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Lilian Zaremba

1 - Em que ano você entrou para a Rádio MEC ? Como
e por que
Foi em 1974. Eu estudava flauta doce e teoria musical na Pro-Arte,
em Laranjeiras. Acredito ser esclarecedor destacar essa parte da
minha formação por estar relacionada diretamente a
música, ao seu conhecimento e fruição. E os
Seminários de Música Pro-Arte eram, e creio que ainda
são, um lugar muito especial. Reúnem mestres amantes
de seu ofício. Por outro lado, nessa mesma fase, ingressei
para a graduação em Arquitetura na Universidade Federal
Fluminense. Cursei dois anos e tranquei a matrícula depois
que fiz estágio num escritório de arquitetura. Vi
que não poderia passar o resto de minha vida ali. Foi quando
Gustavo José Meyer, na época produtor da Rádio
MEC (excelente produtor, diga-se) me sugeriu que apresentasse uma
proposta de série sobre Música Antiga, naquele momento
conteúdo inexistente na grade da programação.
Foi o que fiz. Conversei com o diretor, Reginaldo..., fiz um piloto
e foi aceito. Gustavo Meyer foi meu orientador, ensinou o básico
inicial para se produzir um programa de rádio. Jacob Herzog,
hoje pianista e professor doutor da Universidade Federal do Rio
de Janeiro, trabalhara na Rádio também, e foi outra
ajuda indireta: seus comentários e opiniões sobre
trabalho me são preciosos até hoje, além do
seu humor peculiar.
A sala dos produtores ficava aonde hoje é a segunda sala
da discoteca, arquivo dos LPs. Era ali que a Dirce reinava. Uma
figura imponente, morena bonita, capaz de conjugar expressões
faciais radicais: sisuda e amplamente receptiva. Sua risada era
poderosa, vibrava. Dirce sabia tudo o que existia naquela discoteca,
o estado das gravações, autores, era um arquivo ambulante.
Foi ali que treinei parte da minha capacidade para voar. Isso porque
trabalhava-se em meio a outras conversas, telefones tocando, entradas
e saídas de produtores procurando material, batendo nas teclas
das máquinas de escrever. Me lembro especialmente da voz
de Paulo Santos, sua pronúncia rebuscada em precisão
das sílabas, do Lauro Gomes, outro grande conhecedor do acervo
fonográfico, da delicadeza da Yeda, e do casaquinho nos ombros,
faça chuva ou sol, da Dona Rosalina.
Até hoje o Lauro Gomes não pode me ver de casaco,
evoca a profecia: vai ficar igual !
2 - Como foi fazer seu primeiro programa, o Música Antiga
?
O "MÚSICA ANTIGA" reunia o repertório da
música medieval e renascentista da Europa Ocidental. Basicamente
os LPs que eu encontrava na Modern Sound ... porque a Rádio
possuía pouquíssimo material desta fase da história
da música. Alguma coisa gravada em fitas rolo vinham de países
como a Bélgica e a Holanda, mas nem sempre era adequado -
alguns concertos gravados ao vivo, com palmas, outros com a locução
muito diferente do padrão da MEC... aliás, essa é
uma questão que ainda existe. Mas eu pesquisava também
nos livros, basicamente na Livraria Leonardo da Vinci. Não
se trata de fazer anúncio dessas lojas porque a rigor, elas
acabaram prestando um serviço muito além do comercial.
Reduto de informações numa época sem Internet.
Aprendi a dar valor a embalagem. Uma capa de disco pode falar muito
sobre seu conteúdo, ou afastar você de algo realmente
valioso mas com a imagem equivocada. A primeira vez que vi um LP
do pianista Glenn Gould nos anos 70, nunca tinha ouvido falar nele.
Mas a moderna imagem fotográfica, sugerindo o movimento possante
das mãos ao piano, o corpo todo envolvido naquele som, foi
o que me fez comprar aquele disco. Redescobri a música barroca
ouvindo Gould.
3 - As suas primeiras influências em rádio: você
ouvia rádio antes de fazer ? Quem você ouvia ?
Minha primeira experiência foi aos três anos de idade.
