Marlene
Blois

Pioneira do Projeto
Minerva e do rádio educativo, nossa entrevistada é
autora de livros para o ensino fundamental e tem trabalhos publicados
aqui e no exterior sobre comunicação e Rádio.
Produziu e apresentou, pela Rádio MEC, as séries
"Educação em Debate" (por 12 anos) e "Esporte
Brasil"; e co-produziu, com Renato Rocha que assina
esta entrevista a série "Encontros com Paulo
Freire", em parceria com a Rádio Cultura de São
Paulo.
Quando e como
você começou na Rádio MEC?
MB Com carteira assinada, em maio de 71. Mas, antes, eu
já estava oficiosamente trabalhando aqui. Foi assim: a
professora e radialista Helena Theodoro estava organizando a equipe
que iria planejar e produzir programas para o que ficou conhecido
como Projeto Minerva. Nós havíamos trabalhado na
Secretaria de Educação e penso que foi por isso
que ela fez o convite. Um pouco antes, eu tinha feito um curso
sobre a TV como meio educativo (que era uma grande novidade) com
as professoras Judite de Paiva e Souza, e Alfredina de Paiva e
Souza. Aí, eu tive que viajar e, quando voltei, tinha dois
convites: um da Helena, para vir pra cá, e outro da professora
Judite, para trabalhar na TVE porque eu havia tido bom
desempenho no curso. Mas o encanto para mim era o rádio
e eu vim pra cá.
E o que você
fazia?
MB Nós trabalhávamos em grupo, planejando
o curso que seria a grande novidade do Minerva. Atendendo a nova
lei, a 5698, nós oferecemos o Curso Supletivo de 1º
grau que passaria a ter 8 anos, juntando o antigo primário
com o ginasial. Teríamos que pensar num supletivo com grandes
inovações. Os quatro primeiros anos ficavam a cargo
do Mobral, mas os alunos saíam do Mobral e queriam continuar
os estudos, então o governo tinha que oferecer alguma coisa
que desse terminalidade de 1º Grau, e era essa a função
do Minerva, que estava inserido nessa proposta de Brasil Grande,
onde era preciso dar educação à massa, melhorar
as condições de escolaridade do trabalhador. Na
perspectiva da época, o Brasil só crescia se tivesse
pessoas qualificadas. E essa história continua até
hoje: faltam professores qualificados, não conseguimos
erradicar o analfabetismo... Aí, começamos esse
trabalho de planejar o curso, trabalhando primeiro com a Fundação
Padre Anchieta eles faziam o curso na televisão,
na Padre Anchieta, e nós fazíamos o curso versão
rádio. Essa foi a primeira perspectiva.
Nesse início vocês levaram em conta as experiências
do MEB, do Colégio do Ar, etc.?
MB Não, além de não termos esse material,
nem tínhamos tempo. Até porque a Educação,
no início dos anos 70, estava dando um grande salto metodológico.
E nós todos estávamos muito entusiasmados com essa
mudança a grande mudança de poder oferecer
um curso, para um grande contingente de pessoas, a distância,
numa perspectiva de criação de uma grande rede de
educação, no Brasil inteiro. Isso queria dizer o
envolvimento das Secretarias de Educação. Era um
trabalho tão grande, tão encantador, que a gente
não tinha tempo de nada. Depois do planejamento, tínhamos
de montar a equipe de professores que escreveriam os conteúdos
das aulas. Ninguém sabia direito como escrever conteúdo
pra rádio. Tínhamos que transformar esses conteúdos,
que os professores traziam, em produtos radiofônicos. Esta
era a tarefa dos nossos redatores fantásticos, para depois
então gravar e aí entravam os radioatores,
locutores, sonoplastas etc., dando vida ao que chamávamos
de radioaula. O trabalho foi assim, sem tempo para se ter uma
fase piloto para testar. Numa segunda oferta e nas seqüentes
do curso, fizemos os ajustes para melhorar o material didático,
ou seja, a aula radiofônica e o fascículo que a acompanhava.
Regrávamos trechos das aulas, chamávamos o professor,
os locutores ou os que eram necessários. Foi desse jeito.
Quanto tempo até o primeiro programa ir ao ar?
MB Não foi muito, não. A equipe foi formada
à medida que o trabalho exigia os que chegavam aprendiam
com os que já estavam na produção.
Quem eram essas pessoas?
