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Lauro Gomes

DATA: 22/04/2002
Amigo Ouvinte - Como e quando você entrou
para a Rádio?
Lauro Gomes - Foi em 09 de Janeiro de 1974. Eu fui
convidado pelo Reginaldo Magalhães, que era diretor artístico,
no tempo do Brigadeiro Tróia. Ele não era ligado a
música, mas sabia que eu estudei canto, que freqüentava
o Teatro Municipal, que ia a todos os concertos e tal, e perguntou
se eu não gostaria de fazer alguma coisa aqui na Rádio.
Eu falei: "Se for pra escrever um programa tudo bem, topo".
Aí, pouco depois, num encontro casual, ele me disse: "Você
começa amanhã, às 9 da manhã."
Eu disse: "O quê?". E era nada mais, nada menos
pra substituir o supervisor de gravação e programação.
E eu cheguei já como programador e supervisor de gravação
- que era pra acompanhar as gravações, os textos.
Estava tudo atrasado em termos de gravação. Programas
que era pra ter ido ao ar dois meses antes, ainda por gravar, e
tudo jogado pelo chão. Então, a primeira coisa que
eu vi era que precisava organizar aquilo tudo.
Comecei por dividir as tarefas dos locutores, organizando os programas
que iam ser gravados por cada um - e nós tínhamos
uma equipe de produtores que era uma coisa de louco, Maestro Alceo
Bocchino, Aída Bocchino, Sérgio Nepomuceno, Alberto
Shatovisch, Noemi Flores, Marina Moura Peixoto, Hebe de Matos, Belmira
Frazão, programas de teatro, etc, etc... Na música
popular tínhamos o Paulo Tapajós, a Helena Teodoro,
o Haroldo Costa, o Ricardo Cravo Albin - que está até
hoje aqui conosco. Walmir Ayala também trabalhava na AM.
Nós produzimos juntos um programa comemorativo pro Roquette-Pinto.
Então, era uma equipe gigantesca de produtores e, fora isso,
tínhamos uma Orquestra Sinfônica funcionando - com
grandes maestros, tanto nacionais como internacionais, vindo reger
essa Orquestra -, uma Orquestra de Câmara, um Coral, um Quarteto
Vocal da Rádio MEC, o 1º Conjunto de Música Antiga
do Brasil, Quarteto de Cordas, o Trio da Rádio, além
de vários duos. Então era uma rádio padrão:
a Rádio MEC era do mesmo nível da RAI italiana, da
Rádio e Televisão Francesa, da BBC de Londres, da
Deutsche Welle.
AO - Naquele tempo, em 74, não existia FM,
não é?
LG - A FM quem fundou fui eu. Desde o início,
a primeira programação da FM foi minha. Eu fazia tanto
programa de música popular como de música erudita
.
AO - Você falou que a rádio era do
nível da RAÍ, da Deutsche-Welle
Você conhecia
essas estações?
LG - Já conhecia pelos programas que elas mandavam
para cá. Inclusive, até hoje a Deutsche-Welle manda
e a Rádio ainda transmite.
AO - Fale dos produtores daquela época.
LG - Eu me lembro da Priscila Rocha Pereira, que fazia
Música e Músicos do Brasil, programa que hoje sou
eu que faço. Depois da Priscila, o programa passou por uns
dois ou três produtores. Antes de mim era o pianista Miguel
Proença. A gente tem que falar do programa sobre cinema,
feito pelo Shatovski, importantíssimo, que lançava
todos os filmes, todas as trilhas musicais; o do Alfredo Souto de
Almeida, sobre teatro, com entrevistas - ele fazia a crítica,
ia aos camarins e entrevistava os artistas que participavam. Então,
cinema, teatro: tudo era coberto - fora as coisas ao vivo que a
gente fazia. Eu, como produtor, cheguei a gravar muitas óperas
no Teatro Municipal, para transmitir depois. Mas, no meu tempo de
criança, escutava sempre óperas transmitidas pela
Rádio MEC, pela voz do Paulo Santos, narrando, entrevistando
os artistas nos intervalos e conversando com o público: era
uma coisa de louco. Outros produtores da época eram o Sérgio
Nepomuceno, que fazia os Maestros Regentes; o Maestro Bocchino,
que fazia sobre Sinfonia; Dona Aída Bocchino, que fazia sobre
Arte do Canto e Canto Lírico - eram dois programas. Sem esquecer
o Zito Baptista, que é uma instituição, que
está até hoje trabalhando com a gente. E tinha a Belmira
Frazão, que fazia "A História do Balet"
e o "Classe A" - um programa só de grandes concertos.
E tínhamos a Marina Moura Peixoto, que fazia "Quarteto"
- um programa só de quartetos de corda-, e Jackeline Lawrence,
que fazia "Musica e Teatro".
Não podemos esquecer da Edna Savaget, e, na música
popular, da Helena Teodoro, grande defensora do movimento negro,
da música negra, como Haroldo Costa também, que fazia
tanto música popular como música sul-americana e música
do Caribe. Nosso inesquecível Paulinho Tapajós que
era um defensor ardoroso da música brasileira. Então
essa Rádio fervilhava. E tínhamos também os
nossos solistas: o Miguel Proença, pianista, a Leda Coelho
de Freitas, soprano que ganhou prêmio "Canção
Francesa", em Paris, concorrendo com 98 cantoras internacionais.
Tivemos a Creusa de Pennaforte, mezzo-soprano que cantou na Ópera
de Paris durante anos. Existem gravações dela com
a Orquestra da Ópera de Paris e ainda os pianistas Oriano
de Almeida e Larry Foutain, este também preparador das solistas...
