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A professora Solange Gerardin Poirot Leobons concluiu
o curso de Formação de Professores em 1957. Trabalhou
na Secretaria de Educação do Estado, como Especialista
em Educação, e, em 1972, foi para o Serviço
de Radiodifusão Educativa (SRE) junto ao nascente Projeto
Minerva, que dirigiu por quase sete anos. Essa experiência
rendeu a Solange muitos outros trabalhos na área de Tecolonogias
Educacionais, além de um mestrado onde ela pôde analisar
os erros e acertos do Projeto Minerva, tema de nossa entrevista.
AO Você é uma das principais
responsáveis pelo trabalho feito no Projeto Minerva na Rádio
Ministério da Educação. Como você foi
para lá?
Eu trabalhava na Secretaria de Educação do Estado
com as professoras Arlete Pacheco e Marlene Blois. Aí, em
1972, deu-se uma brecha e a Marlene me convidou. Eu tinha a mesma
formação da Marlene, ou seja, fizemos a Faculdade
juntas, de letras. O trabalho era justamente verificar os scripts,
acompanhar a evolução da produção, porque
se estava pretendendo fazer um curso novo, curso supletivo: até
então o Minerva usava as produções da Fundação
Anchieta ou da FEPLAN do Rio Grande do Sul.
AO As produções radiofônicas da FEPLAN
(Fundação Educacional Padre landell de Moura)?
Exatamente. Eu não tinha nenhuma formação
em rádio: depois é que fiz o mestrado e escolhi como
área de concentração a radiodifusão.
Eu tinha formação em letras, nós tínhamos
vários livros escritos, eu e a Marlene, sobre Português,
Português para professores etc. A coordenadora era a Helena
Theodoro.
AO Que foi a Primeira coordenadora do Minerva? Foi ela
quem implantou o Minerva na Rádio Mec?
Foi. E o diretor era o Avelino, que era paraense. Houve um desacerto
qualquer entre os programas e as expectativas do MEC. O curso ia
ser veiculado pelo MEC e a Helena mandou os primeiros scripts. Parece
que a Helena estava viajando, a coisa correu à revelia dela
e os programas não satisfizeram. O Avelino era muito amigo
do Jarbas Passarinho, que era o Ministro na época. Ele ficou
muito aflito, porque os programas não estavam satisfazendo
as expectativas dele.
AO Não satisfaziam em termos radiofônicos,
ou em termos de conteúdo?
Em termos de conteúdo, porque era uma simplificação
tola de linguagem. Aí, o MEC achou que um programa educativo,
mesmo para pessoas que estavam fazendo o segundo segmento, de 2º
grau, hoje ensino fundamental, precisaria de uma qualidade maior.
AO Nesse momento, em 1972, qual era a mecânica de
trabalho? Aulas com rádio, com folhetos que eram distribuídos?
A dinâmica não mudou muito, não. Eram coordenadores
locais e a equipe central, que avaliava os programas da Fundação
Anchieta e da FEPLAN, porque o SRE não tinha produção
própria. Nós apenas éramos veiculadores. Avaliávamos,
entre aspas, porque era uma programação já
pronta.. E nesse momento o Serviço de Radiodifusão
Educativa era no prédio da Rádio, e nós estávamos
na Gomes Freire fazendo esse trabalho.
AO O SRE não funcionava no prédio do Ministério?
Não, nessa época, não: depois foi para o Ministério.
E aí entra o Avelino um dia pela porta e diz que a Helena
estava dispensada, ficaria como redatora e que eu passaria a assumir
a função. Neguei de todo jeito, era recém chegada,
tinha poucos meses e tinha o compromisso de botar um projeto novo
no ar dia 23 de agosto de 1972.
AO A intenção de fazer esse projeto ser
produzido na Rádio foi por quê exatamente?
Porque tínhamos uma equipe de redatores de bom nível.
A nossa responsabilidade era acompanhar o conteúdo. Eu acompanhava
as aulas de português, eu tinha formação para
isso, então eu fui para isso. Aí eu passei à
Coordenadora, com essa responsabilidade toda.. Comecei e em poucos
meses colocamos um programa no ar.
AO Quem é que fazia esse material bruto?
Vou chegar lá. Eu tinha que formar uma equipe de professores
conceituados, para as matérias de 5ª a 8ª séries.
Então eu chamei o Arno Wehling para História; o Domício
Proença Filho, para Língua Portuguesa; Benirá
Azem para dar os conteúdos; Matemática, Jairo Bezerra;
Educação Artística, Maria de Lurdes Mader eu
chamei pessoas da área específica o que não
acontecia com o conteúdo que estava sendo feito anteriormente.
