AO Como foi sua vinda para a Rádio
MEC?
Eu sou de Recife. De lá me inscrevi no 1º concurso
Música e Músicos do Brasil, da Rádio MEC.
Era um concurso de Música de Câmara. Eu escrevi um
Concertino de Cordas, que foi uma das obras escolhidas, e eu ganhei
menção honrosa. Isso foi em 1959. Eu nem vim ao
Rio. Em 1960, houve o 2º concurso e eu ganhei o primeiro
prêmio, com um Trio para piano, violino e violoncelo. O
prêmio foi dado pelo Ministro da Educação,
e o Trio da Rádio tocou. Era o Bocchino, ao piano; Anselmo
Zlatopolsky, ao violino; e Iberê Gomes Grosso, ao violoncelo.
Em 1962, eu me fixei no Rio. Na época, fizeram concurso
para o coro da Rádio. Murilo Miranda, que era o diretor,
chamou o Isaac Karabitchevsky pra reger o coro e foi quem promoveu
esse concurso. Eu gostava muito de cantar em coro, lá em
Recife, então eu fiz o concurso e entrei como baixo-barítono,
no Coro da Rádio MEC. Fiquei em 62 e 63 nesse coro e, em
64, eu ganhei uma bolsa da Rockfeler. Pedi licença e fiquei
em Buenos Aires, estudando doutorado em composição.
Alto nível de composição, porque era com
Albertine Asfera, que é da Argentina; Luigi Dallapiccola,
da Itália; Mario Pietro, também da Itália,
e Aaron Copland, dos Estados Unidos, quer dizer, os maiores mestres
da composição. Hoje, quando olham meu currículo,
falam com esses professores, que loucura!. Realmente
eram os maiores compositores da época. Foi muita sorte
estudar com eles. Em 65 eu voltei ao Brasil. Continuei cantando
no coro da Rádio. Nesse período, o diretor era o
Eremildo Viana. Era um momento muito complicado. Mas eu tinha
um trabalho com o Maurício Quadrio, que era também
produtor da MEC. O Maurício gostava muito da minha obra
e ele era diretor da Odeon, na época uma grande companhia
de discos. Ele queria fazer uma coleção de música
brasileira: ele era louco pra gravar música brasileira.
Aí me chamou pra fazer parte da equipe dele. Eu comecei
a fazer recuperação de partituras. Eu ia pra Biblioteca
Nacional, pra Biblioteca da Escola de Música... Lá,
por exemplo, estava a Abertura do Padre José Maurício.
Só existiam as partes, e eu fiz a partitura e aí
foi gravada. Hoje, ainda tenho o original. Também Marcos
Portugal, a missa Te-Deum de D. Pedro I, que estava na Igreja
do Carmo. Faltavam algumas páginas, porque as pessoas,
lamentavelmente, arrancaram folhas com o manuscrito
de D. Pedro I . Você imagina como era precioso isso. E o
Maurício disse: Assim não dá pra gravar,
você não pode fazer?. Aí eu fiz aquele
trabalho de reconstituir, a partir do estilo de D.Pedro I. Eu
escrevi as partes que estavam faltando. E foi gravado pelo coro
da Rádio MEC. Eu também gravei. O regente, eu acho,
foi Henrique Morelenbaun. Uma obra primorosa,
lançada em LP pela Odeon. Então, nós
gravamos Radamés Gnattali, os concertos de piano, pelo
próprio Radamés Gnattali, e Villa-Lobos, alguma
coisa. Foram muitos discos.
AO Era um trabalho do Maurício
Quadrio junto à Odeon com a participação
da Rádio?
