Quais foram seus primeiros contatos com o rádio?
As madrugadas do rádio: não existia nada igual.
Porque o meu rádio, enorme, 12 válvulas, com mostrador
policromático, eu apagava a luz da sala e ficava aquele
lusco-fusco, aquilo tudo iluminando, colorido, um silêncio.
E eu ouvia baixinho as músicas da madrugada. Às
vezes do estrangeiro. André Kostelanetz, as músicas
chamadas de fantasia.... Janela aberta, porque não tinha
ladrão. O silêncio era quebrado pelo apito do guarda
noturno. Quando morava no subúrbio era o trem de carga
que passava de madrugada. Isso ficou na medula. Isso era o rádio
do meu tempo.
E como você passa de ouvinte a produtor?
Eu sempre gostei muito de rádio. Na minha casa, de jornalistas,
o rádio era fundamental. O meu tio, Rubem Gil, foi secretário
da Casa dos Artistas durante 30 anos, de 1920 a 1950, quando ele
faleceu. O presidente da Casa dos Artistas na ocasião era
o Floriano Faissal. E eu lá estava e ficava admirando os
artistas de rádio, de teatro, de cinema, que freqüentavam
a Casa dos Artistas. O Floriano era muito amigo do meu tio. Ele
mexia muito comigo, me chamava de judeu. Vinha com aquele jeitão
dele: Ô judeu, vem cá, senta aqui, lê
esse texto. Porque ele precisava de meninos para a Rádio
Nacional. E aí aconteceu o fato de nós irmos lá
e fazer um programinha que era rádioteatro, e eu fazia
um menino. Mas eu estava muito nervoso, aquilo era uma coisa brutal,
em 1949. Aí eu peguei o texto e comecei a ler e ele disse:
Não Pedro... não é isso. Deixa eu dizer
pra você: o menino é mau caráter, um desequilibrado.
E concluiu com a seguinte frase: Seja você mesmo.
Aquilo me surpreendeu, mas foi uma vitória porque eu fiz
e ele disse: Viu?, é isso! Você não
presta. E aí começou a coisa.. Logo depois
veio uma convocação da Rádio Mayrink Veiga,
de uma professora: Maria de Lourdes Alves. Ela estava selecionando
meninos e meninas do Ginásio para um programa chamado Clube
juvenil, que seria patrocinado pela Toddy. E nós fomos.
Nós, quem?: eu e o Nelson Tolipan. Eu conheço o
Tolipan desde 1947. Então fomos, os dois, para a Rádio
Mayrink Veiga. Fizemos um teste com a professora Maria de Lourdes
Alves e entramos no Clube Juvenil. Essa foi a nossa estréia
no rádio, em 1949. Estamos fazendo, esse ano, 60 anos de
rádio. Lá tivemos como mestres alguns colegas que
depois encontrei aqui na Rádio MEC, como Allan Lima. O
Allan Lima era um dos nossos ensaiadores. O Orlando Prado, também,
que era do radioteatro aqui da Rádio MEC; Teresinha Amaio,
que estava também começando, que fazia teatrinho
nas escolas; Tereza Raquel, que era do Colégio Piedade.
Enfim, estava todo mundo aparecendo.
O que você fazia no programa da Mayrink?
A professora Maria de Lourdes me disse: Pedro, você
vai fazer crônica cinematográfica. Mandou eu
ver os filmes e fazer as crônicas. Eu tenho até datilografada
a primeira crônica que eu fiz para esse programa, em 1949.
Pergunte quem bateu à máquina a crônica para
mim: Gianfrancesco Guarnieri. Guardo isso como um tesouro.
Você continuava estudando?
Nós estudávamos no Colégio Liceu Francês.
Terminamos em 1952, e aí já estávamos na
Rádio Nacional. A professora conseguiu um espaço
na Nacional e o Floriano Faissal nos assumiu integralmente. E
aí foi uma delícia, porque eu era o locutor. Eu
adorava quando o Cauê Filho, que era da Rádio Nacional,
apontava pra mim e dizia: Entra. E eu dizia: Emissoras
brasileiras da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, PRE-8,
com erres e esses, imitando o Reinaldo Dias Leme, o Aurélio
de Andrade, que estavam convivendo ali com a gente. Foi uma delícia.
E o programa foi bem. Ficou até 1954, se não me
engano. Aí aconteceram duas coisas que me afastaram um
pouco do Rádio. A primeira, uma insistência da família
para que eu fizesse concurso para a Marinha. E passei. Mas, nesse
ínterim, entre 1949 e 1953, nós freqüentávamos
muito a Rádio MEC, também. Como colaboradores. Íamos
ouvir o programa do Paulo Santos ao vivo, no quarto andar. Ele
fazia uns certames de discos. Muito honestos. Outro programa de
jazz que freqüentávamos era o do Silvio Túlio
Cardoso. Que era um crítico de jazz do jornal O Globo e
fazia um programa na Rádio Globo, que naquela época
não era uma grande rádio. Mas o Silvio recebia músicos
jazzistas. Em 1951, aconteceu um terremoto para mim, para o Tolipan...
todos nós que gostávamos de jazz: veio a orquestra
do Tommy Dorsey inteira pra Rádio Tupy. E nós já
conhecíamos o pessoal da Rádio Tupy, nos dávamos
muito com o Raul Brunini, que era o apresentador. E íamos
pra lá assistir o Tommy Dorsey. De repente, na porta do
elevador, no terceiro andar da Rádio Tupy, a porta abre
e, quem sai? Tommy Dorsey. Nós ficamos parados. E foi só
isso. Perdemos a chance de conversar com o Tommy Dorsey por causa
do choque emocional.
