Como o senhor foi trabalhar na Rádio Sociedade?
Eu era estudante do colégio Pedro II. Eu conhecia o Roquette
já de cursos que ele fazia na Quinta da Boa Vista, quando
era diretor. Então, precisava de emprego, fui a ele e ele
me contratou. Ele achava que eu tinha uma voz razoável
e então fiquei lá, na Rua da Carioca, fazendo um
programa estudantil.
Mais tarde, passados alguns anos, eu me emancipei, fiz faculdade
de direito, estudei pra técnico de educação,
passei no concurso, e então encontrei Roquette-Pinto
cidadão que eu lembro com muita saudade e muita admiração,
sempre. Ele me disse: "Por que você não vai
trabalhar conosco? Agora você já tem outro status,
etc... e o diretor é um amigo seu: Fernando Tude de Souza"
que realmente era um grande educador. Aí, eu falei
com o Tude, e fiquei aqui muitos anos trabalhando com ele.
Quando o senhor começou na Rádio Sociedade?
Em 32. Voltei depois em 43 e trabalhei até 60.
Qual foi o motivo da saída da Rua da Carioca?
Provavelmente por aqui ter mais espaço. Quando eu vim trabalhar
aqui o Roquette ainda dirigia o Cinema Educativo, que ocupava
do térreo até o 2º andar desse prédio.
Roquette criara ambas as instituições, passou a
dirigir só o cinema e deu a Rádio para o Tude, e
ele convidou professores e outros técnicos.
Como era a programação da Rádio Sociedade?
Naquela época era mais amadorista, digamos. Lembro que,
duas vezes por dia, no mínimo, o próprio Roquette
estou vendo o Roquette, abrir o jornal ir pro microfone
de pé e fazer um noticiário enorme. Hoje em dia,
a gente faz sentado, de outra maneira, etc., mas ele fazia de
pé: era muito improvisado. E não havia continuidade:
na Rua da Carioca a rádio não funcionava o dia todo,
como funciona agora. Aqui, passamos a funcionar o dia todo, praticamente,
e havia tanto espaço que a rádio emprestava metade
de um andar ou um andar inteiro, porque eram 4 andares para a
rádio. A Orquestra Sinfônica Nacional, por exemplo,
com Villa-Lobos, ensaiava aqui. Depois é que fizemos o
Cinema Educativo.
E como era o Roquette que o senhor conheceu?
Ele era um homem bem nascido, muito bem educado, viajado, grande
naturalista, grande estudioso. Roquette é um dos raríssimos
sábios sul-americanos é bom que a gente nunca
deixe de dizer isso: era um sábio. Então ele deu
à rádio um caráter especial, porque ele foi
o criador ele que sustentava, ele que tinha prejuízo.
E o Roquette nunca foi um homem de negócios. Ele preferiu,
depois de muitos prejuízos, entregar ao Governo. Mas antes
era à custa dele, do bolso dele. Tanto que depois ele nos
disse: "Eu tenho o maior prazer de dar pro Governo, mas de
fato eu não estou podendo mais agüentar". Porque
Roquette era um homem muito estranho: não era qualquer
anúncio que servia, de modo que era ele que sustentava
quando havia esses problemas. Eu conheço muita gente boa,
aqui, na América Latina, sobretudo no Brasil, mas como
Roquette eu não conheço ninguém, honestamente.
Ele era um homem muito curioso. Fazia muitas coisas diferentes.
Era um bom médico, clinicava, era professor, era poliglota....
Depois, era um homem bonito era o Goethe brasileiro. Nasceu
bem, foi muito bem instruído, fez pesquisas, trabalhou
com o Rondon: teve essa sorte também, conheceu o Brasil
ainda ignorado do Mato Grosso pra cima não se conhecia
muita coisa. Foi Roquette e Rondon quem trouxeram para a luz:
era uma coisa meio misteriosa, etc... Roquette falava francês
melhor que português: era uma coisa fantástica. Falava
também inglês e um pouco de alemão. Era muito
culto, muito agradável, simpático.
Na Rádio Sociedade havia programas infantis?
Programa infantil quem entendia mesmo era a Beatriz. A Tizinha,
como nós chamávamos, era uma mulher muito bonita,
todos nós queríamos namorá-la, por sinal,
e Roquette dizia : "Você já está trabalhando?
