de Utilidade Pública Federal - Portaria no. 3935
de Utilidade Pública Estadual (RJ) - nº2464
de Utilidade Pública Municipal (RJ) - nº3048
detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002
   
 
Fernando Segismundo

 
 
Entrevista realizada em 2004 por Adriana Ribeiro e Renato Rocha. Transcrição Renata Mello
 

 

Como o senhor foi trabalhar na Rádio Sociedade?
Eu era estudante do colégio Pedro II. Eu conhecia o Roquette já de cursos que ele fazia na Quinta da Boa Vista, quando era diretor. Então, precisava de emprego, fui a ele e ele me contratou. Ele achava que eu tinha uma voz razoável e então fiquei lá, na Rua da Carioca, fazendo um programa estudantil.
Mais tarde, passados alguns anos, eu me emancipei, fiz faculdade de direito, estudei pra técnico de educação, passei no concurso, e então encontrei Roquette-Pinto – cidadão que eu lembro com muita saudade e muita admiração, sempre. Ele me disse: "Por que você não vai trabalhar conosco? Agora você já tem outro status, etc... e o diretor é um amigo seu: Fernando Tude de Souza" – que realmente era um grande educador. Aí, eu falei com o Tude, e fiquei aqui muitos anos trabalhando com ele.

Quando o senhor começou na Rádio Sociedade?
Em 32. Voltei depois em 43 e trabalhei até 60.

Qual foi o motivo da saída da Rua da Carioca?
Provavelmente por aqui ter mais espaço. Quando eu vim trabalhar aqui o Roquette ainda dirigia o Cinema Educativo, que ocupava do térreo até o 2º andar desse prédio. Roquette criara ambas as instituições, passou a dirigir só o cinema e deu a Rádio para o Tude, e ele convidou professores e outros técnicos.

Como era a programação da Rádio Sociedade?
Naquela época era mais amadorista, digamos. Lembro que, duas vezes por dia, no mínimo, o próprio Roquette – estou vendo o Roquette, abrir o jornal ir pro microfone de pé e fazer um noticiário enorme. Hoje em dia, a gente faz sentado, de outra maneira, etc., mas ele fazia de pé: era muito improvisado. E não havia continuidade: na Rua da Carioca a rádio não funcionava o dia todo, como funciona agora. Aqui, passamos a funcionar o dia todo, praticamente, e havia tanto espaço que a rádio emprestava metade de um andar ou um andar inteiro, porque eram 4 andares para a rádio. A Orquestra Sinfônica Nacional, por exemplo, com Villa-Lobos, ensaiava aqui. Depois é que fizemos o Cinema Educativo.

E como era o Roquette que o senhor conheceu?
Ele era um homem bem nascido, muito bem educado, viajado, grande naturalista, grande estudioso. Roquette é um dos raríssimos sábios sul-americanos – é bom que a gente nunca deixe de dizer isso: era um sábio. Então ele deu à rádio um caráter especial, porque ele foi o criador – ele que sustentava, ele que tinha prejuízo. E o Roquette nunca foi um homem de negócios. Ele preferiu, depois de muitos prejuízos, entregar ao Governo. Mas antes era à custa dele, do bolso dele. Tanto que depois ele nos disse: "Eu tenho o maior prazer de dar pro Governo, mas de fato eu não estou podendo mais agüentar". Porque Roquette era um homem muito estranho: não era qualquer anúncio que servia, de modo que era ele que sustentava quando havia esses problemas. Eu conheço muita gente boa, aqui, na América Latina, sobretudo no Brasil, mas como Roquette eu não conheço ninguém, honestamente. Ele era um homem muito curioso. Fazia muitas coisas diferentes. Era um bom médico, clinicava, era professor, era poliglota.... Depois, era um homem bonito – era o Goethe brasileiro. Nasceu bem, foi muito bem instruído, fez pesquisas, trabalhou com o Rondon: teve essa sorte também, conheceu o Brasil ainda ignorado – do Mato Grosso pra cima não se conhecia muita coisa. Foi Roquette e Rondon quem trouxeram para a luz: era uma coisa meio misteriosa, etc... Roquette falava francês melhor que português: era uma coisa fantástica. Falava também inglês e um pouco de alemão. Era muito culto, muito agradável, simpático.