Já contei essa história. Minha mãe, professora,
trabalhava e precisava me deixar na casa de minha avó, que
também trabalhava. Ficava eu lá com a Maria, que também
trabalhava ! então, ela ligava o rádio na sala - ficava
dentro de um móvel enorme, de madeira - me colocava sentada
no sofá e ia fazer o que tinha de fazer. Nos meus três
anos, ouvia aquelas vozes - me lembro muito bem da voz do Paulo
Gracindo - e achava que estavam todos ali, dentro da casa, escondidos
em algum lugar. Ficava imóvel, ouvindo, assustada e ao mesmo
tempo me divertindo, imaginando sei lá o que.
Quando eu completei doze anos ganhei um rádio de presente.
Era um daqueles rádios com capa de couro, vermelha, e um
botão para ondas curtas. Passei a dormir com o rádio
grudado no travesseiro. Gostava de ouvir as falas em outras línguas,
mesmo sem entender nada. Viagens no sono através de vozes
e alguma música, mas basicamente vozes. ( Sidarta Ribeiro,
destacado biólogo brasiliense afirma que o sono é
como um eco. Concordo. Essa época de rádio escuta
infantil-adolescente ressoa permanentemente em mim). As emissoras
estrangeiras, especialmente as européias, ainda hoje apresentam
uma cultura que privilegia textos longos, muita informação.
Dormia e acordava com o rádio ligado. Minha irmã assim
que pôde, trocou de quarto.
Na comunicação existe a conhecida reinvindicação
por um canal de mão dupla, isto é, todos podendo fazer
o papel de emissor e receptor de mensagens. Sem querer ir contra
tal desejo que me parece legítimo, penso na complexidade
desta questão. Porque a rigor, quando eu ouvia tarde da madrugada
aquelas vozes se expressando em língua estrangeira, mesmo
sem compreender o conteúdo, mesmo sem responder nada, me
comunicavam algo. Texto e sub-texto, fronteiras culturais também
são diluídas no som, na possibilidade encantatória
da ressonância das palavras.
4 - Em seu primeiro programa você fazia o texto e tinha
dois locutores, hoje você fala seus textos ...
Trabalhei com profissionais maravilhosos. Pessoas que nunca me
desconsideraram por ser jovem demais e inexperiente. Ao contrário,
me ajudaram a entender muito sobre o trabalho que eu deveria fazer
e sempre se colocando disponíveis a aprender. Um luxo da
inteligência humana. Allan Lima, Yeda, Maravilha, William,
Lindolfo, Ronaldo Rosas e .....
No início era sempre uma dupla: voz feminina e masculina.
Dinâmica sonora na leitura do texto, enriqueciam o conteúdo
das informações nas expressões da fala diferentes
porque um homem, para além das especificidades de timbre
e altura de voz, sempre fala diferente de uma mulher.
William, figura elegante, trabalhava na embaixada americana. Sua
pronúncia era impecável, sua disposição
para gravar também. Yeda, cantora lírica, possuía
voz mais suave, delicada. Sempre bem vestida, penteada e perfumada,
caprichos femininos louváveis. Maravilha, voz contralto,
fornecia imagens diferentes com sua leitura, podia ser mais direta,
padrão muito pessoal e moderno. Uma mulher de figura forte
apesar de compleição física pequena, magra,
frágil até. Impressionava o fato de fumar ... isso
acaba com a voz !
Com o tempo, as mudanças. Aposentadorias, doenças,
mudanças de emprego, e a Rádio foi se esvaziando de
locutores. Na época, existia a distinção entre
os locutores "de cabine", que ficavam no ar lendo notas
e notícias variadas, e os locutores apresentadores de programas.
Existia certa diferença profissional, como se os primeiros
não fossem adequados a leitura de textos narrativos. Talvez
fosse também uma forma de hierarquia, começando-se
como locutor de cabine até, com experiência, passar
a locutor de programas gravados. Aliás existia também
o locutor-apresentador-produtor, caso do Paulo Santos. Aliava a
voz adequada, ao assunto e o jogo de cintura do entrevistador.
Com a redução drástica de locutores, a Rádio
num determinado momento sem poder contratar ninguém, decidiu
que os próprios produtores gravariam seus programas. Para
mim, esse momento foi um divisor de águas.
lembro bem do primeiro dia em que fui gravar meu programa. O técnico
era o Mario Jorge, com quem eu trabalharia muito tempo. depois que
li o texto, o Mário me disse: sinceramente, sem querer ofender,
mas sua voz é muito ruim .
escrever é uma coisa, ler em voz alta é outra. O
Raduan Nassar, escritor que abandonou a carreira deixando poucos
mas definitivos escritos, diz que "as palavras são sementes".