MB No início, não éramos muitos. Cheguei
eu, depois a Yvone Vieira, a Solange Leobons, a Virgínia
Palermo, na produção, com Allan Lima. E foram chegando
Maricéa Drumond, Maridéa Macedo, Benirah Azen, a
Amelinha (Amélia da Silveira), Yeda Brandão, Rosa
Dávila, Lígia Canabarro, Lídia Costa, Mário
Dias, Lourdes Favila, Yara Chedid, Ivanete Silva, José
Antônio, Maria Fucs. O diretor era o Avelino Henrique, e
a Helena Theodoro tinha um envolvimento mais político,
de articular tudo isso uma pessoa dinâmica, com grandes
idéias.
E os professores?
MB Tinha o Domício Proença, nas aulas de
Português; Jairo Bezerra, Matemática; Arnaldo Niskier,
Moral e Cívica, e o Aurélio Buarque de Holanda .
Quer dizer que
o Minerva não se serviu das experiências anteriores?
Partiu de zero?
MB Na verdade, a experiência de um longo curso, pelo
rádio, ninguém tinha. Partimos de uma proposta pedagógica
que seria veiculada pelo rádio. Porque nós formávamos
o grupo de educadores, e tínhamos as pessoas de rádio,
que transformavam os conteúdos em produtos radiofônicos.
Tínhamos reuniões freqüentes para discutír
o melhor modo de passar um determinado assunto. Como fazer as
cortinas de passagens de um bloco de conteúdo para outro?
Qual deveria ser a duração?, etc. E, como nós
viajávamos muito, íamos a campo, conversávamos
nos rádiopostos e trazíamos o "sentimento"
dos nossos alunos para as reuniões de equipe.
Isso quando?
MB Em setenta e poucos. O tempo todo, fazíamos um
trabalho, nas Secretarias de Educação, de convencimento
de que os governos locais não teriam condição
de dar um curso supletivo com a qualidade que oferecíamos
para aquela massa oriunda do Mobral. Como a Secretaria iria assumir
isso? Presencialmente, não teriam condição.
Então, qual a estratégia? Conversar com os responsáveis,
"vender" o que era um curso pelo rádio, sua importância.
Essas pessoas iam se sensibilizando, montavam rádio-postos
nós dávamos treinamento para os que seriam
supervisores, para os monitores. Na verdade, construímos
um grupo de pessoas nos estados compromissadas com uma educação
via rádio.
Como era um rádioposto?
Marlene Blois Um rádioposto tinha uma antena no
telhado e um rádio receptor. No início, tínhamos
um rádio que era dado às secretarias com sintonia
cativa os ouvintes não podiam trocar de estação
, e uma sala de aula, que podia ser um espaço numa
igreja ou num quartel, por exemplo. Se havia quadro-negro, ótimo.
Os alunos recebiam a coleção de fascículos
do curso. Nos anos 70, nós já trabalhávamos
com multimeios, não é fantástico? Tínhamos
o rádio, o fascículo e mais a presença do
monitor esses três elementos funcionando.
O monitor era
pago?
Nós não pagávamos: esses recursos eram a
contrapartida das Secretarias de Educação ou das
prefeituras. Muitas prefeituras montavam seus próprios
sistemas, cediam salas de aulas em determinados bairros, que funcionavam
às vezes em dependências militares, abrindo oportunidades
de aprendizagem não só paras os recrutas, mas, também,
para a comunidade. O mesmo se passava quando um rádioposto
funcionava em hospitais, cooperativas e presídios. Foi
um trabalho de um imenso alcance social.
Os programas foram
aperfeiçoados mais em função dos relatórios
que vocês traziam do que por cartas e telefonemas?
Recebíamos cartas, sim. Mas o que nos valia mais eram os
relatórios mensais que chegavam dos coordenadores das unidades
federadas. Funcionava assim: os monitores mandavam para os supervisores,
os supervisores reuniam aqueles relatórios dos monitores
que estavam sob sua responsabilidade, faziam um relatório,
e com base nesses relatórios dos supervisores era montado,
pelos Coordenadores estaduais, um único, que nos era enviado.
Era realmente uma rede. E ali estavam registradas as observações
que o pessoal fazia, do que os alunos comentavam, do que as pessoas
que conviviam com esses alunos contavam. E mais: o que nós
colhíamos, indo nos rádio-postos à noite,
conversando com os alunos, com os monitores, incentivando-os para
que não parassem de estudar, para saber se os fascículos
estavam chegando a tempo, se os rádios estavam funcionando,
se o som chegava com qualidade... Quando havia irregularidade,
nós orientávamos sobre como vencer a dificuldade.