Na Rádio Sociedade havia programas infantis?
Programa infantil quem entendia mesmo era a Beatriz. A Tizinha, como nós chamávamos, era uma mulher muito bonita, todos nós queríamos namorá-la, por sinal, e Roquette dizia : "Você já está trabalhando? Ganha muito? Pode namorar uma moça como a Beatriz?". A Beatriz sempre fez programas infantis, desde mocinha. Na década de 30, ela tinha um programa infantil na rádio, e eu, jornalista, curioso, fui entrevistá-la. Ela era muito jovem, ainda: uma mocinha elegante, agradável, rodeada de crianças. Ela tinha uma queda muito grande para o ensino infanto-juvenil.E assim ela se manteve durante muito tempo, até ter os filhos dela e contar histórias só pra eles. Mas ela trabalhou muito tempo, aqui. Porque o Roquette não era mais o diretor: ele cansou e propôs ao Ministro Capanema duas pessoas muito capazes – no Cinema Educativo não me lembro quem foi, mas na Rádio, era o Fernando Tude de Souza, que era baiano, tinha prestígio político e boa cobertura. E foi realmente inovador. Era um homem capaz, viajava muito, trazia idéias novas. A rádio num momento, sobretudo no período da Grande Guerra, 39 a 45, a rádio valia por 4 ou 5 rádios particulares, inclusive informando do movimento militar, das batalhas, etc... Mas o Roquette estava por trás, sempre.
Ele dizia que isso aqui eram as namoradas dele, dizia: "Como vão minhas namoradas? Tratem bem das minhas namoradas." Me lembro dele já meio cansado e doente, meio curvado – porque ele tinha problema na coluna –, mas ele vinha muito aqui. Não tinha mais nada a ver com isso, já estava aposentado, mas vinha e a Tizinha também. A Beatriz, propriamente, não era funcionária da Rádio, ela tinha um cachê qualquer em outro lugar aí, ficava aqui, auxiliando. E o Roquette nunca deixou de dar assistência: mesmo tendo o Tude de Souza, e o Pedro Gouveia no Cinema Educativo.

E o Humberto Mauro?
O Humberto Mauro nunca foi diretor. Foi muito mais. Humberto Mauro era a figura maior, era o homem que o Roquette contava pra tudo. O Mauro era um grande fotógrafo e um grande cineasta. E muito alegre, muito agradável, contava histórias e anedotas pra a gente – com o Mauro ninguém ficava parado. O Mauro trabalhava com o Dr. Roquette há muitos anos, já. Quando eu vim pra cá, ele já era famoso como cineasta. Era de Cataguases, de Minas Gerais, e tinha feito, na pré-história do cinema, bons filmes.

E as suas atividades aqui? O senhor começou...
Como técnico em educação, passei a ser redator de muitos programas. Me lembro que uma ocasião o Humberto Mauro me pediu para ir ao Campo de Santana com ele, e me disse: "É o seguinte: vai ter uma batalha, vai ter um encontro de bandidos, tem que ter pedra, tem que ter árvore. Agora, você vai inventar". Ele me dava mais ou menos o esquema e eu fazia os scripts. Muito filme educativo que saiu daqui foi filmado no Campo de Santana. Não sei que fim levaram. Não tinha o nosso nome, porque eu era técnico de educação, ganhava pra escrever anonimamente. Eu e outros. Mas eu sei que os rolinhos iam para passar para estudantes.
As pessoas que trabalhavam na Rádio, na época do INCE, trabalhavam também para Instituto ?
Sim. Nós tínhamos um especialista, um técnico em educação, que nós gostávamos muito, mais velho que nós: chamava-se Paschoal Leme. Um homem de grande moral, muito competente, muito amigo do Roquette e ótimo educador – faleceu com noventa e poucos anos. Ele já estava trabalhando com o Roquette, e tinha um amor tremendo por isso aqui. Porque Rádio e Cinema se confundiam: era tudo Roquette. Havia diretores, mas era ele que estava por trás – ele é que criara e o governo confiava nele.

