(Segunda parte)
"Nenhum dos tipos da população brasileira
apresenta qualquer estigma de degeneração antropológica",
escreveu ele. "Ao contrário. As características de
todos eles são as melhores que se poderiam desejar. [...]
O número de indivíduos somaticamente deficientes em algumas
regiões do país é considerável. Isso, porém, não corre
por conta de qualquer fator racial; deriva de causas patológicas
cuja remoção, na maioria dos casos, independe da antropologia.
É questão de política sanitária e educativa. [...] A antropologia
prova que o homem no Brasil precisa ser educado e não
substituído".
O alcance de Rondônia não ficaria
por aí. O livro faria a glória do futuro general e marechal
Rondon, embora esse também desconhecesse por completo
o sentimento da vaidade. Um único índio que escapasse
ao martírio era-lhe mais importante que os quilos de medalhas
que espetavam em sua farda. Mas a verdade é que, sem o
livro de Roquette, ninguém poderia calcular a dimensão
da obra de Rondon, muito menos seguir o seu exemplo. Mesmo
assim, Roquette não se dava por satisfeito. Para que o
Brasil soubesse o quanto de seu território devia a Rondon,
propôs que esse território - entre os paralelos 8 e 14
ao Sul do Equador e entre os meridianos 12 e 20 a Oeste
do Rio de Janeiro - se chamasse, justamente, Rondônia.
A idéia, lançada por Roquette em 1915, numa conferência
no Museu Nacional, seria afinal adotada... 41 anos depois,
em 1956, quando uma área muito menor, a do território
do Guaporé, passou a chamar-se Rondônia.
Onde, por sinal, não existe até hoje uma
única cidade, rua ou arraial com o nome de Roquette-Pinto.
Pouco depois de Rondônia, em
1920, Roquette, de passagem, conquistou a admiração de
um povo que dedicara seus últimos 50 anos a olhar para
o Brasil com profundo ressentimento e rancor: o do Paraguai.
Em 1927, no seu discurso de posse na Academia Brasileira
de Letras, ele defenderia a convicção de que fora o Brasil
o responsável pelo início da Guerra do Paraguai, contra
a opinião do acadêmico a quem sucedia na cadeira 15: o
poeta Osório Duque Estrada, patriotíssimo autor do Hino
Nacional.
Ao ouvir aquilo, muitos imortais
ficaram inquietos dentro dos fardões. E, já prevendo que
alguns ali pudessem acusá-lo de pouco patriota, Roquette
jogou cal nos possíveis ataques:
"Pelo progresso de minha terra, tenho
arriscado contente, e mais de uma vez, a vida que ela
me deu. Mas só compreendo o patriotismo que não precisa
de mentiras para manter sua existência".
Tanta coragem e determinação tornavam
Roquette-Pinto um vulto quase onipresente na cena brasileira.
As pessoas o apontavam ao vê-lo passar nas ruas, quase
sempre com um charuto entre os dedos. Quando não era o
charuto, o objeto mais presente em sua mão era um lápis
de duas cores (vermelho e azul), com que circulava e sublinhava
qualquer texto que o interessasse. Sabia-se que falava
francês, italiano, espanhol, inglês, alemão, tupi e segundo
ele próprio, "um pouco de latim e uma reles lambujem
de grego". Mas podia ser tudo, menos um pernóstico:
"Gosto muito de gíria e tenho horror à gramática.
Se escrevo certo, é sempre por acaso", dizia. E sabia-se
também que tocava piano, que escrevia poemas sem intenção
de publicá-los, que desenhava e pintava e que era capaz
de montar ou desmontar qualquer aparelho mecânico ou elétrico:
"Gosto imenso de trabalhar com as mãos. As mãos é
que fazem os homens inteligentes".
Numa época pobre em comunicação e rica
em mexericos, sabia-se também que ele e sua mulher se
haviam separado. Separações eram chocantes naquela época,
e ainda mais entre pessoas públicas. Mas, no seu caso,
não havia motivo para mexericos. Como sua família sempre
soubera, Roquette simplesmente não era "casável".
Sua inquietação não lhe deixava muito tempo para os prazeres
domésticos ou para desfrutar os dois filhos - Paulo, nascido
em 1909, e Beatriz, em 1911. E Riza, ao contrário, era
uma mulher com acentuado gosto pelas coisas do lar. Como
nenhum dos dois podia mudar sua natureza, afastaram-se
de comum acordo, chorando um nos braços do outro. Anos
depois, Riza casou-se com um oficial da Marinha, ao passo
que Roquette tornou-se o melhor partido do Rio de Janeiro,
disponível para as muitas mulheres que o interessavam.
Mas nunca voltaria a casar-se.