A equipe toda,
na Rádio, tinha quantas pessoas?
A equipe "pedagógica" e de coordenação
de produção que trabalhava aqui, acho que uns vinte
e poucos profissionais, incluindo os redatores. Era um redator
por matéria. Quando as matérias tinham menos aulas
semanais, um redator só cobria duas matérias. Os
professores-conteudistas não eram muitos era um
por matéria, e não davam expediente na rádio.
Um ressentimento que constatei aqui, em relação
ao Minerva, era que havia uma divisão flagrante entre o
pessoal do Minerva e o da Rádio, que dizia que o Minerva
não aproveitava as capacidades da Rádio: até
os locutores eram contratados de fora. Você concorda?
Nós, naquele tempo, éramos o SRE (Serviço
de Radiodifusão Educativa). O SRE tinha as Rádios
MEC Rio e Brasília e depois agregou esse
projeto. Então, o que acontecia: a Rádio tinha a
sua vida de broadcasting, nós éramos uma coisa à
parte. A Rádio não tinha o propósito de fazer
educação, como o projeto tinha. Era um projeto,
vamos dizer,"instrucional", com uma proposta clara:
tinha que dar da 5ª à 8ª séries, portanto
terminalidade do ensino de 1º grau, para aquele mundão
de brasileiros que estavam espalhados por esse país inteiro
e que precisavam de um diploma, se não, não seguiam
seus estudos. Muitas dessas pessoas eram oriundas do Mobral, estavam
espalhadas por todo Brasil, exigindo: "Queremos continuar
estudando, queremos mais". Aí, o governo resolveu
dar força ao Rádio e à Televisão.
Na TV, havia um trabalho paralelo ao que fazíamos na Rádio,
que era o "João da Silva" e o "Projeto Conquista".
Muitas vezes, nós saímos daqui com o pessoal da
TV, oferecendo os cursos nos Estados. Indicávamos, por
exemplo, nas capitais onde tinha mais condição,
que assumissem o Projeto Conquista, por televisão; e todo
o interior em que a TV não chegava, o nosso curso pelo
rádio. Então, voltando, o que aconteceu? O Projeto
Minerva acabou se constituindo num grupo a parte, aqui dentro,
porque não houve uma proposta inicial de integração.
O SRE tinha duas funções: tinha as suas rádios
para oferecer música clássica e popular e sua proposta
cultural - embora a Rádio MEC fosse uma rádio educativa,
mas educativa nessa perspectiva maior da cultura, da qual a educação
é parte. Havia, por exemplo, um padrão de locução
para a Rádio e outro para as produções do
Minerva, com locução mais coloquial. O "time"
era outro e precisavam falar para outros ouvintes que não
eram os "classe A" da MEC por isso nossa proposta
de produção era diferente e, para nós, naquele
momento, o rádio educativo visava chegar a muitos com educação
formal, educação que os sistemas de ensino não
estavam em condições de oferecer. Se a proposta
das radioaulas eram bem aceitas pelos alunos daquela época,
com certeza, hoje, não a faríamos da mesma forma,
mas hoje o mundo é outro, diferente dos anos 70.
Quem era o diretor
de broadcasting?
Tinha o Guiarone; depois veio o nosso saudoso Floriano Faissal.
Tivemos nele um grande professor de rádio, porque vinha
da Nacional, a rádio que sabia falar para o Brasil. Nossas
aulas melhoraram muito tendo o Floriano na direção
de estúdio. O Allan Lima também fez parte desse
time. Houve uma proposta de algumas das emissoras fazerem cultura,
e devemos sua realização ao Allan. Ele construiu
uma rede paralela o Minerva Cultural , que só
veiculava programas culturais. E isso foi uma evolução.
O aluno tem que aprender matemática, geografia, etc., sim,
mas tem que ser um ser mais completo. E como fazer isso? Levando
uma programação cultural até eles. Tínhamos
programas lindíssimos sobre literatura, teatro, circo
tanta coisa! , e isso era o Allan Lima quem cuidava.
Qual foi balanço desse primeiro momento?
Nós trabalhamos com multimeios e isso foi um ponto super-positivo.
Repare, eu nunca vejo as pessoas discutirem isso: qual era o papel
do rádio no sistema que foi montado? O rádio tinha
o papel de incentivar, de trabalhar a questão da oralidade
que é fundamental , de vencer todas as barreiras
do não entendimento de uma leitura dos fascículos.