Com quem mais o senhor trabalhou na Rádio?
De vez em quando, o Ministério mandava uns técnicos em educação, porque a Rádio tinha que ser também educativa, embora ela fosse eminentemente cultural. Lembro que uma ocasião veio pra cá um jornalista, Carlos Rizzini – era um homem poderoso, dos Diários Associados –, e ele deu uma guinada totalmente diferente. Eu fui a ele: "Meu caro, aqui não é assim, não: tem que ter uma linha educativa, se não ascendente, pelo menos permanente e tal, não podemos dar essas guinadas, essa violência".

Que tipo de guinada?
Popular, comum, populismos exagerados. Não:a Rádio é de elite mesmo. Essa Rádio é pra poucos ouvintes, pra uns milhares, mais nada. Não é Rádio Nacional. Eles não queriam entender isso.
A Rádio sempre teve esse caráter?
Não, ela foi educativa. Havia programas de tudo: ciência, literatura, geografia, história. Eu não sei onde está esse acervo, porque uma ocasião eu tentei recuperar trabalhos meus, vim aqui e não tinha nada; fui à Penha, não tinha nada; fui à Brasília, e nada.

No seu tempo, a Rádio tinha uma biblioteca?
Tinha, e muito boa, que foi se formando. Roquette sempre teve livros. Eu mesmo fiz uma biblioteca que sumiu, ou foi misturada. Eu fiquei aqui 17 anos, corridos, e naquele tempo eu comprava livro todo dia. Lia história, era professor e tal. Eu tinha um armário enorme cheio de bons livros, dicionários, livros de várias línguas. E aí, o diretor Mozart de Araújo – não era má pessoa, não, mas ele não tinha nada a ver conosco e não sei como ele veio parar aqui, porque ele, propriamente, não era do ramo. Fui às férias e estava esse Mozart, e meus livros desapareceram: um armário inteiro. E ele disse: "Não, se era um armário da casa, então os livros deviam ser da casa e eu mandei preencher o vazio na Biblioteca da Casa". Eu digo: "Mas os livros são meus, meu caro. O senhor não podia ter feito uma coisa dessas" – "Agora já fiz". Ele juntou com a biblioteca da casa, que era grande, era muito boa e ficava no 3º andar. Essa biblioteca foi montada por uma moça de prestígio, de nome Otávia Benvinda Regis Konder. Essa jovem tinha acabado de fazer o curso de bibliotecária e montou essa biblioteca, porque não tínhamos uma biblioteca organizada – havia uns livros e tal, mas ela mandou comprar material todo especializado. A Biblioteca nossa era muito boa, especificamente de comunicação e, secundariamente, geral.

Com quem mais o senhor trabalhou aqui?
Eu trabalhei com vários outros técnicos em educação. Havia o Paschoal Leme, que nós achávamos o melhor do nosso grupo – esteve aqui muitos anos. Havia Aydano Couto Ferraz, de uma família tradicionalíssima – donos da Praça Saens Pena, os Ferraz. Havia Neusa Feital, que fora minha aluna, e chegou a ser técnica em educação, e chegou a chefiar. Havia vários técnicos em educação, no INCE e na Rádio.

Vocês faziam os textos?
Fazíamos. Por exemplo, o Dr. Roquette, e depois os outros diretores, tinham certas datas ou certos assuntos que eram pedidos. Havia coisas de rotina e coisas improvisadas. Então, as não improvisadas eram melhores porque havia tempo de consultar livros, dicionários. Podíamos preparar grandes programas. Havia a rotina e havia os imprevistos, e os imprevistos a gente tinha que ir direto pro microfone falar.

O senhor falava no microfone também?
Às vezes, quando de manhã o locutor atrasava e a rádio tinha que ir pro ar... Como eu gostava de acordar cedo, antes das sete eu já estava aqui, eu abria. Havia um professor de ginástica, muito engraçado, que era o Oswaldo Magalhães. Ele às vezes se atrasava, aí telefonava: "Quer fazer pra mim aqueles movimentos, faz favor, a chapa tal."– havia uma chapa que ele punha assim em frente, a gente abaixava, apertava com a perna e falava no microfone: a turma tinha a ilusão que eu estava mesmo fazendo ginástica. Nós éramos "pau pra toda obra" – por causa do Roquette, aqui pra nós. Não tínhamos horário, não tínhamos obrigação de ponto e coisa nenhuma. Eu tive a sorte de poder escolher programas. Porque eu comecei a fazer de tudo, depois comecei a selecionar.