Ganha muito? Pode namorar uma moça como a Beatriz?".
A Beatriz sempre fez programas infantis, desde mocinha. Na década
de 30, ela tinha um programa infantil na rádio, e eu, jornalista,
curioso, fui entrevistá-la. Ela era muito jovem, ainda:
uma mocinha elegante, agradável, rodeada de crianças.
Ela tinha uma queda muito grande para o ensino infanto-juvenil.E
assim ela se manteve durante muito tempo, até ter os filhos
dela e contar histórias só pra eles. Mas ela trabalhou
muito tempo, aqui. Porque o Roquette não era mais o diretor:
ele cansou e propôs ao Ministro Capanema duas pessoas muito
capazes no Cinema Educativo não me lembro quem foi,
mas na Rádio, era o Fernando Tude de Souza, que era baiano,
tinha prestígio político e boa cobertura. E foi
realmente inovador. Era um homem capaz, viajava muito, trazia
idéias novas. A rádio num momento, sobretudo no
período da Grande Guerra, 39 a 45, a rádio valia
por 4 ou 5 rádios particulares, inclusive informando do
movimento militar, das batalhas, etc... Mas o Roquette estava
por trás, sempre.
Ele dizia que isso aqui eram as namoradas dele, dizia: "Como
vão minhas namoradas? Tratem bem das minhas namoradas."
Me lembro dele já meio cansado e doente, meio curvado
porque ele tinha problema na coluna , mas ele vinha muito
aqui. Não tinha mais nada a ver com isso, já estava
aposentado, mas vinha e a Tizinha também. A Beatriz, propriamente,
não era funcionária da Rádio, ela tinha um
cachê qualquer em outro lugar aí, ficava aqui, auxiliando.
E o Roquette nunca deixou de dar assistência: mesmo tendo
o Tude de Souza, e o Pedro Gouveia no Cinema Educativo.
E o Humberto Mauro?
O Humberto Mauro nunca foi diretor. Foi muito mais. Humberto Mauro
era a figura maior, era o homem que o Roquette contava pra tudo.
O Mauro era um grande fotógrafo e um grande cineasta. E
muito alegre, muito agradável, contava histórias
e anedotas pra a gente com o Mauro ninguém ficava
parado. O Mauro trabalhava com o Dr. Roquette há muitos
anos, já. Quando eu vim pra cá, ele já era
famoso como cineasta. Era de Cataguases, de Minas Gerais, e tinha
feito, na pré-história do cinema, bons filmes.
E as suas atividades aqui? O senhor começou...
Como técnico em educação, passei a ser redator
de muitos programas. Me lembro que uma ocasião o Humberto
Mauro me pediu para ir ao Campo de Santana com ele, e me disse:
"É o seguinte: vai ter uma batalha, vai ter um encontro
de bandidos, tem que ter pedra, tem que ter árvore. Agora,
você vai inventar". Ele me dava mais ou menos o esquema
e eu fazia os scripts. Muito filme educativo que saiu daqui foi
filmado no Campo de Santana. Não sei que fim levaram. Não
tinha o nosso nome, porque eu era técnico de educação,
ganhava pra escrever anonimamente. Eu e outros. Mas eu sei que
os rolinhos iam para passar para estudantes.
As pessoas que trabalhavam na Rádio, na época do
INCE, trabalhavam também para Instituto ?
Sim. Nós tínhamos um especialista, um técnico
em educação, que nós gostávamos muito,
mais velho que nós: chamava-se Paschoal Leme. Um homem
de grande moral, muito competente, muito amigo do Roquette e ótimo
educador faleceu com noventa e poucos anos. Ele já
estava trabalhando com o Roquette, e tinha um amor tremendo por
isso aqui. Porque Rádio e Cinema se confundiam: era tudo
Roquette. Havia diretores, mas era ele que estava por trás
ele é que criara e o governo confiava nele.
Com quem mais o senhor trabalhou na Rádio?
De vez em quando, o Ministério mandava uns técnicos
em educação, porque a Rádio tinha que ser
também educativa, embora ela fosse eminentemente cultural.
Lembro que uma ocasião veio pra cá um jornalista,
Carlos Rizzini era um homem poderoso, dos Diários
Associados , e ele deu uma guinada totalmente diferente.
