AO Você fez teatro e cinema, tem um curta-metragem
e um musical infantil premiados, compôs canções
que entraram para o cancioneiro popular, escreveu para TV e fez
incursões nas artes plásticas. Mas, nos últimos
anos, tudo isso parece estar em segundo plano e o rádio
parece ocupar o centro de suas atenções. Por que?
A coisa foi ficando assim. Fui obrigado a dar cada vez mais tempo
ao rádio, ou melhor, à Rádio MEC. Nunca pensei
em me dedicar a uma ONG e virar um executivo fac-totum, incluindo
até serviço de despachante e boy. A rádio,
que era um emprego, virou uma questão. Aos poucos fui entendendo
que trabalhar para a rádio era tão ou mais importante
do que trabalhar na rádio. Porque o papel da Rádio
estava sendo esquecido, e porque tudo aquilo pelo qual a Sociedade
dos Amigos acabou sendo criada, ficou a perigo. Literalmente.
E eu passei a trabalhar cada vez mais para a Rádio. A certa
altura, isso virou prioridade 'um', pois tivemos que defender
a sobrevivência da própria Sociedade, que, depois
de anos de serviços prestados, passou a ser considerada
"non grata", pelos dirigentes da primeira ACERP.
AO Quando isso?
De 97 em diante, no governo FHC, com Jorge Guilherme, presidente
e liquidante da Fundação Roquette-Pinto. Dois sedutores.
Duas pessoas nocivas ao rádio educativo e alérgicas
à música erudita. Fernando Henrique e Paulo Renato,
seu ministro, que não tinham a menor idéia do que
significa a Rádio MEC, foram os que arrancaram a emissora
do Ministério da Educação; e Jorge Guilherme,
por sua vez, foi quem 'sonetou o remendo'. Em um ano, detonou
a Fundação Roquette-Pinto e deu origem à
ACERP, que, meses depois, entregou a burocratas. É o tal
negócio: 'dize-me em quem mandas que direi o chefe que
és". Foi um período pesado que só consegui
atravessar porque, sendo funcionário, pude exercer minha
desobediência civil sem medo de ser demitido. Aconteceram
coisas absurdas.
AO Por exemplo?
Nada é mais absurdo que a saída do Ministério
da Educação e a transferência da rádio
para a SeCOM, um órgão político. Acho mesmo
que a SeCOM, em todo o planeta, é o único órgão
porta-voz de governo que possui duas emissoras educativas em seu
organograma.
E isso era exatamente o que Roquette-Pinto lutou para evitar,
porque o ministro Capanema pensava, de início, em colocá-la
no DIP, que era a SECOM da época. Arrancar a rádio
do Ministério da Educação foi um erro e uma
ilegalidade. AO E como isso se refletiu, na rádio?
No desprezo pelas idéias do Roquette-Pinto e, em consequência,
pela própria SOARMEC, que sempre se norteou pelo ideário
dele. Tem um episódio, bastante esclarecedor, com o busto
de Roquette-Pinto. Um busto de bronze, igual ao que existe também
na Rádio Roquette-Pinto, que sempre esteve, durante décadas,
na entrada do 3º andar, onde fica a Direção
da Rádio. Pois bem: durante esse período obscurantista,
o pobre do busto foi retirado dali e colocado numa sala, no térreo,
a pretexto de compor um improvisado museu. Agora que as coisas
melhoraram, o busto voltou pro seu lugar. Vamos ver quanto tempo
ele permanece lá.
AO E o clima de trabalho, como era?
Bem, a cidadania profissional, dentro da rádio, atingiu
os níveis mais baixos. A única coisa que não
houve foi censura explícita porque eles não
se atreveriam. Mas assédio moral, sabotagem, tudo isso
aconteceu. E em certas ocasiões a coisa adquiriu proporções
absurdas, como no famoso recital que a SOARMEC promoveu na Sala
Cecília Meireles, pela liberação do piano,
o tal que compramos para o estúdio sinfônico. Houve,
primeiro, uma tentativa de boicote, e o espetáculo só
se realizou mesmo porque o Edino Krieger usou de todo o seu prestígio
junto aos artistas convidados.
AO Quem eram os artistas?