AO - Funcionárias?
LG - Funcionárias contratadas: eram solistas
da Rádio MEC. Tínhamos a Silvia Baugartner que era
especialista em música alemã, também solista
da Rádio MEC. Tínhamos também a Eliane Sampaio
que está aí até hoje - era professora da UNIRIO.
E tinha a Maria de Lurdes Cruz Lopes. Esses eram os recitalistas
da Rádio. Muitos desses estão saindo na nossa coleção
de discos Repertório Rádio MEC. E isso sem falar nos
que vinham aqui para gravar especificamente aquela série
maravilhosa que é o "Música e Músicos
do Brasil" e toda a musica brasileira que foi gravada pelos
nossos corpos estáveis, a nossa Orquestra, a Orquestra de
Câmara... Eu me lembro de muitos que atuaram e que atuam até
hoje: o celista Iberê Gomes Grosso; o fagotista Noel Devos;
o José Botelho, clarinetista, que formou toda uma nova geração
- são os grandes professores. Se existe hoje, uma escola
de oboé, de fagote, de clarineta , deve-se a esses grandes
nomes que vieram aqui pro Brasil, contratados, ficaram na nossa
orquestra e se dedicaram ao ensino, formando uma grande escola.
E a Rádio foi uma grande escola, se for falar das crônicas
lidas pelo Paulo Autran , que eu assistia, os quadrantes - todos
os que escreviam , a Malú de Ouro Preto, a Diná Silveira
de Queiroz, o Carlos Drummont de Andrade, Rachel de Queiroz e o
Manoel Bandeira...
AO - Você ouvia isso?
LG - Ouvia. Eles mandavam as crônicas pra cá.
O presidente da Academia, o Austregésilo de Athaíde,
cansei de ouvir ele gravando as crônicas dele. As crônicas
de Dináh Silveira de Queiroz , eu é que separava para
serem gravadas - só que nesse tempo já não
era mais o Paulo Autran quem as lia.
AO - Era quem?
LG - Eram vários locutores e locutoras
AO - Fala dos locutores
LG - Não vou lembrar de todo mundo, mas, pra
mim, uma das maiores e mais competentes vozes do rádio foi
Maravilha Rodrigues. Era emocionante a agilidade dela de gravação,
a quantidade de programa, porque tudo da Rádio era gravado
e montado na época, e ela gravava quilos de programas, era
tudo de primeira vista, e tudo de enfiada. Ela não parava,
não errava. Ela, Guilherme de Souza, que está conosco
até hoje, e o José Assis, que se aposentou. Tinha
o Willian Mendonça, que faleceu, que também gravou
muito aqui, o Sérgio Chapellin que começou na Rádio
MEC, ele começou novinho aqui, a primeira experiência
foi aqui, depois é que ele ficou famoso. E aí voltou
pro Minerva. Mas ele começou aqui, como Fernanda Montenegro,
que eu só fui conhecer no teatro. De locutora ainda quero
falar da Anita Taranto, que tinha uma personalidade forte - ela
dava uma classe ao programa, para apresentar coisas assim de alta
categoria, porque ela tinha uma imponência vocal muito bonita.
E tinha também a Maria Helena Raposo , que lia as críticas,
as crônicas, e também lia muitas óperas. E ela
também era uma grande cantora, um mezo-soprano quase contralto.
Trabalhou muitos anos nessa casa.
AO - E o Paulo Santos?
LG - Paulo Santos era hors concours porque ele era
voz padrão da Rádio MEC . Existem muitos outros que
eu estou fazendo injustiça com o meu esquecimento. Linda
Alves, outra locutora que tinha a voz muito bonita também.
O que eu quero afirmar, aqui, é que a grandeza da Rádio,
o padrão que a Rádio tinha, a gente tenta manter hoje,
mas eu fico assombrado. Naquele tempo, em que a gente tinha funcionando
dentro desse prédio a Embrafilme, como é que se ajeitava
todo aquele contingente aqui dentro, aquela Orquestra Sinfônica,
de Câmara, Conjunto de Música Antiga da Rádio,
Coral da Rádio MEC, que eu nem falei, Trio, Quarteto de Corda,
Quinteto de Sopro. Então tínhamos toda uma estrutura
aqui dentro. E hoje eu fico bobo, porque a gente hoje, pra gravar,
é uma dificuldade.
AO - E o Karabtchevsky?
LG - O Karabtchevsky fazia muito programa, aqui, também.
Eram sobre aspectos orquestrais - ele comentava a obra sinfônica
que ia ser tocada. Naquele tempo, muita gente também trabalhava
no Projeto Minerva, mas não participava muito dentro da Rádio.
Era uma coisa um pouco estanque, o que era o caso do Karabtchevsky
e dos locutores que só gravavam pro Minerva, como o Chapelain
e o Cid Moreira.
AO - Lauro, você não tinha experiência
em Rádio. Quem foram seus professores, aqui dentro?
LG - Eu entrei pra Rádio, como disse, pra escrever
um programa, e acabei ficando como supervisor de gravação
e de programação. Eu tinha noção de
pronúncia, porque estudei canto durante 10 anos, cantei em
coro desde o primário, e freqüentava os concertos, então,
eu sabia mais ou menos a regra de pronúncia, e ajudava a
corrigir os locutores nas gravações, acompanhava com
o texto, e qualquer dúvida, nós tínhamos o
Paulo Santos, que dava cursos - inclusive eu fiz curso com ele:
eram cursos maravilhosos que ele fazia apostilas com regras de pronúncia
em russo, em francês em inglês, espanhol e alemão.