Eu fui a ele: "Meu caro, aqui não é assim,
não: tem que ter uma linha educativa, se não ascendente,
pelo menos permanente e tal, não podemos dar essas guinadas,
essa violência".
Que tipo de guinada?
Popular, comum, populismos exagerados. Não:a Rádio
é de elite mesmo. Essa Rádio é pra poucos
ouvintes, pra uns milhares, mais nada. Não é Rádio
Nacional. Eles não queriam entender isso.
A Rádio sempre teve esse caráter?
Não, ela foi educativa. Havia programas de tudo: ciência,
literatura, geografia, história. Eu não sei onde
está esse acervo, porque uma ocasião eu tentei recuperar
trabalhos meus, vim aqui e não tinha nada; fui à
Penha, não tinha nada; fui à Brasília, e
nada.
No seu tempo, a Rádio tinha uma biblioteca?
Tinha, e muito boa, que foi se formando. Roquette sempre teve
livros. Eu mesmo fiz uma biblioteca que sumiu, ou foi misturada.
Eu fiquei aqui 17 anos, corridos, e naquele tempo eu comprava
livro todo dia. Lia história, era professor e tal. Eu tinha
um armário enorme cheio de bons livros, dicionários,
livros de várias línguas. E aí, o diretor
Mozart de Araújo não era má pessoa,
não, mas ele não tinha nada a ver conosco e não
sei como ele veio parar aqui, porque ele, propriamente, não
era do ramo. Fui às férias e estava esse Mozart,
e meus livros desapareceram: um armário inteiro. E ele
disse: "Não, se era um armário da casa, então
os livros deviam ser da casa e eu mandei preencher o vazio na
Biblioteca da Casa". Eu digo: "Mas os livros são
meus, meu caro. O senhor não podia ter feito uma coisa
dessas" "Agora já fiz". Ele juntou
com a biblioteca da casa, que era grande, era muito boa e ficava
no 3º andar. Essa biblioteca foi montada por uma moça
de prestígio, de nome Otávia Benvinda Regis Konder.
Essa jovem tinha acabado de fazer o curso de bibliotecária
e montou essa biblioteca, porque não tínhamos uma
biblioteca organizada havia uns livros e tal, mas ela mandou
comprar material todo especializado. A Biblioteca nossa era muito
boa, especificamente de comunicação e, secundariamente,
geral.
Com quem mais o senhor trabalhou aqui?
Eu trabalhei com vários outros técnicos em educação.
Havia o Paschoal Leme, que nós achávamos o melhor
do nosso grupo esteve aqui muitos anos. Havia Aydano Couto
Ferraz, de uma família tradicionalíssima
donos da Praça Saens Pena, os Ferraz. Havia Neusa Feital,
que fora minha aluna, e chegou a ser técnica em educação,
e chegou a chefiar. Havia vários técnicos em educação,
no INCE e na Rádio.
Vocês faziam os textos?
Fazíamos. Por exemplo, o Dr. Roquette, e depois os outros
diretores, tinham certas datas ou certos assuntos que eram pedidos.
Havia coisas de rotina e coisas improvisadas. Então, as
não improvisadas eram melhores porque havia tempo de consultar
livros, dicionários. Podíamos preparar grandes programas.
Havia a rotina e havia os imprevistos, e os imprevistos a gente
tinha que ir direto pro microfone falar.
O senhor falava no microfone também?
Às vezes, quando de manhã o locutor atrasava e a
rádio tinha que ir pro ar... Como eu gostava de acordar
cedo, antes das sete eu já estava aqui, eu abria. Havia
um professor de ginástica, muito engraçado, que
era o Oswaldo Magalhães. Ele às vezes se atrasava,
aí telefonava: "Quer fazer pra mim aqueles movimentos,
faz favor, a chapa tal." havia uma chapa que ele punha
assim em frente, a gente abaixava, apertava com a perna e falava
no microfone: a turma tinha a ilusão que eu estava mesmo
fazendo ginástica. Nós éramos "pau pra
toda obra" por causa do Roquette, aqui pra nós.
Não tínhamos horário, não tínhamos
obrigação de ponto e coisa nenhuma. Eu tive a sorte
de poder escolher programas. Porque eu comecei a fazer de tudo,
depois comecei a selecionar.
A programação ia de que horas a que horas?