O fascículo tinha as suas peculiaridades de linguagem escrita,
com gravura, mapa, gráfico, etc., e o rádio trabalhava
aqueles conteúdos com todos os recursos possíveis
da época, que a gente acreditava que poderiam ajudar o
aluno, que já vinha cansado do trabalho, com fome, que
ia para aula sete e meia da noite, que fazia uma leitura prévia
do conteúdo com o monitor, e depois ouvia a aula radiofônica.
Portanto, ele teria duas assimilações desse conteúdo
uma visual, porque era um material impresso que lia; e
a outra auditiva. Isso ninguém valoriza. O aluno não
estava só: estava com os colegas no rá-dio-posto,
trocavam idéias, voltavam a ler o conteúdo depois
da audição, analisavam e faziam suas anotações,
e o que não tinham entendido era discutido no rádio-posto.
Então, sem termos aprofundamento teórico, na época,
nós estávamos fazendo o que preconiza hoje a escola
construtivista. O aluno estava construindo o seu conhecimento
e usando dois canais de recepção, o visual e o auditivo.
Ele estava trabalhando aqueles conhecimentos com os colegas, trocando
informação, e diante da sua realidade, da sua história,
do que ele trazia de vida como aluno adulto, contextualizando
o que aprendia.
(continua na página seguinte)
(continuação da página 10)
E o monitor? Qual
era a orientação que recebia?
Aquele monitor era orientado a aplicar, sempre que possível,
os conhecimentos abordados no curso à realidade onde o
aluno vivia. Repare que trabalho lindo que era. Nós talvez
não tivéssemos, naquela época, essa perspectiva
que lhe estou passando, nós não tínhamos
essa visão macro. Agora, quando eu leio toda a teoria construtivista
que está na moda no mundo inteiro, eu digo: "Meu Deus,
a gente fazia isso, há 30 anos atrás!". A dinâmica
era a seguinte: o aluno chegava às sete e meia, lia o conteúdo
da aula, ele sabia qual era a aula, tinha o mapa de que aula ia
ouvir; das 8 às 8:30, ele ouvia a aula, depois ficava para
trabalhar os conteúdos e os exercícios que estavam
no fascículo. Nós estávamos garantindo qualidade
da informação, porque nós não tínhamos
professores formados no Brasil inteiro em número suficiente.
Muitos dos monitores eram os próprios alunos, que se revezavam.
Cada dia era um que virava monitor às vezes não
tinha nenhuma pessoa que tivesse o antigo primeiro grau completo,
que pudesse assumir a monitoria.
Havia programa
de capacitação de monitores?
Não só de monitores, mas também de supervisores
e de coordenadores. Nós fizemos muitos encontros que chamávamos
de Encontros Regionais do Minerva. Começamos com encontros
nacionais que, em geral, eram aqui no Rio. Depois, passamos a
promover os encontros regionais reunimos o pessoal do nordeste,
do sudeste, do sul, do norte e do centro-oeste, sempre numa capital
da região. Chegamos também a fazer os encontros
estaduais, até pela própria iniciativa das secretarias.
Nós mandávamos um professor nosso para acompanhar
e ajudar a organizar o evento. Fazíamos isso antes de cada
novo lançamento dos cursos e quando o curso já estava
pela metade ou mais. Nós formamos um grupo que tinha a
perspectiva da educação a distância via rádio,
com o uso de multimeios. Isso foi um trabalho avançado
para a época, em termos de estrutura descentralizada -
e estávamos no regime militar! - e de proposta pedagógica.
A TVE fez isso conosco. Muitas vezes, as pessoas que iam para
os encontros da TV e para os encontros do rádio eram as
mesmas. Nós tínhamos em cada secretaria um grupo
de profissionais da educação trabalhando "em
rede". Depois, quando houve a grande mudança, tudo
isso se foi.
Que grande mudança?
MB O MEC optou por não mais oferecer programas nacionais,
deixando a cargo dos sistemas de ensino a responsabilidade de
fazê-lo. O que se viu foi o desmonte da rede, com poucas
iniciativas locais, ficando a massa de jovens e adultos desassistida.
Quantos alunos
participaram do Minerva?
MB Eu não tenho mais esse registro, mas nós
tivemos bem mais de 200 mil alunos que fizeram os cursos. Há
um tempo atrás, fui a Campos, aqui no nosso Estado, e encontrei
uma professora que tinha sido monitora do Minerva. E ela me contou
experiências que aconteceram em Campos, com o pessoal das
fazendas de cana-de-açúcar. Eu fiquei maravilhada.
Falou de gente que teve oportunidade de ascender a partir das
portas que se abriram com o curso pelo rádio. Foi emocionante!