AO - Você ainda tem essas apostilhas ?
LG - Tenho as apostilhas do curso todo, em casa. Então,
todo ano ele fazia esse curso. E muitos produtores da Rádio
faziam esse curso também, que era pra estar em contato. Agora
eu comecei fazendo programas pra encher os buracos que apareciam
na grade de programação. Se num horário faltava
determinado programa, eu fazia um, e assim fui começando.
Atendendo aos Ouvintes, por exemplo, não tinha quem fizesse,
então eu fazia o programa. Além de preencher as horas
vagas com planilhas musicais - escolhendo as obras, pra não
haver repetição e pra não haver choque também
na programação. Depois eu inventei uma série
para um amigo que trabalhou aqui e depois foi para Paris - ficou
aqui só 6 meses. Então eu dei uma série pra
ele fazer, "Os Mestres", que abordava os mestres da música
francesa, da música inglês, alemã, da música
italiana, da espanhola. Cada dia da semana, naquele horário,
era dedicado a um país - o que está sendo feito hoje,
de novo, pelo Arthur da Tavola, aos domingos. Mas ele foi embora
pra Paris, e a série caiu na minha mão, porque não
tinha quem fizesse. Ai eu comecei a produzir, também, o "MEC
Especial" - que era do Paulo Santos. Foi o Paulo Santos quem
fez os primeiros MEC Especiais, que eram de raridades musicais.
Ele fez uma série de 3 ou 4 programas, aí, nessa época,
mudou a direção da Rádio. Saiu o Brigadeiro
Tróia, saiu o Reginaldo Magalhães, que foi o diretor
artístico que tinha me posto aqui, e entrou um rapaz que
eu não me lembro o nome dele - era do Ministério da
Saúde, e ficou pouco tempo como diretor artístico.
E já tinha essa série MEC Especial, que era uma coisa
que a direção da Rádio queria que continuasse.
Então ele propôs que cada produtor faria um por semana,
seria dividido. E então eu fiz o primeiro, sobre Carlos Gomes
interpretado pelos maiores cantores do mundo: Caruso, Bidu Saião
e por aí vai. E esse programa fez um sucesso incrível.
Em seguida, mais dois produtores apresentaram programas. Eu prefiro
não citar nomes, mas foi um fracasso, porque não estava
dentro do espírito do programa. Aí me pediram que
fizesse o 4º programa, e eu fiz um correndo, focalizando a
Cláudia Muzio - eu tenho muitos amigos colecionadores, e,
então, corri atrás. Professores de escola de música
pediram cópia e o programa foi um sucesso. Aí eu fiquei
com a responsabilidade do programa e comecei a fazer mesmo raridades
incríveis, correndo atrás de colecionadores amigos
meus, e começou a sair crítica do Arthur da Tavola,
elogiando muito o programa, e tudo o mais. O diretor da Rádio,
nesse tempo, já era o Heitor Salles, que me chamou ao gabinete,
dizendo que "em Brasília tinha recebido muitas críticas
favoráveis ao programa e tal..." , e ele arranjou outras
pessoas pra cuidar da programação, eu parei de fazer
tudo o que eu fazia pra só me dedicar a produção,
passei a ser só produtor,
Nessa época, eu trabalhava também na TV Educativa,
no projeto Escadaria do Teatro Municipal, e também na Funarte.
Aí, quando houve a coligação da Rádio
com a TV, eu teria que ficar na Rádio porque era funcionário
da Rádio - eu trabalhava na TV, mas só recebia 1/3
do salário. Aí, eu optei por ficar na TV -a nossa
era a única equipe erudita brasileira na televisão:
eu, Aylton Escobar e a Cecília Coelho, que fazíamos
uma série de programas pra TV Educativa -, e, quando consegui
ficar lá, o Heitor Salles brecou a minha saída dizendo
que não abria mão da minha presença na Rádio,
porque ia ser fundada a FM e que quem ia tomar conta da FM era eu.
Foi em 82. E eu tive que fazer a programação toda
da FM, e ainda escrever os programas, e éramos só
3 nessa equipe: eu, Virginia Portas e Marlene Barton.
AO - Antes de falar na FM, explique como a Orquestra
Sinfônica era, quem decidia o que ia ser gravado, qual era
a formação, essas coisas, ok?
LG - Bom, eu já não peguei mais o Francisco
Mignone, que foi o início. Peguei o fim da primeira fase
do Bocchino e depois toda a fase do Marlos Nobre como diretor artístico,
depois a volta do Bocchino, que foi quando acabou definitivamente.
Mas o maestro mais atuante foi o Bocchino - o regente principal
da Orquestra. Agora, quem decidia era a direção artística.
Mas não sei, também, porque havia muitas gravações
de compositores que vinham aqui, gravavam, como Radamés Gnattali;
o Guerra-Peixe, nos segundos violinista da Orquestra - um monstro
sagrado da música, sentava lá nas fileiras de trás,
bem apagadinho, tocando violino -; Iberê Gomes Grosso, aquele
virtuose do violoncelo; o Botelho, na clarineta; o Devos, no fagote,
o Eugene Ranevisk; a esposa dele, a Violeta Kundert, que era do
conjunto música antiga - o conjunto mais antigo do Brasil.