Das 7 da manhã até as 11 horas da noite, às
vezes ia até mais tarde, dependia do Municipal quando
era irradiação no Municipal ia até mais tarde.
E lá na Carioca?
Na Carioca, tenho a impressão que terminava às 8
horas, 9 horas, por aí. Tinha uns buracos de vez
em quando parava, uma ou duas horas. Era tudo muito artesanal
ainda. O Roquette trazia muito convidado todo dia havia
um ou dois sujeitos que ele convidava pra falar sobre um assunto
determinado. E mesmo aqui ele fez isso dia de índio, chamava
quem entendia de índio.
Você fez um programa infantil lá?
Não. Fiz programas de estudantes, mas estudantes secundários
pra cima. Um programa escolar. Eu ia às Universidades,
aos colégios, apurava muitas coisas interessantes e fazia
então ao microfone, direto. Quem fazia programa infantil
era a Beatriz. Aliás, fazia muito bem feito. Porque ela
reunia crianças , punha no microfone e brincava com elas.
A Beatriz foi pioneira, ela gostava muito da Rádio.
Então os primeiros programas infantis foram lá?
Foram, e de improviso. E os de jornalismo também. Quem
fazia era o próprio Roquette.
Que depois foi substituído pelo Paulo Roberto?
Paulo Roberto, exato. Que ainda era estudante.
Ópera completa também começou lá?
Foi, mas mais tarde. Não foi no comecinho, não.
E programa de literatura, tinha alguma coisa?
Tinha, mas não era sistemático.
E divulgação científica, tinha muito?
Porque o Roquette "puxava a brasa pra sardinha dele"
ele era mais cientista do que propriamente radialista.
Ele dizia assim: "Vocês perdoem a minha tendência,
eu nasci pra ser professor." E nós adorávamos
o que ele ensinava. Tudo o que ele falava a gente aprendia, tinha
uma cultura vastíssima, a voz muito bonita, muito agradável
e gostava de falar. Muita gente diz que eu imito o Roquette, eu
não imito, eu aprendi. Ele tinha o prazer de levar gente
estranha pra mostrar a casa. Essa casa foi muito vista por estrangeiros,
por nacionais. Ele adorava, por exemplo, aos sábados, o
Humberto Mauro, a Dona Pepe a mulher dele, a nosso pedido fazia
a comida, pra a gente não comer lá fora. Então
Roquette vinha, trazia Taunay de São Paulo... Cada um pagava
um X: os convidados não pagavam, nós pagávamos
pra eles. O Roquette adorava essas coisas. Ele já não
mandava, não, já era o Tude de Souza, já
eram outros que mandavam, mas ele não saia da Casa.
E o seu Mesquita?
Era um velho ranzinza, agradabilíssimo. Ele era muito boa
pessoa, mas era ranzinza, implicava com todos nós, até
comigo. Eu era técnico em educação, eu era
importante na casa. Não tinha nada disso, não: "Você
chegou atrasado, hoje. Não vai assinar o ponto?" E
eu tinha ordem de não assinar o ponto depois do
Tude quem mandava na Casa era eu. E eu estava no Pedro II, nessa
altura, acumulava, tinha outros afazeres. Mas o Mesquita era realmente
quem entendia a parte tática: a dona-de-casa era o Mesquita.
Roquette não entendia nada, nem os outros, o Mesquita é
que sabia o que tinha e o que não tinha, o que podia comprar,
o que não podia comprar. Não era um homem de cultura,
mas era um homem muito prático, muito necessário.
Foi muito importante para o Roquette, porque era ele que punha
o Roquette nos eixos. Roquette não era perdulário,
mas não sabia a quantas andava; o Mesquita sabia.
E o Labre Junior já estava lá?
O Labre foi o homem técnico, foi imprescindível.
Foi um homem inarredável: qualquer coisa que estivesse
errada, o Labre vinha correndo e consertava. Ele entendia da estação
como a gente entende de um filho, só não dava as
palmadas, mas fazia todos os agradinhos. O Labre era um grande
especialista.
Você sabe se o Labre escreveu algum manual?
Que eu saiba, não. Aliás, eles não escreviam.
Às vezes, eu mexia: "Vocês precisam deixar alguma
coisa", mas nunca escreveram. Nem o Tude... ninguém
escreveu nada. O próprio Roquette, em matéria de
Cinema Educativo ou Rádio, que eu saiba... talvez um artigo
ou coisa assim, mas não escreveu a sério.
