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Conferência Nacional de Comunicação
por Jaqueline Deister
Inclusão social, convergência
tecnológica, diversidade cultural e soberania nacional.
Todos estes temas são fundamentais para a reestruturação
do sistema de comunicação brasileiro, que se
caracteriza hoje pelo monopólio concentrado nas mãos
de poucas famílias.
O movimento Pró-Conferência Nacional de Comunicação
foi criado em junho de 2007 ao final do Encontro Nacional
de Comunicação, seu principal objetivo é
pressionar o Estado pela criação da 1ª
Conferência Nacional de Comunicação.
O movimento foi uma iniciativa da Comissão de Direitos
Humanos (CDHM), Comissão de Ciência e Tecnologia,
Comunicação e Informática (CCTI), Câmara
dos Deputados, Legislação Participativa (CLP)
e da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão do
Ministério Público Federal. Em 2005, num seminário
nacional sobre o direito humano à comunicação,
a CDHM amadureceu a proposta de criação da Conferência.
Hoje, mais de trinta entidades da sociedade civil de âmbito
nacional compõe o movimento, que traz a proposta de
implementar a Conferência para que a população
seja capaz de produzir informação, opinião
e também questionar os conteúdos veiculados
pela grande mídia.
O Ministro das Comunicações Hélio Costa,
ciente desse movimento da sociedade civil para a criação
de um espaço onde se possa discutir a questão
da Comunicação, anunciou que realizaria a Conferência
em agosto de 2007. As trinta entidades que estavam à
frente do projeto, com o intuito de destacar o caráter
democrático da Conferência, enviaram uma carta
ao Ministro, dizendo que o evento teria muitas dificuldades
para alcançar o objetivo de ser efetivamente um fórum
democrático, amplo e participativo caso fosse
realizado às pressas.
Atualmente, o movimento está empenhado na coleta de
assinaturas em defesa da convocação da 1ª
Conferência, pelo Governo Federal. De acordo com os
manifestantes, este espaço é de suma importância
para que a sociedade discuta as políticas públicas
e o novo marco regulatório do setor das comunicações
no Brasil.
A questão das concessões das emissoras de rádio
e TV no Brasil aparece como ponto chave para a reformulação
das políticas públicas de comunicação.
No Rio de Janeiro, a convocação de uma audiência
pública no dia 17 de outubro, na Alerj, seguida de
um ato público na Praça XV, discutiu a renovação
das concessões, já vencidas, de canais como
os da Bandeirantes, da Record e da Globo. As redes de televisão
brasileiras tiveram suas renovações automáticas
impugnadas pela articulação de entidades nacionais.
De acordo com informações do movimento pela
democratização da comunicação,
as renovações acontecerão após
a realização da audiência pública
no Congresso Nacional, prevista para novembro, na qual serão
revistos os critérios e procedimentos para a exploração
comercial dos canais de televisão no Brasil.
Para Roseli Goffman, membro do Conselho Federal de Psicologia
e do Fórum Nacional de Democratização
da Comunicação, a elaboração
de um grupo de trabalho que atue junto com o Executivo é
essencial para que a Conferência preencha o seu papel..
De outubro e até o inicio de novembro, estudantes,
acadêmicos e diversos profissionais da mídia
de inúmeras regiões do país, se organizaram
pela Semana da Democratização. O evento contou
com debates sobre a criminalização dos movimentos
sociais na mídia, mostra de vídeos e oficinas
que corroboraram as idéias centrais da Conferência
Nacional.
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Audiência Pública
No dia 17/10, na Assembléia Legislativa
do Rio de Janeiro (ALERJ), deputados e membros de organizações
que lideram o movimento em pró da I Conferência
Nacional de Comunicação, reuniram-se para reivindicar
a reformulação da legislação brasileira
sobre o setor radiodifusor e debater a renovação
das concessões de rádios, TV e TV digital no
país.
A mesa contou com a participação do presidente
da ABI Maurício Azêdo, Celso Schroder, da Federação
Nacional de Jornalistas, Márcia Corrêa do Coletivo
Intervozes, Orlando Guilhon, da Associação de
Rádios Públicas do Brasil (ARPUB), O Deputado
Estadual (PT) Gilberto Palmares e o Deputado Federal (PT)
Jorge Bittar. Os representantes das grandes emissoras e do
Ministério das Comunicações não
compareceram à audiência que ocorreu às
11h no auditório do anexo dois da ALERJ. De acordo
com o deputado Gilberto Palmares, que fez a mediação
do encontro, o convite foi feito e o governo mandou uma nota
oficial em que alegou não poder comparecer devido a
uma votação importante. As empresas de comunicação
não se pronunciaram,disse o deputado.