Carolina Cardoso de Menezes, Clara Sverner, Maria Teresa Madeira,
Osmar Milito, Antonio Adolfo, Ruth Serrão e Sergio Ricardo:
só pianistas. O recital foi belíssimo, com casa
cheia... Mas, no final, pasmem!, a fita da gravação
foi seqüestrada e nunca mais apareceu um crime de
lesa-cultura, que permanece impune, até hoje... E olhe
que aquela foi a última apresentação coletiva
da Carolina Cardoso de Menezes... E no dia seguinte, mais: o JB
publica uma matéria paga, caluniosa e apócrifa,
num box de 10 centímetros e em página par, cujo
preço era o dobro da multa pela liberação
do piano. Foi dureza... Gente que Dante colocaria no nono círculo,
esteve com o volante nas mãos. Dona Maria Yedda Linhares,
nossa presidente na época, escreveu uma carta indignada,
que, como sempre, não foi respondida. E o diálogo
parou. Quem melhor definiu a situação foi o José
Renato Monteiro, ex-diretor de comunicação: Os
escoteiros estão a postos, mas a velhinha não quer
atravessar a rua. Essa 'tirada' veio a propósito
de outro caso cabeludo, porque, depois do piano, a sociedade comprou
para a rádio, uma aparelhagem de remasterização
no valor de 80 mil reais. Material de ponta, que nunca entrou
em funcionamento: nas vésperas da inauguração,
o coração do equipamento um aparelho CEDAR
NS1000 desapareceu, misteriosamente.
AO - Este caso é conhecido. Deu inquérito e nada
se apurou. Mas a ACERP, hoje, é outra e mostra interesse
em ativar o estúdio...
Mas não há grana para repor a peça, que custa
8 mil dólares. O resultado é que o estúdio
continua parado. Mas o pior é que, no meio de tudo isso,
vem o acidente do Fábio, o nosso Sancho Pança, que
era pau-pra-toda-obra e nosso braço-direito... 28 anos...
Eu achava que o Fábio seria o futuro da SOARMEC, tal a
dedicação que ele tinha... Esse foi o maior golpe...
Quase que a sociedade acaba ali... Porque o Fábio, além
do amigo perdido, além do parceiro ausente, também
se tornou uma testemunha pessoal perdida certos fatos,
só ele presenciou ou participou, junto comigo... Mas a
sua morte talvez tenha sido o preço cobrado por Nêmesis
(deusa da vingança - NR), porque, em seguida, vieram as
eleições, o novo governo, e a ACERP, sob nova direção,
aceitou o diálogo. Hoje, os laços normais foram
reatados e os Amigos Ouvintes voltaram a ter total liberdade de
circulação dentro da rádio. Voltamos a fazer
chamadas no ar e programas, por enquanto sem regularidade, mas
estamos preparando a volta de uma revista radiofônica, regular.
Ultrapassamos o luto.
AO - A quê se atribui essa reação à
SOARMEC?
Ao despreparo. É preciso algum preparo, algum verniz, para
encarar com tranqüilidade a existência, sob o mesmo
teto, de uma sociedade de amigos independente e ciosa de seus
princípios. E é preciso preparo para reconhecer
a importância de coisas como 'sociedade civil', 'democracia
participativa' e 'accountability', por exemplo. Só uma
direção comprometida com a cidadania pode acatar,
sem atritos, a existência de dois canais independentes de
comunicação, funcionando dentro de seus domínios,
como a página www.soarmec.com.br, na internet; e o jornal
Amigo Ouvinte. E isso é o que está acontecendo,
hoje.
AO Como veículo e como linguagem, o que tanto
lhe seduz no rádio?
Eu diria que é o seu handicap, a sua 'invisibilidade',
e não só por achar confortável o fato de
que quem faz rádio não precisa ser visto. Acho que
o que me seduz no rádio é justamente a sua 'inferioridade'
a tal da 'cegueira' que ele tem, quando comparado com a
TV e o cinema. Essa 'inferioridade' está na origem de um
preconceito tecnológico que só traz prejuízo
à cultura, principalmente à cultura oral. Esqueceram
o bem que a Rádio Nacional fez à Língua Portuguesa,
unificando a pronúncia e ensinando o Brasil a falar. Comparativamente,
a televisão já não fala tão bem. A
dicção televisiva é artificial, por que ou
descreve a imagem ou se sobrepõe a ela. Por isso raramente
foge do excessivo e do pleonástico. Na verdade, a TV só
é coloquial quando faz "rádio ilustrado".
E o curioso é que muito do que a TV mostra é isso:
'rádio ilustrado'. Jô Soares é rádio
ilustrado. O retrato de um repórter sobre um mapa, relatando
um bombardeio,por telefone, é rádio ilustrado.
