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Rádio SAARA
por Roberto Reis
Localizado no centro do Riode Janeiro, o Saara
Sociedade dos Amigos e Adjacências de Rua da
Alfândega , local em que árabes e judeus,
chineses e japoneses vivem em paz, façanha que nem
a ONU consegue, só existe uma coisa que causa discórdia
entre os seus frequentadores diários: a Rádio
Saara. Muitos responsabilizam a rádio pelo sucesso
de vendas de seus estabelecimentos; outros parecem não
acreditar e contratam locutores para falar ao microfone dentro
das lojas ou para fazer pregões a palo seco; e outros
não suportam mais ouvir seus reclames de humor muitas
vezes duvidoso ou mesmo de mau gosto.
Longe de ser uma unanimidade, a emissora, que existe desde
os anos 1970, mantém há dez anos esse formato
de programação.Para muitos, ela deixa o dia
mais alegre e divertido. Outros não agüentam mais
ter que ouvir as mesmas chamadas há anos, todos os
dias, durante um dia inteiro de trabalho. É comum ver
pessoas rindo dos comerciais das lojas, outras reclamando,
andando mais depressa para não ouvi-la.
Que rádio é essa?
Nem comunitária, nem pirata, a Rádio
Saara poder ser classificada como uma rádio poste,
quer dizer, transmite por alto-falantes e não tem antena.
Não adianta tentar sintonizar, não pega no rádio.
O diretor da rádio, Luis Antônio Bap, define
a rádio como "um sistema de alto-falantes direcionados
e metidos a besta".
A rádio existe para atender aos próprios comerciantes
e ao público. Existe um pacote de R$ 1.700,00, em que
a equipe da rádio cria o texto, grava o spot e veicula
a chamada, de cerca de um minuto, durante o dia. As chamadas
são marcadas pela irreverência e por estarem
completamente fora dos padrões radiofônicos.
Há no site de relacionamentos Orkut, comunidades diversas
sobre a rádio. Desde as que amam às que odeiam.
Entre os que odeiam, está Vivi, que na comunidade 'Eu
tenho medo da Rádio Saara', diz: "... deveria
ser abolida do centro da cidade... fico escutando das nove
da manhã às seis da tarde... tem que ter muito
bom humor".
Ainda na "Eu tenho medo...", comentários
sobre a qualidade das locuções: "colocam
aquela mulher super desafinada... depois entra uma voz masculina
dizendo algo como: a voz não é de boa qualidade,
mas os produtos sim", comenta Ick. O que poucos sabem
é que os locutores são os próprios funcionários
da rádio e se destacam aqueles que levam menos jeito.
Por exemplo, tem um imitador de vozes de famosos que não
leva o menor jeito para coisa: "a mãe dele disse
que ele sabia imitar e ele acreditou", comenta Jorge
num orkut.
No entanto, existem mais comunidades que gostam da rádio.
A "Eu adoro a Rádio Saara", tem 259 membros.
Na descrição, diz que essa é para aqueles
que se divertem com a Rádio Saara. O funcionário
da rádio, Renato Alves, está em algumas comunidades.
Ele diz que responde a críticas, mas não liga
que falem mal. Segundo dados apresentados por ele, 53% do
público que freqüenta o Saara, está entre
os 30 e 50 anos, ou seja, um público economicamente
ativo. A freqüência em dias normais é, em
média, de 100 mil pessoas. Em datas comemorativas,
esse número pode chegar a 500 mil frequentadores. Esses
números correspondem à audiência da rádio
também, o que torna a Rádio Saara uma das mais
ouvidas, pelo menos no centro da cidade.
Opiniões
Renato Leal, que é dono da loja "House of Pain",
estúdio de tatuagens e piercings, e que foge do perfil
dos lojistas do Saara, está há quatro anos no
local. Ele conta que seu filho, hoje com 15 anos, decorou
várias propagandas de lojas. Ele diz que não
suporta mais ouvir esses comerciais, há anos os mesmos,
mas admite que é uma fórmula que dá certo.
"Têm que ser maçantes para obter resultados",
diz Renato, e sua mulher Alessandra, complementa: "Eles
fixam, mas enchem o saco. Antes da loja, eu trabalhei no Detran
e já conhecia a maioria desses reclames". E tem
ainda os locutores das lojas, que aumentam a poluição
sonora, anunciando ofertas ao microfone durante todo o dia.
Como se não bastasse, algumas lojas mantém rádios
ligados em estações diversas.
Adelzon Alves, um dos principais programadores da MEC AM,
teve um programa por lá há cerca de quatro anos.
Ele diz que foi uma época em que a MEC AM não
estava muito bem e por isso ele decidiu procurar um outro
espaço, além da MEC, para veicular seu programa.
Disse que foi muito bem recebido por Ênio C. Bittencourt,
presidente da Saara, que lhe cedeu esse espaço. Adelzon
considera a Rádio Saara uma ótima via de divulgação
e acha que ela devia ser melhor explorada, mas ao mesmo tempo,
por tê-la conhecido internamente, considera o trabalho
de seus funcionários admirável, pela infra-estrutura
que têm. A sua única queixa é em relação
às músicas tocadas na rádio: "poderiam
melhorar o repertório", diz ele, um dos maiores
defensores do samba no país.
Utilidade pública
A rádio tem ainda um serviço de
utilidade pública, que é o verdadeiro benefício
prestado aos fregueses e transeuntes da Saara. Anunciam crianças
perdidas e documentos, campanhas de vacinação
e data para declaração de imposto de renda.
Sem a pretensão de ser uma grande rádio, mas
de informar e divertir, a Rádio Saara está longe
de ser uma unanimidade. Entre reclamações e
elogios, ela continua a monopolizar o espaço auditivo
de todos os que trabalham ou passam pelas ruas do Saara, diariamente.
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