Não eram apenas as mulheres que o interessavam
- tudo o interessava. Dez anos antes, a caminho de juntar-se
a Rondon na selva, Roquette percebera a importância da
telegrafia na integração dos grotões mais distantes. Agora,
em 1922, durante as comemorações do Centenário da Independência
do Brasil, ele começara a perceber a importância de uma
nova e extraordinária invenção: o rádio.
Os primeiros a chegar à enorme Exposição
do Centenário, instalada na esplanada aberta pelo desmonte
do morro do Castelo, no centro do Rio, não deram muita
importância às estranhas cornetas metálicas instaladas
em alguns postes. Vistas de relance, lembravam cornucópias
dos gramofones em voga em 1922, mas poucos naquele 7 de
setembro, dia da abertura da exposição, saberiam dizer
para o que serviam. A multidão estava mais interessada
nos luxuosos pavilhões dos países participantes e, principalmente,
na montanha-russa armada em frente ao palácio Monroe.
De repente, ao cair da tarde, as pessoas ouviram assombradas,
como se aqueles sons viessem das nuvens, o Hino Nacional
e um discurso do presidente Epitácio Pessoa. Como, mesmo
naquele tempo, ninguém acreditasse que o hino ou Epitácio
tivessem nada de celestial, concluiu-se rapidamente que
o som saía pela tais cornetas. Afinal, era para aquilo
que serviam as geringonças penduradas nos postes. Eram
"auto-falantes" - e era o rádio chegando.
Duas companhias americanas de energia
elétrica, a Western e a Westinghouse, haviam instalado
pequenas estações de 500 watts no pavilhão dos Estados
Unidos para demonstrar a última novidade. Seus transmissores
tinham sido montados, respectivamente, na Praia Vermelha
e no alto do Corcovado (ainda sem a estátua do Cristo),
com 80 auto-falantes distribuídos pela exposição e por
Niterói, Petrópolis e São Paulo. À noite daquele mesmo
dia, o assombro foi ainda maior quando os auto-falantes
irradiaram a ópera O Guarani, de Carlos Gomes,
direto do Teatro Municipal. Bem, assombro em termos. O
som era falho e rouco, como se um coro de sapos tivesse
entrado pelos auto-falantes e coaxasse em uníssono fazendo
passar-se por Epitácio Pessoa ou por Peri e Ceci. Era
preciso apurar as orelhas para se entender alguma coisa.
Nos dias seguintes foram transmitidas várias palestras,
inclusive uma sobre higiene, mas, àquela altura, o público
já desistira de esforçar-se para ouvir.
Em janeiro de 1923, finda a exposição,
a Westinghouse desmontou a estação do Corcovado e a levou
de volta para o Estados Unidos. Mas a Western conservou
a sua na Praia Vermelha, na esperança de que o governo
brasileiro se interessasse em comprá-la. O governo se
interessou e comprou a estação, mas entregou-a aos Correios
para que ela operasse como telégrafo. Não era o que os
primeiros radioamadores nacionais estavam esperando. Já
havia muitos pelo país, construíndo seus próprios aparelhos
e comunicando-se entre si no Rio, Paraná, São Paulo, Minas
Gerais e Pernambuco. Alguns deles conseguiram autorização
e começaram a usar a Praia Vermelha para transmitir boletins
meteorológicos, cotações da Bolsa de Açúcar e Café, santos
e efemérides do dia, cançonetas, poemas e outras pequenas
atrações.
Mas era quase uma audição para surdos,
porque havia um obstáculo legal a que a escuta se espalhasse:
para possuir um receptor em casa, o cidadão tinha de "requerer
permissão" ao Ministério da Viação através dos Correios
e Telégrafos e, ainda por cima, "apresentando um
fiador idôneo" - um responsável pela integridade
patriótica do indigitado. Com os ecos e fumaças da Grande
Guerra de 1914-1918 ainda no ar, supunha-se que o rádio
podia ser um instrumento perigoso, capaz de levar os segredos
militares brasileiros para as potências estrangeiras -
donde todo cuidado era pouco. A polícia estava autorizada
a prender quem fosse flagrado ouvindo aparelhos desautorizados.
Roquette-Pinto não estava preocupado com
segredos ou com militares. Aliás sua opinião sobre estes
era arrojada para a época: era favorável ao serviço militar,
mas achava que ele deveria limitar-se a "construir
pontes e estradas, aprender um ofício, trabalhar numa
coisa útil. [...] A Grande Guerra, aliás, veio mostrar
que a vitória caberá a quem melhor abastecer-se. O soldado,
hoje, é principalmente um operário. As guerras são ganhas
pelos eletricistas, pelos mecânicos, pelos motoristas".
Para Roquette, ao contrário de guardar segredos, o rádio
deveria servir para difundir a coisa de que o Brasil mais
precisava: educação.