Concordo totalmente. Depois que saem da sua boca, não pertencem
mais a você, criam vida própria não apenas no
som jogado ao ar mas como este som é compreendido por quem
escuta. O que você diz, a maneira como diz, a sua voz, o ambiente
em que é ouvida sua fala, a disposição de quem
capta esta fala ... são tantas as variantes a serem consideradas
e nunca essas questões todas tinham me assombrado, antes
de me colocarem o desafio de ler meu próprio texto.
Foi então que comecei a aprender a escrever. Até ali,
me parece, eu não escrevi, apenas reproduzi textos colando
idéias alheias, formas extraídas da literatura aonde
garimpava informações dos livros de história
da música e contra capa de discos, basicamente. Passei a
entender que antes de mais nada um texto radiofônico precisa
observar a dinâmica da própria fala que escreve, este
texto terá sua própria forma musical.
Você pode escrever um belo texto que será destruído
numa leitura equivocada. Existe ritmo, existe respiração,
entonação, articulação, texto e sub-texto,
informação direta e indireta, um mundo se abriu ali
para mim.
a fala é carregada na voz. Alguém fala e, pode falar
como profissional ou não. E a minha voz era tudo, menos profissional
nos moldes requeridos. Ao mesmo tempo esta voz passou a ser adequada
para meus textos, porque, basicamente, era eu quem estava ali emitindo
opinião, falando. Aprendi então que podia escrever
para mim ou para outros. Foi o momento em que comecei a prestar
mais atenção na maneira de falar e na voz de cada
um. Hoje, quando alguém fala, muitos detalhes me chamam atenção.
Adoro trabalhar com profissionais como Eduardo Fajardo, Daniela
Lapidus, Luciano Durso, Luiz Nascimento, vozes lindas, cabeças
pensantes e profissionais dispostos a ousar e transformar a fala
em muitas possibilidades de comunicação. É
uma tremenda inspiração para mim.
A discussão em torno da "voz no rádio"
é bastante interessante e atual. A experiência radical
e vitoriosa na história da Fluminense FM pode ser exemplo
brasileiro emblemático desta mudança nos padrões
de locução radiofônica. Recentemente fiz um
programa sobre isso porque hoje minha voz está envelhecida
e como toda voz envelhecida, acrescida de asperezas ou rugas, se
quiser uma metáfora. Mas sempre lembro do Tom Jobim e sua
música "Luiza". A gravação que ele
próprio realizou é sem dúvida alguma a melhor.
Inclusive foi utilizada na abertura de uma novela da Globo, subvertendo
sutilmente o "padrão globo de qualidade" no horário
mais nobre, de grande audiência. E porque aquela voz, cheia
de imperfeições supostamente inadmissíveis
é a melhor ? porque transmite algo além do texto,
um sub-texto pessoal. Podem chamar de emoções, sentimentos,
o que seja. Eu chamaria de identidade, e de fato, a voz é
uma impressão única, pessoal, e ao mesmo tempo todos
possuem uma... a idéia deste original sem cópia nos
aproxima de nossa humanidade: somos todos e só um.
atualmente sempre que possível prefiro trabalhar com locutores
e deixar minha voz para textos muito específicos, textos
de opinião crítica. Me parece o mais adequado dentro
de uma grade e um padrão sonoro como o da MEC-FM. Gosto do
fato da MEC-FM possuir várias falas, não impondo um
padrão rígido, fechado, cansativo, como as outras
emissoras em geral. Mas acredito que tudo deva ser balanceado, alternando
informações e textos lidos por locutores profissionais.
A diferença entre as falas, misturando produtores e locutores
- afinal o Jorge Ayer, Nelson Tolipan, Servio Tulio, Lauro Gomes,
e outros também gravam alguns de seus próprios programas
- cria um design sonoro e ilusão de intimidade aproximando
o público ouvinte... é incrível ser reconhecida
pela voz ! e isso já me aconteceu várias vezes.
5 - Em que momento de sua trajetória você decidiu
pensar o rádio na Academia. Fazer mestrado e
doutorado ?
Nesta mesma época em que passei a gravar meus textos comecei
a produzir uma nova série, voltada para o repertório
dos séculos 17 e 18. Depois de dez anos produzindo este programa
de Música Barroca resolvi colocar no ar um pedido aos ouvintes:
que enviassem a sua opinião sobre o programa. Não
havia Internet naquela época e tudo era feito por cartas.