Quando eu tinha saí da chefia da FM e voltei a ser produtor
- fui nomeado chefe musical -, então eu programava os concertos
pra sala Cecília Meirelles da Orquestra de Câmara com
o Coro e no Conjunto Música Antiga.
AO - Já não havia mais Orquestra?
LG - Não. Tinha a Orquestra de Câmara,
com o maestro Nelson Nilo Rack, que ficou com alguns remanescentes
da Orquestra, quando a Orquestra se foi para a Universidade Federal
Fluminense, e, justamente na minha gestão, houve então
a distribuição da Orquestra e do Coral para a Escola
de Música, e depois o Conjunto de Música Antiga foi
desfeito porque todo mundo estava aposentado, e acabou-se o Conjunto
de Música Antiga - o mais antigo do Brasil, que atuou durante
40 anos dentro dessa Rádio, e até hoje eu não
entendo o mecanismo que levou a essa derrocada toda, sabe? Eu sei
que havia problemas, porque não se resolvia o problema dos
músicos. Tinha musico que tocava tuba e já estava
avançado em idade e não podia mais tocar, não
tinha mais fôlego, e não se podia botar outro no lugar,
porque eram funcionários públicos, e não havia
dinheiro pra se contratar músicos de fora. Era um problema
que o Maestro Bocchino é que pode explicar direito como é
que funcionava, porque era um milagre como a Orquestra funcionava,
porque tinha que vir gente de fora pra cobrir os buracos, e não
tinha mais concursos para que se colocassem outros nos lugares.
Então o que eu sei é isso, e, então, jogaram
a orquestra lá para a Universidade Federal Fluminense Mas,
com esse fim, os nossos recitalistas deixaram de gravar e passaram
a produzir. Então, a Leda Coelho de Freitas, por exemplo,
passou a fazer O Cravo e o Piano e Música de Câmara,
Silvia Baugartener fazia o Lied .
AO - Elas apresentavam o programa?
LG - Não, locutores liam. Eram produtores,
como a Nancy Viana, que fazia o Vesperal; como Arcy Mello e Sergio
Leal Carneiro, que faziam Sala de Concerto; como a Priscila Rocha
Pereira, que fazia Caleidoscópio. O Roberto Strutt, que era
da orquestra, também passou a ser produtor, fazia o Pequeno
Concerto .
AO - E os outros produtores?
LG - Nós tínhamos um bando de produtores,
aqui. A Helena Teodoro fazia Origens; o Haroldo Costa fazia Estampas
Brasileiras; o Alfredo Canté fazia a Volta ao Mundo; o Walmir
Ayala, que fazia o Painel de Arte; o Edgard Duarte, que fazia A
Revista do Livro; e
AO - Quem era Edgard Duarte?
LG - Era um escritor, como Mauricio Salles também.
E ainda tinha Ricardo Cravo Albin, com "Os Discos de Hoje",
Alberto Shatovski, com "Cinema", sem esquecer o Geraldo
Guedes, que trabalhou muitos anos aqui e já faleceu. E também
do Arthur da Tavola, que trabalha há muitos anos, e do Marlos
Nobre que também trabalha até hoje. E quero lembrar
da Virginia Portas, que me ajudou quando nós montamos a FM,
junto com a Marlene Barton também, e do Fernando Neiva, que
passou a ser produtor, depois que eu estava na FM. A Lilian Zaremba,
que entrou junto comigo, na mesma época com a Rosette Cleia
Vaisman também.
AO - Paulo Salgado?
LG - Paulo Salgado foi um produtor e foi um diretor
artístico da casa, como Paulo Santos foi diretor artístico
da casa também. E tinha também o Oswaldo Jardim, o
Dom João Evangelista, o Antônio Nobre, o Antônio
Hernandes,
AO - Antônio Hernandes trabalhou aqui também?
LG - Trabalhou, e a esposa dele, a Nancy Hernandes,
continuou até se aposentar. E tinha também a Diana
Cristina Damasceno, a Gulnara Bocchino, que trabalhou muito aqui,
também. Era tanta gente, mas tanta, que é difícil
a gente não esquecer. Tem que falar do Nelson Tolipan, que
trabalha há muitos anos. Do Maurício Quadrio, que
era importantíssimo. Uma vez aconteceu um fato gozadíssimo.
Eu era supervisor de gravação, e chega a Maravilha
Rodrigues, muito aflita: "Lauroo, Lauroo, o que que eu faço?"
Eu digo: "O que que foi Maravilha?" Era a opereta La Perichole,
que se passa no Peru, e o Mauricio Quadros escreveu: "O Peru
do seu Offenbach é muito parisiense", e a Maravilha,
apavorada "Como é que eu faço aqui?" Eu
disse: "Muito simples, a música do seu Offenbach é
muito mais parisiense do que peruana". Foi a saída,
porque são coisas que acontecem, né?, ainda mais Mauricio
Quadros que é italiano de origem. Tinha muita coisa gozada.
Uma vez dona Belmira Frazão também chegou muito chateada
porque
AO - Ela fazia o que?
LG - Ela fazia os programas Música de Ballet
e Classe A. Na época da ditadura, ela chegou aqui uma arara,
porque acusaram dona Belmira especificamente, de difundir música
comunista no programa Música de Ballet, porque ela botava
as músicas dos russos na Rádio - não podia
nem Prokofiev, nem Tchaikovski, quer dizer, umas coisas assim incríveis.
E ela era irmã de um grande embaixador do Brasil, uma mulher
serissima, não tinha nada de esquerda. A pobre da Helena
Teodoro era atormentada porque ela defendia o negro, então
era tida também como de esquerda. Noemi Flores também,
coitada.