Existe algum sucesso
como esse, documentado?
Não, eu mesmo nunca escrevi sobre isso. Pode ser que alguém
aqui da casa tenha escrito. Mas eu me lembro da professora de
Campos contar dos alunos que tinham freqüentado o rádio-posto
onde ela atuava um era um advogado bem sucedido na cidade.
E muitos que passaram pelo Minerva chegaram a ser prefeitos, secretários
de educação, quando antes não tinham nem
o primeiro grau. Na verdade, como tudo que aconteceu naquele período,
o Projeto Minerva ficou estigmatizado por ter sido uma iniciativa
dos governos militares. O rádio educativo perdeu quando
começou o desmonte da rede que havia sido formada. E havia
outra pressão paralela: a dos donos das emissoras, via
a poderosa ABERT. Por que? Porque as emissoras de rádio,
que já tinham que ceder o horário da Hora do Brasil,
ainda tinham que disponibilizar a meia-hora seguinte para oferecer
educação ao Minerva.
Qual era a Portaria?
Primeiro foi a Portaria interministerial MEC-MINICOM nº 408,
depois foi a 568, que determinava meia-hora de segunda a sexta
e 75 minutos aos sábados, em todas as emissoras AM, OC
e OT, menos nas FMs, porque as FMs alegavam: "Não,
só veiculamos música, não temos quase patrocínio,
como é que uma rádio ainda vai abrir mão
de mais meia hora..." foi por aí. E o MEC também
não teve recursos ou criatividade suficiente pra buscar
alternativas. Esse tempo começou a ser reduzido e aí
passou a ficar somente spots durante a programação
das emissoras.
A Portaria foi revogada?
Foi sendo alterada. A cada nova discussão era baixada mais
uma a portaria: a bancada dos radialistas no Congresso crescia
e era forte. O Ministério da Educação com
o Ministério das Comunicações e mais a ABERT
no meio dessa história, e a educação foi
perdendo espaço, até ficar reduzida à produção
de spots, apenas a televisão e a rádio produziam
spots, e as rádios veiculavam na hora que quisessem
e aí o Minerva acabou.
E havia censura,
no Minerva?
Sim. Havia os "censores", aqui dentro, lendo todos os
roteiros. E eu acho que era até nessa sala onde nós
estamos agora (a sala 201), que os infelizes liam, principalmente,
os roteiros das aulas de história, de Educação
Moral e Cívica...
Eles eram funcionários?
Alguns, sim. Ninguém via suas caras, mas eles circulavam
pela casa, nos acompanhavam muitas vezes aos encontros com monitores.
E nada ia gravar sem passar por aqui, pela censura os nossos
scripts tinham que passar por esta sala!
E como era a produção
dos fascículos?
Era um longo processo, que passava inclusive por concorrência
entre as editoras. Eu e Solange fazíamos todo o planejamento
e acompanhamento da produção editorial, porque tínhamos
experiência de já ter publicado livros didáticos.
Quando a Editora Abril ganhava a concorrência, íamos
para São Paulo acompanhar a produção, página
por página, escolhendo as fotos, etc. Quando a Bloch vencia,
era mais fácil realizar o trabalho, porque a editora ficava
no Rio. Mas houve um momento em que a nossa missão era
participar, em parceria com a Fundação Roberto Marinho,
da produção de um curso com multimeios, os Telecursos.
Aí, cabía a nós produzir as radioaulas. Por
que? Eles forneciam os conteúdos e produziam as aulas para
televisão e o material impresso, e nós produzíamos
para rádio e usávamos a nossa rede de veiculação
e de recepção. Nestes telecursos iniciais
não nesse que é oferecido atualmente nós
produzíamos o rádio, e os fascículos eram
comuns, tanto para rádio quanto para TV. Vale dizer que
a Fundação Roberto Marinho nunca se meteu na nossa
área: o rádio era nosso, o MEC repassava o dinheiro
para nós, e nós desenvolvíamos esse trabalho
em parceria. Como a Fundação nesse tempo ficava
em São Paulo, as reuniões eram lá e de lá
trazíamos os conteúdos gerados pelos professores
contratados pela Fundação, e produzíamos
aqui. A veiculação era através da rede radiofônica,
da Portaria 568. Isso tem que ficar claro: houve 3 momentos em
nosso trabalho de oferta de cursos: um com a Fundação
Padre Anchieta; um integralmente nosso, para os cursos supletivos
de 1º e de 2º graus, ou seja, conteúdos, produção
radiofônica, fascículos e sistema de recepção
em rede, e um terceiro com a Roberto Marinho, com os Telecursos.
