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Luiz Carlos Saroldi

Amigo Ouvinte -
Saroldi, como foi o seu começo radiofônico?
Luiz Carlos Saroldi - Acho que havia um rádio
próximo do meu berço. Era naquele tempo do rádio
Capelinha, nos anos 30. Lá em casa se ouvia muito rádio
- com a família inteira em volta, claro. Aquelas vozes, aquelas
músicas, o falar carioca, chegavam por ali. Mas eu nunca
pensei em trabalhar em rádio. Mas certa vez, ainda no curso
cientifico do Instituto La-Fayete, foram convidar jovens atores
para participar de um programa na Rádio Nacional, escrito
pelo produtor Mario Faccini, cunhado do Almirante. Isso em 1949/50,
por aí. Fui selecionado para ir nesse grupo e vi de perto
alguns dos grandes nomes da Nacional, além daquele estúdio
maravilhoso de radioteatro. O programa foi dirigido pelo Restier
Junior, um velho homem de teatro conquistado pelo rádio.
O programa era ao vivo, não se podia errar. Então,
foi uma amostra do que era o profissionalismo da Rádio Nacional,
com sonoplastia e anúncios, tudo entrando na hora certa.
Mas apesar de deslumbrado com aquele clima, meu interesse maior
continuou no teatro. Em 52 tranquei a faculdade para viajar como
profissional com a companhia Carlos Couto-Aurora Aboim, trabalhando
como ator e assistente de direção. Apesar da qualidade
do repertório e das boas críticas, foram três
ou quatro meses de "mambembar" pelo nordeste - o dinheiro
não dava para as despesas. Na volta eu percebi que não
podia viver de teatro e estudar ao mesmo tempo. Então, retomei
a faculdade e comecei a buscar um espaço no rádio.
Fiz um teste para locutor na Rádio Jornal do Brasil. Me deram
um período de experiência, abrindo a rádio às
seis da manhã. Mas tudo ainda era muito rígido na
JB. As pessoas falavam com a voz impostada, e foi difícil
me enquadrar. Na época a Rádio era dirigida pelo Oswaldo
Éboli, o Vadeco, do Bando da Lua, tendo como assistente da
direção o dr. Nascimento Brito, que começava
na empresa. Fiquei umas duas semanas, e como eu não mudava
e nem a Rádio mudava, desisti. Pouco depois, saiu um anúncio
no jornal dizendo que a Rádio MEC ia promover um curso de
rádio para professores, advogados e estudantes. Eu me inscrevi.
As aulas eram no estúdio sinfônico, transformado em
auditório. Havia um número grande de participantes.
E foi muito interessante, porque, além dos locutores e produtores
da própria Rádio, como Edino Krieger, Paulo Santos,
Geny Marcondes e outros, conheci profissionais do nível de
César Ladeira e do professor José Oiticica, catedrático
de português do Pedro II. O curso foi muito bem organizado
por dona Neusa Feital, incluindo prática ao microfone para
os interessados. Fernando Tude de Souza era o diretor da rádio
na época, se não estou enganado. Mas dali não
saiu mais que isso.
Passa-se algum tempo e um dia reaparece a JB em minha vida. Agora
por intermédio do Ivan Meira, ex-locutor e produtor da Rádio
MEC que havia se passado para lá. A então PRF 4 continuava
tentando se modernizar, mas não sabia bem o que fazer. As
grandes emissoras eram 'ecléticas' - faziam de tudo A Nacional
e a Tupi, por exemplo, competiam no futebol, no jornalismo, nas
novelas, nos programas de auditório e nos grandes e pequenos
musicais. Poucas emissoras eram especializadas - segmentadas, como
se diz hoje. A Rádio JB não tinha futebol, mas transmitia
as corridas do Jóquei e valorizava a música erudita
bem mais do que a popular. De repente surge lá a idéia,
não sei de quem, de fazer um programa radiofonizado, aos
sábados à noite, com adaptações de contos;
aí precisaram formar um pequeno elenco, de jovens atores.
O Allan Lima era um deles. Lembro também de uma moça,
Carmem Barbosa, a Vilma Torres, que era minha colega da faculdade
e mais alguns. Claro que não tínhamos contrato, mas
recebíamos cachê para participar. Foi bom, mas a iniciativa
não durou muito tempo.
AO - Isso em que
ano?
LCS - Por volta de 54/55. Bem, eu continuei
fazendo as minhas coisas,. enquanto o rádio evoluía,
tentando conviver com a chegada da TV. A Rádio Tamoio subia
de audiência, com seu esquema "música, exclusivamente
música", amparada em uma equipe de Bacharéis
do Disco. Tentei um teste por lá mas não deu pé.