Então essa equipe, junto com a equipe de redatores, foi quem
produziu.
AO Quem era a equipe de redatores?
Você está querendo saber a mecânica. Eu escolhi
os especialistas de conteúdo, e na equipe também coloquei
pessoas que tinham formação nessa área. Marlene
ficou com Português, porque aí eu estava com a coordenação;
veio uma pessoa para Ciências, que agora não me lembro
o nome. E os redatores eram os redatores da casa. Eu não
opinei, porque isso não era a minha área. AO
Eram redatores da Rádio MEC?
É, era o Roberto Braga, o Célio Auser... o Domício
Proença Filho fez as aulas de Português, porque ele
só aceitou se ele mesmo produzisse as aulas.
AO Eles eram contratados ou prestadores de serviço?
Eu acho que todos eram contratados, mas eram redatores que já
estavam lá, não fui eu quem os indicou. Mas aí
o Ministro resolveu chamar o Avelino, que eu fosse com ele, trouxe
a equipe de Brasília, e aí disse que ele queria que
todas as aulas produzidas fossem para Brasília, para serem
examinadas lá. Todo mundo concordou, mas eu disse: Ministro,
com licença, eu quero discordar do senhor. Esse é
um programa que precisa ir ao ar em 23 de agosto. Como nós
vamos botar no ar uma produção que vai para Brasília,
tem réplica, tem tréplica? Porque o conteudista não
vai aceitar. Aí ele disse: Sem o MEC de Brasília
avaliar (que era a equipe do Jarbas), não deixo o programa
no ar. Aí eu disse: Mas não há
um órgão do MEC no Rio de Janeiro que possa fazer
esse serviço? Aí ele disse: Há,
o INEP Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos.
Então como se dava a mecânica? Vou pegar o exemplo
do Português: Domício fazia um conteúdo, esse
conteúdo era examinado, ia para a conteudista do INEP, que
olhava esse conteúdo. Se ela desse o ok, voltava para nós
e ia para o redator. O redator então fazia o script, e voltava
para o INEP para avaliar.
AO E quando ele ia para o rádio, como ele era processado?
Quem já estava lá?
Floriano Faissal, já estava lá, a Denise Faissal era
uma das produtoras na época, e o Ghiarone também já
estava.
AO Ghiarone era o diretor de broadcast.
Ele era o coordenador. Ele tinha uma função paralela
à minha a minha, de educação, e a dele,
radiofônica..
AO Com os locutores da casa?
Com os locutores da casa: Cid Moreira e Sergio Chapelin. E ai conseguiu-se
chegar em um acordo. Ah, tinha também uma parte de formação
profissional que era uma pessoa da Fundação Getúlio
Vargas.
AO Depois que o programa estava pronto, montado também
era avaliado?
Não, o que o MEC queria era garantir o conteúdo. Eles
não tinham especialista em rádio, então, quem
avaliava éramos nós. A equipe avaliava se havia alguma
falha, se tinha tido algum erro de pronúncia. Tinha muito
a questão da crase, porque o pessoal lá era viciado
em AA, quanto tinha crase eles diziam AA,
então foi uma coisa que nós lutamos bastante para
que eles dissessem A.
AO Quem dirigia os programas?
Era o Floriano Faissal, e nós acompanhávamos e nunca
deixamos de estar junto para ver se tinha algum erro de concordância,
como esse da crase, que era um vício da maioria dos locutores.
AO Houve alguma discussão prévia sobre tempo
das aulas, tempo de escuta?
Houve. As aulas eram de 15 minutos, 7 laudas e meia. E eram duas
aulas de cada vez. Por exemplo, um dia tinha Português e História,
outro dia Matemática e Ciências. Não passava
de duas aulas, e depois teve Educação Artística
e Informação Profissional, do José Cavalieri.
Então, tendo o texto feito pelo especialista, o conteudista,
e tendo o programa de rádio, era preciso que tivesse material
de apoio para o aluno. Fizemos uma concorrência e a Abril
imprimiu os fascículos. Nós da equipe do Minerva,
essa equipe de professores que nós tínhamos lá,
acompanhávamos toda a produção. Cansamos de
ir à São Paulo, eu, Marlene e outras para examinar
se o conteúdo, se a disposição estava de acordo
com as expectativas. Isso posto, programa pronto, fascículo
pronto, os fascículos eram dados gratuitamente. Só
na última veiculação, que foi em 1979, é
que já não havia mais dinheiro. Então esses
fascículos eram enviados para os coordenadores locais, que
redistribuíam.
