocês têm um per-centual mínimo
de tipos de programas obrigatórios (informativos, educativos,
etc) ?
SS - Não. Cada estação pode decidir o que
é bom para seus ouvintes.
AO - Inclusive religião?
SS - Não se você recebe financiamento do CPB (Public
Corporation Broadcasting) porque o dinheiro do CPB é do
governo e nos Estados Unidos nós temos a separação
da Igreja do Estado. Se você aceita financiamento do governo
e você faz isso você precisa devolver o dinheiro.
Algumas estações são propriedades de universidades
religiosas, por exemplo a Universidade dos Jesuítas. Todo
domingo eles transmitem a missa diretamente da Igreja do Campus.
E não é programação religiosa porque
eles dizem que é um serviço para seus ouvintes que
não podem ir à missa. Isso gerou um debate e o CPB
considerou legal.
AO - Mesmo com esse sistema tão cheio de limitações,
qual o percentual de financiamento conseguido com publicidade?
SS - Se você estuda só uma estação
não é o perfil nacional. Porque as situações
mudam muito de estação para a estação,
há estações maiores que não precisam
de dinheiro do governo. A WYSO por exemplo recebe do governo o
equivalente a 20% de suas despesas. 56% dos ouvintes, 1% de eventos
e o restante dos anúncios. Algumas estações
vendem produtos. O sistema recentemente tem feitos experiências
com outros tipos de parcerias para gerar fundos. Por exemplo nós
temos um programa da rede pública muito popular que se
chama Car Talk - feito dois irmãos da Cidade de Boston,
em Massachutes, há 20 anos no ar. Eles dão informações
sobre problemas com carros e etc, mas a maioria dos ouvintes ouve
o programa porque eles são muito engraçados. Eles
tem um sistema de contribuição divulgado na página
deles na internet, onde sugerem que seus ouvintes doem seus carros
velhos para a estação local. Porque no sistema de
impostos nacional é possível conseguir dedução
na taxa de imposto quando você contribui para caridade (computadores,
roupas, etc). Todas as estações públicas
no sistema NPR estão na categoria do sistema de impostos
501c3 - organizações com dedução de
taxa (tax deductable organization).
O contribuinte tem à sua disposição uma listagem
com as organizações para as quais podem ser feitas
doações com dedução do imposto de
renda, e escolhem para quem farão suas doações.
Normalmente a maioria das rádios públicas faz campanhas
para arrecadação de dinheiro. Duas vezes por ano
geralmente, algumas mais. Para incentivar o ouvinte a contribuir
normalmente nós temos algum produto. Um livro, ou CDs,
ou coffe-mugs (canecas de café). Muitas pessoas tem em
suas casas um tipo de caneca de café para viagem, porque
fazem o café em suas casas e vão para a rua com
eles. E muitas estações de rádio fabricam
essas canecas para viagem. Ou sacolas com o símbolo da
rádio. Nós experimentamos também outras maneiras
de aumentar nossa arrecadação, especialmente usando
a internet.
AO - Como funciona o sistema de concessão dos canais?
SS - Para todos é igual, você tem sua licença
pela FCC. Mas com a desregulação, não há
mais obrigações e o governo não está
mais permitido a se envolver nas questões de conteúdo.
A época de desregulação do rádio e
da TV teve seu início no governo Reagan, em 83, 84. Quando
eu era menino todas as estações de rádio
tinham obrigação de transmitir um pouco de programações
com notícias e informações. Na verdade muitas
estações, especialmente as comerciais, transmitiam
esses programas, por exemplo, todo domingo, entre quatro e seis
horas. Mas tinham obrigações! Cada estação
tinha, pelo menos, um funcionário para notícias.
Depois da desregulação não. Não é
possível para o FCC decidir que tipo de programações
uma rádio deve ter.
Uma outra coisa decorrente das desregulações foi
um ato do Congresso Nacional, uma lei que o Congresso Nacional
aprovou chamada de Public Telecomunications Act of 1996. A lei
para muitas pessoas, e é minha opinião também,
foi horrível. Sem exagero. Porque a lei permitiu a consolidação
da propriedade das estações. Antigamente nós
tínhamos propriedade para o que chamávamos de estação
mãe e pai, estações pequenas. Mas agora praticamente
não existem mais estações assim. Clear Channel
Communications, por exemplo, tem mais de 1200 estações
no país. Outra corporação, a Radio1, tem
800 estações. Eu não acho isso bom para a
democracia, nem para a diversificação de idéias,
músicas, etc.