AO - Aconteceu alguma coisa?
LG - Não me lembro especificamente, mas houve
muita coisa com Helena, eu me lembro bem e esse caso da Belmira
que era de morrer de rir né? Umas coisas assim sem "pé
nem cabeça".
AO - A respeito de literatura no rádio,
o que você se lembra, de literatura na Rádio MEC?
LG - Literatura feito por rádio-teatro, grandes
e consagrados escritores que escreviam pra Rádio, fazia teatralização,
faziam crônicas. Mas eu peguei o rádio-teatro ainda
com o Dilmo Elias, que fazia um trabalho muito bonito: ele radiofonizava
várias peças.
AO - Você trabalhou com Sérgio Viotti?
LG - Não, quando eu entrei ele já tinha
saído. Inclusive, quando eu fazia as programações
de ópera, o Zito não estava trabalhando na Rádio
MEC, porque ele estava no Instituto do Açúcar e do
Álcool, e não podia acumular. Então, eu escolhia
as óperas, porque existiam mais de 200 óperas montadas
na nossa discoteca, e com a voz de Sérgio Viotti. Então,
simplesmente, cada semana eu escolhia uma ópera diferente,
já montada e botava no ar. Aí, eu insisti muito, no
tempo de Heitor Salles, que trouxesse o Zito de volta, e conseguimos
que o Zito voltasse, ganhando um pro labore muito significante para
o trabalho de modernizar e apresentar gravações recentes
- porque há muito tempo a Rádio não fazia isso.
Fora isso, também consegui fazer muitas externas naquela
época - hoje em dia não fazemos mais, não temos
meios materiais pra fazer -, mas transmiti muita gravação,
gravei muitas óperas no Teatro Municipal. Mas o momento sublime
foi a gente conseguir gravar Yerma, do Villa-Lobos - foi a única
vez que foi levada no Brasil, e nós conseguimos gravar.
AO - Vocês tem essa fita?
LG - Essa gravação sumiu dos nossos
arquivos, mas existe gravações em CD tirada da nossa
transmissão da Rádio MEC. Muita gente gravou, só
nós não temos, mas é fácil conseguir
porque muita gente comprou no exterior e tem acesso. Eu gravei,
por exemplo, Eliane Coelho, quando veio aqui a primeira vez. A primeira
vez que se montou a Flauta Mágica, com artistas brasileiros,
todos os artistas brasileiros, era Wladimir de Kanell, Maria Lucia
Godoy, Eliane Coelho e o Aldo Baldim, que já faleceu - o
elenco era todo brasileiro. Nós gravamos também a
Viúva Alegre, com Paulo Fortes, Ruth Staerke e com a Eliane
Coelho, também. Então muitas coisas nós conseguíamos
fazer, como gravar a ultima vez que Madalena Tagliaferro se apresentou
em público. Eu consegui também a última entrevista
da Mindinha, e a última entrevista com o nosso inesquecível
Francisco Mignone, 19 dias antes da morte dele. Ele deu um depoimento
lindo, e fizemos uma série.
AO - Essas entrevistas da Mindinha, do Mignone,
existem ainda?
LG - Tudo que foi feito na minha época tá
guardadinho no nosso acervo. E os que vieram depois de mim, sempre
me chamavam antes de apagar qualquer fita pra usar em novas gravações.
Porque eu proibia: tudo que fosse feito por brasileiros, artistas
brasileiros, compositores brasileiros, podia ser artista brasileiro
tocando Beethoven, não me importava, mais nada podia ser
apagado. Então, esses depoimentos estão todos lá.
Tem muita gente que já morreu: a última entrevista
do Guerra-Peixe; o Paulo Fortes, no Municipal; a Bidu Saião
- eu fiz cinco horas de programas com a Bidu Saião -, ela
me deu uma entrevista gigantesca e por aí vai.
AO - A partir de um determinado momento, as fitas
rolos foram transcritas para fita cassete. Quem foi o infeliz que
deu esse tipo de ordem?
LG - Não me lembro. Inclusive essa série
que eu falei - MEC Especial - eram gravações raríssimas,
muitas se perderam e muitas eram em fitas-rolo de uma hora. Agora,
só existem a cópia em cassete. Como isso aconteceu
eu não sei. Você sabe da penúria que era a Rádio
naquela época, e que a gente nem tinha fita pra gravar os
novos programas. Então, me chamavam para saber se se podia
apagar tal ou qual programa. Quando era uma coisa comum, com gravações
que existem aos milhares - obras de Beethoven, de Mozart, etc. com
essas orquestras mais famosas, gravações que todo
mundo tem, então, essas, eu dizia: "Podem apagar."
Mas se era coisa ao vivo e com brasileiros, de jeito nenhum. Eu
consegui salvar muita coisa e muita gente que tomou essa consciência,
depois de mim, também. Por isso é que é importantíssimo
esse trabalho que a SOARMEC começou a fazer, de lançar
em CDs a nossa memória musical. São gravações
de 40 anos atrás que estão sub-existindo aí,
em fita, que é um milagre, porque não há uma
preservação dessas fitas, não há uma
recopiagem. Eu salvei já muita coisa em DAT, mas precisava
se recuperar urgentemente todo esse acervo que nós temos
ai. Porque nós temos, além dessas coisas maravilhosas
gravados pelas nossas orquestras, os coros, os trios e quartetos
e quintetos e, além disso, existe toda a série de
solistas que nós ainda não botamos: os recitalistas.