Costumo dizer que o rádio é um morcego: não
precisa de olhos. Acho que o cego também é uma espécie
de pessoa-morcego espécie de 'batman' que desenvolve
um radar, quase um outro sentido. E essa 'totalidade incompleta'
dos cegos dá muito o que pensar sobre a incompletude dos
chamados "normais". E o rádio também possui
esse tipo de incompletude auto-suficiente. Por isso, qualquer
programa de rádio é uma 'obra aberta', a ser completada
pela atenção e imaginação do ouvinte.
Porque o rádio provoca uma 'puxada' na imaginação
e na atenção. Um simples informativo, uma transmissão
de futebol, provocam isso. A TV 'puxa' muito pouco, porque se
apresenta sempre pronta, daquele jeito completo e colorido.
AO E como é que esse preconceito se manifesta,
no caso da TVE e da Rádio MEC?
A duas permitem um estudo de caso, pois são administradas
em conjunto, há décadas primeiro, pelas fundações
(FUNTEVÊ e FRP) e agora pela ACERP. E, desde que me lembro,
a Rádio ficou sempre em segundo plano. Acho que o único
presidente que mostrou claro interesse por ela foi o Chico Teixeira.
A posse dele, por exemplo, foi no auditório Paulo Tapajós
(auditório da Rádio MEC NR), e, entre outras coisas,
a radio deve a ele, após um longo silêncio discográfico,
o primeiríssimo CD com gravações do acervo
aquele dos irmãos Gnatalli tocando Nazareth, que
deu origem a toda a série Repertório. Quer dizer,
deve a ele; ao Henrique Cazes, que produziu; e ao Lauro Gomes,
que por milagre descobriu a fita, esquecida no fundo de uma estante.
Os outros vinham à Rádio uma vez ou duas, no máximo,
durante toda a gestão. E os ministros também quando
visitavam a FRP, iam quase sempre para a TVE. Outra exceção
foi o Roberto Parreira, que já tinha alguma estrada na
cultura, dirigiu a FUNARTE, antes, e tal... Na gestão dele,
ele reformou a fachada do prédio e também comprou
equipamentos. Agora, também, está havendo um investimento
na infra-estrutura da rádio, com a informatização
dos estúdios, finalmente. Mas, via de regra, a rádio
tem ficado em segundo plano. É o primo pobre da TV
há um artigo com esse título em um dos números
do Amigo Ouvinte (nº 4 - NR), que é bem esclarecedor.
As pessoas estão esquecendo que, em termos de recursos
expressivos, o rádio não é um veículo
'inferior' à televisão: é outro veículo,
tem outros recursos. E em vários aspectos é mais
adequado, como na música e na literatura. Aliás,
uma das obrigações do rádio é a de
estreitar essa proximidade natural com a literatura, a história,
a poesia, e tudo que o livro proporciona. E só uma estação
não comercial, como a Rádio MEC, pode fazer esse
tipo de coisa.
AO Você aposentou o produtor radiofônico?
Tenho produzido pouco, por falta de tempo, mas vou tocando alguns
projetos ligados ao rádio que gosto de fazer, que é
aquele dos chamados programas produzidos, que podem ser de radioteatro,
ou literários, ou documentários ou, especialmente,
um certo tipo de programa educativo-cultural cujo paradigma são
os que o Almirante fazia produções que exigem
equipe e aquele tipo de script que parece roteiro de cinema para
cegos. É o que mais gosto. Acho que o rádio educativo-cultural
precisa voltar. Tem que voltar a obrigatoriedade de as emissoras
transmitirem uma hora diária de programas educativos. Parar
com a Hora do Brasil nas estações comerciais, por
exemplo, e colocar programação cultural naquele
horário. Ninguém pode contestar que, se dependessem
do rádio que se faz hoje, os milhões de brasileiros
portadores de deficiência visual, seriam deficientes culturais,
também.
AO Quando e como você veio trabalhar na Rádio?
Comecei em 1973, como redator do Projeto Minerva, que funcionava
no 6º andar. O Roberto Braga, que já era redator,
foi quem indicou meu nome. A minha chefe era Maria Eugênia
Stein, e o diretor de produção, o Guiaroni. A seleção
dos candidatos era feita por meio de uma prova prática:
escrever um programa quarto-de-hora sobre tema apresentado em
duas laudas de material bruto. O Guiaroni aprovou e comecei a
trabalhar. Na verdade, ele e o Floriano Faissal, que era o diretor
de gravação do Minerva, foram meus professores de
rádio.
