(Terceira parte)
"O rádio é a escola dos que não têm
escola. É o jornal de quem não sabe ler; é o mestre de
quem não pode ir à escola; é o divertimento gratuito do
pobre; é o animador de novas esperanças, o consolador
dos enfermos e o guia dos sãos - desde que o realizem
com espírito altruísta e elevado". E sempre concluía
suas falas com a frase que se tornaria o lema de sua rádio:
"Pela cultura dos que vivem em nossa terra. Pelo
progresso do Brasil".
O espírito "altruísta e elevado"
a que Roquette se referia significava uma rádio sem fins
comerciais - ou seja, sem anúncios. Muito bem, mas quem
arcava com os custos das transmissões? Roquette instituiu
um fundo de auxílio à rádio, mantido por associados (que
chegaram a três mil em poucos anos) - daí o nome Sociedade.
Esse fundo era enriquecido com doações "espontâneas"
de casas comerciais.
Quando se viu com mais dinheiro em caixa,
a rádio começou a criar um corpo de funcionários fixos
e remunerados. Era o início da profissionalização. O primeiro
locutor de verdade (speaker, como se dizia e
se continuaria a dizer por muitos anos) parece ter sido
Rubey Wanderley. Na sua esteira vieram outros locutores,
programadores, roteiristas e discotecários, trabalhando
por salário. Aos poucos, o dia-a-dia da rádio começou
a sair das mãos da Academia de Ciências, embora isso não
alterasse o seu espírito: Roquette cuidava de que ela
continuasse educativa e se mantivesse à distância de qualquer
contaminação política, comercial ou excessivamente popularesca.
Mas era de prever que a Rádio Sociedade não ficaria sozinha
por muito tempo no "éter".
Em 1924, surgiria a Rádio Clube do Brasil,
também nos mesmos moldes de uma "sociedade"(no
caso, "clube") de contribuintes. Nos dez anos
seguintes, e só no Rio, apareciam as rádios Educadora,
Mayrink Veiga, Philips, Transmissora, Guanabara, Ipanema,
Farroupilha, Jornal do Brasil, Tupi e, em 1936, a Nacional.
Em São Paulo e no resto do país, outras estações também
pulularam. Em pouco tempo, a orientação geral do rádio
brasileiro era outra. Afastaram-se anos-luz da que fora
um dia sonhada por Roquette-Pinto. E a própria Rádio Sociedade
teria de espremer suas doses maciças de alta cultura para
programar um pouco de "entretenimento".
O ídolo Francisco Alves apresentava ao
microfone da Rádio Sociedade um grande sucesso carnavalesco
de Ismael Silva, Newton Bastos e dele próprio, o samba
"Nem é bom falar". A certa altura da letra,
Chico Alves cantou: "Tu falas muito, meu bem,
e precisas deixar / Tu falas muito, meu bem, e precisas
deixar / Senão eu acabo dando pra gritar na rua / Eu quero
uma mulher bem nua!".
Em seu novo apartamento na Avenida Beira-Mar,
Roquette-Pinto escutava sua transmissão. Ao ouvir Francisco
Alves cantar pelo microfone que "queria uma mulher
bem nua", quase teve uma coisa. Ligou no ato para
a emissora, chamou urgente um encarregado e mandou-o tirar
a rádio do ar. Em seguida mandou chamar o próprio Francisco
Alves e passou-lhe uma espinafração:
"Seu Chico, o senhor quer uma mulher
bem nua. Eu também quero uma mulher bem nua. Só que o
rádio não é lugar para querer isso!"
Mas não adiantava. O decreto-lei 21.111,
de 1/3/1932, assinado pelo presidente Getúlio Vargas,
autorizava a veiculação de propaganda comercial pelas
rádios. Com isso, como uma avalanche, surgiram os patrocinadores,
os cachês artísticos, os programas de auditório, os humorísticos,
as transmissões esportivas, os anúncios e os jingles
ao vivo. Os aparelhos baratearam e o rádio tornara-se,
finalmente, acessível a todo mundo. E, de uma hora para
outra, tornara-se o maior fator de divulgação da música
popular. Os grandes cartazes (como eram chamados os cantores
e compositores mais famosos) passaram a ser disputados
pelas emissoras: Carmem Miranda, Sylvio Caldas, Mário
Reis, Almirante, Ary Barroso, Lamartine Babo, Orlando
Silva e, claro, Francisco Alves. Para ter esses nomes
em seu cast, as rádios investiam em equipamento
e novos programas, pagavam-lhe fortunas e brigavam como
cães adultos pela preferência do público.