Jacques Klein, por exemplo, nós temos 3 ou 4 concertos dele,
ao vivo, gravado no Municipal.
AO - Mas é propriedade da Rádio?
LG - Sim, como é que não? Concerto nosso,
com nossa Orquestra, produzido por nós. Nós temos
muita coisa ai, internacional, com artistas brasileiros, de suma
importância.
AO - E agora, falando da implantação
da FM, como ela começou a entrar com uma grade de programação?
Conta essa história pra a gente.
LG - Ela começou no inicio de 1985, e essa
primeira grade quem elaborou fomos eu e a Virginia Portas, que era
uma espécie de secretária, como Marlene Barton também.
Então eu fiz essa primeira grade, e a Rádio funcionava
de 8 horas da manhã até a meia-noite, quando encerrávamos.
Começava com a presença clássica, às
8 horas da manhã. Com a Sinfonia, que era produzida pela
Rosete; depois vinha Sala de Concerto; Panorama Coral, que era produção
da Gulnara Bocchino; depois Classe A; depois vinha Som Maior, com
Oswaldo Jardim; No Mundo dos Discos, que era com Sérgio Nepomuceno;
depois Arthur da Távola, com Robert Schuman - Romance e Tragédia
; depois Nova Dimensão, que era um programa meu; Arte do
Canto, da Aída Bocchino; Cravo e o Piano, da Leda Coelho
de Freitas; Audição Especial, que era da Rádio
Cultura de SP, Paz de Espírito, com Dom Evangelista Enou,
que produzia também Histórias da Bíblia ; e
as Cantatas de Bach, do Zito Baptista Filho.
AO - Como você definiu essa grade? Qual foi
o critério?
LG - O critério era fazer horários estanques
dentro do mesmo dia. Cada produtor tinha seus horários semanais.
Por exemplo, o jazz, a música norte-americana e a música
de cinema, eram programas da AM, que eram reprisados na FM. O Zito
por exemplo fazia as "Cantatas de Bach", que era da FM,
mas a "Ópera Completa", que era da AM, aos domingos,
na FM era aos sábados. E aí, começou, e depois,
quando foi chegando o fim do ano, o Heitor Salles me disse que queria
que a Rádio começasse a funcionar as 6 da manhã
e que fosse até às duas da madrugada. Então,
inventei um programa que era "Bom dia com Música",
produzido por 4 produtores, meia hora cada um. Gravei 800 programas
com os dois locutores, o Willian Mendonça e Maravilha Rodrigues.
Fazíamos módulos de meia hora, e a gente ia variando
todo dia - essa série, depois, mandaram para Brasília,
que era até um acervo importantíssimo que ficasse
ai na Rádio como recordação daquela época.
Mandaram pra Brasília porque, quando a MEC de Brasília
começou a funcionar precisava de programas, e mandaram essa
série. Depois, inventei outra série, à noite,
e falei com o Heitor que, se ele quisesse também das duas
2 as 6 da manhã, a gente podia transmitir, podíamos
fazer uma avant première, de madrugada, do que ia ser transmitido
no outro dia. Por problemas de não haver técnicos
para operar de madrugada, não foi feito. Mas já havia,
naquela época, a intenção de funcionar sem
parar. Eu deixei a FM funcionando das 6 às 2 da manhã;
depois veio a Gulnara Bocchino; depois eu fui chamado de novo, fiquei
mais um ano, reestruturei e, depois, me botaram como diretor musical.
AO - E hoje?
LG - Hoje em dia, sou produtor de vários programas:
Concerto MEC, ao meio-dia; Música e Músicos do Brasil,
que é o segundo programa mais antigo da rádio, depois
do Ópera Completa; e produzo o Sala de Concerto e também
os Sons do Brasil, que é um programa novo, só de ritmos
brasileiros.
AO- Lauro, queria que você falasse dos diretores
que você viu passar pela Rádio, e também de
um cargo importantíssimo que foi parando de ter aqui, que
era o Diretor Artístico. Já sabemos que, quando você
entrou, o diretor era o Brigadeiro Tróia. E o diretor artístico,
quem era?
LG - Reginaldo Magalhães. O Comandante Tróia,
a gente nunca tinha muito acesso, porque a direção
da Rádio sempre foi muito fechada aos produtores, em geral.
Então, eu tratava diretamente com o diretor artístico
da época, o Reginaldo, com quem eu trocava idéias.
Uma característica nossa, logo quando eu entrei, foi reduzir
muito os textos, que eram muito literários - às vezes
um programa de meia hora tinha 6 a 8 páginas, sabe? Então
fomos criando uma nova imagem.
AO - O Reginaldo Magalhães era um homem
de cultura?
LG - Ele trabalhava na Embrafilme com o Comandante Tróia,
que também era da Embrafilme e o trouxe pra cá. Porque,
justamente, ele tinha um certo nível cultural. Mas não
entendia nada de música, e música erudita, em si,
ele não entendia nada. Ele me chamou por isso: pra um apoio
a ele.
AO -E depois do Tróia?
LG - Foi o José Candido de Carvalho, um escritor,
autor do "O Coronel e o Lobisomem", e que a gente só
via entrar e sair. Não tive o mínimo contacto com
ele: se eu disse uma ou duas vezes "boa tarde", foi muito.
E eu não entrava no gabinete. Eu só passei a freqüentar
o gabinete no tempo do Heitor Salles, que realmente foi quem deu
um apoio muito grande aos funcionários. Ele viu muito esse
lado dos empregados que a gente não tinha quem defendesse
nosso interesse ele lutou muito e trabalhou muito pela Rádio
MEC.
