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Paulo Santos
Entrevista realizada na Casa
São Luiz, por Renato Rocha e Adriana Ribeiro, em 29/08/03,
para ser lida ao som de um disco de jazz. Sugerimos Duke Ellington,
um dos preferidos do pioneiro da divulgação do jazz
no Brasil. Mas, antes, leia a apresentação que Eleazar
de Carvalho escreveu, nos anos 60, para o lendário locutor
da Rádio MEC
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Paulo
Santos por Eleazar de Carvalho.
O timbre e a cor de sua voz; sua impecável dicção;
seu instinto musical; o perfeito conhecimento que demonstra
possuir das obras que interpreta; tudo isso, aliado a um apurado
bom-gosto e a uma elegante simplicidade, justifica o titulo
que Paulo Santos possui, de ser o NARRADOR BRASILEIRO.
Todas essas qualidades tenho constado durante a execução
das obras que Paulo Santos tem narrado sob a minha regência.
Estão em uníssono comigo, Leonard Bernstein,
Igor Markevitch, Hans Swarowsky, Aaron Copland, Arthur Fiedler
e muitos outros com quem Paulo Santos tem colaborado.
Na sua bagagem de interprete figuram gravações
de Pedro e o Lobo, de Prokofieff; Young
Persons Guide To The Orchestra, de Benjamin Britten;
e O Carnaval dos Animais, de Saint-Saens.
Paulo Santos é detentor, duas vezes, do Disco de Ouro,
do troféu Obelisco, do Prêmio Chagas Freitas;
do Prêmio Roquette Pinto; da medalha do
cinqüentenário do Teatro Municipal; do Golden
Award, da American Society of Disc-Jockey.
Com todas essas qualidades e distinções, Paulo
Santos não necessita de apresentação.
Este registro representa, apenas, a minha homenagem ao homem
de cultura eclética e a quem muito já deve a
comunidade cultural brasileira.
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Amigo Ouvinte
Como você entrou para a Rádio MEC?
Paulo Santos Bom, a vontade já era muito grande,
desde garoto, porque a Rádio MEC permitia um tipo de programação
que as outras não tinham: músicas mais selecionadas,
repertório erudito, coisas assim. Eu tentei e acabei conseguindo,
através do Sr. René Cavé e do Sr. Fernando
Tude de Souza, que eram os dois diretores da Rádio
um artístico e outro geral.
AO
Em que ano, isso?
PS Faz tempo, acho que em 45.
AO
Você foi recebido por eles?
PS Fui recebido primeiro pelo René, que era
o responsável pela programação da Rádio;
depois ele passou a noticia ao Tude da minha vontade de trabalhar
lá, de fazer alguma coisa lá: locução,
narração, redação especializada, coisas
assim. E eu comecei assim.
AO
Foi pedido algum teste, antes?
PS Não, eu fui direto. Apenas me apresentei
diante ao microfone, pra que eles ouvissem meu tipo de voz, maneira
de ser. Mas não foi um teste, propriamente.
AO
Você começou fazendo o quê?
PS Comecei fazendo programas normais, que já vinham
prontos, pra gente botar no ar. Alguns tinham textos, eu lia o texto;
outros não tinham nada, tinha só o nome da música
e o intérprete, mais nada.
AO
Qual o 1º programa que você produziu?
PS - Olha é um pouco difícil dizer, mas o que
ficou mais marcado foi o programa de jazz Em Tempo de Jazz
que queriam que eu chamasse de Jazzmania, mas eu não
quis. E foi crescendo, crescendo, até que eu recebi convites
de outras rádios para fazer aquele programa, tirar dali e
passar pra lá. Mas eu não concordei, porque eu comecei
na Rádio MEC, então tinha que ficar ali.
AO
Em Tempo de Jazz começou quando?
PS Não tenho certeza, acho que em 46.
AO
Como era o formato do programa naquela época? Era só
com discos?
PS Era só com discos, porque não tinha
meio nenhum de fazer transmissão externa, coisas assim nesse
sentido, então era só disco. E o grande problema,
na época, aqui no Rio, e no Brasil inteiro, é que
jazz era uma coisa muito rara, muito difícil. Então,
havia música norte-americana. Mas música dançante,
comercial, coisa assim, e isso não cabia no que eu queria.
Então, foi um pouquinho difícil começar assim.