AO O que eles ensinaram?
É o tal negócio: o rádio é simples,
mas não é fácil. Falar é fácil;
apresentar um programa ou fazer uma locução é
que são elas. O Guiaroni lia tudo e criticava em cima da
bucha. Chamava atenção para coisas essenciais, como
a abertura e o fecho do programa, o uso de frases curtas, de palavras
conhecidas, da necessidade de arredondar quantidades, de repetir
certas informações, de dar tempo para o ouvinte
respirar e, sobretudo, desenvolver um faro para manter o interesse
no que está sendo transmitido. O Floriano ficava mais no
estúdio, na técnica, dirigindo as gravações.
Aprendi muito vendo ele trabalhar. O ouvinte era sagrado...O Floriano
me entregava pessoalmente as cartas que chegavam e me cobrava
as respostas, que fazia questão de ler.
AO - Quem eram os outros redatores?
Além do Braga, o Célio Alzer, o Tyrone Feitosa e
a Denise Faissal. Um para cada dia da semana. Radiofonizávamos
o 'material bruto' gerado por professores de matemática,
português, história, etc.. Mas havia produtores para
a educação não-formal, como o Clóvis
Paiva, o Arnaldo Niskier, o Aurélio Buarque de Holanda
e o Ronaldo Mourão.
AO Vocês eram prestadores de serviços
?
Não: eram outros tempos. Em algumas semanas tornamo-nos
funcionários, com carteira assinada e tudo o mais. E o
salário, que era reajustado anualmente, dava para viver
o mês, pagar metade do aluguel, na Glória, ir a cinema,
a teatro, comprar livros, discos, e até andar de táxi,
de vez em quando.
AO O Guiaroni era o responsável pela parte radiofônica.
E o responsável pela didática?
Era a professora Solange Leobons, secundada por Marlene Blois
e um núcleo de pedagogas que aprovavam nossos scripts.
E elas também 'mastigavam' o material bruto, gerado por
professoras externas. O meu, por exemplo, vinha de Belo Horizonte.
AO Como era o trabalho de um redator?
Cada um de nós tinha que escrever 100 programas, ao todo.
Vinte por mês. Eu, como fui o último a ser admitido,
fiquei com o que restou, o curso de matemática, ou seja,
tive a sorte de começar pelo mais difícil: tornar
radiofônico um assunto predominantemente visual, como a
matemática e é o caso t ambém do ballet,
da pintura, do xadrez, etc... É possível focalizar
aspectos desses assuntos, mas eles não são assuntos
radiofônicos, por excelência. Falar nisso sempre me
lembra daquela paródia da corrida de automóveis,
na PRK-30, com o Lauro Borges, narrando: "E atenção,
ouvinte, vai passar
vai passar
Passou, amigo ouvinte!
Passou!" (sorrisos).
AO E como era o formato dos programas?
Os primeiros eram "aulas" mesmo, com locutores professorais
mandando ver no 'conteúdo'. Programas chatos, para quem
não precisava daqueles conhecimentos, e muito úteis
para o ouvinte interessado. Depois, comecei a lançar mão
de personagens e experimentar esquetes de radioteatro, mas o assunto
era muito árido. Eu estava trabalhando com as limitações
e impossibilidades do veículo. Virou uma provação,
e eu precisava daquele salário. Um dia, lá pelo
programa 30, pendurei uma fita métrica na parede e, a cada
programa, eu cortava um centímetro, para visualizar o quanto
ainda restava. Quando faltava uns quarenta, aconteceu o que eu
temia: embtuquei não conseguia fazer a coisa.
AO Qual era o assunto da aula?
Não lembro. Acho que geometria. Eu simplesmente não
conseguia... A única coisa a fazer seria orientar o ouvinte
a consultar o fascículo e pedir ajuda ao monitor, que ouvia
os programas junto com o aluno. Quando fui entregar os scripts,
abri o jogo para as pedagogas e examinamos juntos o material bruto.
Elas concordaram comigo. Conferimos também o material da
semana seguinte, e encontramos outro conteúdo de doer.
Depois, fui embora, levando o material que dava para trabalhar
naquele tempo nós trabalhávamos em casa ,
sem saber que havia criado um impasse.
AO Quem eram as 'pedagogas'?