Até que em 59 a JB se decidiu a buscar de fato o seu caminho
no rádio moderno. O responsável pela Rádio
era agora o dr. Nascimento Brito, tendo como diretor artístico
o jornalista e produtor Kosinski de Cavalcanti, que tinha sido da
Rádio Eldorado e da Tamoio, e teve a preocupação
de contratar uma equipe renovada. Levou, entre outros, Fernando
Veiga e Dymas Joseph, e este indicou meu nome ao Kosinski. O novo
diretor precisava de alguém que produzisse a simulação
de um concerto ao vivo, com palmas, evidentemente gravadas. Devia
ter um tema, um prólogo, uma bossa qualquer. O Dymas me chamou
e eu apresentei um esboço. O Kosinski gostou tanto que me
propôs um acúmulo de funções: ser assistente
dele e programador - coisa que eu não tinha feito até
então - trabalhando com música popular. Eu aceitei
porque o salário cresceu, e aí foi o meu batismo profissional,
realmente. Mas o Kosinski não ficou muito tempo.
AO - Em que ano
estamos?
LCS - Estamos no ano de 1959, exatamente. O
jornal havia modificado sua feição gráfica,
modernizada pelo Odilo Costa Filho, em 1956, com o Amílcar
de Castro, o Jânio de Freitas e o Reinaldo Jardim - que fazia
o suplemento literário e tinha sido redator da Rádio
JB. Com a saída do Kosinski, quem entrou pra direção
foi o Reinaldo Jardim - que além de poeta, gostava muito
de rádio. Ele deu toda liberdade à equipe e trouxe
novas idéias. Aí então se definiu a linha da
JB como "música e informação". Alternava
notícias, prestação de serviços e utilidade
pública com música selecionada. E era selecionada
mesmo: nem Roberto Carlos cantava lá - pra você ter
uma idéia dos preconceitos da época. Além de
programar, eu também escrevia. Um desses programas era o
Trailer Musical, só musica do cinema. Nele comecei a brincar
com o texto, quebrar a monótonia do "vamos ouvir...
acabaram de ouvir". Contava historinha, fazia humor com os
personagens do filme, e isso agradava. Ainda na época do
Kosinski foi lançado o Encontro na Discoteca, um programa
apresentado pelo Paulo Santos. Ele entrava pela discoteca com o
microfone na mão e conversava com os programadores, cada
um mostrava alguma coisa interessante em matéria de disco,
executado na hora. Isso deu um novo dinamismo pra Rádio JB,
que tomou sua feição definitiva com as idéias
do Reinaldo Jardim. Ele criou o Serviço de Utilidade Pública
e também inventou um chamariz para medir a audiência,
O Garoto Assobiador. Era um rapaz que assoviava um tema duas ou
três vezes por dia no meio da programação, e
o ouvinte tinha que escrever acertando as horas em que tinha ouvido
o assobiador. Os acertadores ganhavam discos. Outra invenção
do Jardim foi o miniprograma Música Também é
Notícia, com 10 edições diárias, do
qual fui o primeiro produtor. Apesar da canseira foi uma fase muito
estimulante, que me deu um "banho de rádio", porque
até então eu só contava com aquele curso da
Rádio MEC. Na JB aprendi a escrever programas de vários
tipos, redigir chamadas e selecionar discos, coisa que eu nunca
tinha feito. Esse período durou três anos, até
que em 62 saí de lá para fazer publicidade.
AO - A JB tinha
um gosto musical bem marcado. E entre outras coisas ela teve uma
participação importante na bossa nova. Fale um pouco
desse período.
LCS - Esse período da JB coincide com
o nascimento da bossa nova, que ela ajudou a partejar, na verdade.
Porque a preocupação com o repertório musical
da JB não admitia gravações de som antigo,
deficiente, ou acompanhamento pobre. A vestimenta musical de bom
gosto era uma preocupação da direção
e dos homens da discoteca - o Dymas Joseph, o Fernando Veiga, que
tinham grande experiência nisso. Então a bossa nova
surgiu trazendo um som diferente, a batida do João Gilberto,
embora com pequeno acompanhamento, violão em destaque. Me
lembro de uma mesa redonda dos programadores com o Reinaldo Jardim
e o Edino Krieger em que discutimos aquela novidade e concluímos
que valia a pena abrir espaço na JB para a bossa nova, e
aí começamos a garimpar cada disco que chegava. Ainda
no Encontro na Discoteca entrevistamos o produtor da etiqueta Festa
Irineu Garcia, que foi nos levar o LP Canção do Amor
Demais, com Elizete Cardoso, música de Tom e Vinicius. Me
lembro até hoje dessa conversa: Irineu Garcia se tornou uma
figura por quem tenho uma grande admiração.