É o que hoje chama-se de parceria. Naquela época
chamava-se convênio. Maurício Quadrio era funcionário
da Rádio, e eu também. Então éramos
cedidos e as gravações eram nos estúdios
da Odeon. Os LPs, foram lançados numa coleção
chamada Monumento da Música Clássica Brasileira,
uma coisa imensa. São discos raríssimos, que
nunca foram lançados em CD. A Rádio deve ter. Foram
feitas gravações, por exemplo, de obras de
Henrique Oswald. Concertos para piano com uma grande intérprete
dele que era a Marina Barra. Nós pegamos as pessoas da
Academia Brasileira de Música, o Andrade Muricy era o presidente,
o Renzo Massarani, o Mozart de Araújo que já
foi diretor da Rádio, a Helza Camêu, e fomos
buscar partituras importantes. De Leopoldo Miguez fizemos duas
espécies de poemas sinfônicos. Primorosos. Chegamos
até Guerra-Peixe, chegamos a fazer a Retirada da Laguna,
de Guerra-Peixe. Tudo isso em LPs. E era um trabalho incrível,
porque eu estava associado à Rádio, que tinha a
Orquestra Sinfônica Nacional, o Coro, e os solistas era
a Odeon que escolhia e pagava. O regente era Alceo Bocchino, que
era da Rádio, e havia também regentes convidados
como o Morelenbaum. Mas o Bocchino gravou muita coisa, na época.
Foi um trabalho incrível. Foi um trabalho que deu muitos
frutos. Depois ocorreram muitos problemas, com a Odeon. Porque
eram discos culturais, então não vendiam muito.
Foi uma coisa pioneira dentro da Rádio. E aquilo justificava
a essência da Rádio MEC, uma Orquestra pra gravar
música brasileira. E eu trabalhei nessa parte até
mais ou menos 67, 68.
AO E o senhor não produzia programas?
Até aí eu era funcionário do coro, mas fazia
muita coisa na Rádio. Eu fazia todas essas coisas por causa
da minha formação. Já naquela época
eu era um compositor, tinha meus prêmios todos, viajava
muito. E sempre tive apoio para viajar. Fiquei nos Estados Unidos,
ficava 2 meses nas cidades, ia e voltava. Foi muito importante.
AO Alguma dessas viagens foi mais longa?
A mais longa foi essa de 63 e 64. Felizmente eu não estava
aqui quando houve aquela revolução. Quando
voltei, já estava essa tralha aqui toda. Mas em 63 e 64
eu fiquei com essa bolsa da Rockfeler, com licença sem
vencimento.
AO- Quando é a sua estreia como produtor?
Isso foi um pouquinho depois. Porque, na Rádio, eu fiquei
até essa época trabalhando, assim, mais avulso,
e, em 1972, o diretor era o Avelino, e ele me chamou pra ser o
chefe do setor musical. Antes, era o Bocchino. Foi então
que eu comecei a fazer um trabalho com o Concertos para Juventude,
que, na época, a Rádio fazia junto com a TV Globo.
Eu tinha muitas idéias e era muito crítico a respeito
do Concertos para a Juventude. Então, eu digo: vou
aplicar as minhas idéias.
AO Quais eram as suas críticas?
Era que a Rádio era muito devagar, em termos de promoção.
Tendo uma orquestra, tendo o coro, tendo todas as possibilidades,
a Rádio era muito modesta em termos de entrar no circuito.
A Orquestra Sinfônica Nacional foi a orquestra que mais
gravou no Brasil. Naquela época, deu uma projeção
muito grande à Rádio. Mas a articulação
administrativa aqui na Rádio era lenta. Quando eu
entrei, em 73, eu continuei com as gravações na
TV Globo. Muitos músicos aqui da Rádio tocavam na
Orquestra da TV Globo, e eles ganhavam da Globo um pagamento,
certamente, muito maior. E quando eles iam gravar o Concertos
para a Juventude diziam: nós estamos gravando pra
Globo. Eu argumentava: olha, vocês estão
gravando aqui como Orquestra Sinfônica Nacional, não,
é como orquestra da Globo. O Concertos para a Juventude
começou no Teatro Municipal e depois passou a ser veiculado
na Globo. Foi grande a repercussão da Rádio. Nós
fizemos o programa de 72 à 79. Eu inventei os chamados
concursos. Nós fazíamos concursos pra jovens instrumentistas,
mas jovem mesmo. Os garotos brasileiros que ninguém conhecia.