AO Eles iam no mesmo pacote que as fitas?
Não. O fascículo a Abril mandava diretamente; as fitas,
nós mandávamos para os estados e para os territórios.
AO As fitas eram copiadas na Rádio MEC?
Na própria Rádio e eram enviadas para as repetidoras
locais. E era aí que falhavam muito, não havia possibilidade
de um controle. Isso é parte da minha tese, eu verifiquei
isso muitas vezes.
AO Como surgiu essa portaria 408 (com a obrigatoriedade
de veiculação de programas educativos por todas as
emissoras no Brasil)? Essa portaria já existia nessa época?
Já existia. A portaria saiu e para isso o Minerva foi criado:
sábados e domingos, programação cultural; e
durante a semana, cursos. Como nós não tínhamos
produção, já que a portaria é anterior
ao curso, nós usamos primeiro a produção da
Fundação Padre Anchieta e da FEPLAN.
AO E a coisa funcionou com essa mecânica.
Com essa mecânica, e nós conseguimos colocar o programa
no ar no dia 23 de agosto de 1972.
AO E a avaliação, como é que foi?
Sua primeira avaliação sobre a utilidade da programação
educativa pelo rádio?
A avaliação de programas radiofônicos é
uma coisa bastante complicada e não existe um sistema consolidado
a respeito disso, até hoje. Eu tenho que explicar a tese
para poder explicar isso. Eu peguei um modelo teórico para
a televisão que é do Tiffïn, e adaptei para o
rádio. Como eu sabia que era impossível avaliar o
sistema, eu procurei avaliar o sub-sistema. Eu não chamava
de avaliação, chamava de análise.
AO A primeira análise foi feita quando?
Foi quando acabou a veiculação, acho que o curso durou
um ano e meio.
AO E nos pontos de ecuta, os alunos faziam as provas?
Os alunos faziam as provas nas recepções organizadas.
Porque nós tínhamos dois sistemas. Um sistema de recepção
organizada, quer dizer, um teleposto, onde tinha um orientador de
aprendizagem, que não era um professor. Ele acabava a aula,
e nos fascículos tinha uns exercícios, com uma chave
de correção. Então, eles discutiam aquele conteúdo
e a chave de correção. Nada com muita profundidade,
porque eles não tinham formação.
AO Os cursos eram de 5ª a 8ª série ?
De 5ª a 8ª como os cursos supletivos, porque eram cursos
supletivos de 1º grau. Era um curso para suprir quem não
tinha feito regularmente esses 4 anos, então era muito condensado.
Os alunos de recepção organizada iam ao teleposto,
assistiam as aulas, levavam os fascículos para casa, estudavam
e, periodicamente, nós enviávamos as provas e eles
eram avaliados. Os de recepção diversificada, que
ouviam sozinhos, ou em grupos, esses se submetiam ao exame
de madureza local. O estado de São Paulo pela primeira
vez terminou com os cursos supletivos locais era Sophia Nicolau,
a coordenadora , e todos os alunos do antigo madureza, quer
dizer, do supletivo, foram submetidos à prova do Minerva
e tiveram ótimos resultados. Diga-se de passagem que é
um Estado com professores capacitados, podendo dar assistência,
diferente de um território. Nos territórios, os fascículos
eram usados para fazer o vestibular de faculdade. Eram disputadíssimos,
os fascículos. Lá tinha aqueles problemas da cheia
do rio, que os fascículos não chegavam, não
havia possibilidade. Então, para uma avaliação
palpável, nós temos a do Estado de São Paulo.
Se você me perguntar: e o Rio de Janeiro? O Rio de Janeiro
eu não considero uma boa avaliação porque a
coordenadora desligava o rádio. Cansamos de ir a telepostos
com o rádio no fim da sala, sinal que o rádio só
era ligado quando chegava a equipe do Minerva e o professor passava
conteúdo no quadro. Deu muita briga, fomos muito à
Secretaria de Educação... então, no Rio, não
temos uma avaliação condizente.
AO Essa avaliação de São Paulo,
ela diz o quê? Ela diz que sim, as pessoas tiveram progressos?
Tiveram progresso, conseguiram ser aprovados nos exames. Porque
aí todos iam fazer os exames do supletivo de São Paulo,
com as mesmas dificuldades, em todo o Brasil, que aparecem até
hoje. As grandes dificuldades que tem em matemática, porque
eles têm muita dificuldade. Então foi a melhor em termos
de análise.