(continua na página 12)

Com a TV Globo
também foi 1º e 2º grau?
Foi o que hoje chamamos de ensino fundamental e médio.
Nós tínhamos também produção
para professores, junto com a TVE, com duas versões: para
rádio e para TV, sendo a coleção de material
impresso, única. Houve outras produções conjuntas,
mas não com material impresso. Programas para a Terceira
Idade, para universitários, para famílias de crianças
deficientes auditivas. Quando o Heitor Salles, que já tinha
sido diretor daqui, foi nomeado Presidente da FUNTEVE, eu fui
ser coordenadora de educação da Fundação.
Então, procurei fazer essa integração de
programas da área educativa, que tivessem as versões
rádio e TV. Outro ponto era a necessidade de crescimento
profissional da equipe. Dentro dessa idéia, algumas pessoas
daqui foram fazer mestrado em tecnologias educacionais na UERJ.
Eu e Solange participamos da primeira turma. Esse curso nos deu
clareza do que fazíamos e do que ainda podíamos
fazer na área de educação a distância.
Mais tarde, defendi tese na Universidade Gama Filho, em livre
docência, também sobre Rádio Educativo. Por
conta disso venho escrevendo trabalhos, tentando levantar um pouco
dessa história.
E o Sistema Nacional
de Rádio Educativo, como foi que surgiu?
Bem, o SINTED Sistema Nacional de Televisão Educativa
já existia quando foi criada a FUNTEVÊ, uma fundação
vinculada ao MEC, para agregar as ações educativas
da Rádio MEC e da TVE. O SRE deixou de ser SRE, para passar
a ser um centro de rádio educativo, aqui, na rádio;
e a TVE passou a ser um centro de TV educativa, juntos, em uma
única fundação. O SINRED foi uma proposta
minha, do Assis Brasil e do Idelfonso Brum. Eu falei para o então
presidente da FUNTEVE: "Se você quer criar algo novo,
crie o SINRED, o Sistema Nacional de Radiodifusão Educativa,
englobando um subsistema de rádio e um subsistema de televisão".
Porque o subsistema de televisão, o SINTED, já existia.
O SINRED seria a continuidade de um trabalho de radiodifusão
educativa em que nós estimularíamos o surgimento
de rádios educativas no Brasil inteiro, para que elas pudessem
fazer um trabalho integrado, quer dizer, além do trabalho
especifico seu com a sua comunidade, que tivessem um momento de
produção compartilhada, em que pudessem fazer um
trabalho de rádio educativo, não mais nos moldes
do Projeto Minerva, mas uma produção, por exemplo,
continuando a atender professores que precisavam ter treinamento
e que continuam sendo a grande pedra no sapato da educação
brasileira: investir na qualidade dos docentes desse país.
Então essa era a idéia básica do SINRED.
O SINRED teve
umas 50 emissoras na rede, não?
É verdade, mas você sabe como ele nasceu? Nós
tínhamos, aqui, na Rádio, essa proposta do Minerva
aos domingos. O que a gente podia fazer de novo, e que temática
poderia fazer uma grande mudança na linguagem desse rádio-educativo?
A primeira coisa que eu pensei foi: "Bom, a temática
pode ser o folclore." Aí, procurei os órgãos
responsáveis pelo folclore. Eles não se entendiam.
Então pensei: "Essa discussão não é
nossa. Nós estamos abrindo uma perspectiva de canal, mas
se eles mesmos não se entendem, não vale a pena
investir nessa temática. E aí, nesse tempo, estava
surgindo no MEC uma campanha de "Esportes para Todos",
com a proposta de fazer com que o esporte não fosse praticado
apenas por uma elite que tinha acesso aos clubes, e, sim, por
toda a população. Eu então pensei: "Isso
é interessante, acho que vai dar certo." Havia um
órgão no Ministério, a Secretária
de Educação Física e Desportos, que estava
capitaneando essa proposta de fazer um esporte democratizado
para portador de deficiência, mulher, idosos, para crianças
e jovens, usando as praças, as ruas, as praias. Entrei
em contato e eles acharam a idéia fantástica. Eles
se instalaram aqui e começamos a fazer a produção
para usar o espaço radiofônico, divulgando e continuando
a adotar o modelo de "rede" informal. Qualquer um poderia
participar, não só os órgãos oficiais
nos Estados, das Secretarias responsáveis pelos esportes
nos municípios, mas ONGs também. "Vamos formar
uma rede novamente, uma rede informal, sem nome, sem dono
só a proposta de fazer rádio educativo de qualidade",
foi o que pensei. E, aí, esse pessoal do EPT Esporte
para Todos fez um encontro, aqui no Rio, para vender a
idéia e anunciar que já iam contar com o espaço
de veiculação na cadeia nacional de Rádio.