E simplesmente eram Antonio Menezes, que tinha 8 anos
de idade e ganhou o primeiro prêmio; era o Bernardo Katz,
violoncelista; era o Roberto Minczuk, que hoje é o regente
da Orquestra Nacional, trompista, tinha 8 anos de idade. Então
esses gêniozinhos brasileiros, uma coisa comovente
da gente ver. O José Carlos Cocarelli, pianista, era um
garotinho de 10 anos, filho do oboísta que tocava na Orquestra
Nacional.
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Alceo Bocchino e Nelson Freire, em uma das apresentações
do programa Concertos para a Juventude
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O Ranevsky tinha os filhos dele
também que eram violoncelistas, enfim, essa garotada,
nessa faixa de 7 e 8 anos. Eles tocavam na Globo nas manhãs
de domingo e os prêmios eram uma ajuda pra ir pro exterior
estudar, entre outros. Então, o Menezes teve uma ajuda
para ir pro exterior estudar violoncelo. Era assim. Chamava-se
Troféu Rádio MEC-Globo Instrumentista. Depois
fizemos para pianistas, corais... uma coisa impressionante.
Vieram corais do interior de Minas Gerais, de São Paulo,
da Amazonas. Era extremamente comovente, porque os corais
vinham de ônibus, nós não tínhamos
dinheiro pra pagar. Fizemos um acordo com a Itapemirim. O
concurso de coral foi um êxito bárbaro. Depois
fiz então o Concurso Nacional de Bandas. O concurso
de bandas foi mais incrível, porque as bandas
vinham também de ônibus, do interior, com
instrumentos colados com esparadrapo, aí era o sapateiro,
era o lixeiro, era o prefeito, o Secretário de cultura
municipal, era dona de casa: eles eram os músicos.
Coisa comovente. Alguns desafinavam, aquela
coisa, mas a gente sabia que o que importava era eles se apresentarem.
E na Globo, que naquela época já tinha alcance
nacional, imagine a cidade colocando a televisão
pra ver a bandinha tocar. E o disco foi feito com os vencedores,
eram 4: de São Paulo, de Pernambuco, de Minas Gerais
e, acho, uma do Paraná. |
AO Quem eram os jurados do concurso?
O júri era formado por músicos que eu chamava,
de grande categoria, como Morelenbaum, Bocchino, Arnaldo Estrela,
Iberê Gomes Grosso, só papa fina. Infelizmente, a
Globo não pôde manter as fitas, mas as ofereceu a
Rádio MEC, que não teve dinheiro para comprar. Eram
aquelas fitas de tape, caras, o Boni na época me disse:
a Globo não é instituição cultural,
nós não vamos fazer arquivo de fitas, depois de
3 domingos a gente apaga e grava em cima, mas eu ofereço
por preço de custo, quer dizer, nós teríamos
que dar uma fita em troca. Aquela fita significava um investimento
financeiro imenso. Você imagina o que é uma fita
gravada no estúdio da Globo, com toda técnica e
tal. Ele ofereceu me dá uma fita virgem que eu dou
essa. Aí eu fiz um projeto, briguei, fiz o diabo
e não consegui nem uma fita: nem uma fita. Foi uma tristeza.
Quando eu vi tudo aquilo, um arquivo imenso, a memória
de todos esses grandes músicos que hoje estão tocando
no Brasil, todo mundo começou ali com 8 anos, 7 anos, era
um documento maravilhoso. Foi tudo destruído. O concerto,
por exemplo, com Victor Assis Brasil, que morreu logo depois,
tocando com a orquestra da Rádio. Radamés Gnattali
tocando ao vivo, Nelson Freire... Todo mundo era garoto. Isso
se perdeu, lamentável. Foi a grande coisa que foi feita
aqui na Rádio que justificou a orquestra da Rádio
se apresentar, o coro da Rádio se apresentar, a Orquestra
de Câmara da Rádio. A minha idéia sempre foi
assim, a Rádio tinha que entrar no circuito da mídia
forte.
AO As transmissões trouxeram ouvintes?