E o Sussekind?
Edgar Sussekind Mendonça era um homem notável, mas
não era administrador. Era de uma família muito
importante. Conheci ele e os irmãos; era desenbargador.
O Sussekind era muito culto, um pouco perdulário de cultura,
inclusive, e não era muito organizado porque não
deixou nenhuma obra. No entanto era, de nós, quem sabia
mais coisas. Era técnico em educação, também
da primeira fornada, eu já fui da segunda. Era amabilíssimo,
finíssimo, muito educado, tinha uma idéia cultural
do Brasil muito boa. Mas ele fazia questão de andar devagar,
não sei porque. Morreu cedo. Não sei, só
sei que ele não deu tudo que podia ter dado. O irmão
deixou mais nome na parte jurídica. O Edgard no entanto
foi um grande educador; a gente, que lidava com ele, sabia, mas
ele não se mostrou, não saiu da concha.
Sérgio Vasconcelos?
O Sérgio deixou mais nome. Competente. O Sérgio
era mais trabalhador, mais organizado. Foi uma mola boa na Casa,
sem dúvida nenhuma.
Você conheceu bem o estúdio da Carioca?
Conheci muito. Mas quando eu fui não era sentado, era de
pé. Eu lembro muitas vezes do Roquette e eu mesmo falei
varias vezes de pé programas escolares ou estudantis.
Os sócios da Rádio interferiam na programação?
Que eu saiba, não. Quem fazia tudo era o Roquette.. Ele
era muito curioso... Tinha mania de mexer nos aparelhos, fazer...
Eu não vi, mas as pessoas que viram me disseram que ele,
antes de haver a televisão do Chatô, fizera uma televisão
de qualquer maneira e andou fotografando várias partes
ali do Castelo. Eu me lembro uma história muito curiosa,
quem me contou foi o Venâncio Filho, meu professor, que
fora aluno do Roquette. Eram muito amigos. Então,o Venâncio
as vezes dizia assim: "Puxa, o Dr. Roquette, hoje, cuidado
com ele, não dormiu. Me telefonou 4 vezes, entre meia noite
e quatro horas, para dizer: 'Meu filho o Dr. Roquette sabe tudo
mas não sabe matemática, resolve isso aí
que eu preciso fazer esse cálculo''' isso duas,
três, quatro horas da manhã, e o Venâncio,
que era matemático é que tinha que fazer as contas...
Era uma graça...
A Rádio, no início, só tocava música
erudita. Como foi a passagem pra tocar música popular?
Havia muita reclamação. Música erudita é
para a elite, e a turma achava que tinha que ser popular, até
o Roquette. Dizia que "o Rádio é a escola de
quem não tem escola", então, como ele fazia
um rádio elitista? A coisa foi abrindo, mas com dificuldade.
E o marcechal Rondon?
Não ia muito, não, porque já estava meio
cegueta, já andava amparado. Já estava todo ruim,
mas ia lá, sim. Aliás quem deu chance ao Roquette
foi Rondon. Se não houvesse Mato Grosso e Rondon, Roquette
teria sido outra coisa. Roquette um dia me fez uma confidência:
"Seria um dançarino, um conquistador", ele se
imaginava um Goethe brasileiro. Era muito simpático, era
alto, forte, muito bonito.
Ele era vaidoso?
Vaidoso ele era. Era um namorador terrível. Eu conheci
algumas namoradas dele, inclusive filhas, porque Roquette tinha
filhas fora do casamento. Roquette foi um galã terrível.
Ele era professor do Instituto da Educação: várias
professoras tinham fi-lhos dele. Eu acho uma glória. Roquette
era muito bonito, sedutor, a voz, o modo, era um homem muito educado,
muito bem nascido o avô dele era um homem rico, poderoso.
Família pernambucana. Ele, com a nomeada que teve por causa
do Mato Grosso, por causa da Rondônia, por causa do Rondon,
ele ganhou muito dinheiro. Ele era professor, clinicava, era bom
médico, era diretor do Museu Nacional na Quinta. Ele tinha
vários empregos, era um homem que se mexia muito. E o Capanema
confiava nele muitíssimo, tanto que entregou o cinema e
o Rádio a ele. E fez muito bem, porque ele de fato era
um homem sisudo, austero. Dava sempre bom exemplo pra a gente.