Era assim que chamávamos, carinhosamente, as professoras
especialistas em educação, uma porção
de moças e jovens senhoras, a Regina Salles, Mauricéa
Drummond, Yedda Brandão, Lourdes Favilla e a Amelinha (Helena
Amélia Silveira NR). E tinha também a Virginia
Palermo, que ficava mais na produção radiofônica.
AO E como foi resolvida a coisa?
Bem, ao que parece, nunca havia surgido um problema parecido com
aquele. Uns dias depois, telefonaram pedindo que eu me apresentasse
no gabinete do diretor da rádio que eu só
conhecia de nome.
Foi a primeira vez que fui ao gabinete. E aqui cabe outra explicação.
O Projeto Minerva era um apêndice dentro da Rádio
MEC. Funcionava no 6º andar e era tocado por recém-contratados.
Havia um certo apartheid, e a força de trabalho do pessoal
da rádio não era bem aproveitada. Meus textos, por
exemplo, eram gravados pelo Cid Moreira, pelo Chapellin, ou pela
Zezé Maravilha ou pelo Pereio ou pelo Eliakim Araújo,
e não pelos locutores da casa. Os únicos profissionais
da rádio que participavam dos programas eram os técnicos
de som. Com isso, nós freqüentávamos só
os estúdios do 4º andar e as salas do 6º, que
abrigavam a direção e o corpo técnico do
Projeto Minerva.
AO E o que aconteceu no gabinete?
Não cheguei a entrar: o diretor estava na ante-sala, já
saindo, com alguns auxiliares. Era o Avelino, um paraense bem
humorado. Ao saber que eu era o tal redator 'problema', ele juntou
as mãos e fez um arremedo de genuflexão, 'implorando'
que eu continuasse a série. Era um gesto de brincadeira,
mas cheio de simbologia. Lembra aquela do soldadinho que se recusa
a cumprir a ordem e acaba colocando o general em cheque. Resultado:
enviaram-me a Belo Horizonte, para conversar com a autora do material
bruto... Examinamos os assuntos do resto da série, conversamos
sobre as limitações da linguagem radiofônica,
e sujeri que ela escrevesse pensando no ouvinte cego. As coisas
melhoraram um pouco, mas até hoje não sei como consegui
completar os 100 programas. É possível que esses
scripts ainda existam. Seria curioso ler alguns, hoje.
AO E você continuou como redator?
Sofri um grave acidente de carro, e só voltei a trabalhar
meses depois, numa série especial, com a Rosinha de Valença.
Foi o próprio Guiaroni quem bolou o formato e sugeriu o
título: Eles escolheram a música. Lembro que, depois
da série de aulas de matemática, aquele trabalho
parecia pura diversão.
AO - Como era o formato?
Eram programas de trinta minutos, com a Rosinha entrevistando
um músico e tocando alguns números com ele. Fizemos,
acho, uma dúzia de programas, focalizando artistas bem
diferentes um dos outros, como Edu da Gaita, Copinha, Luiz Eça,
Donato, Paulo Moura, Gal Costa.. A série começou
meio fraquinha, porque éramos dois estreantes: eu, como
produtor, e Rosinha, como apresentadora, sem experiência
de microfone e tudo o mais. Eu conversava com o artista, uns dias
antes, escrevia a introdução, a pauta de perguntas
e, às vezes, quando o Floriano Faissal não estava,
fazia a direção de estúdio. O Claudomir Broxado
fazia a assistência de produção e montagem,
e o técnico era o Edu. Mas dava pra notar que os programas
iam ficando cada vez melhores. O que fizemos com o Caetano Veloso,
um dos últimos, é muito bom. Na verdade, o Caetano
'pegou' o espírito da coisa e fez o programa, praticamente
sozinho. Merece ser ouvido.
AO E os outros programas que você fêz,
ainda pelo Projeto Minerva?
Os mais ambiciosos foram os da série Por dentro da Torre
de Babel o primeiro que produzi integralmente: pesquisa,
redação, direção de estúdio
e montagem. A assistência de produção era
da Marcia Olivieri. Mas, depois desta série, e outra vez
a convite do Roberto Braga, fui para o Mobral, que pagava bem
mais que a Rádio. Fiquei quase dois anos lá, de
novo com carteira assinada, produzindo audios-visuais e viajando
pelo Brasil, para documentar aspectos da alfabetização
de adultos. Mas começaram a surgir pressões para
que, em vez de documentar, eu fizesse propaganda da instituição,
e acabei saindo. Mas, durante esse tempo, não parei de
escrever, como free-lancer, para o Minerva.