Nos Estados Unidos, a primeira emissora
com transmissão regular surgia em 1920, em East Pittsburgh,
na Pensilvânia. Ou seja, outro dia mesmo e, agora, apenas
três anos depois, o rádio já alcançava cerca de 12 milhões
de americanos, com mais de 100 estações transmitindo.
Os Estados Unidos estavam sendo fantasticamente ligados
pelo rádio. A Europa também, através da Marconi. Nas fantasias
mais otimistas, já havia operários ouvindo Mozart, analfabetos
bebendo as palavras de Bernard Shaw e gente dos mais distantes
rincões sabendo as últimas de Wall Street ou do palácio
de Buckingham, tudo pelo rádio. O rádio era uma arma,
mil vezes mais poderosa do que canhões da Grande Guerra.
Roquette começou a imaginá-la integrando e educando os
milhões de brasileiros dispersos pelos mais de 8 milhões
de quilômetros quadrados. Seria como completar, só que
em escala nacional, a obra de Rondon.
Era preciso fundar uma rádio e ele era
o homem para isso. Uma rádio educativa, "com fins
científicos e sociais", de preferência ligada à Academia
Brasileira de Ciências, da qual era secretário. O primeiro
passo era pedir o apoio do presidente desta, Henrique
Morize, seu velho mestre. Morize, que era a modéstia em
pessoa, assustou-se com a idéia, mas não resistiu ao incandescente
entusiasmo do discípulo. Os outros membros da academia
foram logo contagiados.
Tratava-se agora de remover os obstáculos.
No dia 14 de abril, Roquette soltou pela Gazeta de
Notícias a campanha para libertar o rádio da lei
que dificultava que os cidadãos possuíssem aparelhos domésticos.
Tinha um argumento forte: devido às transmissões da Praia
Vermelha, os Correios haviam fornecido 536 licenças especiais
apenas nos primeiros meses de 1923. Tal demanda era uma
prova que o Brasil inteiro queria o rádio (uma das licenças,
aliás, contemplara o próprio Roquette, embora o seu aparelho
fosse o que provocara risos abafados em Amadeu Amaral).
Mas só um fato consumado, como a existência
de uma rádio, forçaria a queda da lei. Pois ele cuidou
de que isso acontecesse: no dia 20 de abril, na sala de
física da Escola Politécnica, no Largo de São Francisco,
em plena reunião da academia, os cientistas comandados
por Roquette fundaram a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro
- PR-l-A.
A primeira diretoria já saiu constituída
daquela reunião: Morize foi aclamado presidente, Roquette
secretário e outros acadêmicos ocuparam os cargos de tesoureiro
e conselheiros. Os demais membros da academia assinaram
eufóricos a ata de fundação e mais de trezentos sócios-efetivos
e associados a subscreveram. Para os padrões daquele tempo,
era quase um ato de desobediência civil, praticado por
senhores de pincenez e colarinho duro - se se
aplicassem a lei, não haveria cadeia no Rio de Janeiro
para todos. Mas, numa jogada hábil, Roquette indicou para
presidente de honra da Rádio Sociedade o próprio ministro
da Viação e Obras Públicas, Francisco Sá - de quem dependeria
a revogação da lei que tornava o rádio uma atividade clandestina.
No dia primeiro de maio, sob vista grossa
da autoridade, a Rádio Sociedade fez a sua primeira transmissão
experimental pela estação da Praia Vermelha. Às 20h30
em ponto, Cauby de Araújo, um dos signatários, anunciou
a declaração de Roquette-Pinto comunicando a fundação
da rádio. Roquette tomou o microfone e, com grande otimismo
e exagero, disse: "[A partir de agora] todos os lares
espalhados pelo imenso território do Brasil receberão
livremente o conforto moral da ciência e da arte pelo
milagre das ondas misteriosas que transportam, silenciosamente,
no espaço, as harmonias".
Belas palavras, mais ainda levaria tempo
para que o rádio atingisse todos esses lares. E ainda
havia a lei "retrógrada e carrança", como ele
chamava. Mas a pressão deu resultado. No dia 11 de maio,
Francisco Sá assinou a revogação: o rádio no Brasil estava
finalmente livre. Já era possível ter um aparelho em casa
sem ir parar no presídio da Rua dos Barbonos, futura Evaristo
da Veiga. Ao governo caberia apenas licenciar o funcionamento
das emissoras. Uma semana depois, no dia 19, a Rádio Sociedade
promoveu sua instalação solene, usando novamente emprestado
o equipamento da Praia Vermelha para a sua transmissão
inaugural.