A programação ia de que horas a que horas?
Das 7 da manhã até as 11 horas da noite, às vezes ia até mais tarde, dependia do Municipal – quando era irradiação no Municipal ia até mais tarde.

E lá na Carioca?
Na Carioca, tenho a impressão que terminava às 8 horas, 9 horas, por aí. Tinha uns buracos – de vez em quando parava, uma ou duas horas. Era tudo muito artesanal ainda. O Roquette trazia muito convidado – todo dia havia um ou dois sujeitos que ele convidava pra falar sobre um assunto determinado. E mesmo aqui ele fez isso dia de índio, chamava quem entendia de índio.

Você fez um programa infantil lá?
Não. Fiz programas de estudantes, mas estudantes secundários pra cima. Um programa escolar. Eu ia às Universidades, aos colégios, apurava muitas coisas interessantes e fazia então ao microfone, direto. Quem fazia programa infantil era a Beatriz. Aliás, fazia muito bem feito. Porque ela reunia crianças , punha no microfone e brincava com elas. A Beatriz foi pioneira, ela gostava muito da Rádio.
Então os primeiros programas infantis foram lá?
Foram, e de improviso. E os de jornalismo também. Quem fazia era o próprio Roquette.

Que depois foi substituído pelo Paulo Roberto?
Paulo Roberto, exato. Que ainda era estudante.

Ópera completa também começou lá?
Foi, mas mais tarde. Não foi no comecinho, não.

E programa de literatura, tinha alguma coisa?
Tinha, mas não era sistemático.

E divulgação científica, tinha muito?
Porque o Roquette "puxava a brasa pra sardinha dele" – ele era mais cientista do que propriamente radialista. Ele dizia assim: "Vocês perdoem a minha tendência, eu nasci pra ser professor." E nós adorávamos o que ele ensinava. Tudo o que ele falava a gente aprendia, tinha uma cultura vastíssima, a voz muito bonita, muito agradável e gostava de falar. Muita gente diz que eu imito o Roquette, eu não imito, eu aprendi. Ele tinha o prazer de levar gente estranha pra mostrar a casa. Essa casa foi muito vista por estrangeiros, por nacionais. Ele adorava, por exemplo, aos sábados, o Humberto Mauro, a Dona Pepe a mulher dele, a nosso pedido fazia a comida, pra a gente não comer lá fora. Então Roquette vinha, trazia Taunay de São Paulo... Cada um pagava um X: os convidados não pagavam, nós pagávamos pra eles. O Roquette adorava essas coisas. Ele já não mandava, não, já era o Tude de Souza, já eram outros que mandavam, mas ele não saia da Casa.

E o seu Mesquita?
Era um velho ranzinza, agradabilíssimo. Ele era muito boa pessoa, mas era ranzinza, implicava com todos nós, até comigo. Eu era técnico em educação, eu era importante na casa. Não tinha nada disso, não: "Você chegou atrasado, hoje. Não vai assinar o ponto?" E eu tinha ordem de não assinar o ponto – depois do Tude quem mandava na Casa era eu. E eu estava no Pedro II, nessa altura, acumulava, tinha outros afazeres. Mas o Mesquita era realmente quem entendia a parte tática: a dona-de-casa era o Mesquita. Roquette não entendia nada, nem os outros, o Mesquita é que sabia o que tinha e o que não tinha, o que podia comprar, o que não podia comprar. Não era um homem de cultura, mas era um homem muito prático, muito necessário. Foi muito importante para o Roquette, porque era ele que punha o Roquette nos eixos. Roquette não era perdulário, mas não sabia a quantas andava; o Mesquita sabia.

E o Labre Junior já estava lá?
O Labre foi o homem técnico, foi imprescindível. Foi um homem inarredável: qualquer coisa que estivesse errada, o Labre vinha correndo e consertava. Ele entendia da estação como a gente entende de um filho, só não dava as palmadas, mas fazia todos os agradinhos. O Labre era um grande especialista.
Você sabe se o Labre escreveu algum manual?
Que eu saiba, não. Aliás, eles não escreviam. Às vezes, eu mexia: "Vocês precisam deixar alguma coisa", mas nunca escreveram. Nem o Tude... ninguém escreveu nada. O próprio Roquette, em matéria de Cinema Educativo ou Rádio, que eu saiba... talvez um artigo ou coisa assim, mas não escreveu a sério.