Com uma apresentação cronológica
e rápida, Orlando Guilhon falou sobre o Código
Brasileiro de Telecomunicações, que é
o mesmo desde de 1962, da regulamentação do
capital estrangeiro do setor e das outorgas vencidas. A questão
do Código de Telecomunicações foi a base
do discurso da maioria dos presentes. Em entrevista a SOARMEC,
a coordenadora do Fórum Nacional pela Democratização
da Comunicação Roseli Goffman, falou o quanto
a legislação é retrógrada e sugeriu
uma solução: a criação de uma
frente parlamentar (ouça
o áudio) para ir de encontro a política
dos lobbys que apóiam as radiodifusores. A frente reuniria
aliados nas Assembléias Legislativas do Brasil para
que no Congresso a luta pela democratização
fosse efetiva.
Claudia de Abreu, dos Comunicativistas e da
TV Comunitária de Niterói, apresentou um documento
que mostrava uma das falhas da ANATEL em relação
as concessões do Rio de Janeiro. Segundo os Comunicativistas,
no primeiro momento em que pesquisaram na página eletrônica
da Anatel, todas as concessões das rádios comerciais
estavam vencidas. Entretanto, em uma segunda pesquisa, pouco
tempo depois, as mesmas concessões apareciam como renovadas
sem que houvesse tido tempo para a discussão e para
tornar pública a decisão sobre a renovação.
Uma das emissoras de rádio irregulares citadas é
a BandNews FM, do grupo Bandeirantes, que tem uma concessão
de Niterói, mas transmite da cidade do Rio de Janeiro
Segundo Guilhon, as outorgas estão concentradas
em onze famílias que dominam a comunicação
no Brasil. "Infelizmente os projetos, hoje aprovados,
ainda são de interesse das empresas", salientou
Guilhon. O presidente da ARPUB afirmou que o Congresso aprovou
a verba para a realização da Conferência.
" O Congresso destinou o orçamento de R$ 20 milhões,
sendo R$ 6 milhões só em 2008, para a constituição
da Conferência Nacional de Comunicação",
concluiu Guilhon.
A jornalista Márcia Corrêa, do Coletivo Intervozes
foi pragmática. Ela chamou a atenção
para a renovação das concessões da Rede
Globo, Record e Bandeirantes que já estão vencidas.
Marcia atentou para a desatualização e o descumprimento
da legislação por parte das emissoras. "A
lei não é seguida por ninguém, nenhuma
emissora respeita o teto de 25% de publicidade e muito menos
dedica cinco horas da sua grade à programação
educativa". A jornalista considera a consolidação
da renovação automática das emissoras
um reflexo da ausência do Estado nas políticas
de comunicação, mas acrescenta que se o Estado
é omisso, a sociedade é conivente.
O discurso do presidente da ABI (Associação
Brasileira de Imprensa), Maurício Azêdo, no cargo
desde 2004, foi aclamado por boa parte das pessoas presentes.
A fala inflamada de Azêdo não foi novidade para
quem conhece o discurso radical da esquerda. Azêdo acusou
o Ministro das Comunicações, Franklin Martins
de ser um agente dos interesses das grandes emissoras. A ABI
que se caracterizou no passado pela luta contra a censura
e pelo Impechment do ex-presidente Fernando Collor, não
mediu acusações contra o governo Lula e FHC:
- "O poder público não tem a coragem de
enfrentar os grandes empresários por medo", concluiu
o jornalista.
Em entrevista (ouça
o áudio) a SOARMEC, o professor da Escola
de Comunicação da UFRJ (ECO) Evandro Ouriques
fez uma análise sobre a radicalidade da esquerda e
o perigo da restrição do debate aos militantes.
Ouriques ressaltou que o militante deve deixar de ser militante
e ser cidadão, e que a esquerda deve evoluir:- "Precisamos
de mais diálogos, pressionar, argumentar, mas de uma
forma mais elevada. Não é através de
táticas de guerrilha ou de táticas antigas de
assembleísmos da vida. Deve-se parar de ficar insistindo
em bater nos outros". O professor finalizou a entrevista
lembrando da importância da democracia. - "Temos
que ter o domínio da verdade, de maneira que a vontade
dos militantes seja democrática e não mais um
meio pelo qual se reproduza novos mecanismos autoritários",
concluiu.
A mesa fechou com o Deputado Federal (PT) Jorge
Bittar, que chegou faltando pouco tempo para o fim do debate.
Bittar optou por um discurso de menos ataque e mais sugestões
de como construir uma comunicação democrática.
O deputado acredita que a melhor maneira de mudar o rumo da
radiodifusão no Brasil seja através do diálogo
com o governo. "Não é confrontar, mas permitir
oportunidades para os outros que estão surgindo",
ponderou.
A audiência pública pela realização
da Conferência Nacional reuniu cerca de 30 movimentos
sociais, que no final da tarde do mesmo dia organizaram um
ato político-cultural na praça XV. O Teatro
do Oprimido apresentou esquetes debatendo o tema. Vídeos
foram exibidos e os participantes registraram depoimentos
para a TV Comunitária de Niterói. A expectativa
é que a comunicação possa ser de fato
um direito do cidadão, e não um "privilégio"
de apenas onze famílias brasileiras.
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