Os seus interesses então gravitavam entre literatura e
música, com ênfase em música norte americana...
Na literatura, porque minha tia era professora, era literata;
meu pai também era jornalista, literato, e a gente era
iniciado ali, tinha muitas conversas em torno disso. Sempre ocorria
uma espécie de sarau na casa da minha avó. Falávamos
de tudo, mas principalmente sobre a guerra.
Voltando para a década de 1950, seu relato nos faz ver
que havia um grande contato entre produtores de diferentes emissoras
de rádio. Vocês freqüentavam várias emissoras...
Raul Brunini, Luis Brunini, da Rádio Roquette Pinto, que
foi a antiga Rádio Escola do Distrito Federa... Estava
lá o Miécio Honkis, que foi daqui da Rádio
MEC, também. Continuamos indo à Rádio MayrinkVeiga,
também. Bom, aí teve aquele interregno da Marinha,
fui pra lá. E, é claro, não deu muito certo.
Em outubro de 1953 conheci minha futura mulher e me casei, em
novembro de 1954. E veio a filharada. Bem, eu tinha que ganhar
a vida. Na rádio não dava, porque era sistema de
cachê. Então encarei os concursos da vida e passei
para a Caixa Econômica Federal, e virei funcionário
da Caixa, que era uma autarquia. Era um banco social. Trabalhei
na Caixa 11 anos.
Como e por que você voltou ?
No final de 1969. Estava eu caminhando pela Avenida Rio Branco,
e quem vem na minha frente? Allan Lima. Pedro Paulo! Precisava
falar com você. O destino botou você na minha frente!
Precisamos convocar aquele pessoal do nosso tempo de rádio.
Porque a Rádio vai iniciar um projeto de caráter
nacional, de educação a distância. Vai se
chamar Projeto Minerva, e eu estou na coordenação
junto com a Helena Theodoro. Vamos para lá!. Aí
eu fui. Que sorte! Consegui a transferência de Ministérios,
porque naquele ano isso foi permitido. Então fui transferido
do Ministério da Fazenda para o Serviço de Radiodifusão
Educativa do Ministério da Educação. Aí
eu chorei. Choro até hoje. Foi uma maravilha. Vim para
cá. Virei funcionário da Rádio MEC e foi
uma realização pessoal. E começamos a fazer
programas. Eu vim com o objetivo de fazer aulas, porque eu já
estava formado, já era sociólogo: aulas de Estudos
Sociais para o Projeto Minerva. Foi uma honra porque quem era
o produtor das aulas de português?: Domício Proença
Filho. Matemática: Jairo Bezerra... Bom, aí começamos
a fazer, e o Projeto Minerva explodiu. Foi um trabalho muito bonito,
foi de princípio de 1970 até 1983. Depois acabou.
Acredito que cerca de 2 milhões de brasileiros tenham sido
beneficiados.
Quais os programas que você mais gostou de fazer?
Todos eles. Gostava muito de radioteatro. Por causa da Rádio
Nacional, da Mayrink... Sorte que, depois, o Floriano Faissal
veio para cá para a MEC. No radioteatro, o Dylmo Elias
e o Magalhães Graça eram os nossos ensaiadores.
Wanda Costa, Célia Morais... vozões maravilhosas.
O Magalhães Graça chegava a ser tão autêntico
que ele botava muxoxos nos artistas que não faziam muxoxos.
Ele encaixava de tal maneira.... o Magalhães Graça
era um gênio. Uma vez eu fui ensaiar com ele um texto da
Íris de Carvalho sobre a Favela da Catacumba. Eu disse:
Eu não vou fazer não, Graça
Por quê? Porque ninguém
vai fazer igual a você. Quando ele falava catacumba,
você via a catacumba! Além do radioteatro, eu fazia
um programa chamado Encontros com a Rádio MEC. Aí
eu trazia todo mundo da área da literatura, do teatro,
das artes plásticas. Várias personalidades. Os locutores
do programa eram William Mendonça e Maravilha Rodrigues,
que tinha uma voz maravilhosa. Depois fiz o Song Book. Era o Ecos
de uma era com algumas diferenças, e pegou no ouvido dos
ouvintes. Está no ar desde a década de 1980.
Você recebe cartas de ouvintes?
Recebo. E às vezes não respondo. O que é
uma coisa absurda. E ultimamente, também os e-mails. Recebi
recentemente um da cidade de Socorro no interior de São
Paulo. Há pessoas que escrevem discordando de meus programas,
o que é muito bom. Chegamos a formar um clube dos ouvintes
do Ecos de uma era. Vínhamos para cá nos dias das
gravações e depois íamos celebrar. Ainda
sobre os programas que fiz, participei também de programas
de literatura do Guiaroni, da Cleonice Berardinelli, e do Geir
Campos.
Falando os textos?
Falando, dizendo as poesias. Foi ali que eu entrei em contato
com muitos poetas.
Nesse momento, além do Ecos de uma era você faz o
único programa de literatura da Rádio MEC. Fale
um pouco sobre esse seu programa.
A idéia do Expressão literária, que eu achei
ótima, foi da Liara Avelar, e o programa já tem
mais de dois anos no ar. Só que eu abri o leque da literatura:
agora passou a ser literatura e história, literatura e
sociologia, literatura e mito. Nós já estamos com
oito programas sobre literatura e mito. Agora talvez a gente vá
começar a trazer para entrevistas alguns professores. Ele
atualmente tem meia hora e estamos pensando em reduzir para 15
minutos. Há pouco tempo fiz um programa só sobre
a Tabacaria, poema de Fernando Pessoa. Esse programa vale à
pena..