AO - Ele era produtor
de discos?
LCS - Era funcionário público,
tinha um cargo no MEC, mas só pensava em música e
poesia. Ele começou registrando poetas dizendo seus versos.
Depois o selo Festa abriu o leque na literatura falada, chegando
a gravar uma radiofonização de O Pequeno Príncipe,
com Paulo Autran como narrador. Em seguida o Irineu enveredou pela
música, lançando um disco de modinhas cantadas por
Lenita Bruno até chegar ao Canção do Amor Demais.
Penso que essa posição da JB com relação
à bossa nova indica como a emissora foi importante. Apesar
de ser comercial, ela tinha a preocupação de oferecer
o melhor a seus ouvintes. Tinha também um tom descontraído,
marcado pelas vinhetas especiais gravadas pelo conjunto Os Cariocas,
e uma equipe de locutores do melhor nível - vozes como as
de Jorge da Silva, Eliakim Araújo, Sergio Chapelin, Maravilha
Rodrigues, Orlando de Souza, William Mendonça, tantos outros.
Nela existia uma certa aura, tanto que o número de órfãos
da JB é hoje muito grande, não só aqui no Rio,
mas por todo o Brasil.
AO - Qual era
o alcance da JB? Qual era o Ibope?
LCS - Nessa época, na virada dos anos
60, a JB com sua nova programação alcançou
o quarto e o quinto lugares no Ibope, onde praticamente estacionou.
Tínhamos a Nacional, que ainda resistia no 1º lugar,
mas assediada pela Tamoio, com o esquema 'música exclusivamente
música'. Em compensação, a JB tinha o grosso
da audiência nas classes A e B, de maior poder aquisitivo,
e uma carteira de patrocinadores de primeiro nível, incluindo
companhias de aviação e uns dez bancos. Então
ela chegou a ser das primeiras em faturamento. Música Também
é Noticia, que o Reinaldo Jardim inventou e eu produzi, teve
outros patrocinadores e outros produtores que me sucederam, mas
durou muito tempo. Assim como o sucesso de Pergunte ao João,
produzido pelo João Evangelista, e apresentado pelo Majestade
(apelido do locutor Jorge da Silva) e Maravilha Rodrigues. O alcance
era bastante razoável - tinha transmissor de 50 kws, novo,
bem posicionado, e que chegava a cobrir todo o Rio de Janeiro e
alcançava São Paulo à noite, principalmente.
Aliás, ela chegava bem na cobertura noturna da região
Sul, por vezes penetrando no Uruguai e Argentina. Anos mais tarde,
através das cartas dos ouvintes do Noturno, eu constatei
que o alcance era muito maior do que se pensava, que ela chegava
também em Jequié e outras cidades do nordeste. O crítico
Zuza Homem de Mello me revelou certa vez que sintonizava exclusivamente
a Rádio JB quando descia para o litoral paulista. Ele se
encantava com o estilo, com a programação musical
e as nossas produções.
AO - Saroldi então
você diz que essa experiência durou 3 anos, e depois
você se retirou para a publicidade, questão de grana?
LCS - Foi: grana e um certo desentendimento.
Um dia eu botei no ar em Música Também é Notícia
Elza Soares cantando Maria, Maria, Mariá, do Billy Branco.
O chefe da discoteca achou que fugia do nível da programação.
Discordei, mas como não conseguimos chegar a um acordo, entreguei
a produção do programa, o que representava um baque
no meu salário. Aí, vim a saber que havia uma vaga
de redator na Standard Propaganda. Fui e passei no teste, e o salário
compensava a saída da JB. A experiência com publicidade
me deu um outro aprendizado: o lado das agências, o contato
com a parte comercial, a Standard tinha grandes anunciantes naquela
época. Eu escrevia anúncio para rádio, televisão,
imprensa. Bem, aí chegam os anos turbulentos de 1960, com
o parlamentarismo, agitações, as reformas de Jango,
e de repente eu era um dos redatores da campanha pelo plebiscito
que trouxe de volta o presidencialismo. Mas depois de abril de 64
pedi demissão da Standard. Passei a ser free lance de publicidade
em vários lugares e a dirigir teatro na então Universidade
do Estado da Guanabara. Mas o clima político também
não me permitiu seguir adiante. Sobrevivi algum tempo numa
espécie de marginalidade, escrevendo teatro e redigindo publicidade.
Até que, por volta de 72, o Célio Alzer me chamou
para dividir uma quantidade de programas que ele produzia para o
Projeto Minerva, e comecei com uma série para Mossoró
- uma experiência de ação comunitária
pelo rádio.
AO - Que lembranças
você tem do clima da Rádio nesse momento?