Outra coisa que a gente descobriu é que as emissoras não
cumpriam a portaria. Transmitiam hoje uma aula de português,
amanhã não transmitiam a de matemática. Então,
não tinha uma continuidade. É um curso, portanto,
tem que ter uma continuidade. E não tinha essa continuidade.
AO O fato de São Paulo ter monitores mais qualificados
foi capital?
Foi, porque se o aluno tem uma dificuldade e o monitor também,
como fazer? Temos uma experiência: o Minerva produziu um curso
para o Mobral, e quando nós chegamos num teleposto, a moça
estava com o script e disse: Olha, a senhora desculpe, mas
eu não sei cantar essas musiquinhas. Eram as vinhetas
musicais. Então, tudo isso mostra que há uma série
de variáveis intermitentes nisso, impossíveis de serem
controladas por uma equipe situada no Rio de Janeiro. Por isso,
eu falo que a melhor solução é delegar, descentralizar
e diversificar. Delegar a portaria; descentralizar para os Estados
terem a sua própria produção; e diversificar
de acordo com a necessidade daquele Estado.
AO O que é delegar a portaria?
Ela ser jogada nacionalmente, com esses problemas que eu estou falando.
Não cobriam o horário, não verificavam o horário,
diziam que não tinha condição de verificar
a chegada do sinal. O PRONTEL, que era o órgão encarregado,
superior ao SRE, não fiscalizava. E era melhor que tivesse
uma produção local, que atendesse as características
regionais e pudesse ser fiscalizada.
AO Você está dizendo, a respeito de São
Paulo, que o coordenador estando próximo ao aluno é
mais eficiente, que assim a educação a distância
funciona?
Não, eu estou dizendo é que a radiodifusão
funciona se fiscalizada. Eu não estou colocando defeito na
radiodifusão. A radiodifusão pode funcionar, os cursos
a distância, as universidades abertas estão aí
provando isso. Mas é preciso que alguém fiscalize
essa programação.
AO Mas fiscalizar e avaliar não é muito
próximo uma coisa da outra?
Não, avaliar é julgar: é bom, é mal,
esse programa foi bom ou foi mal; analisar é ver isso tudo
que a gente está vendo. Eu acho que nenhum sistema de rádio
educativo no Brasil tem um sistema de avaliação até
hoje. Eles têm sistema de análise de conteúdo,
análise da recepção, como funciona, etc, mas
não têm um sistema de avaliação.
AO Nessa experiência do Minerva vocês levaram
em conta a experiência anterior de programas como o Colégio
do Ar, Universidade no ar?
Sim, a Universidade Aberta, tudo isso se conhecia. Eu não
tive muito tempo, porque, a não ser a Marlene, que já
estava, a maioria da equipe chegou comigo. Mas nós conhecíamos,
inclusive temos um projeto de avaliação dos cursos
a distância feito pela UERJ, pelo Arnaldo Niskier na coordenação.
AO Você acha que em termos de educação
no rádio, as aulas feitas pelo Minerva acrescentaram alguma
coisa? Inovou em alguma coisa?
Inovou e deu oportunidade a pessoas que não tinham oportunidades,
porque não tinham escolas, não tinham cursos supletivos.
Nós temos uma experiência aqui com as Irmãs
Clarissas: eram 11 irmãzinhas Clarissas. Uma vez uma me entra
dentro do Minerva e: Professora nós só temos
da 1ª a 4ª série, somos enclausuradas, não
podemos sair do convento para frequentar a escola, a senhora não
podia colocar o projeto Minerva?. Então nós
colocamos o Minerva lá e a equipe do Minerva ia para fazer
as avaliações. Foi um sucesso, todas elas. O quê
que havia? O empenho delas, o desejo. Tinha gente que estudava por
fascículos nos territórios, e passava para universidade.