Recebi duas e ambas solicitavam informações, digamos,
equivocadas. Uma delas me pedia o endereço do lugar aonde
se vendia fac-símiles... eu havia produzido um programa falando
das partituras de música barroca, muitas vezes impressas
em cópias de fac-símiles, como se sabe, documentos
originais, partituras escritas pelo próprio punho de Johann
Sebastian Bach, por exemplo. Ou seja, um fac-símile é
peça de Museu ou colecionador disposto a pagar fortunas por
um pedaço de papel, que no entanto, vai valorizar no mercado.
Mas nada disso tinha ficado claro, eu tinha sido extremamente incompetente
e soube nesse exato momento o tamanho do prejuízo causado.
Até ali, muito pouco do que fiz se comunicou. Basicamente
era a música quem comunicava algo, o texto não. Ao
invés de informar, confundia. Foi um choque bom.
quando o filósofo Marcio Tavares d'Amaral me entrevistou
durante a prova para admissão no mestrado da Escola de Comunicação
da UFRJ, me perguntou o que pretendia com o curso. A resposta saiu
da minha boca anterior à decisão do que falar: eu
queria refletir sobre meu trabalho e no dia a dia isso era impossível.
Certas coisas nos saltam mesmo do fundo do cérebro, um pensamento
já presente embora nunca formulado. Tenho certeza da importância
desta resposta, não apenas para minha admissão no
curso, mas como determinante no caminho a seguir dali em diante.
Depois da experiência em Arquitetura e Música, ingressei
na PUC do Rio de Janeiro aonde em 1981 me graduei no curso de Licenciatura
em História. Mais um conjunto de profissionais a quem rendo
homenagem, por me possibilitarem sólida formação
teórica. O treinamento para pensar e expressar a formulação
de idéias adquirido ali - porque pensar, acredito, é
também uma questão de exercício - foi determinante
durante as provas no concurso para mestrado. Mais ou menos dez anos
marcavam este hiato entre o fim do curso de História e o
início do curso de Mestrado em Comunicação
e Cultura. Este tempo não chegou a passar totalmente em branco
porque o trabalho na Rádio sempre exigiu muita leitura, pesquisa,
informação. Não estava desatualizada mas sentia
necessidade de receber novas opções, ferramentas,
para ampliar o exercício da reflexão.
6 - Na sua opinião, o que a Academia pode fazer pelo rádio
?
procurei o curso de Comunicação da ECO/UFRJ por ser
uma proposta multidisciplinar, isto é, por admitir diferentes
linhas de abordagem de pesquisa. Estudei música, história
social e política, então me faltavam as linhas mais
gerais do conhecimento dos modelos comunicacionais. Existindo na
ECO uma área na graduação dedicada ao "radialismo",
imaginei estar entrando no lugar certo. O curso de mestrado reúne
excelentes professores, pensadores, profissionais com os quais se
aprende ouvindo, lendo e observando. Chegava com mais de quinze
anos de prática em comunicação radiofônica,
bagagem extremamente útil, mas levei um certo tempo para
entender o ritmo da produção acadêmica. É
completamente diferente. Nos moldes em que se coloca hoje esta pergunta,
Academia e Rádio (falando em Rádio MEC mais especificamente)
estão bastante distantes, quase compartimentos estanques.
Existem, me parece, diferenças institucionais muito grandes,
assim como profundo hiato entre as emissoras comerciais e públicas.
É assunto extenso, mas se houver vontade política
é claro que estreitar laços só dará
lucro a ambas as partes. Pessoalmente, os estudos de mestrado e
posteriormente doutorado, foram outro divisor de águas em
minha carreira no Rádio.
você pode trabalhar a vida inteira em rádio e desconhecer
quase totalmente o assunto. pode estar limitado a execução
de tarefas com um mínimo de reflexão e informação
a respeito delas, embora com a pressão contemporânea
da concorrência, esse conhecimento tenha passado a ser questão
de sobrevivência no mercado de trabalho.