LCS - Aquele início também me
levou a radiofonizar a série Quem Conta um Conto. O Allan
Lima era o diretor da Rádio. Eu escrevia, entregava os scripts
e alguém produzia. Eu não gostava muito do resultado,
nem o Allan. Aí ele pensou que eu poderia dirigir o radioteatro,
e levou meu nome ao superintendente, que era o Avelino. No dia marcado
para assinar o contrato, o Avelino voltou atrás, sem maiores
explicações, deixando o Allan contrafeito. Comecei
a somar com outras coisas e descobri que o meu nome não era
bem visto nos meios oficiais, talvez pelo que eu havia escrito em
matéria de teatro. Com isso, eu não entrei para a
Rádio MEC naquele momento. Tive depois uma temporada meteórica
e desastrosa em certa fase da TV Rio, até que apareceu uma
oportunidade de voltar à JB - ela estava se mudando do prédio
antigo da Avenida Rio Branco, onde eu havia trabalhado, para a Avenida
Brasil, a sede nova. Havia uma vaga entre os produtores e o Fernando
Veiga me ofereceu o lugar. A situação da tevê
era altamente complicada, não pagavam de maneira nenhuma
- era uma loucura aquilo lá! Então, entrei com uma
ação no ministério do Trabalho pra receber
o período que tinha ficado na TV Rio e fui para a JB, como
programador e produtor, isso em outubro de 74.
AO - Quem dirigia
a Rádio JB?
LCS - Era o Carlos Lemos, jornalista encarregado
do projeto da TV JB, então acumulando com a direção
da Rádio. Fernando Veiga tinha um cargo equivalente ao de
gerente e o Cleber Pereira ocupava a coordenação.
Ali reencontrei amigos como Célio Alzer, o Ney Hamilton,
o Elmo Rocha. O clima era muito bom, mas era outra época,
não a do edifício antigo, simpático, da Rio
Branco, e sim na sede moderna e um tanto fria da Avenida Brasil.
Vivia-se também aquele clima de repressão, de cuidado
com a divulgação de notícias. Mas me deram
uma incumbência boa: de participar do programa Noturno, que
era produzido em rodízio pelo Simon Curi e pelo Alberto Carlos
Carvalho, tendo Eliakim Araújo na apresentação.
Como o Eliakim tinha assumido o horário da manhã,
eles tinham que escrever o programa e separar os discos de véspera.
Fernando Veiga sugeriu que o Noturno ficasse mais jornalístico,
incluindo entrevistas sobre cultura, uma espécie de talk
show, digamos assim. O Eliakim continuaria como mestre de cerimônias,
mas as entrevistas seriam feitas por mim, durante o dia, quando
as pessoas podiam passar pela Rádio.
Como o Noturno ia ao ar de segunda a sexta, e na terça entrava
o Especial JB, aos cuidados do Simon, a produção era
dividida por três, dois dias para o Simon Cury, dois para
o Beto, mais dois para mim - que ainda fornecia as entrevistas gravadas
e editadas para os outros programas. O problema maior eram as férias
do Eliakim. Nessas ocasiões tínhamos de improvisar
com um locutor disponível. Mas a substituição
era difícil, porque o Eliakim já identificava o programa
- o Noturno começou em 72, estávamos em 74/75. Em
uma dessas ocasiões Fernando Veiga chegou pra mim e disse:
"Olha, eu acho que você podia, além de entrevistar,
apresentar o programa nas férias do Eliakim, pra gente ver
como é que fica. Acho que você pode descomplicar esse
problema." Concordei, mas os primeiros dias foram constrangedores:
eu não pegava a embocadura, até que comecei a brincar
e a me soltar diante do microfone, e a coisa passou a funcionar.
Claro que o Eliakim, quando voltou, não gostou nada de ser
deslocado do Noturno. Mas ele já era a principal voz da JB,
ocupando as manhãs da Rádio. Além de apresentar
as duas primeiras edições de O Jornal do Brasil Informa,
ele tinha um programa matinal de entrevistas, mais gravações
de comerciais. Passado o mal-estar inicial, a idéia vingou
e eu fiquei, de 76 em diante, produzindo e apresentando o Noturno..
AO - Era ao vivo?
LCS - Era gravado à noite, o que dava
maior atualidade às informações. Mas houve
época em que passamos a fazer ao vivo, o que possibilitava
a participação do ouvinte pelo telefone. Na verdade,
muitas coisas boas me aconteceram na época do Noturno, embora
eu não tivesse criado o programa. Com a saída do Simon
Curi fui encarregado pela direção de produzir também
o Especial JB, talvez o programa de maior prestígio da emissora.-
a biografia semanal de um grande artista, com chamada no jornal
e, no dia seguinte, a transcrição da entrevista no
Caderno B. Com o Beto Carvalho se voltando para outro setor, eu
fiquei sozinho nessa produção - tinha apenas um assistente,
e a participação do Ney Hamilton nas entrevistas.