AO E quando você voltou para a Rádio?
Voltei em 83, a convite do Allan Lima e da Virginia Palermo
para criar novas vinhetas musicais e ajudar na elaboração
das novas grades. Mas preferi ficar como serviços prestados,
que pagava mais que funcionário. O Allan, na época,
era o superintendente do Heitor Sales, mas houve qualquer coisa
ali e ele acabou saindo, pouco depois o Allan ficou mais
de 10 anos sem botar o pé na rádio. Mas a Virginia
continuou, e eu também. E, volta e meia, ela me convidava
para voltar a ser funcionário. "Olha, fulano vai se
aposentar" ela dizia. Porque naquele tempo era assim:
quando um funcionário se aposentava, abria vaga pra outro.
Acabei ficando como prestador de serviços até 86,
quando resolvi aceitar o convite desta vez feito pela Marlene
Blois e voltei a ser funcionário. Acho que tive
uma intuição de que a situação trabalhista
ia ficar difícil. Os prestadores de serviço já
estavam ganhando menos, quase tanto quanto os funcionários,
e estavam sendo dispensados. Todo o radioteatro, por exemplo,
que era composto por atores cooperativados, foi dispensado
só sobrou o veterano Dylmo Elias, que era, claro, funcionário...
AO - E você voltou a ser redator?
Não: passei a ser produtor executivo. Vale explicar que,
no rádio, o produtor é o responsável pelo
programa. No cinema e na TV, o produtor executivo é o profissional
que lida com telefones, equipamento, transporte, etc. Na rádio,
esse tipo de trabalho era feito pelo assistente de produção
profissional que sumiu do organograma. O que é pena,
porque, além de facilitar todo o processo, o assistente
de produção é um aprendiz em potencial: um
assistente dava apoio a dois ou três produtores, e, nisso,
ia aprendendo as manhas do ofício.
AO - Quem dirigia a Rádio, nessa época?
O Heitor Salles, ainda. Mas o diretor da Fundação
(FRP) era o Roberto Parreira. E quem estava na programação
educativa era a Marlene Blois. Nessa época, eu orientava
a produção do Universidade no Ar , um programa com
alunos de escolas de comunicação. E passei a fazer
também o controle de qualidade dos scripts educativos.
Fiquei meses revisando programas, e essa experiência me
deu a medida de como o setor estava sem redatores um setor
que já teve gente como o Célio Alzer, o Tyrone,
o Clóvis... A queda de qualidade era impressionante. E
a finalização técnica dos programas também
estava decaindo. Em meados dos anos 80, o esvaziamento era flagrante.
A OSN já tinha ido para a UFF, a maioria dos grandes produtores
já estava aposentada, e não havia renovação
nem de pessoal, nem de equipamento. Os transmissores, em
mal estado: o da FM ainda era sofrível, mas os de ondas
curtas estavam desativados e o da AM funcionando com um quinto
da capacidade e aqui vale lembrar que a MEC AM era o último
nicho do rádio educativo-cultural. O esvaziamento do setor
educativo era particularmente grave. Não tínhamos
produtores. Foi em função desse estado de coisas,
que bolamos Marlene, Saroldi e eu a primeira oficina
de produção radiofônica da Rádio MEC.
AO Qual foi o resultado da oficina?
Acho que o resultado principal foi o fato de que, depois de mais
de uma década, voltava-se a investir na educação
dos profissionais da rádio. Semanalmente, durante 2 meses,
ouvimos e comentamos programas nossos e de outras rádios,
fizemos laboratórios de sonoplastia, estudamos gêneros
abandonados, como o documentário sonoro, produzimos esquetes
de radioteatro, e aprofundamos também técnicas de
entrevistas e de mesas-redondas.
AO E a MEC FM, como estava nesse tempo?
A FM sempre manteve as 'aparências', digamos, pois continuava
a transmitir sua programação tradicional
com menos potência e menos variedade, mas continuava ,
tocada por uma turma remanescente de produtores que sempre vestiram
a camisa, como o Zitto Baptista, o Lauro Gomes, a Liliam Zaremba,
e o pessoal do meio-de-campo, como a Marlene Barton e o Paulo
Neto.
AO Que programas você fez nessa época?