As aulas na ECO me levaram a pesquisar e encontrar outras formas
e idéias de Rádio, ampliando minha capacidade de produzir
no dia a dia. Reuni alguns destes textos em três publicações
intituladas "Rádio Nova, Constelações
da Radiofonia Contemporânea" que organizei durante o
mestrado e doutorado, sendo publicados pela ECO com patrocínio
da Fundação José Bonifácio. Estes três
números foram distribuídos gratuitamente a profissionais
e bibliotecas, sendo hoje material de consulta muito utilizado.
A biblioteca da SOARMEC possui em seu acervo. Novos formatos, textos,
a questão das vozes, do tempo, das novas tecnologias, das
inúmeras configurações sociais estabelecidas
em torno da comunicação radiofônica, os enunciados,
a técnica, enfim, verdadeiro belvedere sob o qual passei
a depositar meus olhos e ouvidos. Talvez a Academia possa fazer
pelo Rádio tanto quanto pôde fazer pelo meu trabalho
no Rádio. E por sua vez o Rádio possa fazer tanto
quanto ando me esforçando para fazer pela Academia. Além
da publicação do Rádio Nova, organizei o I
Radio-Forum do Rio de Janeiro, reunindo importantes profissionais
de emissoras nacionais e estrangeiras, em seminários e audições
no Centro Cultural Banco do Brasil. Tenho trabalhado junto a pesquisadores
levando suas idéias para o Rádio, tentando atingir
especialmente o público universitário, interessado
em ampliar suas possibilidades profissionais futuras. Além
de seguir publicando estudos sobre o tema, participando de congressos
e bienais, conectada a grupos de estudo e discussão sobre
radiofonia, desenvolvendo projetos em radiodifusão multimídia
e um BLOG na Internet.
Depois de levar um puxão de orelha de meu amigo, o músico,
produtor radiofônico e webmaster Servio Tulio Abelha, resolvi
arregaçar as mangas e mergulhar na multimídia. Este
mergulho requer não só a coragem de abandonar velhos
hábitos (abandonar a máquina de escrever e substituí-la
pelo computador já exigiu certo esforço) como a vontade
de adquirir novas habilidades. É necessário investir
tempo, estudo e recursos financeiros. Mas não se pode caminhar
sem aceitar o caminho embora só quando o Servio tenha me
perguntado porque, afinal, eu demorava tanto para aprender a lidar
com a tecnologia multimídia, é que esta necessidade
tenha vociferado sua urgência. Foi assim que iniciei neste
ano de 2004 um BLOG, primeiro passo na utilização
de ferramentas que deverão me conduzir a radiodifusão
multimídia. Preciso conhecer todas as etapas deste processo,
incluindo softwares, configurações, procedimentos
- assim como venho conhecendo as etapas técnicas de gravação
e montagem em estúdio - para poder pretender propor algo
nesta área.
7 - Muitos de seus programas pensam a própria linguagem
radiofônica. Temática rara. Como você começou
a elaborar eles e quais as suas referências para tal ?
Minha tese de mestrado foi uma comparação entre a
produção radiofônica de Orson Welles e a experiência
radiofônica de Glenn Gould. Veja você, aquela capa de
disco (do Gould) acabou rendendo até tese de mestrado ! Estes
dois exemplos de abordagem da mensagem radiofônica são
extremamente ricos e únicos, e também grande desafio
ao intelecto e imaginação. Até porque Orson
Welles trabalhou no chamado rádio "comercial" ,
e Gould, no rádio "público". Em que se pese
a diferença de tempo entre as duas produções,
Welles nos primeiros dias desta mídia sonora e Gould já
na era da quadrophonia, me pareceu justo destacar o que apresentam
em comum: a grande aventura da escuta. Até que ponto os programas
de Welles são comerciais ? e até que ponto Gould é
rádio ? Essa discussão é interessantíssima
mas longa, na verdade ando até hoje discutindo isso...
Vinicius de Moraes disse certa vez que "a palavra tem um gosto
de maçã mordida na boca de Orson Welles". Achei
fantástica essa idéia, ao mesmo tempo sensual e gulosa.
O poder da voz na expressão da fala talvez tenha sido um
dos maiores legados de Orson Welles ao rádio. Já Glenn
Gould se propôs a retirar música das palavras, construindo
na edição de várias falas o seu radiodocumentário
contrapontístico. O rádio como música erguida
nas palavras despossuídas de sentido fechado, ampliando a
comunicação.