O Noturno tinha uma hora de duração e era como se
eu tivesse uma cadeira de pista ou de calçada, num bar, onde
passasse todo mundo importante. Quem fosse lançar um disco,
uma peça ou se apresentar em show chegava para falar de seu
trabalho. Dentro em breve entrava também por literatura e
artes plásticas, cinema ou balé, enfim, toda a produção
cultural da cidade. Essa fase foi muito enriquecedora do ponto de
vista pessoal e profissional, até que mudanças da
programação da JB levaram à entrada das transmissões
de futebol e isso começou a colidir com o horário
do Noturno.
AO - Sobre a experiência
do Noturno, quanto tempo?
LCS - O Noturno nasceu em 72, eu cheguei em
outubro de 74 e produzi até 83, mais ou menos. Em 80 fui
premiado pelo Museu da Imagem e do Som com o Golfinho de Ouro em
Rádio. Pouco depois houve a oportunidade de uma experiência
nova em uma oficina de produção radiofônica,
na Rádio MEC. Você e Marlene Blois me propuseram trabalharmos
em conjunto com os funcionários da casa, com apoio do diretor
Heitor Salles. Os objetivos eram promover o aperfeiçoamento
profissional dos radialistas e rediscutir a linguagem do veículo,
estimulando idéias de novos programas. Dali saíram
frutos muito valiosos. Talentos se mostraram, como Zé Zuca
e Mário Negreiros, por exemplo, e o formato do programa SOS
Língua Portuguesa. Mas o principal foi o espaço aberto
para a troca de informações, o intercâmbio entre
as pessoas, arejando as cabeças e as formas de fazer rádio.
Daí nasceu um convite do Heitor Salles para que eu assumisse
a direção da MEC FM. Aceitei, até porque tinha
diminuído minha carga de trabalho na JB. Mas foi uma experiência
que durou pouco porque a direção da JB, quando soube
disso, fez uma proposta - a mim e ao Antonio Hernandez, que também
trabalhava nas duas emissoras - para darmos exclusividade ao Sistema
JB. Nessa altura estava acabando o futebol e a rádio buscava
nova formulação, mais jornalismo, all news, outras
atrações. Defendi a idéia de voltarmos a ocupar
o horário de fim de noite, tentando recuperar a audiência
do Noturno que havia se dispersado. Sugeri um programa maior, com
outro título, e uma feição um pouco diferente,
com dois apresentadores: o Mauricio Figueiredo e eu, nos revezando
pra poder dar conta da programação. O título
mudou para Arte Final Variedades. Os ouvintes aprovaram, porque
era feito ao vivo, não mais gravado. Para substituir o Especial
JB ia ao ar às terças-feiras, também ao vivo,
outra atração: As 10 mais da sua vida, série
que chegou a 219 convidados na JB e depois prosseguiu até
o número 394 na Rádio MEC. Era uma pesquisa sobre
a memória musical dos brasileiros, e mais tarde se transformou
no tema de minha dissertação de mestrado na UFRJ.
AO - Os telefonemas
iam ao ar?
LCS - Não: o assistente de produção
- primeiro o Jorge Martins, depois o David Trompowski, e até
o Sérvio Túlio exerceu essa função -
pegava as sugestões, opiniões e pedidos dos ouvintes
e passava ao apresentador. De repente, artistas iam lá; uma
noite, apareceram o Perry Salles e a Vera Fischer, na pausa de uma
excursão teatral que estavam fazendo. Uma noite surgiu João
Gilberto, infelizmente depois que eu saí. Nessa época
foi contratado para superintendente do Sistema JB o Geraldo Leite,
da Eldorado de São Paulo, que me convidou para coordenador
da Rádio em todos os horários. Eu coordenava o horário
noturno, e passei a responder pelo diurno também. Me lembro
que no prazo de dois meses colocamos no ar 14 programas novos na
Rádio. Escalando João Maximo, Tarik de Souza, Jota
Carlos e Ana Maria Badaró, entre outros, para produzir e
apresentar novas atrações. E com isso nós dinamizamos
a Rádio. Mas aí esbarramos em um obstáculo
que era o declínio do AM, no sentido de faturamento publicitário.
As agências e os clientes diretos privilegiavam a faixa FM
- que estava subindo de audiência - ou investindo em televisão.