Continuei coordenando o Universidade no Ar, programa semanal com
estudantes de 4 faculdades de comunicação, cada
faculdade era responsável por um programa mensal. E também
co-produzi, com Marlene Blois, em parceria com a Rádio
Cultura de São Paulo, a série Encontros com Paulo
Freire. A série Ciência Viva também é
desse tempo.
AO Houve alguma mudança notável na programação,
com o fim do governo militar?
Eu cheguei a pegar o tempo em que havia um censor na rádio.
Ele era meio ressabiado, pois sabia como era visto por nós.
Mas era pacífico. Censura, mesmo, foi antes, com o Eremildo
Viana, na época dos milicos. É tristemente famosa
a gestão dele, com episódios inacreditáveis
como o dos scripts da Edna Savaget sobre poetas russos
que ele queimou no chão da sala dos produtores.
Era um tempo em que não se podia tocar músicas de
autores russos. Eu me lembro que, pelo menos até 81, 82,
não se podia programar músicas de Vandré,
Chico e Vinicius. No governo Sarney, o único tabu era falar
em energia nuclear: Angra, essas coisas. Mas eu fiz um programa
a respeito, que foi a radiofonização da peça
O Caso Openhaimer, e ninguém reclamou. A TVE era muito
mais vigiada.
AO Você conheceu o apogeu da Rádio ?
Eu não conheci o período áureo da emissora,
quando ela era um point de intelectuais e artistas. Digamos que
peguei os últimos ecos da coisa. Mesmo assim, era estimulante.
Ainda conheci o Maurício Quadrio, e os três Paulos
Santos, Tapajós e Salgado, que foi o último
diretor de broadcasting da casa. Ainda peguei Anita Taranto, a
Maravilha Rodrigues, o Willian Mendonça. Ainda peguei o
rádioteatro funcionando, com cast de atores, com Dylmo
Elias, Marcos Toledo, Aymée; o finalzinho do Edmo do Valle,
na contra-regra, com seus apetrechos num cantinho do Estúdio
A. Durante muito tempo aqueles objetos ficaram por lá:
caixa de cascalho, portinha, telefone.. E também peguei
o Hilton Lousa, que foi o penúltimo sonoplasta da casa.
Era um luxo, você, como produtor, sentar para escrever,
sabendo que podia dispor de uma equipe de radioteatro. E tinha
mais: se você precisasse de uma externa, era só solicitar;
se precisasse de um repórter, era só fazer a pauta,
e assim por diante. Ainda peguei a OSN ensaiando e gravando. Cruzava
nos corredores com Guerra-Peixe, com o Noel Devos, com o Botelho,
com o Bocchino, com aquelas cantoras líricas chiquérrimas
e perfumadas e todos aqueles funcionários da música.
AO - Dê exemplo de um programa feito com esses recursos.
Bem... Tem um programa de divulgação científica,
sobre o Benjamin Franklin, que pode servir de exemplo. A mecânica
de trabalho, em geral, era a seguinte: depois de escolhido o assunto,
o Setor de Pesquisa era acionado, e, depois que o setor mandou
o material pesquisado, fiquei sabendo que o Benjamim Franklin
era também compositor e tinha escrito um quarteto de cordas.
Pensei logo em usar a composição como trilha do
programa, mas, na discoteca, constatei que não tínhamos
a gravação do quarteto. Insistindo, fui procurar
alguém da OSN e encontrei o maestro Nelson Nilo Hack: fico
sabendo que ele conhecia o quarteto e que a rádio tinha
a partitura. E aqui, vale lembrar que, com a saída da OSN,
não só os músicos foram embora: o arquivo
de partituras também foi. Mas, retomando: uma semana depois,
o Quarteto de Cordas da Rádio MEC já tinha ensaiado
e gravado a peça, e eu recebi o tape pronto para ser utilizado.
Ou seja, além de tudo, a OSN e os conjuntos dela derivados
também serviam para alimentar programas extra-musicais.
E aqui cabe um comentário, que é também uma
crítica, a única que faço em relação
ao aproveitamento da OSN: o fato de que a orquestra não
foi utilizada regularmente como produtora de 'sonofonia'
termo que o pessoal da Nacional usava para designar efeitos, 'climas'
e passagens musicais. Porque, assim como o cinema o americano,
principalmente desenvolveu uma 'música de cinema',
a orquestra da rádio poderia ter criado e gravado um 'banco'
de 'música de radioteatro', 'música de apoio', vinhetas,
climas, fanfarras, arpejos, etc... Tínhamos funcionários
que eram compositores e que poderiam ter feito isso: Bocchino,
Guerra-Peixe, Edino Krieger... Eu mesmo ponho a carapuça,
porque, na verdade, nós os produtores e os diretores de
broadcasting é que tínhamos que ter criado essa
demanda.