Depois dos estudos esta disposição para pensar a
formulação da linguagem radiofônica se introjetou
em meu trabalho de tal forma, que já não sei o que
separa meu texto disso. Bem, na verdade existem textos bem diretos
e simples, apenas "acabamos de ouvir"... ! Mas fora esses
informativos objetivos, todo o resto acaba sendo uma conjugação
de fatos reais e diferentes estímulos auditivos trabalhados
na estrutura do texto.
8 - Como você descobre os programas apresentados no Rádio
Escuta ? pela Internet ?
todos os caminhos levam a Roma, já se disse. Posso achar
um CD numa lojinha como aquela que tem no Jardim Botânico,
entro em contato com o autor ou gravadora. Ou é um amigo
que me traz de viagem algum CD com obras de artistas plásticos
ou áudio artistas. Também troco informações
com pesquisadores, compositores, regentes, artistas plásticos,
muitos pela Internet. Conheço por exemplo os trabalhos do
maestro e compositor paulista Gil Jardim e do maestro e compositor
curitibano Henrique de Curitiba por causa do correio eletrônico.
Existe ainda o diálogo com os colegas sempre antenados como
é o caso do Servio Tulio. Fora isso, também costumo
viajar, vasculhar sebos, frequentar eventos de poesia sonora ...
uma coisa acaba levando a outra. Tenho feito também muitas
entrevistas e neste caso, os convidados levam seu material sonoro.
vez por outra alguém diz: essa música é a
cara dos programas da Lilian. Fico pensando neste padrão
um tanto de exceção, porque a rigor, faço programa
com música de tudo que é tipo, e generos bem comuns
como a música barroca, do período clássico
... agora, na série A Música em Cena (programa semanal
sobre trilhas para cinema, teatro, dança e artes plásticas)
apresento músicas bem populares até. Mas o que fica
de uma informação ? será aquilo que você
se lembra, identifica, ou aquilo que marcou de alguma forma indelével
a sua memória ?
9 - Quase sempre em textos sobre rádio as características
de agilidade e prestação de serviços são
apresentadas como as principais qualidades do meio. Você está
de acordo com isso?
Assim como existem conceitos, existem padrões. São
parâmetros utilizados para avançar. Mas não
quer dizer que você não possa ou não deva desconsiderá-los.
Apenas devemos lembrar: desconsiderar um conceito ou padrão
deve ser algo feito por alguém que de preferência e
para ser possivelmente bem sucedido, conheça bem esse conceito
ou padrão. Ou seja, questionar e quebrar regras é
necessário assim como conhecer e saber usar essas mesmas
regras. Inovar talvez seja mais fácil do que obter êxito
na comunicação desta inovação. De qualquer
forma o rádio é um veículo de massa, sempre
havendo necessidade de alcançar certa simplificação
da mensagem para atingir o maior número de pessoas. Não
quer dizer banalizar a informação. Esta medida não
é receita fácil. Cada vez mais me convenço,
em vários níveis, da dificuldade em ser simples. Porque
acaba sendo muito complexo ser simples ! Agilidade e prestação
de serviços são qualidades abstratas materializadas
nos objetivos: é comercial ou pública ? Pretende-se
gerar a venda de produto ou a produção de conhecimento
? Saindo desta seara realmente complexa diria que existe outro motivo
talvez até banal para o rádio ser ágil, conciso
e prestador de serviços: a falta de paciência para
ouvir. Isto é um fato: frases longas, cheias de informação,
simplesmente são descartadas pelos ouvidos em geral - exceções
sempre existem, é claro. Fenômeno contemporâneo
? Somos reféns de um mundo baseado em imagens ? falta ou
excesso de estímulo ? Eis um tema para tese de doutorado
...
o diálogo já mereceu diversas reprises: "ouvi
seu programa ontem, adorei!" eu digo: que ótimo, qual
era o programa ? "ah ... eu acho ... eu me lembro que tocou
uma música ... você falava... depois ouvi seu nome
!"
a maior parte das pessoas ouve mas não escuta. Escutar é
querer ouvir. Elaborar o que se ouve. Por isso coloquei o título
desta minha última série radiofônica de Rádio
Escuta.
10 - Você acredita que a radioarte tem espaço na
programação das rádios comerciais ? o rádio
sendo um veículo mais lúdico e experimental no Brasil
e no Mundo ?
Acredito que já se faça radioarte sem esse nome.