Nós temos um outro grande problema nos EUA com os conservadores
(facção política). Especialmente em relação
à notícias e informações. É
quase como o livro de George Orwells, 1984. Porque nós
temos, especialmente no AM, estações que transmitem
24 horas por dia programações com idéias
dos conservadores. Sean Hannity e Bill O´reilly, por exemplo,
são muito populares. Eles vão para o rádio
e ficam falando sobre a mídia liberal. Que mídia
liberal? Não existe. Mas eles continuam dizendo isso e
quando você fala com as pessoas na rua eles dizem, "ah,
a mídia liberal...", onde? Não existe.
AO - Seriam vocês (as rádios de universidades
etc) a tal mídia liberal para as pessoas?
S - Eu acho que sim! Muitas décadas antes do Reagan nós
tínhamos a doutrina chamada The Fairness Doctrine ( a doutrina
do justo). A idéia desta doutrina era "nós
(governo) estamos dando a você esta licença (concessão
de faixa de onda por ex.), e você não precisa pagar
nada por isso", grandes corporações como o
Clear Channel não pagam por suas licenças, a idéia
é que o ar pertence ao povo, mas elas são limitadas,
nós temos a FCC para regular essa coisas.
O Contrato de concessão é por , acho eu, 10 anos.
O governo tem um sistema para transmitir ao público ( a
notice of propose rule maker). Nós temos propostas de novas
regras, que estão sendo apresentadas ao público.
Pode ser que o FCC, reagindo às mudanças depois
do ato 1996 de telecomunicações, mude algumas coisas,
inclusive o período de contratos para 5 anos. Pode ser.
E com vários períodos dentro para relatórios
de atualização. Mas não sei se eles mudam,
não. No passado eles te davam uma licença e você
podia fazer o que quisesse mas havia a idéia de que se
estava tratando de uma propriedade do povo americano, então
ao concessionário era pedido que fizesse um pouco pelo
povo, não muito, só um pouco. Então, por
exemplo, se você for divulgar as idéias dos conservadores,
você tem a obrigação de divulgar a outra opinião.
Você tem que fazer algo para indicar que nem todo mundo
pensa do mesmo jeito.
Mas na época do Reagan veio a idéia de que o governo
não pode ter envolvimento com o conteúdo. O mercado
deve decidir. A idéia do fairness doctrine era " nós
entendemos que se você é um proprietário de
mídia e você é um conservador , e você
quer pôr as idéias conservadoras no ar, ok, é
uma imprensa livre", a fairness doctrine reconhece isso e
diz, " mas nós não queremos que você
faça isso. Nós queremos que você reconheça
que você tem uma obrigação para com a sociedade,
um mínimo de obrigação." Agora não
há mais isso.
A maioria, acho que todas as estações de rádios
públicas, especialmente no sistema NPR, continuam a operar
as estações como se a doutrina justa (fairness doctrine)
ainda existisse. Porque é justo, porque você tem
a confiança do público na estação.
Eles confiam na gente, então você tem que fazer a
coisa certa.
AO - Como funciona a questão da propriedade das rádios,
como uma só corporação pode ter várias?
SS - Tomemos as idéias dos conservadores, por exemplo "o
mercado decide tudo". Eu não discordo em geral dessa
idéia mas eu acho que ela foi levada muito longe, porque
o mercado não pode fazer tudo, algumas vezes você
tem que tomar as rédeas do mercado. Em contrapartida nós
também temos leis nos EUA que indicam que não pode
haver monopólio. Por exemplo: a Microsoft tem muitos problemas
com isso porque as pessoas não podem competir com eles.
Wallmart é enorme. Uma empresa com este tamanho pode comprar
e vender as coisas a um preço muito barato. A pequena lojinha
não pode competir. Mesma coisa com o rádio. È
possível para o Clear Channel, ou outra corporação
que tenha até oito estações de rádio
em cada cidade, consolidar operações, funções
de engenheiros, etc. É mais fácil para eles operarem
oito estações em um mercado, e muito mais difícil
para mim operar uma. Eu pago mais, etc, etc. Comparativamente
é difícil.
No estado do Wioming ou Montana, o Clear Channel em uma determinada
cidade tem todas as estações, TODAS. A cidade é
muito pequena e todas as estações são do
Clear Channel. À noite elas funcionam com automação.
Mas passou perto da cidade um trem de cargas, descarrilou, e um
de seus carros tinha produtos químicos perigosos para as
pessoas. A polícia precisava transmitir uma mensagem pedindo
que as pessoas não saíssem de casa. E não
havia ninguém com quem falar nas estações
de rádio. Eles tentaram ligar para as estações
e ninguém respondia. Depois desse ocorrido, o Clear Channel
consertou a situação e cada engenheiro e cada chefe
de estação têm seu celular, e os policiais
têm o telefone deles. Pelo menos isso.