E o Sussekind?
Edgar Sussekind Mendonça era um homem notável, mas não era administrador. Era de uma família muito importante. Conheci ele e os irmãos; era desenbargador. O Sussekind era muito culto, um pouco perdulário de cultura, inclusive, e não era muito organizado – porque não deixou nenhuma obra. No entanto era, de nós, quem sabia mais coisas. Era técnico em educação, também – da primeira fornada, eu já fui da segunda. Era amabilíssimo, finíssimo, muito educado, tinha uma idéia cultural do Brasil muito boa. Mas ele fazia questão de andar devagar, não sei porque. Morreu cedo. Não sei, só sei que ele não deu tudo que podia ter dado. O irmão deixou mais nome na parte jurídica. O Edgard no entanto foi um grande educador; a gente, que lidava com ele, sabia, mas ele não se mostrou, não saiu da concha.

Sérgio Vasconcelos?
O Sérgio deixou mais nome. Competente. O Sérgio era mais trabalhador, mais organizado. Foi uma mola boa na Casa, sem dúvida nenhuma.

Você conheceu bem o estúdio da Carioca?
Conheci muito. Mas quando eu fui não era sentado, era de pé. Eu lembro muitas vezes do Roquette e eu mesmo falei varias vezes de pé – programas escolares ou estudantis.
Os sócios da Rádio interferiam na programação?
Que eu saiba, não. Quem fazia tudo era o Roquette.. Ele era muito curioso... Tinha mania de mexer nos aparelhos, fazer... Eu não vi, mas as pessoas que viram me disseram que ele, antes de haver a televisão do Chatô, fizera uma televisão de qualquer maneira e andou fotografando várias partes ali do Castelo. Eu me lembro uma história muito curiosa, quem me contou foi o Venâncio Filho, meu professor, que fora aluno do Roquette. Eram muito amigos. Então,o Venâncio as vezes dizia assim: "Puxa, o Dr. Roquette, hoje, cuidado com ele, não dormiu. Me telefonou 4 vezes, entre meia noite e quatro horas, para dizer: 'Meu filho o Dr. Roquette sabe tudo mas não sabe matemática, resolve isso aí que eu preciso fazer esse cálculo''' – isso duas, três, quatro horas da manhã, e o Venâncio, que era matemático é que tinha que fazer as contas... Era uma graça...

A Rádio, no início, só tocava música erudita. Como foi a passagem pra tocar música popular?
Havia muita reclamação. Música erudita é para a elite, e a turma achava que tinha que ser popular, até o Roquette. Dizia que "o Rádio é a escola de quem não tem escola", então, como ele fazia um rádio elitista? A coisa foi abrindo, mas com dificuldade.

E o marcechal Rondon?
Não ia muito, não, porque já estava meio cegueta, já andava amparado. Já estava todo ruim, mas ia lá, sim. Aliás quem deu chance ao Roquette foi Rondon. Se não houvesse Mato Grosso e Rondon, Roquette teria sido outra coisa. Roquette um dia me fez uma confidência: "Seria um dançarino, um conquistador", ele se imaginava um Goethe brasileiro. Era muito simpático, era alto, forte, muito bonito.