O senhor também fez programas de Literatura, não
é?
Foi o Tude de Souza que inventou essa história de que faltava
à rádio um pouco mais de literatura, e então
inventaram que eu poderia fazer: "Você faz, você
gosta de literatura." Então eu fiz um programa durante
muito tempo. Era um livro por dia, resumido olha o quanto
que eu lia. Eu digo: "Bom eu tenho leitura, já li,
e aqui na biblioteca tenho tudo isso. Eu posso fazer." Aí,
pra não cansar, o trabalho não era uma coisa só
narrada: era dialogada, com duas, quatro ou cinco vozes. Isso
tudo se perdeu. Eu queria muito encontrar... Eu limparia e publicaria,
porque deu muito trabalho.
Como era o nome do programa?
Brasiliana. Foi essa a minha série, Brasiliana.
E isso se perdeu?
Eu tentei reaver, mas não há mais em lugar nenhum
- nem na Penha, nem em Brasília, não sei o que fizeram
com aquilo. Era um resumo de livros. Pegava um livro e resumia
o livro. Me lembro que Os Sertões não dá
pra resumir de uma vez, então eu resumi em três ou
quatro seções, com várias vozes, barulho
de canhão e tiros. Os Sertões tem uma linguagem
que se você lê como está ninguém entende
no ar. Eu tive que mudar a linguagem e cortar o que não
interessava diretamente. Mas ao lado disso eu pegava um livro
do Roquette, como peguei a Rondônia, por exemplo. Fiz o
resumo da Rondônia, com muitos aplausos: muita gente gostou,
pediu bis.
Fernanda Montenegro narrou Os sertões, aqui?
Fui eu que fiz o resumo dos Sertões. Às vezes, Sadi
Cabral vinha e dirigia 3 ou 4, inclusive essa menina que estava
começando, a Fernanda com o Fernando Torres. Eu me lembro
como se fosse hoje, eles entrando no corredor ela era uma
menina muito mo-desta. E ela se fez aqui dentro.
E ela reconhece isso.
Porque a Rádio tinha muitos programas ao vivo, e havia
concertos, havia visitantes tinha muito movimento. Muita
gente vinha, gostava e ficava. Eu me lembro de um alemão,
Hans Koellreuter, que chegou falando péssimamente português,
um português horroroso, espanhol, francês, uma mistura.
Arranjamos um emprego, porque vimos que ele era um homem que sabia
música mesmo. As primeiras pessoas que ele conheceu fomos
nós, aqui na Rádio.
Ele teve emprego aqui?
Não era bem emprego, ele fazia programas, colaborações,
mas ganhou dinheiro, aqui conosco.
E como eram os programas?Ele comentava ou escrevia comentários
pra alguém ler?
Eram com música dodecafônica: uma música meio
complicada, que ninguém gostava.. Mas ele era um homem
pertinaz, talentoso e precisado. Ele escrevia e a gente corrigia,
porque ele não sabia português direito ele
falava era alemão mesmo. Enfim,ele ficava aí o dia
todo fazendo programas a gente só ajeitava o português,
o resto era com ele.
Outro refugiado, o Otto Maria Carpeaux
Conheci muito. O Carpeaux era erudito demais para o nosso meio
cultural, essa que é a verdade aprendi muito com
ele. Os artigos dele eram reescritos pelo Buarque de Holanda,
o Sérgio, que, às vezes, andava por aqui também.
Ele gaguejava em francês também?
Em francês e em alemão. Mas o Carpeaux foi muito
bem aceito, acho que ele trouxe padrinhos pra entrar aqui no Brasil,
porque foi logo bem recebido. Trazia uma cultura européia
que não era brincadeira. E não era um homem arrogante,
era um homem até modesto. Eu gostava do Carpeaux. Era um
pouco gago, ficava nervoso, ninguém entendia nada.
Outro imigrante:Maurício Quadrio...
Esse eu conheci logo que ele veio da Itália. Era um sujeito
muito modesto, mas mostrou-se logo competente. Até o recomendei
muito, era o Rizzini o diretor. Rizzini era meu colega de imprensa,
dos Associados; era um diretor ausente, mas não criou problemas,
foi omisso. Mas esse Maurício Quadrio era um rapaz brilhante,
inteligente e muito necessitado. Nós demos um agasalho
a ele, completo.