AO Mas como era o formato do programa?
Era tipo 'Almirante'. Situava o personagem no tempo, com inserções
de radioteatro ilustrando passagens da vida dele, e com elementos
de jornalismo, também: um físico foi entrevistado,
para falar dos experimentos de Franklin. Nesse programa, eu também
contava com o Adilson, o último sonoplasta que a casa teve.
Era um privilégio poder contar com uma estrutura assim.
Acredito que nenhuma estação manteve por tanto tempo
um esquema de produção tão completo. Ah,
ia esquecendo que a rádio dispunha de outro recurso luxuoso:
o violão do Manoel da Conceição, o 'Mão-de-Vaca',
que estava sempre a postos para acompanhar cantores ou ilustrar
temas ao violão.
AO Que outros programas você fêz?
Várias séries de pequenos programas sobre efemérides,
campanhas de saúde, cidadania, trânsito, etc. Também
formatei, compus as vinhetas e produzi a primeira fase do Debate-papo,
que teve quase 100 edições e era apresentado pela
Frieda Veras. Uns poucos foram apresentados por mim. Mas, aí,
a rádio já estava em processo de sucateamento. Para
culminar, o Collor foi eleito, e eu e outros colegas fomos colocados
em disponibilidade,
AO Em disponibilidade, como?
Fomos colocados à disposição de outro órgão
federal. Fiquei mais de um ano recebendo sem trabalhar. No início,
me julguei injustiçado, mas, aos poucos, entendi que havia
recebido uma espécie de licença- prêmio. Ganhei
distanciamento para pensar a rádio, onde o clima de trabalho
estava desanimador. As pessoas se sentiam fazendo rádio
para ninguém. A AM não tinha voz e a FM sumia quando
você dobrava uma esquina, no carro. Faltava até papel.
Não tinha fita virgem. Fitas rolo com programas de uma
hora e mesmo de 15 minutos, eram transcritas para K7 e reutilizadas
em novos programas. E essas transcrições eram feitas
a toque-de-caixa: não havia um produtor destacado para
acompanhar a coisa. Criei até um slogan cínico:
'aqui se faz aqui se apaga', por causa disso. As pessoas ficavam
contando tempo para se aposentarem. Os mais jovens, como o Otávio,
que esqueci o sobrenome, e que era uma promessa, preferiram ir
embora. Quer dizer, o Zito e os Lauros Gomes, Tolipans e Adelsons
continuavam segurando a peteca, mas com limitações
enormes. A produção educativa ficou reduzida a pequenas
campanhas: de trânsito, higiene, etc., o que é bom,
mas insuficiente. Aquele programa tipo Almirante, que é
o que melhor explora as possibilidades do rádio educativo,
estava fora de cogitação.
AO Quando você voltou para a Rádio?
Quando entrou o Itamar, fui chamado de volta. Quem estava na direção,
para minha surpresa, era o Paulo Henrique, filho do FHC, que na
época era o ministro das relações exteriores.
O presidente da FRP era o Walter Clark. O Paulo era simpático,
deu força na criação da SOARMEC, cedeu inclusive
a salinha para a sede inicial, mas não era do ramo.
AO - Fale dos diretores que você conheceu.
Agora que conheço a história da rádio, separo
os diretores em dois grupos: os de antes e os depois do golpe.
Porque a rádio que teve diretores como Tude de Souza,
Rizzini, Mozart de Araújo e Murilo Miranda , depois
de 64, passou a ser dirigida por diretores de ocasião.
Uma sequência de pessoas despreparadas ou desinteressadas
pela coisa, ou apenas interessadas em engordar currículo.
Pessoas que nunca fizeram um programa, que dirá idealizar
uma programação. E quase todos tinham medo de microfone.
Vá no Acervo e procure um pronunciamento de qualquer um
deles... Não há. A única exceção
foi mesmo a professora Regina Salles, que dirigiu por muito tempo
o setor educativo... Ela instituiu um conselho de programação
que, com o tempo, poderia ter depurado a programação.
Mais do que nunca a Rádio está carecendo de um novo
Tude de Souza, que estabeleça o perfil da programação.