Então chegou o dia em que a Rádio resolveu reduzir
os seus quadros. E, com isso, foi dissolvida a minha equipe, que
funcionava como um departamento cultural - nós tínhamos
um grupo de produção paralelo ao jornalismo, mas entrosado
com ele, gerando entrevistas e programas. Mas todo esse esforço
se chocou com a realidade econômica. Tive no entanto, ainda
nesse período, o prazer de participar de outros projetos
radiofônicos, um deles convidado pela BBC de Londres para
roteirizar e coordenar a pesquisa da série O Rádio
no Brasil, comemorativa dos 50 anos do Serviço Brasileiro
da BBC. O outro foi a descoberta da vitalidade e importância
da peça radiofônica na Alemanha, participando de seminários
sobre o assunto e escrevendo textos sobre temas brasileiros produzidos
pela emissora WDR, de Colônia.
AO - Fale um pouco
mais dessa questão da decadência da AM e ascensão
das FMs.
LCS - Bem, no Rio, a transmissão em
FM foi explorada primeiro pela Rádio Imprensa, mas como música
de elevador e sonorização de ambientes. No começo
da década de 1970 surgiram a Eldorado, a Tupi e a JB, em
73, quando são lançados os novos aparelhos de som
com faixa de freqüência modulada e som estéreo.
Essas emissoras se apresentavam voltadas para a classe A e caracterizadas
por uma programação musical sofisticada, com o mínimo
de conversa. A JB/FM transmitia o dia inteiro grandes orquestras,
grandes orquestrações populares internacionais, e
de 20 às 23 horas entravam então os Clássicos
em FM, uma programação especial, a cargo do Antonio
Hernandez e do Edino Krieger, que editavam um boletim distribuído
gratuitamente com o mês inteiro da programação.
Os grandes anunciantes interessados na classe A, como companhias
de aviação, fabricantes de bebidas etc. patrocinavam
esses programas. Por paradoxal que pareça, até a redemocratização
do país contribuiu para piorar as coisas, trazendo concessões
de emissoras a políticos, religiões pentecostais e
outras, menos interessadas na linguagem radiofônica. Aí,
toda a faixa AM ficou muito poluída, o que transformou a
JB em um corpo estranho - uma rádio que visava qualidade,
tinha produções culturais, mantinha uma equipe jornalística
numerosa, e que não conseguia sair do vermelho no fim do
mês. Então, chegou o momento do castelo cair ou ter
suas pretensões reduzidas. A redução não
foi suficiente, até que a Rádio foi vendida.
AO - A Rádio
Cidade surge como?
LCS - O Sistema de Rádio JB percebeu
que tinha uma boa FM voltada para classe A, e uma AM voltada mais
ou menos na mesma direção, embora deficitária..
E que precisava de uma rádio capaz de alcançar outro
público, mais diversificado. Devia ser em FM, tanto por ser
um modelo de instalação mais econômica quanto
por representar um mercado em ascensão.Daí descobriram
estar à venda uma emissora de Niterói, muito modesta,
na qual puseram o nome fantasia de Rádio Cidade, e que foi
instalada no prédio do JB, junto com as outras. Nesse ponto,
é bom esclarecer um fato meio controverso, já que,
segundo tenho visto e lido nos últimos tempos, não
faltam "pais" para filhos bonitos e de sucesso. Mas quem,
na verdade, sugeriu e implantou o modelo de locução
e programação da Rádio Cidade foi o Carlos
Towsend, sobrinho da Condessa Pereira Carneiro. Esse rapaz tinha
estudado rádio nos EUA e voltara empolgado com o estilo das
rádios norte-americanas. Existiam duas propostas: a de uma
emissora convencional, parecida com as outras, porém mais
popular; e o modelo que o Towsend propunha, de 5 ou 6 apresentadores-operadores,
podendo improvisar sobre os textos, fazer humor, e com uma serie
de bossas, além da novidade da programação
musical voltada para o gênero discoteca. Era o formato pra
conquistar a audiência jovem, que estava afastada do rádio,
pois a faixa FM só pensava no público acima dos 30
anos. A direção calculava que a Rádio Cidade
levaria pelo menos três meses para chegar ao primeiro lugar
e ela chegou no primeiro mês - o Ibope se surpreendeu quando
flagrou os motoristas ouvindo uma rádio que eles não
sabiam qual era, a quem pertencia. Só então o Sistema
JB promoveu campanha publicitária e a Cidade foi um acontecimento,
sem dúvida nenhuma. A JB passou a ganhar em duas frentes:
na classe A madura, na JB FM, e também na juventude das classes
A/B/C, com a Rádio Cidade. Com isso, as grifes e as butiques
começaram a anunciar na rádio. Podia-se lamentar o
pouco espaço da mpb na programação da Cidade.