Eu então propus que convidassem representantes de algumas
rádios educativas para o evento. Esse foi o embrião
do SINRED. A primeira proposta foi a de criar esse grupo à
parte da produção do Esporte para Todos, e, aí,
surgiu a série Coisas da província, a primeira idéia
concreta do que havíamos pensado para o SINRED: uma produção
compartilhada, o Brasil de todas as latitudes ouvindo os falares
brasileiros. No começo, eram 4 ou 5 emissoras, apenas.
E a coisa foi caminhando.
Nesse início,
os programas da série Coisas da província eram todos
gerados aqui?
A coisa mais linda era essa. No Esporte para todos, as pessoas
nos estados já gravavam programas e mandavam para cá.
Muitos não vinham com qualidade, mas à medida que
eles começavam a fazer e nós orientávamos,
começou a chegar material de qualidade. Com o Coisas da
província, a proposta foi nessa linha. Havia um planejamento
do que seria produzido. Assim: a Educativa de Pelotas, no Rio
Grande do Sul, vai falar de coisas do seu estado, sobre Mario
Quintana, por exemplo. E assim foi. Eles produziam e mandavam,
e nós veiculávamos para o Brasil inteiro. Com isso,
a gente pôde estimular as produções locais:
era o Brasil se mostrando para os brasileiros.
O SINRED evoluiu
e parou. Como foi isso?
Eu escrevi, na minha tese, um capítulo grande sobre o SINRED.
Porque eu sonhei muito com esse SINRED-Rádio, e lamentei
muitíssimo o caminho que ele seguiu. Alguns que passaram
pela direção tinham esquecido que nós não
estávamos mais no processo ditatorial. Nós já
tínhamos liberdade de falar, não precisávamos
tanta centralização das ações. As
pessoas não souberam lidar com isso, com a liberdade. Então,
o que fizeram? Voltou a centralização, voltou o
"eu tenho o poder do dinheiro para te dar, então,
a tua rádio só vai receber se fizer isso e abrir
espaço para aquilo...". Então, veja: o SINRED
cresceu, nós tínhamos aqui um setor de coordenação,
recebíamos as fitas, redistribuíamos. Era um trabalho
danado. Recebia-se os programas gravados, montava-se uma grade,
colocava-se no ar, todo mundo ouvia, e, na troca, todos se aprimoravam,
crescia o rádio educativo. Porque o mais importante era
que os profissionais do Centro de Rádio estavam à
frente em termos de qualidade de produção. Tinham
um know-how a passar. Tínhamos que ser detonadores de uma
melhoria de produção, para formar ou aperfeiçoar
pessoas nas rádios educativas estaduais, para que os programas
fossem melhores, para que o se entende por rádio educativo
fosse mais aberto, mais flexível, com canais alternativos
para produção específica. Mas, infelizmente,
em vez de se aprimorar o sistema, as coisas foram, mais uma vez,
se deteriorando, até que hoje não se tem mais nada.
(continua;áo da página 12)
Que outra série
o SINRED veiculou?
Quando houve a abertura política, eu propus fazer uma série
com Paulo Freire, que tinha acabado de voltar do exterior. A direção
da Rádio concordou e, então, eu perguntei ao Paulo
Freire se ele aceitava fazer uma série para veiculação
nacional através da rede. E isso tinha a ver também
com a idéia de parceria que fundava o SINRED, já
que o Paulo morava em São Paulo e podíamos nos valer
da Cultura para viabilizar a produção, diminuindo
custos. Você foi o produtor da série. Então,
essa série é histórica: nenhuma outra rádio
no Brasil produziu nada parecido. E essa série está
em várias universidades estrangeiras, não sei como.
Teve gente que estudou português para poder ler no original
o que o Paulo Freire escrevia. E essa série faz parte do
acervo da Rádio, está aqui, e eu tenho um orgulho
enorme de ter tido você, Renato, como companheiro de produção.
O "Encontros com Paulo Freire" ficou primoroso enquanto
produção radiofônica. A propósito,
vale destacar, além desta série, o restante do acervo
fantástico que a Rádio tem. Ele é muito rico
e pode ter novas utilizações. É possível
otimizá-lo. É só a gente ter um grupo que
pense isso, que ouça, e se dedique a reaproveitá-lo.