E ponha solene nisso, Roquette e seus
colegas, reunidos na Escola Politécnica, ouviram emocionados
quando, da Praia Vermelha, Edgard Sussekind de Mendonça
abriu a transmissão recitando um soneto do próprio Roquette
intitulado, bem a propósito, O Raio. Era simbólico:
o raio viaja pelo espaço e vai cair sabe-se onde - como
rádio. (A única cópia do poema perdeu-se naquela noite
e o autor nunca conseguiu reconstituí-lo de memória).
Em seguida, Heloísa Alberto Torres, filha do abolicionista
Alberto Torres, leu um conto infantil de Monteiro Lobato,
de que não há registro de título. E, concluindo, Francisco
Venâncio Filho leu uma página de Os Sertões.
Com aqueles poucos minutos de vozes no ar, a Rádio Sociedade
silenciou e a estação da Praia Vermelha voltou aos seus
serviços telegráficos. Mas para todos os efeitos, uma
rádio brasileira ferira pela primeira vez - como se dizia
- o éter.
Vibrando com o resultado, M. B. Astrada,
sócio-fundador da rádio e representante no Brasil da Casa
Pekan, de Buenos Aires, especialista em equipamento de
radiofonia, doou à Rádio Sociedade uma pequena estação
emissora e receptora de 10 watts -suficiente para que,
com boa vontade, ela se fizesse ouvir no Centro da cidade
e arredores. Três meses depois, no dia 20 de agosto, o
governo federal, já com Arthur Bernardes na presidência,
autorizou oficialmente o início das irradiações no Brasil,
desde que "para fins educativos". Bernardes
não parou aí: permitiu que a Rádio Sociedade fizesse uma
hipoteca do material emissor no Banco do Brasil, no valor
de 100 contos de réis, para instalar a antena e cobrir
as primeiras despesas. Entre estas, estava a compra da
estação de 1 quilowatt, fornecida pela Marconi, com a
qual a rádio poderia ultrapassar até os limites do então
Distrito Federal.
No dia 7 de setembro - um ano depois da
Exposição do Centenário e funcionando no pavilhão doado
pela Tchecoslováquia, em frente à Santa Casa de Misericórdia,
na Rua Santa Luzia -, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro,
agora com o prefixo de PRA-A, entrou triunfalmente no
ar.
Não era nada parecida com o rádio que
logo se faria no Brasil. Ao contrário, com seu programa
de "educação em massa", a Rádio Sociedade parecia,
a princípio, uma extensão da Academia de Ciências. Os
acadêmicos faziam tudo: produziam, escreviam e apresentavam
os programas. Roquette dava o exemplo: acordava todos
os dias às 5 da manhã, lia os matutinos, circulava com
seu lápis de duas cores tudo que lhe parecesse interessante
e, duas horas depois, estava diante do microfone apresentando
o "Jornal da Manhã". Lia as notícias, com destaque
para o noticiário internacional, e comentava-as para os
ouvintes. Outros levavam discos de suas coleções de clássicos
e óperas, botavam-nos para tocar e falavam dos compositores,
músicos e cantores. Ninguém era pago, era tudo por amor.
E havia os que se apresentavam nos programas, recitando
poesia, cantando ou tocando piano - entre os quais o próprio
Roquette.
Para que não se pense que a rádio era
instrumento da sua vaidade, é bom dizer que Roquette era
razoavelmente eficiente ao piano e que sua voz de barítono
era elogiada pelos entendidos. Ele próprio era um homem
rigoroso: quando, certa vez, o escritor Afrânio Peixoto
insistiu em cantar na rádio, Roquette não fez por menos:
"Mas, com essa voz, Afrânio???". Peixoto caiu
em si e contentou-se em recitar poemas de cordel, no que
foi acompanhado ao piano por Roquette.
Nem tudo era música e literatura. Os acadêmicos
também davam palestras e cursos pelo microfone, de acordo
com suas especialidades: português, biologia, história,
francês, geografia e até silvicultura. O Rio, capital
da República, recebia toda espécie de personalidades da
área cultural e científica, e um programa obrigatório
desses figurões era uma visita às instalações da Rádio
Sociedade - um deles, em 1925, já na Rua Carioca, 45,
foi Albert Einstein.
O amadorismo da rádio era tão flagrante
quanto a boa vontade dos que a faziam. A programação também
não era de cunho exatamente popular, mas ninguém se importava:
os aparelhos eram caros naqueles primeiros tempos, poucos
podiam possuí-los e esses poucos gostavam do que a rádio
punha no ar. O que os desagradava era o som terrível das
transmissões. Os jornais viviam cheios de cartas protestando
contra os ruídos e chiados da PRA-A e temendo pelo futuro
do rádio no Brasil, caso aquilo não melhorasse. Roquette,
com sua larga visão histórica, não se assustava com a
ameaça:
"Nós, que assistimos à aurora do
rádio, sentimos o que deveriam ter sentido alguns dos
que conseguiram possuir e ler os primeiros livros",
ele disse ao microfone.