Mas reconheço que o Carlos Towsend apostou na novidade da
época, o gênero discoteca, e dirigia os comunicadores
com pulso firme. Era um modelo novo que o jovem adotou, porque era
dançante e irreverente - características ausentes
do rádio da época.
AO - Retomando,
então. Você sai da JB e vai para onde?
LCS - Eu saí em 92 da JB e em 93 fui
para a Rádio Nacional - o que me interessava muito por causa
do livro Rádio Nacional o Brasil em Sintonia, que eu tinha
escrito com a Sonia Virginia Moreira e que tinha ganho em 84 um
premio da FUNARTE. Eu continuava interessado em compreender o fenômeno
da Rádio Nacional e ampliar a obra, atualizando observações
- e o fato de vê-la por dentro foi muito importante. No fim
desse mesmo ano, o Jorge Guilherme veio para a Rádio MEC
e me convidou, e eu fiquei durante algum tempo produzindo programas,
prestando serviços para a MEC.
AO - Como era
a Rádio nesse momento? Como você sentia a Rádio
nesse momento, em relação com as outras que você
conhecia?
LCS - Para mim era muito visível um
certo clima de serviço público na Rádio MEC,
porque eu vinha de muitos anos em empresa particular. Mas quando
retornei tive a impressão de que a realização
da oficina havia contribuído para aquecer o ambiente de trabalho.
Encontrei aqui, nos anos noventa, um clima mais estimulante, mais
participativo, as pessoas menos temerosas de enfrentar novos desafios.
Mas nesse momento eu ainda digeria o trauma de ter visto a JB acabar,
contabilizava outros naufrágios, como o da Nacional, e sentia
não ser impossível que o mesmo acontecesse à
Rádio MEC, por qualquer acidente de percurso. Imaginava como
seria se os ouvintes não fossem apenas receptores, mas se
houvesse alguma forma de participação deles em favor
da emissora que sintonizam, como acontece em outros países.
Se isso é mais utópico com relação às
emissoras comerciais, não parece contrariar a filosofia das
emissoras públicas ou oficiais, ao contrário. Daí
começou a surgir a idéia de uma coisa que nunca foi
tentada entre nós, e assim nasceu a Sociedade dos Amigos
Ouvintes da Rádio MEC, isso em 1991/2.
AO - Foi um ano
trabalhoso, aquele. Discussão de estatuto, essa coisa toda
de como fazer, e o apoio importante do Sergio Cabral, pai.
LCS - É verdade. Mas em abril de 92
a Sociedade já estava de pé, para dar a oportunidade
da sociedade civil se manifestar com relação ao rádio.
Pois o Governo só via o rádio em termos quantitativos,
falando em implantar 10 mil emissoras no ano 2000. Hoje, estão
em 3 mil e poucas, imagine se tivéssemos 10 mil, que loucura
não seria - sem patrocinadores, sem dinheiro, o país
em crise. Então tudo isso nos leva à necessidade de
se pensar melhor o rádio, se pensar o destino do rádio,
para onde ele está indo Afinal, eu vivi a Era do Rádio
- não como profissional, mas como ouvinte e cidadão,
acompanhei a transição para o rádio moderno,
participei do rádio contemporâneo. Constatei que de
qualquer forma o rádio sobrevive, se comunica, presta serviços
e informa, acompanha o ouvinte. No período final da JB eu
vi uma realidade desmoronar. A Rádio tinha prestado grandes
serviços à sociedade brasileira e eu não tinha
ilusões de que ela pudesse sobreviver às dificuldades
enfrentadas. Ao mesmo tempo, me chamava a atenção
a marginalização do ouvinte nesse processo, como se
ele não tivesse nada com isso, fosse um alienado. Felizmente
as nossas conversas frutificaram no sentido de tentarmos mostrar
a possibilidade da sociedade civil se envolver no assunto rádio,
apoiar uma emissora tentando preservar o que constitui a sua característica,
a sua filosofia básica, a sua essência - no caso da
Rádio MEC o rádio educativo, uma raridade entre nós,
porque só tem mesmo a Rádio MEC fazendo isso e mais
algumas emissoras universitárias espalhadas pelo Brasil,
quase todas lutando com todo tipo de carências. A Rádio
MEC tem mais visibilidade, porque ela está presente na ex-Capital
da República e também em Brasília. Então,
ela deveria ter toda atenção do poder público
para cumprir sua missão, e eu acho que o fato de existir
uma sociedade de amigos que seja uma espécie de consciência
critica dentro do processo, pode trazer resultados. E a repercussão
da Sociedade de Amigos da Rádio MEC provou que havia um espaço,
tanto que acorreram pessoas que, na verdade, nem conhecíamos,
como o professor Jorge Luiz de Souza e Silva - que acabou presidindo
a primeira diretoria - mais o apoio de gente como a professora Maria
Yeda Linhares, do Edino Krieger, do Ary Vasconcelos, e tantos outros
que acorreram espontaneamente para fundar a Sociedade de Amigos.