Ele era vaidoso?
Vaidoso ele era. Era um namorador terrível. Eu conheci algumas namoradas dele, inclusive filhas, porque Roquette tinha filhas fora do casamento. Roquette foi um galã terrível. Ele era professor do Instituto da Educação: várias professoras tinham fi-lhos dele. Eu acho uma glória. Roquette era muito bonito, sedutor, a voz, o modo, era um homem muito educado, muito bem nascido – o avô dele era um homem rico, poderoso. Família pernambucana. Ele, com a nomeada que teve por causa do Mato Grosso, por causa da Rondônia, por causa do Rondon, ele ganhou muito dinheiro. Ele era professor, clinicava, era bom médico, era diretor do Museu Nacional na Quinta. Ele tinha vários empregos, era um homem que se mexia muito. E o Capanema confiava nele muitíssimo, tanto que entregou o cinema e o Rádio a ele. E fez muito bem, porque ele de fato era um homem sisudo, austero. Dava sempre bom exemplo pra a gente.
O senhor também fez programas de Literatura, não é?
Foi o Tude de Souza que inventou essa história de que faltava à rádio um pouco mais de literatura, e então inventaram que eu poderia fazer: "Você faz, você gosta de literatura." Então eu fiz um programa durante muito tempo. Era um livro por dia, resumido – olha o quanto que eu lia. Eu digo: "Bom eu tenho leitura, já li, e aqui na biblioteca tenho tudo isso. Eu posso fazer." Aí, pra não cansar, o trabalho não era uma coisa só narrada: era dialogada, com duas, quatro ou cinco vozes. Isso tudo se perdeu. Eu queria muito encontrar... Eu limparia e publicaria, porque deu muito trabalho.

Como era o nome do programa?
Brasiliana. Foi essa a minha série, Brasiliana.

E isso se perdeu?
Eu tentei reaver, mas não há mais em lugar nenhum - nem na Penha, nem em Brasília, não sei o que fizeram com aquilo. Era um resumo de livros. Pegava um livro e resumia o livro. Me lembro que Os Sertões não dá pra resumir de uma vez, então eu resumi em três ou quatro seções, com várias vozes, barulho de canhão e tiros. Os Sertões tem uma linguagem que se você lê como está ninguém entende no ar. Eu tive que mudar a linguagem e cortar o que não interessava diretamente. Mas ao lado disso eu pegava um livro do Roquette, como peguei a Rondônia, por exemplo. Fiz o resumo da Rondônia, com muitos aplausos: muita gente gostou, pediu bis.

Fernanda Montenegro narrou Os sertões, aqui?
Fui eu que fiz o resumo dos Sertões. Às vezes, Sadi Cabral vinha e dirigia 3 ou 4, inclusive essa menina que estava começando, a Fernanda com o Fernando Torres. Eu me lembro como se fosse hoje, eles entrando no corredor – ela era uma menina muito mo-desta. E ela se fez aqui dentro.

E ela reconhece isso.
Porque a Rádio tinha muitos programas ao vivo, e havia concertos, havia visitantes – tinha muito movimento. Muita gente vinha, gostava e ficava. Eu me lembro de um alemão, Hans Koellreuter, que chegou falando péssimamente português, um português horroroso, espanhol, francês, uma mistura. Arranjamos um emprego, porque vimos que ele era um homem que sabia música mesmo. As primeiras pessoas que ele conheceu fomos nós, aqui na Rádio.

Ele teve emprego aqui?
Não era bem emprego, ele fazia programas, colaborações, mas ganhou dinheiro, aqui conosco.

E como eram os programas?Ele comentava ou escrevia comentários pra alguém ler?
Eram com música dodecafônica: uma música meio complicada, que ninguém gostava.. Mas ele era um homem pertinaz, talentoso e precisado. Ele escrevia e a gente corrigia, porque ele não sabia português direito – ele falava era alemão mesmo. Enfim,ele ficava aí o dia todo fazendo programas – a gente só ajeitava o português, o resto era com ele.

Outro refugiado, o Otto Maria Carpeaux
Conheci muito. O Carpeaux era erudito demais para o nosso meio cultural, essa que é a verdade – aprendi muito com ele. Os artigos dele eram reescritos pelo Buarque de Holanda, o Sérgio, que, às vezes, andava por aqui também.

Ele gaguejava em francês também?
Em francês e em alemão. Mas o Carpeaux foi muito bem aceito, acho que ele trouxe padrinhos pra entrar aqui no Brasil, porque foi logo bem recebido. Trazia uma cultura européia que não era brincadeira. E não era um homem arrogante, era um homem até modesto. Eu gostava do Carpeaux. Era um pouco gago, ficava nervoso, ninguém entendia nada.

Outro imigrante:Maurício Quadrio...
Esse eu conheci logo que ele veio da Itália. Era um sujeito muito modesto, mas mostrou-se logo competente. Até o recomendei muito, era o Rizzini o diretor. Rizzini era meu colega de imprensa, dos Associados; era um diretor ausente, mas não criou problemas, foi omisso. Mas esse Maurício Quadrio era um rapaz brilhante, inteligente e muito necessitado. Nós demos um agasalho a ele, completo.

