Hamilton Reis

Depoimento de Hamilton Reis com participação de
Décio Luiz
Décio Luiz, ao chegar com o entrevistado, foi logo dizendo
que "O Hamilton é uma unanimidade, todos gostam dele
aqui!". Hamilton Reis, que começou como mensageiro,
tornou-se o fac-totum da Rádio MEC, o homem dos sete instrumentos,
que, sem nunca ter ocupado um cargo de chefia e, claro, sem nunca
ter sido remunerado à altura de seus méritos, fez
tudo o que pode pela Emissora. Faltava locutor, ele ia e locutava;
faltava técnico, ele ia e operava; faltava eletricista, ele
ia e consertava.
AO - Quando você veio para a Rádio?
HR -Em 1938, com uns 6 anos de idade, vim morar na Praça
da República, no prédio da Faculdade de Direito, de
onde meu pai era administrador. Eu conheci o edifício daqui
da Rádio no esqueleto. Era uma obra parada. Diziam que ia
ser o futuro necrotério. Era uma brincadeira minha pular
o muro, e vir brincar aqui dentro.
AO - Quando o prédio ficou pronto?
HR - Em 1942. Eu vi o Getúlio Vargas chegar aqui, de uma
janela do Salão Nobre da Faculdade, porque era difícil
chegar perto de onde "o homem" ia passar. A Rádio
Ministério foi inaugurada aqui neste edifício, a partir
dali. Ela veio da Rua da Carioca, nº 43.
Naquela ocasião, a minha mãe, para ajudar no orçamento,
fornecia uma pensãozinha. Aí, eu vinha trazer os pratos
de comida aqui, onde havia freguês, e, assim, fui me enturmando.
Em 48, o Dr. Tude de Souza me chamou: "Não quer trabalhar
aqui, não?" Falei com meu pai, e fui admitido como diarista,
em março de 48. A Rádio MEC (que, naquela época,
era Rádio Ministério da Educação e Saúde)
ocupava o 3º e 4º andares, o 6º andar não
existia - era a casa de máquinas do elevador - e o 5º
andar era no nível do Estúdio Sinfônico. Tinha
só uma passagem. Depois ali foi instalado o primeiro transmissor
de FM da Rádio MEC, para mandar o sinal para o transmissor.
AO - Embaixo ficava o INCE, não é?
HR - Exato, o Instituto Nacional do Cinema Educativo, criado pelo
Professor Roquette-Pinto, criador da Rádio. Eu convivi com
o Roquette-Pinto. Todo dia, ele vinha almoçar aqui. No período
que eu vim para cá, foi comemorado o Jubileu de Prata do
Rádio no Brasil, já que a Rádio Sociedade foi
fundada em 1923. Foi uma festa bonita, coquetel
e isso marcou
muito a minha entrada como funcionário. E também foi
inaugurado o Estúdio Sinfônico com um concerto da Orquestra
Sinfônica Brasileira.
AO- Você começou fazendo o quê?
HR - Fui admitido como diarista mensageiro, fazia entregas do noticiário
nos jornais. Aliás, a minha primeira tarefa foi entregar
os convites para essa festa! Depois, veio muita luta para arranjar
uma efetivação, mas aí eu fui galgando aos
poucos.
AO - Fale do Fernando Tude de Souza.
HR - Ah, o Dr. Tude era uma pessoa compreensiva. Era um homem que,
quando ia para o exterior - e ele ia sempre - trazia para cada funcionário
um perfumezinho como agrado. Isso não é coisa que
se veja por aí.
AO - O que ele fez, em termos de programação,
de equipamentos?
HR - Não era fácil aqui a questão da inveja
Naquela ocasião, já não era muito fácil,
mas ele fez. Fizemos com ele este Estúdio Sinfônico,
o transmissor de ondas médias, parece que incluiu mais o
de ondas curtas. Mas foi ele quem deu seguimento à idéia
do Roquette-Pinto. Ajudado pelo René Cavé, que também
tinha o mesmo espírito, porque o Cavé foi funcionário
da Rádio Sociedade. A estrutura da Rádio era: o Diretor,
a transmissão (que era da competência da SPI, Seção
de Preparo da Irradiação), e SA, Seção
Administrativa,chefiada pelo "seu" Mesquita.
AO - Quem estava no Departamento Técnico então?
HR - João Labre Jr.! Um dos fundadores da Rádio Sociedade.
Ele tinha muita vivência com aquilo ali, era engenheiro do
ramo. Foi também uma boa, uma grande figura.
AO - E o diretor Carlos Rizzini?
HR - Ele dinamizou. Nós tivemos aqui - com muito sucesso
- um curso para Redatores e Locutores, e nisso também se
destacou a Professora Neuza Feital. Ela criou o curso para Redatores,
ministrado por professores. Rizzini também criou o "Pensando
no Brasil". Nessa série, ele reuniu o Almirante Álvaro
Alberto, do Conselho Nacional de Pesquisa; o Austregésilo
de Athayde, que era da Academia Brasileira de Letras; o Basílio
Machado Mello, da Confederação das Indústrias.
Eles faziam crônicas naquele espírito de enaltecer
o país. E há que se ressaltar o "Rádio-Jornal",
que passou a ocupar um espaço grande. Foi quando vieram o
Paulo Corrêa; o Mário Augusto, que dirigia; o Mário
Jorge, redator...