Roquette-Pinto não entrava nessa briga.
Para ele, o rádio deveria continuar educativo - pelo menos,
a sua rádio. Até fizera algumas concessões, como a de
acolher em seus quadros o já famoso "Programa Casé",
de Ademar Casé - um berço de talentos como Noel Rosa,
Haroldo Barbosa, Paulo Roberto, Nássara, Evaldo Rui, Sandi
Cabral. Tudo corria bem e ele gostava de música popular,
mas, assim que se descuidou, Francisco Alves pediu mulheres
nuas pelo microfone.
Nadando contra a corrente, Roquette continuava
a não admitir propaganda comercial ou política em sua
emissora - o que a condenava a um gueto no dial. Mantida,
como sempre, apenas pelos "sócios", a Rádio
Sociedade não tinha dinheiro para modernizar o equipamento
e ampliar a potência a fim de enfrentar a concorrência.
As óperas completas que transmitia (e que atraíram milhares
de jovens brasileiros para o canto lírico) estavam sendo
sufocadas em volume por "O Teu Cabelo Não Nega".
Roquette desejava apenas que houvesse espaço para todo
mundo. Mas, agora, o ideal do rádio educativo no Brasil
estava em perigo.
Em 1933, convenceu seu amigo, o educador
Anísio Teixeira, secretário da Educação, a fundar uma
rádio-escola a ser mantida pela prefeitura do Rio, para
servir de exemplo a outras no futuro. Anísio topou, Roquette
emprestou-lhe equipamentos e funcionários da Rádio Sociedade
e, com isso, a Rádio Escola Municipal, PRD-5, foi para
o ar no ano seguinte. Em troca, Anísio pediu que ele fosse
o seu primeiro diretor. Roquette aceitou. Talvez a nova
estação do Largo da Carioca (rebatizada em 1945 como Rádio
Roquette-Pinto) pudesse escapar ao comercialismo que parecia
engolir todas as outras, inclusive a sua.
Para evitar a morte ou a desfiguração
da Rádio Sociedade, Roquette só enxergava uma solução:
reverter seus canais a um órgão oficial - o Ministério
da Educação e Saúde.
Em julho de 1936, quando resolveu se desfazer
de sua rádio, Roquette-Pinto chamou seus filhos Paulo
de 27 anos, e Beatriz de 25, à Rua da Carioca. Informou-lhes
que, aos 52 anos, era um homem pobre e que a única herança
que poderia deixar-lhes era a rádio, para que a dirigissem
como uma rádio comercial. Só o prefixo, já então PRA-2,
valia uma fortuna. "Mas não quero que ela se transforme
numa rádio comercial", acrescentou.
Ao seu ver, ninguém - nem ele, nem seus
filhos - poderia salvá-la desse destino. Somente um órgão
oficial teria meios para isso.
Beatriz entendeu o que seu pai queria
dizer. E nem esperou pela opinião do irmão. Antecipou-se
e perguntou:
"É esse o seu ideal, papai?"
"É", respondeu Roquette.
"É tão raro um homem realizar seu
ideal, meu Deus. Dá a rádio, papai, nem se discute".
Roquette então perguntou por carta a Gustavo
Capanema, ministro da Educação e Saúde, se o ministério
se interessaria pela rádio com tudo o que havia dentro:
instalações, equipamento, biblioteca, laboratório de ensaios
científicos, discoteca, instrumentos musicais, partituras,
arquivo, móveis e utensílios, além, é óbvio, da estação
transmissora em perfeito estado de funcionamento, com
seus canais de ondas médias e curtas, e um quadro completo
de locutores e técnicos com 13 anos de experiência. Tudo
isso sem dívidas ou ônus de espécie alguma para a União
e até com dinheiro em caixa. Única e irrevogável condição:
a de que a rádio permanecesse fiel ao seu lema cultural
e educativo, sem qualquer vinculação comercial, política
ou religiosa.
Capanema respondeu que o presidente Getúlio
Vargas aceitava e agradecia, mas sugeria que a reversão
fosse feita através do Departamento de Propaganda e Difusão
Cultural. Ao ler isso, um alarme tocou na cabeça de Roquette.
Ele pareceu adivinhar que, em menos de um ano, o tal departamento
se tornaria o infame Departamento de Imprensa e Propaganda
(DIP) do Estado Novo. Ora, ninguém o estava obrigando
a desfazer-se de sua rádio. Sem hesitar mandou outra carta
a Capanema enfatizando que a reversão seria feita "ao
Ministério de Educação do povo, não ao governo".