Como o Rizzini tentou popularizar a Rádio?
É mais o Rizzini não era homem de rádio; ele era administrador, isso é que ele entendia. O Chateau descançava muito nele. Quando precisava fazer uma coisa mal feita, chamava o Rizzini – de quem eu gostava muito, por sinal, porque era um estudioso: a melhor história da imprensa brasileira é do Dalton Werneck e a segunda é do Rizzini. Os trabalhos dele sobre imprensa são muito bem feitos. Aquele livro dele "O Jornal", por exemplo, é muito bem feito. O Rizzini era estudioso, mas ele não era propriamente um homem de música, não era um homem noturno. Ele gostava mais de administrar negócios, e a Rádio não era administrável pra isso, a Rádio sempre teve verbas fixas. Não era negócio pra ele.

O que mais o senhor fez na rádio?
Na Rádio eu fiz de tudo. Às vezes eu abria a Rádio. Não tinha ninguém, às 7 horas, eu abria no ar. Nos últimos anos, quem abria, rigorosamente, era o Oswaldo Magalhães, que chegava aqui seis e meia, sete horas. As vezes ficava aí – era solteiro – dormia de qualquer maneira. Antes das sete já estava aqui o Magalhães, com um vidrinho com álcool pra passar – eu morria de rir: era o banho dele. Fazia ginastica e tal e depois passava álcool. Mas era um programa muito ouvido. Às vezes ele não vinha, eu abria, já conhecia a pauta, como a coisa era, já tinha uma porção de coisas escritas. E eu abria e fazia flexões e tal. Gostava muito do Magalhães. A gente aqui chamava: "Olha você podia passar aqui às 10 horas, porque fulano não pode vir, não sei o quê, pra ler ou pra ajudar." E a gente vinha. A Rádio era muito familiar, todo mundo se ajudava, todo mundo se gostava, a gente comia, almoçava, às vezes jantava aqui.

Nos anos 40, quantas pessoas trabalhavam aqui?
Muito poucas: tinha dois locutores sempre, no mínimo – houve tempo de ter três. Eu me lembro muito de um, porque esse foi concursado, os outros nós herdamos do Roquette. O Roquette que empurrou. Não eram maus locutores, mas eram muito prosas, muita pose, se achavam os donos. O único que veio por concurso foi o João Assaf – esse eu lembro o nome , porque ajudei a examinar. O João Assaf era extraordinário, uma voz muito bonita, empostação, timbre, a respiração dele era muito perfeita, articulação, ninguém dava nada por ele olhando, mas de todos que apareceram, e apareceram bons locutores, ele foi o melhor. Mas os locutores geralmente eram bons.

Outro programas que o senhor fez?
Ah, fiz muitos ... todo noticiário vasto era eu que fazia. Na época da guerra, eu as vezes vinha duas, três vezes aqui pra fazer programas. Tivemos muitos noticiários assim, de improviso. Eram lidos, e com bom alcance, muita gente gostava.
As noticias eram comentadas?
Via de regra os programas eram de informação. Mas não se comentava não, havia muito cuidado.

E a censura na Rádio, qual é a sua experiência?
Censura direta não havia, nunca houve. Agora, os diretores, sobretudo o Tude, que demorou muito, o próprio Rizzini, depois o Mozart, recebiam instruções do MEC e transmitiam à gente, e nós não abusávamos. Por exemplo, comunismo, mesmo que estejamos de bem com a Rússia, não tem nada que elogiar. Autores, escritores, teatrólogos, estas coisas, tudo que fosse lá do Oriente era suspeito, então tinha que haver cuidado. E também certas coisas novas... Por incrível que pareça, um homem que era muito patrulhado era o Jorge Amado – " Mas eu conheço o Jorge, é bom sujeito, não é comunista; é cacaueiro, conheço o pai dele", conhecia mesmo. "Não ,mas não pode. Jorge Amado, esquece." Havia tudo isso.