Quer dizer, os conteúdos eram eficientes? Eram. Os programas
radiofônicos eram eficientes? Eram. O programa de matemática
é que, você sabe, sempre é discutido. Porque
você dá uma equação de 2º grau
2 que multiplica não sei o que ao quadrado - , quando
acaba de dizer essa sequência, perdeu. Porque o aluno, quando
está ouvindo o rádio, o fascículo está
fechado porque ele é discutido depois da aula,
não é dentro da dinâmica. Então, 2 que
multiplica não sei o que... já perdeu. Já se
tentou fazer cortina de silêncio; já se chamou aquele
violonista, acho que era o Manoel da Conceição, mas
quando ele tocava o violão, qual era o efeito no aluno? Era
o som que chegava a ele. Então, nós procuramos levar
muito a sério, mas há problemas. O San George conta
uma experiência. Uma vez, dirigindo o carro, ouviu: 2
que multiplica não sei que lá.... Acabamos de ouvir
uma aula produzida pelo professor San George. Ele disse que
parou o carro e voltou para a Fundação Anchieta, porque,
ele disse: Ninguém é capaz de pegar uma equação
dessa maneira.. Acho que a radiodifusão ainda tem problemas,
mas ajudou muita gente. Nós temos o caso dos puxadores de
sisal do Rio Grande do Norte. É muito interessante porque
eles tinham um contrato de trabalho para fazer aquela puxada do
sisal, então eles botaram duas cláusulas: que eles
pudessem levar a bicicleta e pudessem ouvir o programa de rádio.
AO E o que aconteceu com eles?
Eles tiveram bom resultado. Foi a primeira experiência e eles
tiveram bom resultado.
AO E as enfermeiras?
As enfermeiras também, nos hospitais, nos plantões.
Não as formadas: as ajudantes de enfermagem. Porque as enfermeiras,
na maioria dos Estados, têm faculdade. Motorista de táxi
... tínhamos muitos motoristas de táxi.
AO Existem cartas desses alunos guardadas?
Quem guardava essas coisas era o seu Mario Dias, que cuidava do
nosso arquivo. Ele é a memória viva. Quando eu saí
do Minerva, deixei 200 pastas de arquivo. Ele me telefonava e perguntava:
Professora onde é que está aquilo assim?
Na pasta tal, seu Mario., quer dizer, dois obsessivos.
Porque a minha saída do Minerva foi abrupta.
AO Vocês modificaram alguma coisa na linguagem radiofônica
depois da primeira experiência?
Sempre modificava alguma coisinha, não propriamente uma coisa
só radiofônica. Sentava o conteudista com o redator,
e dizia: Não podia dizer isso de uma outra maneira?
AO Vocês usavam radioteatro ou outros recursos?
Não usávamos; nós preferíamos o formato
aula. Porque achávamos que a experiência da TVE com
o Projeto Conquista, que era uma novelinha, não tinha dado
certo. Então o que acontecia? Era um casal de namorados,
uma Malhação (programa jovem da TV Globo), mais ou
menos, só que, de vez em quando, no meio da Malhação
entrava o conteúdo de Matemática. Ora, quem estava
interessado no namoro não prestava atenção;
e quem estava interessado no conteúdo de Matemática
tinha que agüentar o namoro. Então nós fugimos
desse formato. Conversamos com alguns ex-alunos, e eles diziam que
não se sentiam prestigiados com o Teatro do Projeto Conquista,
porque eles achavam que era uma brincadeira, então eles queriam
aula, mas aula radiofônica. Tanto que a gente não deixava
abrir o fascículo, quer dizer, essa era a orientação.
Dizíamos: Hoje nós vamos ter aula de Português
número 6, e História número tal, e aí
- tá na hora do Projeto Minerva ,
eles ligavam o rádio e fechavam o fascículo. Quando
terminava, o monitor então verificava com eles as dúvidas
estou voltando para a mecânica para fazer a
avaliação que estava na própria proposta de
aula. Então eles gostam desse formato, isso eu posso te garantir.
AO Se o módulo durava ano e meio, e você
ficou de 72 a 79, você fez pelo menos quatro módulos.
Quando acabava o módulo essa análise servia para quê?
O que atrapalhava era o fato de não haver uma continuidade
na transmissão. Porque ou eles simplesmente não cumpriam
a portaria ou simplesmente baixavam a potência do rádio.
Então você está ouvindo um conteúdo,
baixando a potência do rádio e não tendo fiscalização,
porque o PRONTEL dizia que não podia fiscalizar, é
mais ou menos como os aviões, a mesma história, ninguém
pode fiscalizar, era a mesma coisa. Então esses problemas
que eu fui sentindo e foi por isso que eu quis estudar os sistemas.
AO Então o problema era menos da produção
de conteúdo e mais da fiscalização do sistema?
É. A produção formato aula era eficiente, o
tempo era suficiente, a não ser em Matemática
Matemática é sempre uma dificuldade.
AO Tinha problema também da recepção?