Como já disse anteriormente, existem classificações,
categorias. Esta categoria "radioarte" vem sendo sistematizada
à partir de trabalhos desenvolvidos sob parâmetros
da arte sonora acústica e eletroacústica. Costumam
diferenciar radioarte de "arte do rádio", sendo
a fronteira entre estas classificações um tema para
debate infindável. Então, segundo essa classificação
um tanto difusa, os radiodocumentários de Glenn Gould seriam
"radioarte" e os programas de Orson Welles seriam "arte
do rádio". Gosto de trabalhar no cotidiano da produção
radiofônica, e sendo assim, considero brilhante a capacidade
de um autor-produtor como Welles realizar diariamente algo surpreendente.
Agilidade, soluções rápidas e criativas para
problemas que se coloquem, o manejo da engenharia técnica
a serviço da construção do discurso, tudo isso
precisando não perder de vista o orçamento gasto,
a relação custo-benefício ... são mestres
os profissionais capazes de equacionar todas estas etapas entregando
seu trabalho na hora. Já produções como a realizada
por Gould são subvencionadas, levando meses de estúdio
para serem editadas, isso sem demérito nenhum. Apenas vejo
aí a grande diferença: quando se fala em radio comercial,
"time is money", e aliás atualmente esta máxima
se aplica - e acredito que deva mesmo em certo nível ser
aplicada - ao rádio público (cobrar eficiência,
qualidade e compromisso com aplicação adequada de
recursos orçamentários também cabe nessa frase
desgastada, time is money)
Então, para responder sua pergunta tão interessante
em tão pouco espaço, diria que existem dois aspectos
possíveis: o primeiro diz respeito ao circuito de "arte
sonora". Os festivais, bienais, a produção experimental,
universitária, as salas de concerto. Este circuito deve e
precisa existir seja com subvenção pública
ou privada. Outro aspecto seria a utilização de idéias
da arte sonora, ou radioarte, levadas parcialmente ou adaptadas
para esquemas comerciais. Muitas vezes assistimos comerciais de
propaganda de cigarro ou outro produto que se valeram de toda uma
cultura retirada das artes plásticas. Magritte é um
artista que deveria receber royalties de um monte de propaganda
espalhada por aí. Ouvimos também músicos como
Quincy Jones ou Miles Davis incluírem sonoplastia em suas
músicas, e também ouvimos emissoras de rádio
aonde a construção da locução se confunde
com a música, seja rap, hip-hop, enfim, criatividade para
além dos padrões de uma emissora comercial tradicional.
Eis aí porque afirmo que já existe radioarte no radio
comercial. Quando se busca audiência, reinvenção
ou renovação são palavras indispensáveis.
Costumo convidar diferentes profissionais para gravar um programa
comigo. Por duas razões: a primeira é porque desta
forma consigo trazer novas informações, material não
disponível usualmente no mercado. Em segundo, porque é
nesse diálogo que meu trabalho caminha. Gravei por exemplo
um especial com o músico e design sonoro Luís Eduardo
Gomes. O material apresentado por este artista expõe verdadeira
arte sonora, numa relação extensa com a cultura musical
dita "de concerto" e ao mesmo tempo incorporando informações
do entretenimento audiovisual (não fosse ele um profissional
de cinema também). Para mim foi um mundo que se abriu colocando
novas maneiras de trabalhar a mensagem radiofônica. Ao mesmo
tempo acredito ser esta uma maneira da emissora se aproximar dos
novos ouvintes.
11 - Uma nova rádio precisa de um novo tipo de ouvinte,
ou uma nova rádio faz um tipo de ouvinte.
Sou mãe e depois deste episódio acredito e não
acredito na formatação dos ouvidos. Positivamente
existe a necessidade de passar conhecimento por uma questão
de querer auxiliar o próximo (ou, um tanto negativamente,
quando vaidade ou o desejo de perpetuar poderes também serão
argumentos nesse processo) mas sabemos que este próximo só
poderá ser auxiliado se quiser, e mesmo para isso será
imprescindível desconfiar e avaliar criticamente nossa sabedoria
preponderante. A proposta de uma nova rádio deve estar sintonizada
com os rumos que uma sociedade quer e precisa tomar. Havendo diálogo
inteligente as partes caminham muito bem, evoluem. Sintonizar este
diálogo é tarefa do profissional.