Eu conheci a censura. Não se podia falar de usina nuclear, nem tocar Vinícius, Chico, etc., e teve a época do Eremildo, que autor russo não podia...
Eremildo foi meu colega de colégio. Quando eu soube que ele veio pra cá e que mandou fazer um banheiro especial, eu digo: "é ele mesmo" Ele já tinha feito coisas terríveis no Ministério da Educação, em outros lugares que ele esteve. Era um homem culto, inteligente, muito bom historiador, mas era deslumbrado, autoritário. Esse camarada foi um desastre, aliás foi um desastre total. Porque toda vez que ele arrumava um emprego, nós ficávamos com medo, porque ele era terrível. Ele dava o nome da gente à polícia política. Ele era um camarada da extrema direita, retrógrado, reacionário e mau-caráter.

Muitas fotos de nosso acervo foram feitas pelo Manoel Ribeiro. Ele era fotógrafo e cinegrafista?
As duas coisas. Ele que rodava e fazia também as fotografias. Ele gostava mesmo de fazer era cinema ou então fotografar espetáculos, coisas mais importantes. Mas quando vinha aí um estrangeiro, um amigo "Manoel tira uma foto...", ele tirava. Me lembro que ele vivia dia e noite aí, revelando e vendo com tampões escuros, levava a coisa muito a sério. Era muito competente e muito namorador, aqui pra nós. Roquette gostava muito dele. Aliás a turma do Roquette era muito fiel. Roquette teve aqui amigos que dariam a vida por ele. Manoel Ribeiro era um. Tinha uma turma de fãs, que o Roquette era muito culto e muito ameno e a sabedoria dele ele não empunha, ele ia espalhando e quando o Roquette falava todo mundo calava pra ouvir, e o Roquette sabia disso, então caprichava. Dr. Roquette era um ícone, todos nós tomávamos a benção do homem.

Como o senhor definiria a rádio do seu tempo?
Como uma família, essa é que é a verdade. Não sei se as pessoas iam lá por acaso e se familiarizavam ou se o Tude, o Rizzini, e os outros diretores atraíam. Todo mundo ali substituía todo mundo no microfone, na escrita, nos recados, nas saídas, com o espírito de equipe do Roquette. Ele conciliava, era um conciliador. Na rádio ele não fazia distinção, não havia pessoas que eram mais que as outras, ninguém ali era vedete. E também com o cinema. O fato de as duas coisa serem do Roquette causou um entrosamento permanente. O que era da Rádio ia pro Cinema, e vive-versa. No sábado acabava as três horas o trabalho, vinha a comida e depois ficávamos batendo papo até cinco, seis horas. A minha impressão, assim, é que a Rádio realmente era familiar. Todo mundo se conhecia, todo mundo sabia quem era capaz, quem era incapaz, o que fazia melhor aquilo ou aquilo outro. Não havia ciumadas internas, que geralmente costuma haver, não havia nada disso, todo mundo era manso, calmo.

O que o senhor acha da transferência da Rádio do Ministério da Educação para a SECON?
Eu acho que foi um equívoco e é um erro por vários motivos. Primeiro, porque essa rádio não pode fazer propaganda ou noticiário exclusivo, e em segundo lugar porque há uma cláusula, quando ela foi passada para o Governo, que a Rádio tem que ter certas características, não pode sair fora disso. A cláusula tem que estar em vigor porque foi uma doação, não foi uma compra uma aquisição do Estado, foi a doação de um particular. Então eu acho que, por ser uma doação, e uma doação de uma eminência da cultura brasileira de todos os tempos que é Edgard Roquette-Pinto, temos que levar isso a sério e cumprir essa disposição de testamento verbal ou escrita, seja como for. Como existe um ato jurídico perfeito é necessário que cumpramos a lei. A Rádio MEC é uma rádio especial, é uma rádio a parte, é uma rádio singular. Basta co-nhecer o mínimo da sua origem, do seu funcionamento durante muitos anos, com o doador vivo, Roquette-Pinto, e mesmo depois o que a Rádio sempre fez pelo ensino e pela cultura em geral. Ela deve pertencer ao Ministério da Educação, no mínimo. Porque é uma junção necessária e fundamental e indispensável. A Rádio MEC deve voltar às suas origens verdadeiras e cumprir as determinações para as quais ela foi criada



Todos os direitos reservados.