AO - Quem foi o diretor artístico do José
Candido?
LG - Não me lembro o nome. Um cara que veio
da Saúde
AO - E do Heitor Salles, quem era?
LG - Fui eu.
AO - O que o Heitor fez pelos funcionários?
Melhorou salários, essas coisas?
LG - Exato. Fez uma tabela para locutores, para produtores,
e regularizou essa situação nossa que era muito indefinida,
com cargos e comissões.
AO - O que você acha que ele fez pela Rádio,
propriamente?
LG - Conseguia material. Fitas que era uma dificuldade,
que a gente não tinha. Condições de estúdio
para gravar. Realmente foi uma época que a gente pode respirar
um pouco mais. Porque ele arranjava, ele conseguia - com influência
do pai, talvez, com Brasília. Tanto que ele ficou muitos
anos e era muito querido pelos funcionários.
AO - Ele imprimiu alguma característica
nova na programação?
LG - Eu posso contar uma conversa que ele teve comigo.
Uma vez ele me chamou no gabinete e disse pra mim isso que eu estou
declarando agora: "Lauro eu não entendo nada de música
erudita, nem é a minha coisa preferida. Gosto, sim, em raros
momentos, então eu não vou me meter naquilo que eu
não entendo, deixo por tua conta." Então a gente
fazia e levava ao conhecimento dele. Eu nunca sofri restrição
nenhuma, nunca tive crítica negativa do meu trabalho - ele
só me chamava pra dizer dos elogios que ele recebia pela
nossa programação. Então ele era um sujeito
que deixava a gente trabalhar: não se metia. Ele queria que
o negócio funcionasse e funcionasse bem, e o que ele podia
melhorar as condições, por exemplo, as externas que
eu pedia, ele melhorava. De um modo ou de outro, ele arranjava um
carro pra levar, pagava um lanche para os funcionários ficar
até 2 horas da manhã gravando no Teatro Municipal.
A gente tinha a boa vontade dele - ele não fechava a porta
do gabinete para a gente. Apesar de ser uma coisa distante, porque
era o Dr. Heitor Salles não era como a da nossa última
diretora, a Regina Salles, que era uma companheira nossa de trabalho
e então a gente entrava à vontade.
AO -O Heitor comprou algum equipamento pra Rádio?
LG - Não posso te precisar, porque era muita
coisa miúda, mas comprou, sim. Me lembro que vieram microfones
E também fitas, porque antes a gente não tinha condição
de trabalho, sabe? E essa condição de não poder
apagar as fitas, de eu falar com ele: "Dr. Heitor, a gente
não pode apagar essas fitas." Ele sabia da importância
da nossa cultura, disso ele tinha consciência, e tem até
hoje. Mas ele foi um muito legal para Rádio. Dos diretores
que eu conheci, ele foi o que mais se bateu pela Rádio. Não
foi o que mais conseguiu, porque nós conseguimos mais com
o filho do Presidente, que conseguiu remontar todo o Sinfônico
e conseguiu uma mesa gigantesca esses negócios todos, porque
estávamos com um filho de um Senador que depois seria o Presidente
da República.
AO - Não foi bem assim, porque, na realidade,
foi uma coincidência: as verbas que haviam sido pedidas, anteriormente,
foram liberadas justamente quando ele estava na direção
da Rádio.
LG - Eu quis dizer que foi na época dele que
se fez, né? As outras direções, eu vou te dizer.
Luiz Brunini ficou meses aqui, quer dizer, não tive o mínimo
contato. Ficou aqui uns 6 meses - também aquele negócio
de 'bom dia' e 'boa tarde'. Acho que não chegou a influenciar
na programação, não me lembro. Depois tivemos
o Luiz Paulo Porto, que ficou 1 ano e meio. Esse já foi mais
ativo, mas não tive muito contato com ele porque eu não
tinha nada a ver com a programação, na época.
AO - Quem era o diretor artístico dele?
LG -Acho que já era a Gulnara Bocchino. Realmente,
não me lembro. Porque o Paulo Santos também foi diretor
artístico um tempo imenso e, aliás, muito bom diretor
artístico, porque o Paulo entendia muito de música
erudita. Depois de Luiz Paulo Porto tivemos a Thais de Almeida Dias,
que também ficou só 1 ano e poucos meses, mas foi
muito ativa, mexeu muito na programação. Ela era uma
educadora e dava uma ênfase maior ao ensino. O ensino era
uma coisa à parte, na Rádio, mas a gente não
pode esquecer dos educadores que aqui trabalharam e que lutaram
muito, também.
AO - E depois da Thais?
LG - Heitor Sales, de novo. Ele voltou e nós
implantamos a FM. João Henrique ficou com a AM, e eu fiquei
responsável pela FM. Então fizemos duas programações
estanques e começou-se a vida independente de cada uma emissora
- claro que, até hoje, passam programas da AM na FM, mas
é o mínimo. Então, depois dessa gestão
do Heitor Salles, que foi seguir a vida dele como político,
tivemos, então, o Eduardo Fajardo, que é um companheiro
nosso, mas que foi um negócio de dois meses. Depois a dona
Maria Angélica Borges, que ficou aqui também alguns
meses, e te juro que não me lembro nem do rosto dessa senhora,
que não me lembro de nada, deve ter sido muito inoperante
porque não me lembro.