E só então Capanema entendeu e encerrou a correspondência,
garantindo que o ministério a aceitava sem discussões,
no termo em que fora proposta.
Essas cartas foram os anticorpos que,
no futuro, garantiriam a integridade da rádio contra os
vários órgãos que tentariam apossar-se dela.
A reversão foi sacramentada no dia 7 de
setembro de 1936. Na cerimômia oficial, realizada no terceiro
andar do prédio da Rua da Carioca, Capanema fez-se acompanhar
por seu chefe de gabinete, Carlos Drummond de Andrade.
Vinte cinco anos depois, Drummond recordaria numa crônica
que a cerimônia "tinha qualquer coisa de casamento
no seio de uma família muito unida, que via a filha sair
nos braços do rapaz escolhido livremente; sim, um excelente
rapaz, tudo estava ótimo, os dois seriam muito felizes
- mas... quem sabe?"
A imagem lhe ocorrera porque Roquette
passara os canais a Capanema com a frase:
"Entrego esta rádio com a mesma emoção
com que se casa uma filha".
Roquette saiu dali com Beatriz para um
pequeno corredor nos fundos do andar e chorou de antecipada
saudade. Com os olhos também molhados, Beatriz voltou
para ajudar Drummond a colar os selos do ministério nos
móveis e objetos da rádio.
Naquele dia, há exatamente 60 anos, a
Rádio Sociedade do Rio de Janeiro deixava de existir,
para que nascesse a Rádio Ministério da Educação.
Em 1924, Roquette candidatara-se à Academia
Brasileira de Letras na vaga do poeta Vicente de Carvalho,
mas fora derrotado. Em 1927, foi eleito na vaga de Osório
Duque Estrada. Usou o fardão na noite de posse - e nunca
mais. Um ano antes, tornara-se diretor do Museu Nacional.
Bem ao seu estilo, em todo o tempo em que partejou o rádio
no Brasil e esteve à frente da emissora, Roquette nunca
interrompeu seu trabalho científico: naquele período,
publicou dezena de palestras e monografias sobre antroplogia,
medicina, história e lingüística. Entre uma e outra, traduziu
Goethe. Um jornalista francês escreveu-lhe perguntando
se tinha uma divisa. Roquette repondeu: "Crer e agir".
E explicou que nunca agira sem crer e que, depois de crer,
nunca deixara de agir.
Agir, para ele, era uma segunda natureza.
Em 1933, como um menino curioso que - em vez de destruir
um brinquedo para saber como funciona - constrói esse
brinquedo para vê-lo funcionar, Roquette montara uma televisão
primitiva, à base de processos mecânicos usando o disco
de Kipkov. Com isso, simplesmente realizou a primeira
transmissão de imagens no Brasil. Instalou a emissora
na sede da rádio na Rua da Carioca, um receptor na casa
de seu amigo Flávio de Andrade na rua Cândido Mendes,
em Santa Teresa, e fez uma única transmissão. As transmissões
mostravam cartazes com letras A, B e I, formando a sigla
da Associação Brasileira de Imprensa. No futuro, o cronista
Antônio Maria destacaria o fato de que, graças a Roquette,
as primeiras imagens de TV mostradas no Brasil não foram
as de um anúncio comercial ou um retrato do presidente
da República, mas o nome da entidade dos jornalistas.
Mas Roquette sabia que ainda era cedo
para a televisão. Até lá, havia muita coisa a ser feita,
como salvar a rádio ou, se não conseguisse, passá-la para
um órgão público - o que acabou acontecendo. Depois de
doá-la ao ministério da Educação, Roquette ainda a dirigiu
por boa parte de 1937 antes de entregá-la a seu sucessor,
Fernando Tude de Souza. Só que, antes disso, no próprio
ano de 1936, ele já se envolvera com a que seria a última
paixão de sua vida: o cinema.
Um vendedor de eletrodomésticos foi procurá-lo
no Museu Nacional tentando empurrar-lhe alguns para o
museu. Chamava-se Humberto Mauro, tinha 39 anos e era
famoso porque, mesmo morando na pequena Cataguazes (MG),
fizera filmes que se tornariam clássicos do cinema brasileiro,
como Tesouro Perdido (1927) e Brasa dormida
(1928). Mudara-se para o Rio em 1930 para trabalhar no
Cinédia, fizera Ganga Bruta (1933) e acabara
de rodar Cidade-mulher, com música de Noel Rosa
e Assis Valente. Era um gênio intuitivo, mas, nas horas
vagas, tinha de virar-se vendendo enceradeiras e aspiradores
de pó. Roquette não lhe comprou nenhum - mas comprou o
próprio Humberto Mauro com a proposta: "Você vai
trabalhar comigo. Vamos fazer o cinema educativo no Brasil!"