Pois é isso que eu estou dizendo: baixavam a potência
do rádio, não se entendia. Então, eu acho que
o que precisava era fiscalizar melhor e descentralizar, no sentido
de fazer uma programação mais adequada às características
locais. Não que se tirasse o cunho nacional,, mas também
se botasse alguma coisa de regional. Em Educação Artística
nós conseguimos isso com a Maria de Lurdes Mader. Ela conseguia
dizer: Vamos fazer com o barro local, com a mistura de terra
local, faz aquelas garrafinhas de cor. Então, ela fazia
uma programação voltada para o artesanato local. Mas
por quê? Porque o conteúdo de educação
artística é um conteúdo mais livre. Então
ela pode adaptar essa realidade. Por isso que eu acho que descentralizando
e analisando pelo programa do IRDEB (Instituto de Radiodifusão
Educativa da Bahia) , as falhas do IRDEB são outras, mas
você consegue uma programação mais adequada.
AO Por que, apesar de toda sua dedicação,
você resolveu sair? Como foi a sua saída?
Eu resolvi sair porque, quando terminou o primeiro curso completo,
as quatro etapas, eles ansiavam para fazer um supletivo de segundo
grau. Bom, então vamos fazer um supletivo de 2º grau,
já que nós estamos tendo sucesso com o de 1º
grau, vamos fazer de 2º grau. Aí o Heitor nessa
época tinha o curso supletivo da Abril, Telecurso de 2º
grau disse: Não vou produzir de novo, vamos
usar o Telecurso de 2º grau. E eu achei que isso era
um retrocesso, porque a gente estava voltando à fase de usar
programação dos outros. Fui voto vencido, ele não
aceitou e eu sou cabeçuda, disse: vou me embora.
Aí fiz minha carta de demissão e mandei para ele.
E o Heitor, o que ele fez? Ele fez o convênio com a Fundação
Roberto Marinho.
AO Você hoje faria a mesma coisa que você
fez no Minerva? Você acredita no que fez?
Eu acredito
AO Apoiaria a implantação novamente de um
programa radiofônico?
Com uma avaliação bem cuidada, com planejamento, hoje
nós temos recursos que nos permitem avaliar, julgar. Nós
tentamos fazer um teste via rádio para ver como chegava o
sinal no Projeto Seringueiro, para ver se as pessoas, quando fizeram
o Mobral, tinham sido alfabetizadas.
AO Fale um pouco sobre o Projeto Seringueiro.
Vamos acabar de falar sobre o Minerva. No Minerva eu identifiquei
algumas coisas e quis aprofundar.
AO Essas coisas são?
Delegação, a descentralização da portaria
e a diversificação do programa. Poderia ter uma parte
nacional, mas deveria ter uma parte local. Bom, então, esse
foi o Projeto Minerva, acho que é uma coisa valiosa que nós
não temos no Brasil, de dimensões continentais, possibilidades
de se atender todo mundo. Eu acho que nós temos que usar
os recursos a distância, e a radiodifusão pela cobertura
nacional. Ter uma programação que leve educação
para os mais necessitados ou porque estão fora de
zonas centrais, ou porque são deficientes físicos
etc. Então eu acho que a radiodifusão até na
alfabetização ela pode dar conta .
AO - Fale do Projeto Seringueiro, então.
Nós fomos procuradas na época da ditadura. Foram para
o Serviço de Radiodifusão 11 coronéis, e um
deles teve a idéia de fazer uma programação
para Amazônia. Eles tinham uma tentativa com o Mobral que
não tinha dado certo, que era uma programação
profissionalizante. Eles queriam ensinar ao seringueiro a fazer
a coagulação imediata do látex. Como? Como
faz o seringueiro normalmente? Ele sangra a seringueira às
5 da manhã e a tarde ele volta tirando o látex coagulado.
Bom, isso é um esforço enorme, o homem fica no campo
o dia inteiro para recolher o látex. Então eles tinham
descoberto que existe uma semente que se chama cernambi virgem prensado
que, colocada, o látex coagula imediatamente. Então
com isso bastava uma jornada. E ai nós pensamos: esse seringueiro
vai ficar fazendo o quê? Ele vai na meia jornada, coagula
o látex, retira na mesma hora e na parte da tarde está
livre. Então nós pensamos em propor alguma coisa que
eles pudessem fazer. Uma pequena roça, uma plantação,
uma criação de galinha, coisas assim, essa foi a nossa
proposta para o Projeto Seringueiro.
AO Essa é uma questão bastante regionas
e descolhecida por quem vive na cidade. Vocês viajaram para
a região para estudar?
Não, nós pedimos que enviassem dois sociólogos
que fossem morar na comunidade para sentir os problemas locais.