Esse acervo precisa ser divulgado, precisa ser valorizado, precisa
ser mantida a memória que está aqui. O rádio
educativo é a Rádio MEC.
E a sua participação
na criação de novas emissoras educativas?
Bem, há toda uma história da legislação
de como se podia abrir uma rádio. Cabia a nós, do
Centro de Rádio Educativo Roquette-Pinto, analisar e liberar
os projetos que acompanhavam as propostas de novas rádios
educativas, dar o parecer e orientar o grupo solicitante. Depois,
eu continuei fazendo pesquisa nessa área e, como eu tinha
que apresentar uma tese de Livre Docente, que me daria o título
correspondente à doutora em Comunicação Social,
nas áreas de rádio e TV, eu me dediquei a aprofundar
o estudo que tinha feito para a dissertação de Mestrado
da UERJ. Então fiz uma comparação do que
havia acontecido nesses dez anos que separavam a primeira da segunda
pesquisa - porque foi exatamente 10 anos depois. Enviei um questionário
para as rádios educativas, e 50% responderam. E, nesse
estudo, pude aprofundar a questão do SINRED, porque ele
já não existia mais. Levantar documentos do que
existia, um pouco da história do rádio, de como
o rádio educativo se inseria nessa história do rádio
brasileiro. Porque, na verdade, o rádio brasileiro tem
o seu nascer educativo.
A gente sabe que não faltam leis. O que falta para que
o governo cumpra as suas obrigações constitucionais
para com o rádio educativo?
Eu acho que falta uma conscientização de todos do
que o rádio pode fazer, do que o rádio ainda não
fez em termos educativos.
O que o rádio
não fez, ainda?
Nós todos devemos uma grande coisa ao rádio
e esse é o lado educativo mais fantástico e não
tão claro para as pessoas , que diz respeito à
língua falada neste país. Deve-se muitíssimo
ao rádio, e isso precisava ser estudado mais profundamente:
os falares, o falar padrão, e o entendimento por todos
os brasileiros nesse Brasil continental. E o rádio está
24 horas no ar, mantendo esse diálogo silencioso com o
público, em português. Então, isso não
tem preço, e isso nós todos devemos, em grande parte,
ao poder do nosso rádio. Esse rádio brasileiro,
que põe música americana no ar, mas quando fala
não é em outra língua. Fala português,
com um bom padrão; fala gíria, sim, mas isso faz
parte, porque nós falamos gíria, mas, em geral,
o rádio fala num bom padrão. A música é
outra coisa fantástica. A música que a gente conhece,
que o rádio veiculou, divulgando nossos artistas, isso
é o rádio que faz, e isso também é
um lado educativo.
Agora, o rádio precisava ter um compromisso um pouco maior
com a questão da cidadania. Não é só
quando veicula campanha de vacinação. Passar mensagens
curtas: algumas rádios fazem isso muito bem, mas a gente
deveria ter esse compromisso maior por parte dos radialistas.
Em tocar essa história, em botar pequenas mensagens, mas
mensagens que vão fundo, que vão fazer com que as
pessoas parem e pensem. O rádio pode fazer esse papel de
discussão das questões nas comunidades, nas associações
de moradores vamos discutir essas coisas que são
nossos direitos. Essa era a grande proposta das escolas radiofônicas
de Paulo Freire, do antigo MEB. É retornar um pouco isso,
com a naturalidade e a intimidade que o rádio tem com o
ouvinte, que só o rádio tem nenhum outro
veículo tem essa intimidade com cada um de nós.
Então o rádio precisa ter esse compromisso. Que
foi o compromisso primeiro do Roquette, que teve no MEB também
um grupo que tinha uma proposta de cidadania é voltar
com essa proposta que quer formar cidadãos conscientes,
participativos, integrados, querendo um Brasil melhor do que esse
que está aí. É isso que falta. E falta esse
compromisso das rádios educativas de chegar mais perto
do povo, de sair dos seus estúdios, de ir para as ruas,
de fazer propostas maiores, de promover encontros, é isso
que as rádios precisam fazer. As universidades precisam
ter rádios educativas para que tenham os seus laboratórios
vivos nas escolas de comunicação. Eu acho que a
minha mensagem agora é essa, eu acredito em rádio,
eu adoro rádio, posso ter passado por todos os meios, hoje
estou produzindo cursos pela internet, mas rádio é
rádio.