Mas, a medida que a coisa pegou, e foi rapidamente, apareceram as
participações ao vivo, de músicos brasileiros,
que eu convidei, e nós conseguimos chegar aonde queríamos.
AO
Que músicos brasileiros você levou para o programa?
PS - Quase todos os brasileiros tinham esse dote, digamos
assim, de improvisação. Porque, antes de irem para
o jazz, eles já improvisavam na musica popular, no samba
e coisas assim. Tinha muita gente, na época, inclusive alguns
que ficaram com o nome marcado como o Dick Farney, No programa,
ele teve a liberdade de fazer o que ele gostava de fazer, sem restrição
nenhuma coisa que ele não tinha conseguido nunca em
outra emissora.
AO
Os discos eram seus ?
PS Eram sempre meus. Não tinha música
de jazz, naquela época nenhuma rádio tinha.
O que eles tinham era musica popular norte-americana, música
de dança, ou qualquer coisa assim, mas não jazz. O
jazz sempre foi uma especialidade que eu usufrui, desde o inicio
até o final da minha carreira na Rádio.
AO
Você foi sonoplasta da Rádio?
PS Fui, sim. Naquela época, a Rádio
já fazia programa de rádio-teatro. Então, eu
entrei com efeito de colocação de músicas ao
texto que iria ser representado. Só música e ruídos
especialíssimos.
AO
Então, voltando ao jazz: o programa começou em 45
e foi até quando?
PS Olha, enquanto eu estive na Rádio MEC, eu
estive no ar.
AO
É verdade que quem te substituía, nas férias,
era o Edino Krieger?
PS - Era, sim.
AO
Mas o Edino entendia de jazz?
PS - Entendia, sim. E gostava de jazz. No início da
coisa, o programa não era pré-gravado, depois é
que começou a gravar. E aí, não precisou mais
que o Edino participasse, porque eu gravava e deixava pronto pra
ir ao ar.
AO
Era ao vivo e passou a ser gravado, por que?
PS Passou a ser, para não haver falhas do operador,
em relação aquilo que a gente estava apresentando.
De maneira que passou a ser gravado. O programa fazia sucesso: então,
a gente, com os pedidos recebidos, repetia aquele programa tal qual
foi ao ar.
AO
Que outros programas você fêz?
PS - Ah, muita coisa. Eu produzi um programa chamado Cine
Música, que era feito a partir de musicas usadas em cinema.
Eu ia comentando, um a um, aquele filme que estava sendo exibido.
Além disso, um programa de ópera. E eu, inclusive,
criei oficialmente essa coisa lá na Rádio Ministério
da Educação, que era a transmissão de uma ópera
completa que não existia no rádio, naquela
época. Ocasionou uma série de problemas no inicio,
mas, depois, pegou de tal modo que não saiu mais do ar;
AO
Tinha mesmo um microfone da rádio pendurado no palco do Teatro
Municipal?
PS Tinha aquele negócio pendurado, sim, para
a transmissão do que estava acontecendo no palco. O meu era
um microfone portátil, e eu, dali, comentava a coisa toda,
antes de ir ao ar, enchendo o tempo. Muita gente dizia enchendo
lingüiça, mas não é verdade. Apenas
para que o publico tomasse conhecimento daquilo que ia ser apresentado,
daquele momento em diante fosse ópera, fosse orquestra
sinfônica, fosse o que quer que seja.
AO
A lenda é que você entrava no Teatro Municipal e entrevistava
todos os artistas e personalidades. Quantas línguas você
fala, Paulo?
PS Eu falo várias: inglês, principalmente,
mas espanhol e italiano, também.
AO
Paulo, o teu nome está intimamente ligado à OSN. Onde
a OSN ia, você acompanhava?
PS - Acompanhava. Toda vez que fosse necessário. Não
só como solista narrador, mas também como coadjuvante
da direção daquele setor.
AO
Fale dos recitais no cinema Rex. Que época foi?
PS Final dos anos 40: 49, 50, por aí. Começava
às 10 horas da manhã e ia até meio-dia, aos
domingos. Podia ser musica clássica ou semi-erudita; mas
a gente comentava e combinava antes, com quem ia ser apresentado,
uma entrevista, num possível intervalo, para que a transmissão
fosse feita dali.
AO
E as transmissões na TV Globo, como eram realizadas?
