Paulo Autran

Entrevistado por Lívia
Rosa, em 18/02/1999
Para falar a verdade, eu nunca pensei em rádio
na minha carreira. Eu sou um ator de teatro. Fiz televisão
acidentalmente, fiz rádio por convite e nunca pensei num
programa de rádio, nunca criei projeto algum, nesse sentido.
Comecei a trabalhar na Rádio MEC, em 1957, a convite de
Murilo Miranda que, então, dirigia a Rádio. Ele
era um homem que tinha trânsito por todos os meios intelectuais
do país. Era amigo pessoal de Mário de Andrade,
que já tinha morrido nessa época. Existem até
as cartas de Mário para ele e dele pra o Mário,
maravilhosas. Era um homem com uma visão sobre cultura
extraordinária. E ele teve então a idéia
de fazer o programa Quadrante, que eram cinco minutos em que eu
lia crônicas. E os cronistas eram a nata da inteligência
do Rio de Janeiro. Era Carlos Drummond, Cecília Meireles,
Dinah Silveira de Queiroz, enfim, um para cada dia da semana.
Então era um programa privilegiadíssimo. Durava
no máximo cinco minutos, que era o tempo de leitura de
uma crônica. Ia ao ar às oito horas da noite, e era
repetido no dia seguinte, ao meio-dia. Era um dos programas de
maior audiência. O sucesso do Quadrante foi uma coisa extraordinária,
na época, porque a Rádio MEC nunca teve a pretensão
de rivalizar com nenhuma rádio comercial - é uma
rádio que sempre se dedicou mais às coisas culturais
e sabia, portanto, que teria menos ouvintes, habitualmente. Foi
a primeira vez na história da Rádio em que um programa
teve maior audiência que os programas das rádios
comerciais. Às vezes eu falava com alguém pelo telefone
e a pessoa perguntava: "Não é o Paulo Autran?",
e eu dizia "Como é que você sabe?", e ela:
"Estou reconhecendo sua voz da Rádio MEC." Isso
aconteceu inúmeras vezes.
Quando foi editado o livro Quadrante, na noite de autógrafos
compareceram todos os cronistas, e o Carlos Drummond escreveu
uma das coisas que mais me envaidece na minha carreira. Ele escreveu
"Para o Paulo Autran, que transformou em arte todos esses
meus modestos trabalhos." Pode até ter sido ironia
dele, mas não era. Ele era muito sincero, uma pessoa extraordinária.
Quando veio o golpe militar, a Rádio MEC caiu nas mãos
de um senhor chamado Eremildo Viana, que, se tinha cultura não
demonstrava, se tinha algum conhecimento não demostrava.
Ele queria mesmo era acabar com todo e qualquer programa que tivesse
liberdade artística de escolha ou qualquer coisa assim.
E então ele acabou com o Quadrante. A essa altura eu já
tinha vários anos de Rádio MEC, já estava
como funcionário público da Rádio, e continuei
a participar de outros programas, lendo sempre crônicas
ou trabalhos de alguém. Ele quis, então, me obrigar
a cumprir um horário, e eu lhe disse que era impossível.
Os outros funcionários da casa achavam um absurdo, pois
sabiam que eu trabalhava com teatro. Então o Eremildo começou
a me atribuir outras funções. Um dia, quis que eu
lesse uma crônica a respeito de um novo pintor. A crônica
era assinada por um rapaz do Rio de Janeiro e dizia coisas inacreditáveis
a respeito do pintor. Que era um pintor jovem, musculoso, de olhos
verdes, e eu lhe disse que não poderia ler aquela crônica,
pois ela parecia uma declaração de amor e não
uma crônica sobre pintura. E não li a crônica.
Ele não podia me demitir, mas continuou me dando coisas
completamente desinteressantes para ler no microfone, e eu acabei
pedindo demissão da Rádio Ministério da Educação,
contra a vontade dos colegas.
Esta foi a minha passagem pela Rádio MEC, uma passagem
muito agradável, de glórias, até o golpe
de 64, e, depois, uma coisa meio constrangedora.