Isso prova que havia uma razão de ser pra ela. Entre as propostas
trazidas pela Sociedade de Amigos Ouvintes da Rádio MEC havia
uma que frutificou e que era exatamente contra a rotina dos programas
gravados. Tudo era gravado - as pessoas não sabiam mais fazer
programas ao vivo, economizando fitas, evitando desperdício
de tempo, de operadores e tudo mais - e essa proposta frutificou.
Tanto que, hoje, a própria Rádio mantém o Ao
Vivo entre Amigos, e outros programas do gênero no auditório
sinfônico. Também resultou positiva a Biblioteca, embora
não tenha uma procura muito grande de consulta, mas está
ai a Biblioteca Tude de Souza, da SOARMEC, instalada com seus volumes
de uma literatura básica e até bastante atualizada
sobre rádio, para servir ao publico em geral, aos estudantes
e pesquisadores e aos profissionais de rádio.
AO - Que outras
realizações da SOARMEC você citaria?
LCS - Acho que tem sido estimulante a participação
em pequenas coisas, como a instalação, nos corredores
da Rádio, de retratos mostrando quem foi quem dentro da Rádio
MEC, como o próprio Roquette-Pinto e a equipe de produtores
e programadores de outros tempos - Cecília Meireles, Fernando
Sabino, Carlos Drummond. Enfim, essa preocupação de
documentar o passado e o presente da Rádio é uma coisa
positiva, embora muita gente não goste disso, ou se sinta
melindrada com isso. Mas eu acho positivo, sim, porque é
um confronto pra mostrar como o rádio era feito, porque temos
que aproveitar a experiência do passado, não copiá-la,
mas para traduzi-la de uma maneira atual, contemporânea. Um
exemplo disso foi a série Visão da Literatura, com
adaptação em capítulos da leitura do Memorial
de Aires, de Machado de Assis, que foi feito na gestão de
Regina Salles com o apoio do Fundo Nacional de Educação.
Foi um trabalho que trouxe de volta a narrativa sonora, um gênero
praticamente ausente do rádio. Até hoje a BBC faz
isso: um livro é lido antes da meia-noite, em capítulos,
também. Então esse exemplo deveria frutificar.
Outra coisa seria o documentário radiofônico. Nós
fizemos alguns, sobre Roquette-Pinto, sobre Paulo Tapajós
e sobre Almirante, que eu me recorde. Então, é preciso
que o rádio não seja apenas musical ou apenas jornalístico.
Uma emissora educativa não pode ficar num samba de uma nota
só. Ela tem que variar a programação, tem que
se preocupar, por exemplo, com a língua portuguesa. Se os
jornais tem agora colunistas que focalizam os erros mais comuns
de nosso idioma, e isso tem leitores, por que o rádio - que
é muito mais eufônico e coloquial - não faz
isso? Mas deveria ter, como já teve, aliás, não
só português, como outras línguas. Hoje em dia
o espanhol é a segunda língua mais estudada e o Mercosul
é uma realidade. Nós e a Argentina estamos muito mais
ligados que em qualquer outra época da nossa história,
então não vejo porque não ter um programa de
espanhol. Outra iniciativa da SOARMEC que deu certo foi a de lançamentos
de discos do acervo da Rádio, e que se expandiu, tomou até
outro rumo mais atual, feito pela Rádio MEC.
Então, tudo indica que, nos quase 11 anos da Sociedade dos
Amigos Ouvintes da Rádio MEC, o saldo é positivo.
Lastimo porém que as comemorações dos 80 anos
do rádio no Brasil e dos 80 anos de fundação
da Rádio MEC estejam aquém do que se poderia esperar
desse ano, como gerar debates, seminários, estudos, publicações
que pensassem melhor o rádio. Esta seria a oportunidade de
uma grande comemoração, que não está
sendo aproveitada. Tenho a impressão que isso seria mais
que necessário: seria urgente. Não se justifica que
o rádio só seja comentado quando faz aniversário,
o que acontece de 10 em 10 anos. Só em uma data redonda os
jornais e as televisões abrem espaço para o rádio
e o próprio rádio abre espaço pra ele. É
absurdo, porque esse espaço deveria ser permanente. Enquanto
isso, a Sociedade de Amigos Ouvintes está aí, com
uma vela acesa, esperando contribuições, esperando
trocas, esperando oportunidades de trocas maiores, e de trocar influências
e colaboração. Por que não?
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