Existem outros casos, por exemplo, na minha estação
(WYSO) nós temos um sistema para mim, meu engenheiro e
meu diretor de programação acessarmos o sistema
de automação da rádio em casa. Então
eu posso acessar o que está no ar de casa. Por exemplo,
Deus queira que não ocorra novamente outro 11 de setembro,
mas, se ocorrer, eu posso acessar o satélite e mudar a
minha programação. Mas o sistema NPR criou uma maneira
deles também acessarem, você pode fornecer a eles
o acesso à suas ondas. Se eles acessarem com uma senha
específica o aparelho de sua estação muda
a programação, sem que você precise fazer
nada.
AO - como foi a cobertura do atentado de 11 de setembro nas
rádios americanas?
SS - Até 11 de setembro a maioria das estações
comerciais não tinha ninguém cuidando de noticiário.
E quando dois aviões batem nos prédios é
de mau gosto continuar transmitindo músicas. Mas eles não
tinham o que colocar no ar. Aquele dia toda a cidade nos EUA,
todas as estações comerciais, tinham apenas dois
tipos de programação: o áudio da CNN ou o
áudio da rede ABC. O áudio das estações
de TV. Porque eles não tinham nada. Não tinham infra-estrutura,
não tinham comentaristas locais.
Para ouvintes de rádio quando a pessoa fala "como
vocês podem ver na tela..." , o ouvinte pensa "eu
não posso ver nada companheiro!". Os ouvintes que
não costumavam mudar de estação começaram
a procurar outras. Alguns ouvintes de rádio em carro tem
botões programados para as estações que costumam
ouvir e não ouvem outras. Rádios públicas
existem há 30 anos, mas em 11 de setembro milhões
de pessoas descobriram as estações públicas,
pois eram as únicas estações que estavam
transmitindo notícias sobre o ocorrido por profissionais
de rádio. Neste dia, e depois, ganhamos milhões
de ouvintes. Depois de umas semanas as pessoas acabam voltando
para suas estações usuais, mas muitas ficaram ouvintes
das públicas.
AO - Em que o rádio por satélite poderá
alterar a programação das rádios públicas?
SP - Há 10 anos eu me lembro que em um congresso de Rádios
Públicas um engenheiro importante do sistema estava falando
que em breve nós teremos rádio por satélite.
Um Rádio satélite nacional, com mais de 100 estações
e dizia "vocês precisam parar de pensar na sua estação
como só uma estação. Vocês precisam
pensar seu trabalho como de gerente de conteúdo. Vocês
não estão dirigindo uma estação de
rádio, vocês são gerentes de conteúdo.".
A convergência da tecnologia ainda é muito cara
para muitas pessoas, mas em países da Europa, no Estados
Unidos, etc, não é. E um dia o computador, a TV,
o rádio... todos serão um só parelho. Mas
eu me lembro que a pessoa estava falando que um mundo com escolhas
infinitas é tão bom quanto um sem escolhas. Porque
não interessa o quão maravilhosa é a internet.
Existe 24 horas por dia, mas o ser humano precisa dormir, comer...
não mudamos tanto como seres humanos, nós não
temos a capacidade de absorver tudo isso.
Mas a boa notícia para a Rádio Pública,
nos EUA especialmente, é que os ouvintes tem confiança
em nossas estações. Eles confiam em nós para
dizer a verdade, confiam em nosso jornalismo, na qualidade de
nosso jornalismo, estão confiando que nós fazemos
a coisa certa. O palestrante disse "usem essa confiança
e trabalhem no sentido de entender seu conteúdo e criar
um espaço para conteúdo nos sites da internet. Você
faz o trabalho para os ouvintes. Eles já confiam em você,
então se eles vão em seu site eles sabem que apenas
terão coisas boas, e você fez isso por eles".
Várias estações tem programações
no rádio, como sempre, mas existem estações
como a KCRW, em Santa Mônica, Califórnia e várias
outras, normalmente as grandes estações, que têm
conteúdo para ouvir só na internet, exclusivo. Nós
temos em nosso sistema muitas programações nacionais,
do NPR, de outra rede nacional PRI, e produtores independentes.
Muitas estações, muitas programações
regionais, muito conteúdo. É impossível para
uma única estação transmitir tudo. Mas é
possível para você ter streams na internet. Nós
chamamos stream programm. Por exemplo: KCRW no ar tem notícias,
informações e músicas. Mas no site da internet
você tem três opções: você pode
ouvir o que está no ar, ou o stream só para notícias,
24 horas, ou música 24 horas. Hoje em dia isso ainda é
experimental. Nós não sabemos ao certo o impacto
que teremos.