Como o Rizzini tentou popularizar a Rádio?
É mais o Rizzini não era homem de rádio;
ele era administrador, isso é que ele entendia. O Chateau
descançava muito nele. Quando precisava fazer uma coisa
mal feita, chamava o Rizzini de quem eu gostava muito,
por sinal, porque era um estudioso: a melhor história da
imprensa brasileira é do Dalton Werneck e a segunda é
do Rizzini. Os trabalhos dele sobre imprensa são muito
bem feitos. Aquele livro dele "O Jornal", por exemplo,
é muito bem feito. O Rizzini era estudioso, mas ele não
era propriamente um homem de música, não era um
homem noturno. Ele gostava mais de administrar negócios,
e a Rádio não era administrável pra isso,
a Rádio sempre teve verbas fixas. Não era negócio
pra ele.
O que mais o senhor fez na rádio?
Na Rádio eu fiz de tudo. Às vezes eu abria a Rádio.
Não tinha ninguém, às 7 horas, eu abria no
ar. Nos últimos anos, quem abria, rigorosamente, era o
Oswaldo Magalhães, que chegava aqui seis e meia, sete horas.
As vezes ficava aí era solteiro dormia de
qualquer maneira. Antes das sete já estava aqui o Magalhães,
com um vidrinho com álcool pra passar eu morria
de rir: era o banho dele. Fazia ginastica e tal e depois passava
álcool. Mas era um programa muito ouvido. Às vezes
ele não vinha, eu abria, já conhecia a pauta, como
a coisa era, já tinha uma porção de coisas
escritas. E eu abria e fazia flexões e tal. Gostava muito
do Magalhães. A gente aqui chamava: "Olha você
podia passar aqui às 10 horas, porque fulano não
pode vir, não sei o quê, pra ler ou pra ajudar."
E a gente vinha. A Rádio era muito familiar, todo mundo
se ajudava, todo mundo se gostava, a gente comia, almoçava,
às vezes jantava aqui.
Nos anos 40, quantas pessoas trabalhavam aqui?
Muito poucas: tinha dois locutores sempre, no mínimo
houve tempo de ter três. Eu me lembro muito de um, porque
esse foi concursado, os outros nós herdamos do Roquette.
O Roquette que empurrou. Não eram maus locutores, mas eram
muito prosas, muita pose, se achavam os donos. O único
que veio por concurso foi o João Assaf esse eu lembro
o nome , porque ajudei a examinar. O João Assaf era extraordinário,
uma voz muito bonita, empostação, timbre, a respiração
dele era muito perfeita, articulação, ninguém
dava nada por ele olhando, mas de todos que apareceram, e apareceram
bons locutores, ele foi o melhor. Mas os locutores geralmente
eram bons.
Outro programas que o senhor fez?
Ah, fiz muitos ... todo noticiário vasto era eu que fazia.
Na época da guerra, eu as vezes vinha duas, três
vezes aqui pra fazer programas. Tivemos muitos noticiários
assim, de improviso. Eram lidos, e com bom alcance, muita gente
gostava.
As noticias eram comentadas?
Via de regra os programas eram de informação. Mas
não se comentava não, havia muito cuidado.
E a censura na Rádio, qual é a sua experiência?
Censura direta não havia, nunca houve. Agora, os diretores,
sobretudo o Tude, que demorou muito, o próprio Rizzini,
depois o Mozart, recebiam instruções do MEC e transmitiam
à gente, e nós não abusávamos. Por
exemplo, comunismo, mesmo que estejamos de bem com a Rússia,
não tem nada que elogiar. Autores, escritores, teatrólogos,
estas coisas, tudo que fosse lá do Oriente era suspeito,
então tinha que haver cuidado. E também certas coisas
novas... Por incrível que pareça, um homem que era
muito patrulhado era o Jorge Amado " Mas eu conheço
o Jorge, é bom sujeito, não é comunista;
é cacaueiro, conheço o pai dele", conhecia
mesmo. "Não ,mas não pode. Jorge Amado, esquece."
Havia tudo isso.
Eu conheci a censura. Não se podia falar de usina nuclear,
nem tocar Vinícius, Chico, etc., e teve a época
do Eremildo, que autor russo não podia...