12 - Em que a Internet auxilia ou concorre com o radialista
?
a radiodifusão multimídia é uma realidade que
veio para ficar. Assim como a imprensa de Gutemberg, a Internet
pode transformar alguma parte da aventura radiofônica em objeto
obsoleto. Isso aconteceu por exemplo, com o livro. As iluminuras
medievais, os livros artesanais, ilustrados um a um, tornaram-se
obras de arte, guardadas atrás das vitrines de importante
Museu ou Biblioteca. Não envelheceram, adquiriram novo status.
Quem primeiro elucidou desta forma a questão foi o pensador
canadense Marshall McLuhan. Para ele, o livro não iria sumir
frente a onipresença das telas do computador. Ao contrário,
o livro se tornaria obsoleto, tornando-se uma forma de arte. Obsoleto
não é velho. Nem antigo. Acredito que isso possa acontecer
com certo tipo de rádio - não sei bem qual. Mas este
outro formato, a radiodifusão multimídia, emerge como
nova ferramenta, introduzindo novos conceitos. Minha tese de doutorado
foi justamente sobre este momento de passagem: do rádio sem
imagens, apoiado na produção de sentidos via audição,
para este outro múltiplo, aceitando imagens, texto, hiper-texto.
Existe uma certa cisão entre os que acreditam ser o web-canal
outra mídia, não existindo web-rádio. É
assunto bastante novo, em evolução, de qualquer forma,
me parece, o rádio já lucrou. São inúmeras
as estações, textos, informações de
todo tipo sobre o universo radiofônico disponibilizados na
WEB. O radio, mais do que visualidade, ganhou neste primeiro momento
da Internet visibilidade, numa conexão realmente fantástica
de informações disponíveis para quem puder
acessar a Rede.
a importância da cultura técnica do rádio é
algo que agora com a multimídia, talvez mereça maior
destaque. Impossível imaginar alguém progredir neste
modelo sem saber utilizar os diferentes programas e efeitos. Meu
trabalho sempre valorizou a técnica. Costumo afirmar que
50% do resultado depende do operador de áudio. Aprendi e
aprendo muito com estes profissionais especiais conhecedores profundos
de rádio, ouvidos atentos e espertos aos diferentes padrões
musicais, vocais, sonoros. Betinho Monteiro, Ribamar Mendes, Sergio
Muniz, Edu, Monteverde, Alvaro, Mario Jorge, Dinho, Haroldo, André
Luis, Eduardo, Cacá, Cosme, Ary Andre, Nilton Queiróz,
podem se considerar co-autores de meu trabalho formalizado no diálogo
enriquecido pela troca de conhecimentos. A Rádio MEC foi
- e continua sendo - a grande escola de rádio que já
frequentei. Aprendi trabalhando e gostaria agora de poder passar
adiante o que aprendi, caso julguem de interesse e utilidade.
O que mais me lembro?
A primeira vez que fiz uma entrevista foi com o Joel do Nascimento,
em sua casa na Penha. Era a época do "Sovaco de Cobra",
o boteco aonde os músicos se reuniam aos domingos, dez da
manhã, para tocar choro.
Depois foi a vez do maestro Radamés Gnattali. Fui a sua casa
no Jardim Botânico e quando a porta se abriu expôs a
figura imponente, sentada em uma poltrona de couro. Sua voz estrondosa
ressoou: " de que colégio você é ?"
Fiquei sem saber o que dizer... mas consegui, quase inaudível,
"sou da Rádio MEC ... vim entrevistá-lo sobre
música ..." Radamés retrucou: "sobre música
não se tem o que falar. Só ouvir". Mas não
arredei pé e para minha sorte, porque descobri minutos depois,
uma personalidade generosa, de humor peculiar, um artista de cultura
e inteligência impressionantes e figura humana encantadora
no alto de seus 80 anos.
radiomemorabilia
Minha rádio memória sempre será um tanto improvável.
Por um lado apresenta lacunas enormes na precisão dos fatos:
datas, nomes, cronologia dos acontecimentos. Por outro, é
refém desta impermanencia da memória: afinal, o que
se quer lembrar ? de todos os fatos marcantes que vivi um deles
insiste em saltar desta caixa craniana imprevisível: me lembro
do dia em que o maestro Alceo Bocchino, com toda sua simpatia e
elegância me disse: "sabe Lilian, quando você entrou
aqui na Rádio, eu pensei que você fosse... hippie!".
E soltou estrondosa gargalhada.
Lilian Zaremba
Rio de Janeiro
setembro de 2004.
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