Um era o Saulo, que foi Secretário de Educação
de Alagoas. Eles foram contra, eles foram inteiramente contra. Ai
já começou a primeira dificuldade. Disseram: Vocês
tem que dar continuidade de primeira a quarta série porque
eles já são alfabetizados. Eu, com meu jeito
malcriado, perguntei para eles: São alfabetizados?.
Sim, são alfabetizados pelo Mobral. Eu disse:
Então nós queremos verificar. E aí
nós fizemos um teste radiofônico, foi uma experiência,
acho, pioneira. Pelo rádio nós fazíamos as
perguntas e o aluno tinha que responder um material escrito sobre
cernambi virgem prensado. E aí eles eram analfabetos, nós
fizemos o teste radiofônico, quando você fazia a pergunta
pelo rádio ele respondia, quando você dava a cartilha,
não. Porque, justamente, eles tinham feito uma cartilha e
os alunos não conseguiam ler a cartilha e eles não
entendiam porque, porque diziam que os alunos eram alfabetizados.
De alfabetização eu entendo, eu e a Marlene temos
cartilhas publicadas. Então, eu disse para o coronel: Coronel
essas pessoas não estão alfabetizadas. Se nós
fizermos essas perguntas através do rádio eles vão
responder, e respondiam.
AO Eles não sabiam escrever?
Não, era marcar com X. Tudo eles sabiam responder, mas eles
não eram alfabetizados, então por isso eles não
dominavam a cartilha. Por isso entrou o rádio como apoio.
E aí começou o problema com os seringalistas. Disseram:
Essa gente vai criar galinha, vai ter ovo, como nós
vamos dominá-los. Então foi esse o problema,
até eu sair.
AO Vocês chegaram a fazer os programas e chegaram
a veicular?
Eu não estava mais, aí entrou a Aparecida, que era
a coordenadora.
AO Então você fez apenas o trabalho inicial,
o primeiro estudo?
É, eu fiz o estudo da implantação. Eu identifiquei
o problema, eu busquei a causa, eu busquei uma solução
para eles, mas eu não pude ter um apoio sociológico,
que eles não concordaram. Tolice da gente pensar que eles
iriam concordar com essa proposta. Depois daí ficou com a
Aparecida, ela não tinha formação nessa área,
não sei o que deu não, não sei quanto tempo
durou, nada disso eu sei dizer para vocês.
AO E depois a senhora chegou a trabalhar com educação
via radio, teleducação ou educação a
distância?
Eu trabalhei no SENAC, na Mariz e Barros, com Saulo Ramos. Nós
produzimos as fitas para formação profissional, eu,
a Marlene e o Ronaldo, nós fazíamos os scripts dos
programas, o conteúdo era fornecido por eles. Eram cursos
profissionalizantes de gráfico, torneiro mecânico.
Tenho outros trabalhos no Centro de Tecnologia Educacional, onde
fui Diretora de Divisão e de Produção de Programas.
Nós produzimos programas de alfabetização,
eu supervisionava também a equipe: era a diretora da produção.
Tenho uma experiência num sindicato para formar motorista
de empilhadeira, utilizando o rádio como uma das formas de
dar o conteúdo e a parte prática na empilhadeira.
Tenho algumas experiências. Tenho muita vontade de participar
de um projeto de alfabetização via rádio, aliás
o Zé Zuca sempre me fala isso: Vamos tentar.
Nós não tentamos fazer isso. Ele foi meu aluno, ele
fez a parte pedagógica no Bennett, num curso que eu criei
aos sábados. AO Houve alguma investida sua em relação
à alfabetização, para esse enorme contingente
de ouvintes cegos? O Minerva pensou alguma coisa nesse sentido?
Não. Eu tenho uma experiência, mas aí é
na área de artes. Uma aluna nossa do Bennett que fez a monografia
de final de curso sobre o Instituto Benjamin Constant e levando
eles a exposição e eles aprendendo a forma dos objetos,
que hoje isso já é comum, eles já fazem muito
isso com a mão.
AO Considerando o computador, a internet, a televisão,
qual o diferencial do rádio para as outras mídias?
Eu acho que embora todo mundo tenha uma televisão, o rádio
é o companheiro de todas as horas, todo mundo tem um radinho,
seja o puxador de sisal, seja o enfermeiro no hospital, seja
o motorista de táxi, pessoas que trabalham em fábricas.Eu
acho que o rádio tem o seu lugar sempre.