O Instituto Nacional do Cinema Educativo
(INCE) foi fundado por Roquette naquele mesmo ano de 1936.
A partir de O Descobrimento do Brasil (com música
de Villa-Lobos), permitira a Humberto Mauro rodar, nos
anos seguintes, cerca de 300 documentários em curta-metragem,
de caráter científico, histórico e da poética popular.
Quase todos sob orientaçao de Roquette, que também escreveu
e narrou muitos deles. No INCE, eles formaram toda uma
geração de técnicos até 1947, quando Roquette, aos 63
anos, afastou-se da presidência e deixou Mauro em seu
lugar.
O INCE funcionava num prédio da Praça
da República, dois andares acima das novas instalações
da Rádio Ministério da Educação. Donde, até sem querer,
a menina-dos-olhos de Roquette-Pinto continuava sob seu
olhar vigilante e satisfeito. No decorrer dos anos ele
apreciou o progresso da sua criação. Suas idéias originais
- "maluquices líricas", como as chamava Drummond
- foram conservadas, desenvolvidas e, com os recursos
técnicos e financeiros dados pelo governo, até ampliadas.
Roquette maravilhava-se ao ver que a rádio
podia manter várias orquestras como a sinfônica, de câmara,
de sopros e a afro-brasileira; um quarteto vocal e outro
de cordas; um conjunto de música antiga; um coral, um
trio, vários duos e um fabuloso quadro de solistas. Os
maestros responsáveis por eles chamavam-se Eleazar de
Carvalho (regente do programa "Música para a juventude",
que ficaria décadas no ar), Alceo Bocchino, Radamés Gnattali,
Guerra Peixe, Francisco Mignone, Iberê Gomes Grosso, Abigail
Moura e muitos outros - a nata musical do Brasil. Roquette
acompanhava também os concursos de orfeões promovidos
pela rádio, somando às vezes mais de 700 vozes. Tudo aquilo
nascera de seu pioneirismo.
Roquette gostava também de ver os programas
educativos em forma de radioteatro e vibrava com os programas
sobre literatura, poesia, teatro, cinema, folclore e jazz.
Mas, provavelmente, seu grande orgulho era saber que as
aulas do "Colégio do ar", transmitidas diariamente
em dois turnos durante o ano letivo, contavam com milhares
de alunos matriculados. Era o sonho feito realidade: o
rádio como professor.
Em seus últimos anos, a imagem de Roquette-Pinto,
já enorme, cresceu às dimensões de uma tal lenda. E os
que seguiam à distância as suas realizações nem imaginavam
que, desde pelo menos 1935, qualquer movimento físico
lhe provocava dores praticamente incontroláveis. Roquette
passara a sofrer de espandilose - um processo degenerativo
da espinha vertebral que o foi deformando aos poucos,
curvando-o para a frente e impedindo-o até de virar o
pescoço sem virar também o tronco. Era cruel que isso
lhe acontecesse - logo a ele, que sempre convivera tão
harmoniosamente com sua saúde, seu corpo e sua beleza.
Para combater a dor, Roquette habituara-se à aspirina,
que tomava, não de uma em uma, mas às colheradas, várias
vezes ao dia. Mas nada disso impediria que continuasse
ativo até o fim. À vezes até desnecessariamente.
A Universidade do Brasil ia homenageá-lo
com o título de professor honorário, a mais alta láurea
universitária. Com quase 70 anos, Roquette subiu pela
escada e chegou cansado ao andar onde se daria a cerimônia.
Seu amigo, o cientista Carlos Chagas, perguntou-lhe por
que não usara o elevador.
"Sou um homem disciplinado",
respondeu Roquette. "O contínuo lá embaixo me disse
que usasse a escada".
Roquette sofreu um derrame fatal no dia
18 de outubro de 1954, em seu apartamento na Avenida Beira-Mar,
enquanto escrevia um artigo para o Jornal do Brasil.
Apartamento que insistia em viver sozinho, com os poucos
aposentos, inclusive o banheiro, entulhados de engenhocas
mecânicas que inventava para se divertir. Nem todas iriam
funcionar e ele sabia disso. Mas suas principais criações
- Rondônia e a Rádio Ministério da Educação e
Cultura - estavam mais vivas do que nunca.
E ele também sabia.