Muita gente está pensando em como descobrir a maneira
de prover programações nas estações
on demand (segundo a demanda) . Especialmente porque algumas pessoas
pensam o rádio por satélite como uma grande competição
para nós finalmente. Agora não, mas aos poucos.
Porque há 30 anos atrás muitas redes de TV não
pensavam na questão da Tv à cabo ou satélite.
NBC, ABC, CBS, não pensaram muito sobre isso. Hoje em dia
65% da população norte americana tem televisão
à cabo, ou satélite. Agora eles não mais
assistem televisão comercial como antes. Eles assistem
canais à cabo como HBO, Cinemax, e outros. Ainda durante
o período do cabo, há uns dez anos, as pessoas assistiam
a TV à cabo mas continuavam assistindo a TV comercial.
Agora não, a maioria do povo está assistindo TV
paga. As grandes redes não viram isso acontecendo, e não
se prepararam.
Por exemplo: séries de TV. Normalmente nos EUA as séries
duram anos. Normalmente elas se renovam em setembro e vão
até maio. E durante o verão temos reprises. É
como o sistema da escola. Mas as TVs do cabo não são
assim. Eles tem séries que começam em qualquer época
do ano, etc, etc. Este ano, pela primeira vez, as três grandes
redes de TV aberta começaram a introduzir programações
no verão. Porque eles sabem que precisam fazer isso, ou
não vão poder competir. E também muitas séries
usando as do cabo: Sex and the city, por exemplo. O mercado para
esse tipo de série é interessante porque começa
no cabo e vai para a TV aberta. É um mundo novo.
Rádio satélite é muito novo. Todas as estações
estão pensando o que será que isso significará?
Porque na década de 50 nós costumávamos transmitir
por TV comédias, novelas e jogos. Então o rádio
muda, porque o que se fazia em rádio foi para a TV. É
possível que, se o rádio satélite faça
muito sucesso, tenhamos rádios baratos (aparelhos, mensalidades),
e a cara do rádio mude. Porque se você tem programações
nacionais em satélite e a maioria dos ouvintes tem rádio
por satélite, pode ser uma volta ao início de tudo.
Nos Estados Unidos, há muitos anos, todas as estações
são locais. O NPR foi a primeira rede nacional distribuindo
programação por satélite. Cresce um sistema
nos EUA de regulação e tecnologia. Nós não
temos estações locais na verdade, nós temos
pontos de distribuição para programações
nacionais com pouca ou nenhuma programação local.
Há cerca de 20 anos a audiência das estações
comerciais vem caindo, cada ano cai mais um pouco. Provavelmente
por duas ou três razões principais. Uma é
que há de 18 a 22 minutos por hora de comerciais, e as
pessoas não querem mais isso. É demais. Também,
especialmente com a desregulação, as programações
tem se tornado muito parecidas e as pessoas querem ouvir outros
tipos de programa. Se as estações comerciais não
começarem a mudar acontecerá com elas o mesmo que
com a televisão em relação à TV à
cabo. Agora começaram a fazer algumas mudanças.
Por exemplo: Clear Channel tem prometido que cada estação
não irá transmitir mais do que 15 ou 18 minutos
de comerciais por hora.
Quando eu era menino nós precisávamos do rádio
para conhecer as músicas, ou o LP, o transporte de LPs
era difícil, mas depois veio a época do K7, seguido
do CD e agora o MP3, com músicas baixadas da internet,
o ouvinte não precisa da rádio para selecionar sua
música. Eu não preciso escutar uma estação
de rádio e esperar para ver se ela vai tocar minha canção
favorita.
Eu estava lendo um artigo semana passada sobre o tipo de tecnologia
do rádio por satélite, por que no rádio por
satélite você tem mais do que 100 estações,
mas aparentemente os novos aparelhos que estão sendo fabricados
tem um sistema onde você pode teclar os nomes de seus artistas
favoritos, e cada vez que uma estação toque seu
artista favorito, o rádio automaticamente muda de estação.
Na verdade isso é reativo. Não tem importância
o quanto interessante você ache que um programa é.
Não importa o quanto você ache que será importante
para ouvintes aquele programa. Pode ser que seja realmente, e
pode ser que eles ouçam. Mas se eles demostrarem que não
estão interessados você não vai fazê-los
ouvir tal programa. Especialmente nestes dias quando eles tem
muitas opções, eles não precisam de você.