PS Nada de especial. Antes da transmissão,
nós contactávamos com os solistas, com as pessoas
que iam se apresentar, para que, no intervalo, nós pudéssemos
conversar a respeito, embora muito rapidamente, para aquilo não
ser só apenas musica erudita jogada no ar.
AO
É verdade que o nome Rádio MEC foi você
quem propôs?
PS - Fui eu que propus, sim. Porque Ministério da
Educação e Cultura complicava muito na época,
porque antes era só Ministério da Educação.
Então: eme-é-cê: MEC, Ministério da Educação
e Cultura quando se passou a chamar assim. Aí eu passei
a adotar essas 3 letras como se fosse um prefixo, digamos assim,
daquilo que a gente ia apresentar.
AO
Com o LP Pedro e o Lobo, você foi o pioneiro no Brasil da
narração com música. Você tem um especial
carinho por essa obra do Prokofieff, não é mesmo?
PS Tenho, porque acho a obra muito boa, musicalmente
e como idéia de narração conjugada com a música,
e, segundo porque nós precisávamos ter um caminho
novo dentro dessa estrutura musical. E foi assim que nós
começamos, com Pedro e o Lobo. E depois vieram as outras.
AO
Quais foram?
PS Bem, eu fiz muita coisa, de vários autores,
nesse sistema botar a voz falada, declamada, como você quiser
chamar isso mas não cantada com a música.
AO
Segundo o locutor Décio Luiz, foi você quem acariocou
a empostação da Rádio MEC, que era apaulistado:
Rrrrrádio Minissstério. Você dava cursos dentro
da Rádio. Lauro Gomes e o Guilherme de Souza contam que estudaram
com você.
PS Não só eles: muitos outros fizeram
cursos lá, com a gente. Eles queriam aprender a maneira de
dizer a coisa pra que todos entendessem e que não fosse sofisticado.
AO
Como é que era a pauta, o temário desses cursos?
PS A idéia principal foi a de lançar
esse negócio, auxiliando aqueles que estavam trabalhando
no setor radiofônico. E muita gente, já profissional
de Rádio, passou a ir a Rádio MEC, querendo participar
dessa coisa, e falava sempre comigo , porque era a principal voz.
AO
Você era a voz padrão da Rádio: as pessoas ouviam
a sua voz pra falar mais ou menos parecido com você?
PS É verdade, mas eu achava que não
era necessário. Cada um tinha o seu jeito de ser, mas acontecia
muito isso. Iam lá, me visitar, pra ver como eu fazia a coisa.
AO
Você tem essas apostilas ainda guardadas ?
PS Muita coisa se perdeu, não sei nem como.
AO
Você tinha ou chegou a preparar um dicionário fonético,
com nomes de músicos e músicas?
PS Eu tinha, porque eu fiz, não porque existisse.
Então, coisas assim, especiais, eu escrevia o nome, tal qual
era escrito, e, depois, a pronúncia correta do nome, como
era conhecido mundialmente.
AO
E o Nelson Tolipan?
PS - Ele começou comigo. Queria que revisasse tudo
que ele escrevia. E continuamos assim, amigos.
AO
Você fez algum trabalho no INCE, narração de
filmes, essas coisas?
PS Eu fiz algumas coisas, sim, mas principalmente
atuando; não escrevendo. Mas produzindo e narrando.
AO
Quais os grandes diretores da Rádio, a seu ver ?
PS Tem muitos, mas o Fernando Tude de Souza foi quem
deu a partida para que o resto prosseguisse.
AO
Você trabalhou em outra rádio ?
PS Trabalhei na Rádio Jornal do Brasil, ao
mesmo tempo que na Rádio MEC. E, de passagem, na Rádio
Clube do Brasil. Na Rádio JB, eu não era só
locutor, porque o locutor apenas apresentava a música, e
eu não: comentava o que estava acontecendo. E fiquei lá
bastante tempo. Aliás, o nome JB quem botou fui eu.
AO
Você também pôs o nome na JB!
PS E pegou, né?
AO
O perfil do profissional de rádio era ume depois da TV virou
outro?
PS Infelizmente, virou. Mas não tem nada uma
coisa a ver com a outra. Porque a televisão você vê,
então, não adianta você comentar uma coisa à
sua maneira e você ver outra. Já o rádio, não:
você fazia aquilo pro ouvinte ver mentalmente.
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