Sim, ouvintes de música. O Brasil parava. Em certas cidades
o padre era obrigado a mudar o horário da missa. Porque
ninguém desgrudava do Concertos para Juventude, para acompanhar
o concurso. O pessoal ficava torcendo pelo violinista,
que tinha 6 anos de idade; outro ficava torcendo pelo violoncelista,
que tinha 7. E o júri dava informação
cultural subliminar. Ele não dava aula, mas cada
fala do júri era uma aula. Havia orquestras se apresentando.
Havia um concerto muito bem filmado, mas havia também
a coisa do concurso que era uma maneira de fazer com que o público
ficasse ligado. Um formato popular. Então isso aí
levou a um sucesso sem precedência. O ibope da Rádio
e da TV Globo, nessa época, era imenso com música
erudita. Acho que, hoje em dia, nós não teríamos
a mesma coisa.
Em 1977, eu fui nomeado para o Instituto Educacional de Música,
aí me licenciei da Rádio. Mas eu, como diretor de
música, continuei ligado na Rádio. O diretor era
o Heitor Salles. Então eu disse pro Heitor: vamos
continuar. E nós continuamos fazendo os Concertos,
já com apoio do Instituto de Música da Funarte.
Até que a Globo começou a ficar de olho no horário.
A mãe do Boni gostava muito do Concertos. Então
o Boni não mexia. Quando morre a mãe do Boni, ele
diz: acabou. Este horário ele estava querendo
para transmitir a Fórmula 1. Isso foi em 1981.
AO Ano que a OSN saiu da Rádio.
A Orquestra começou a criar um tremendo problema. A briga
era grande: a Orquestra Sinfônica Nacional com a Orquestra
Sinfônica Brasileira. O Isaac queria as verbas todas pra
OSB. Eu dizia: não, tem que dividir com a OSN.
Depois, a Orquestra foi pra Niterói. Os músicos
criaram tanta dificuldade, de sindicato e não sei o quê,
que acabou. O diretor que estava aqui não se interessou
em manter. Quando eu voltei pra Rádio, passei a ser produtor
de programas. Eu senti que estava me estressando demais. Eu realmente
me desgastei. Quando houve então a saída da
Orquestra, aí eu disse: chega!. Eu não
quis mais saber nem do Concertos para a Juventude, nem da Orquestra
Nacional, e acabou.
AO Ainda é possível trazer
de volta a Orquestra para a Rádio?
Eu não sei, acho que não. Acho que não interessa
mais... Sabe por quê? Vou dizer: são caros. Não
vejo estrutura que seja possível colocar aqui.
Se você pensar que os ensaios eram feitos no 6º andar,
sem ar condicionado. Quando entrou um novo diretor, que não
me lembro agora, ele acabou com aquilo e decidiu fazer ali o projeto
Minerva. Pegou a Orquestra e chutou ela lá de cima
era sempre assim. Eu tinha medo das férias. Porque a Orquestra
entrava de férias e quando voltava não
tinha lugar para a Orquestra. Um esforço que a gente fazia
pra poder ensaiar. Foi por isso que eu me cansei, porque
você lutava pelo lugar da Orquestra. Então era cada
conquista na base da luta, não era brincadeira. Esse esforço
físico de manter uma orquestra significava uma coisa que
a Rádio hoje não pode, não tem espaço
físico pra isso. Não adianta você ter uma
orquestra e a orquestra não ensaiar.
AO O que a Rádio poderia fazer
e não faz?
A Rádio deveria gravar mais música brasileira e
lançar música brasileira. Eu sei que não
é fácil, e que já está fazendo. Mas
devia fazer com mais vigor. Aproveitar o estúdio para ver
os talentos brasileiros que estão surgindo. E fazer um
acervo do nosso tempo para o futuro. Porque nós temos talentos
jovens, que não podem entrar no circuito comercial ainda.
E esse pessoal precisa de um lugar para fazer sua divulgação.
Aqui se faz concerto, gravações, mas precisa conseguir
mais apoio financeiro, que não custa tanto. Já tem
um estúdio com tudo montado. E gravar mais música
de compositores brasileiros jovens, com artistas brasileiros
jovens. Essa turma que está aí, de grande qualidade,
não só no Rio e São Paulo. Fazer projetos.
A função da Rádio é preservar para
o futuro o que acontece hoje no Brasil.