Eu acho que precisava-se estudar um pouco essa questão de
quantidade de conteúdo com programa radiofônico. Porque
sete laudas e meia de conteúdo de uma vez, eu acho que é
muito conteúdo. Eu acho que a gente precisava perder essa
mania conteudista que a gente tem. Eu sou professora de Português,
me pergunta se eu sei todas as figuras de linguagem? Então,
há coisas que eu acho que não são essenciais,
por exemplo, uma sociologia, filosofia, cidadania são mais
essenciais do que isso, então, eu acho que a gente devia
ter um pouco mais de humildade, de ver o que uma pessoa precisa
necessariamente para viver com dignidade.
AO Então, o que você propõe seria
uma revisão curricular?
Que fosse aquele currículo mínimo, que já é
assim exigido, mas acontece que um especialista, ele quer dar todo
o conteúdo de uma vez. Para que serve saber as capitais dos
países? São coisas que não precisa. Consulta
a internet ou consulta um mapa.
AO Quer dizer que se o Projeto Minerva fosse feito hoje,
novamente, você sugeriria uma revisão de conteúdo?
Uma revisão de conteúdo, quer dizer, a criação
de um grupo interdisciplinar, que realmente tivesse experiência
com ensino. Que tivesse experiência com ensino superior para
ver que conteúdos são necessários. Por exemplo,
na Matemática: nós sabemos que a Matemática
que cai no vestibular é matemática ensinada na 7ª
série, que é base para o 2º grau e para o vestibular.
Então isso não podia deixar de ter. Então esse
tipo de coisa é que precisava fazer, antes de chegar a grandes
produções. Porque diminuiria o custo. Às vezes
o programa pode durar 10 minutos, e não 15. Porque você
também ter 15 minutos de atenção dirigida com
essa televisão de mosaico, que a gente tem um mosaico aqui,
outro aqui, isso tudo não faz de nós hoje leitores.
Quantas pessoas hoje sentam e lêem um livro?
AO E seria preciso uma adaptação de linguagem
também, para esse novo estudante que tem uma maneira de receber
conteúdos diferentes.
É, conteúdos diferentes. Nós tínhamos
que pensar assim, o estudante era esse, a ocasião era essa..
Como o estudo sociológico que a gente queria fazer do seringueiro.
Saber qual conteúdo não pode faltar e como nós
podemos trabalhar esse conteúdo de maneira adequada para
ser recebido. Por exemplo, Português. O Domício não
dá classificação das orações
coordenadas adversativas e depois as subordinadas. Ele ensina todas
e depois ele vai trabalhando cada uma. Essa é uma abordagem
que talvez seja melhor para quem tem uma visão mais ampla,
uma visão mais global, e depois você vem com os pedacinhos.
Eu acho que isso deu muito certo nas aulas de português, eu
gosto. O prólogo, ele tinha sempre um prólogo, era
interessante, eu acho que há essa possibilidade. Acho que
não deve ser nada jocoso. A Globo está cheia de programas
jocosos, mas não é isso. Para uma pessoa que se sente
diminuída você fazer da hora de estudo uma brincadeira
não funciona. Agora, eu tinha muita vontade de fazer essa
experiência com a alfabetização, eu acho que
era interessante pegar essa possibilidade de alfabetizar pelo rádio.
AO Você ainda ouve rádio?
Ouço.
AO Como vai a sua visão panorâmica do rádio
de hoje?
Olha hoje eu ouço muito música, porque os outros programas
eu não acompanho, eu ligo o rádio para ouvir música..
AO Você não sente falta de radioteatro, literaturas,
essas coisas?
Sinto, radioteatro, discussões de assuntos, isso falta. Campanhas
educativas.
AO Cidadania?
Cidadania. Isso era a aula de moral e cívica, isso podem
fazer no rádio, mas não fazem, porque é muito
comercial. Eu acho que a gente não pode estagnar um veículo.
AO Eu gostaria que você falasse sobre o Ghiarone,
o trabalho dele, a importância do trabalho dele.
Eu acho que para nós foi uma felicidade termos o Ghiarone
e depois a continuidade com a Regina Salles, porque nós delimitávamos
o nosso campo de trabalho. Uma vez o Luiz Antonio, do PRONTEL, disse
que deveria haver um coordenador só. Aí eu disse:
Então me tira, porque eu não posso coordenar
uma área que eu não entendo. O Ghiarone foi
fundamental nesses cursos. Sem ele não teria tido. Porque
não adiantava ter o conteudista, se eles também não
arranjassem os redatores, os redatores não cumprissem os
prazos, então foi um esforço conjunto, foi realmente
uma equipe interdisciplinar, cada um com seu chefe. Havia muito
respeito de um pelo trabalho do outro.
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