Eremildo foi meu colega de colégio. Quando eu soube que
ele veio pra cá e que mandou fazer um banheiro especial,
eu digo: "é ele mesmo" Ele já tinha feito
coisas terríveis no Ministério da Educação,
em outros lugares que ele esteve. Era um homem culto, inteligente,
muito bom historiador, mas era deslumbrado, autoritário.
Esse camarada foi um desastre, aliás foi um desastre total.
Porque toda vez que ele arrumava um emprego, nós ficávamos
com medo, porque ele era terrível. Ele dava o nome da gente
à polícia política. Ele era um camarada da
extrema direita, retrógrado, reacionário e mau-caráter.
Muitas fotos de nosso acervo foram feitas pelo Manoel Ribeiro.
Ele era fotógrafo e cinegrafista?
As duas coisas. Ele que rodava e fazia também as fotografias.
Ele gostava mesmo de fazer era cinema ou então fotografar
espetáculos, coisas mais importantes. Mas quando vinha
aí um estrangeiro, um amigo "Manoel tira uma foto...",
ele tirava. Me lembro que ele vivia dia e noite aí, revelando
e vendo com tampões escuros, levava a coisa muito a sério.
Era muito competente e muito namorador, aqui pra nós. Roquette
gostava muito dele. Aliás a turma do Roquette era muito
fiel. Roquette teve aqui amigos que dariam a vida por ele. Manoel
Ribeiro era um. Tinha uma turma de fãs, que o Roquette
era muito culto e muito ameno e a sabedoria dele ele não
empunha, ele ia espalhando e quando o Roquette falava todo mundo
calava pra ouvir, e o Roquette sabia disso, então caprichava.
Dr. Roquette era um ícone, todos nós tomávamos
a benção do homem.
Como o senhor definiria a rádio do seu tempo?
Como uma família, essa é que é a verdade.
Não sei se as pessoas iam lá por acaso e se familiarizavam
ou se o Tude, o Rizzini, e os outros diretores atraíam.
Todo mundo ali substituía todo mundo no microfone, na escrita,
nos recados, nas saídas, com o espírito de equipe
do Roquette. Ele conciliava, era um conciliador. Na rádio
ele não fazia distinção, não havia
pessoas que eram mais que as outras, ninguém ali era vedete.
E também com o cinema. O fato de as duas coisa serem do
Roquette causou um entrosamento permanente. O que era da Rádio
ia pro Cinema, e vive-versa. No sábado acabava as três
horas o trabalho, vinha a comida e depois ficávamos batendo
papo até cinco, seis horas. A minha impressão, assim,
é que a Rádio realmente era familiar. Todo mundo
se conhecia, todo mundo sabia quem era capaz, quem era incapaz,
o que fazia melhor aquilo ou aquilo outro. Não havia ciumadas
internas, que geralmente costuma haver, não havia nada
disso, todo mundo era manso, calmo.
O que o senhor acha da transferência da Rádio
do Ministério da Educação para a SECON?
Eu acho que foi um equívoco e é um erro por vários
motivos. Primeiro, porque essa rádio não pode fazer
propaganda ou noticiário exclusivo, e em segundo lugar
porque há uma cláusula, quando ela foi passada para
o Governo, que a Rádio tem que ter certas características,
não pode sair fora disso. A cláusula tem que estar
em vigor porque foi uma doação, não foi uma
compra uma aquisição do Estado, foi a doação
de um particular. Então eu acho que, por ser uma doação,
e uma doação de uma eminência da cultura brasileira
de todos os tempos que é Edgard Roquette-Pinto, temos que
levar isso a sério e cumprir essa disposição
de testamento verbal ou escrita, seja como for. Como existe um
ato jurídico perfeito é necessário que cumpramos
a lei. A Rádio MEC é uma rádio especial,
é uma rádio a parte, é uma rádio singular.
Basta co-nhecer o mínimo da sua origem, do seu funcionamento
durante muitos anos, com o doador vivo, Roquette-Pinto, e mesmo
depois o que a Rádio sempre fez pelo ensino e pela cultura
em geral. Ela deve pertencer ao Ministério da Educação,
no mínimo. Porque é uma junção necessária
e fundamental e indispensável. A Rádio MEC deve
voltar às suas origens verdadeiras e cumprir as determinações
para as quais ela foi criada