AO - Mas depois o Heitor Salles volta outra vez
LG - Não, antes foi a Márcia de Souza
Queiroz, que era nossa companheira, produtora da Rádio e
que ficou muito pouco tempo, também, acho que 1 ano. E foi
um tempo muito bom, porque, como colega e como amiga, a gente tinha
muita liberdade de trabalho e foi uma época muito boa de
se trabalhar - porque não havia conflito. Aí, depois,
voltou de novo o Heitor Salles, ficou mais 1 ano e pouco, e foi
substituído pelo Paulo Henrique Cardoso, que quis popularizar
a Rádio, que não gostava muito da música erudita,
mas que não teve muito o que fazer na FM - ele mexeu mais
na AM. Na época, ele queria popularizar, botar funck, botar
coisas de rádio comercial. Houve um certo mal estar, mas
ele não era inacessível - era uma pessoa que gostava
de produzir e de bater papo com a gente por aí.
AO- Essa rodízio de diretores já
demonstra o descaso manifesto para com a Rádio, e a gente
vai notando o desaparecimento dessa figura chave que é o
diretor artístico.
LG - Por que aqui, politicamente, deixou de ser um
cargo muito desejável. Então, as pessoas que vinham
aqui, vinham pra tapar buracos: não vinham para trabalhar
pela Rádio.
AO - Depois do Heitor veio o Saens, não
é?
LG - Ele veio com um rádio mais liberal, mais
uma política do PT, que pela primeira vez entrou aqui na
Rádio com um novo pensamento, com uma nova diretriz, mas
que também não influenciou muito na FM, que era o
meu setor. Ele deu mais força para o jornalismo que alias
essa força tinha vindo até de antes mas ele enfatizou
mais o jornalismo. E depois, então, veio a Regina Salles,
que foi uma batalhadora e fez um trabalho magnífico. Por
ela ter vindo da produção da Rádio, como educadora,
ela revolucionou - porque ela discutia a Rádio com a gente,
fazia reuniões, as portas estavam abertas, todas as sugestões
eram estudadas, todos os projetos eram discutidos. Essa tentativa
de recuperação da memória da Rádio,
que há anos eu me batia por isso. Porque todo esse projeto
nasceu da minha descoberta dos irmãos Gnattali tocando Nazareth.
Mas não havia verba, e, depois, com esse negócio de
TV junto é que a Rádio foi preterida mesmo - sempre
essas muito curtas, muito estanques, que não podiam trabalhar.
Então, a Regina Salles foi a primeira, sabe, que movimentou.
E não vamos esquecer que ela foi eleita pelos funcionários.
Foi uma época muito boa para a emissora, e conseguimos -
junto com a SOARMEC, com a criação da SOARMEC - criar
toda esse arquivo sonoro com a série Repertório Rádio
MEC que, infelizmente, agora está parada. Desde que acabou
a estrutura da Rádio MEC oficial, e passamos a ser ACERP
- que é uma Associação -, não conseguimos
um apoio substancial do Governo, para realizações.
AO - Lauro eu gostaria que você falasse um
pouco da mecânica de produção da Rádio,
como você deve ter conhecido, porque eu também conheci.
Houve uma época em que a gente tinha o produtor do programa;
tinha um assistente de produção; tinha, se precisasse,
um sonoplasta; e tinha também um repórter e até
um cast de rádio-teatro, inteiro. Fala um pouco de como você
conheceu isso, no seu tempo.
LG - Pois é, a gente tinha uma infra-estrutura
para realizar isso tudo. Mas. como ficou frisado, a partir da derrocada
total da nossa Orquestra, dos nossos corpos estáveis - e
aí foi junto a nossa Orquestra de Câmara, o Trio, o
Quarteto de Cordas, e o rádio-teatro, também. Agora,
a ACERP funciona com muita deficiência, porque não
tem dinheiro. Então, por exemplo, eu trabalho sozinho: todos
os meus programas eu realizo sozinho, com os técnicos da
Rádio, claro, não é? Mas não tenho assistente
de direção, não tenho uma equipe que trabalhe
junto comigo. Tem o nosso gerente de produção, o Paulinho
Neto, tem o nosso chefe, que é produtor também, o
Sérvio Túlio, que trabalha e comanda essa parte, mas
infra-estrutura a gente não tem - cada um produz o seu, porque
infelizmente, a gente está muito sem material humano e também
sem material técnico. As nossas maquinas enguiçam
não tem mão-de-obra pra retorno, pra reforma dessas
maquinas, computadores suficientes. A maioria dos produtores, como
eu, tem computador em casa e já traz tudo pronto de casa.
Porque se a gente fosse contar com o que tem aqui, ia ser uma briga.
dentro.
AO - Há alguma coisa que eu não perguntei
e você gostaria de falar para concluir?
LG - Eu tenho uma grande esperança - falo em
futuro, porque meu tempo aqui está terminando. Eu já
estou aposentado, voltei, fui contratado pela ACERP, para continuar
essa batalha, estamos batalhando até hoje, e o meu grande
sonho é que a ACERP consiga transformar essa rádio
numa coisa viável para voltar a ser a emissora oficial do
País. Eu gostaria que voltasse a Orquestra, que nós
tivéssemos um novo Trio da Rádio Mec, um novo Quarteto,
um novo Coral, uma nova Orquestra de Câmara, um novo Quinteto,
um novo conjunto de música antiga, um regional da Rádio
MEC, pra tocar o regional brasileiro autêntico, e todos os
solistas virem aqui tocar, gravar aqui - artistas brasileiros, compositores
brasileiros - que era o que era feito antigamente, que se voltasse
àquele tempo antigo.
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