É muito sério, porque eu acredito que, especialmente
nas rádios públicas, nós temos obrigações
de transmitir programas mais educativos, etc. Mas temos que reconhecer
como as pessoas usam o rádio. Você não pode
fazer um programa que vá contra o modo como os ouvintes
usam o rádio. Por exemplo: há alguns anos muitas
estações de rádios públicas tinham
vários tipos de programações. Algumas horas
para jazz, algumas horas para música clássica, algumas
horas para notícia, algumas horas... "diversificação
é bacana!". Não, não é. Porque
as pessoas não usam mais o rádio desta forma. Não
é mais a década de 30, nem de 40, nem de 50. Ninguém
lê grades de rádio. Você não fazer um
ouvinte pensar como um radialista.
AO - Como é que os ouvintes participam na escolha da
programação de uma rádio?
SS - Não diretamente...
AO - As rádios públicas fazem pesquisa de audiência?
S - Várias. Por exemplo, para a maioria do povo, o rádio
é parte da vida, ok, mas não é "a vida":
"Eu tenho trabalho, eu tenho família, eu vou cozinhar
feijão hoje à noite, etc, etc...". A maioria
do povo não quer ter que se preocupar ainda com o que vão
pôr no rádio. " É seu trabalho, você
é que decide o que vai pôr no rádio! Eu trabalho
num banco... dirijo um taxi... eu não quero decidir o que
tem que ser irradiado. Você é o profissional, você
faça seu trabalho! Se eu gostar eu escuto, se eu não
gostar não escuto. É assim que funciona". Para
nós por exemplo, é estatístico, uma em cada
10 pessoas dão dinheiro para alguma rádio pública.
Bom, então eu conheço você, sei seu nome,
endereço, etc, é possível para mim mandar
um questionário para saber se você gosta das programações,
etc, etc. Agora, como você vai computar os outros 90%. A
maioria dos ouvintes não liga, não escreve, você
não tem a menor idéia de quem são eles. E
essa é a esmagadora maioria dos ouvintes. Se eu apenas
reagir aos 10% que me dão dinheiro, não terei um
quadro realista dos ouvintes. Nós temos várias maneiras
de conseguir dados de ouvintes. Temos duas ou três grandes
companhias nos EUA, a mais famosa é Orbitron. Eles tem
um site na internet (orbitron.com). A Orbitron tem um acordo com
as rádios públicas e é possível conseguir
os dados deles por 1/20 do valor pago pela estações
comerciais. Mas nós temos também restrições.
Podemos saber de alguns dados que não podemos divulgar.
Por exemplo o ranking das rádios públicas. Não
podemos dizer nossa estação é a primeira,
a segunda, etc. E nos dados do rádio público você
não vê o das outras estações públicas.
Porque se você vai pagar tão pouco as estações
comerciais não querem que nós venhamos a competir
com eles.
Nós temos várias outras opções para
dados. A Orbitron tem uma classificação para ouvintes
que chamam de P1, é a pessoa que ouve a sua estação
mais do que qualquer outra. Normalmente os ouvintes de rádio
tem sua estação preferida e uma segunda e terceira
para outras coisas. Normalmente os ouvintes não escutam
só uma estação. Eu quero entender por exemplo
para a WYSO, quando os ouvintes P1 não estão ouvindo
a WYSO quais outras estações eles ouvem? Porque
se eu souber isso, eu devo saber o que nós não estamos
fazendo. Na primeira pesquisa que eu fiz eu consegui descobrir
que quando os ouvintes da WYSO não estavam ouvindo a estação,
a maioria estava ouvindo uma estação Am , conservadora,
que tinha notícias e informações todo o dia,
especialmente durante as manhãs e durante a tarde. Drive
time (hora de trânsito). Porque isso? Porque provavelmente
eles transmitem informações sobre o tráfego
e a temperatura. Regularmente nós temos estações
nos EUA que informam a temperatura e tráfego a cada oito
minutos, ou seja, 1:08, 1:18; 1:28..... Eu e meu diretor de programações
mudamos os programas. Começamos a dar mais informações
sobre temperatura e tráfego, regularmente. Quando o ouvinte
lembrasse estaria lá. Nós não fazíamos
de oito em oito minutos, mas fazíamos de 15 em 15. E avisamos
isto aos nossos ouvintes. Porque rádio não é
televisão. Hoje em dia as pessoas com TV tem o hábito
de mudar de canal constantemente. Mas rádio é repetição.
E se você não falar várias vezes o que você
vai fazer, e então fazer... eu não ligo se você
publica um guia. Ninguém lê. Não ninguém,
mas não é significativo. Os ouvintes não
lêem guias para saber de suas programações
no rádio. A regra do rádio é ligar, se a
programação for boa, o ouvinte fica, se não,
vão embora.