Em 1954, retornou o Tude de Souza. Devo ressaltar o papel do Dr.
Tude aqui. A Rádio, quando eu cheguei, funcionava das 12
às 14 horas, e depois das 17 às 23. Destacava-se aí
o noticiário "Londres Informa", durante a Guerra,
diretamente da BBC, isso marcava muito... Com o Tude, a Rádio
passou a entrar às 9. Ele pôs aqui um Jornal Falado,
que era dirigido pelo Víctor do Espírito Santo Cardoso.
Aí, a Rádio passou a entrar no ar às 9, e ia
até às 14. A programação contava, também
com a colaboração da a Lucília de Figueiredo
com o "Faça do seu lar um Paraíso", figura
igualmente de grande importância na Rádio MEC.
Eu estou em 48, ainda na administração Tude de Souza.
Aí, tivemos o "Ao redor do mundo". Nós tínhamos
o Alfredo Souto de Almeida, o José Acrísio, o Luiz
Augusto. Produtores, nós tínhamos Fernando Segismundo,
Álvaro Salgado, a esposa dele, que trabalhava na Biblioteca,
Dona Dilke Salgado, tinha a pianista laureada Marina Moura Peixoto,
que foi chefe da Seção de Programação
(denominada Seção de Preparo de Irradiação),
tinha a Geny Marcondes, que também marcou época, principalmente
com o programa infanto-juvenil "Reino da Alegria". Além
disso, tínhamos o grupo "Música Viva", com
o Professor H.J. Koellreutter, todo sábado. O grupo "Música
Viva" era o Koellreutter, Guerra-Peixe, Edino Krieger, Radamés
Gnatalli e Cláudio Santoro. Vamos destacar aqui, também,
o "Colégio do Ar". Foi aí que a Rádio
passou a entrar às 7 da manhã, com aulas de Português.
Nesse período, o famoso professor Oswaldo Diniz Magalhães
foi requisitado e veio dar aulas de ginástica. A Rádio
passou a entrar no ar às 6h da manhã. Seguiu o "Colégio
do Ar", seguiu o "Jornal Falado". Ai, veio o Dr.
Rizzini, mas foi um período pequeno. Na fase de 1948, já
tinha Fernanda Montenegro, tinha o José Vasconcellos, o Mário
Garcez.
DL - Quem era o Diretor do Radioteatro?
HR - O Edmundo Lys. Tudo começou com o "Radioteatro
da Mocidade", em 45. No elenco, Fred Lino, Luiz Gabriel de
Barros Valle, a Vera Nunes, entre outros. Aí, veio o Gentil
Puget. Ele era paraense, um musicólogo, pianista, compositor,
compreendeu? Tinha o maestro Valdemar Henrique, também paraense,
que, nos programas, mostrava suas composições acompanhando
ao piano a sua irmã Mara, cantora... A Orquestra Sinfônica
se apresentava sempre aqui, com o Eleazar de Carvalho. Todo domingo,
às 10 horas da manhã, havia o "Concerto Para
a Juventude", que fez carreira no Theatro Municipal e no Cinema
Rex. A locução era do Paulo Santos e, durante algum
tempo, do Paulo Alberto, o hoje Arthur da Távola. Sem falar
na Temporada Lírica do Theatro Municipal, onde a sala muito
grande só tinha um locutor. Então, o locutor no estúdio
fazia a ópera como se fosse ao vivo.
AO - Você conheceu o Paschoal Longo?
HR - Paschoal Longo, baiano, sujeito de alta qualidade. Escrevia
adaptações, e Radioteatro: "Este mundo maravilhoso".
Tinha uma série de programas: o "Mundo maravilhoso",
"Novos Horizontes" tratava de coisas científicas.
Tinha o Otto Maria Carpeaux, também, que escrevia para cá...
Paschoal Longo trabalhou aqui acho que até 1954, depois foi
dirigir o escritório do IBC, na Alemanha.
AO - E o professor José Oiticica?
HR - Professor Oiticica foi produtor durante a gestão do
Rizzini. Ele vinha aqui apresentar as aulas ao vivo, porque antigamente
não se gravava nada.
AO - Bom, aí o Tude voltou.
HR - Voltou em 54. Ele continuou a programação e
modernizou a Rádio em equipamentos. Comprou um órgão
Hammond, que serviu para vários recitais do Professor Antônio
Silva. A Lucília de Figueiredo, que fazia o programa feminino
"Faça de Seu Lar um Paraíso", faleceu e,
então, ele chamou a Edna Savaget. No ano seguinte a Alda
Menezes, que fazia o "Aqui entre Nós", casou, deixou
a Rádio e a Edna ficou com o programa, transmitido no mesmo
horário, de 13h às 14h. Ela deu uma roupagem nova
ao programa, mas sempre dirigido ao público feminino. Nessa
época, vamos ressaltar aqui, o Tude de Souza deu muita importância
à programação estudantil. Então, nós
tínhamos um programa aqui da Associação de
Imprensa Estudantil. Ricardo Raoli era o responsável, tudo
feito por universitário. Também foi nessa época
que veio o Paulo Alberto, o hoje senador Arthur da Távola.
Realmente aí foi que começou a fase de estudantes
dentro da Rádio. Havia uma parceria com o professor Libânio
Guedes, que era do Colégio Pedro II. Ele dirigia um programa
chamado "A Juventude Cria". Isso foi em 48, 49. Ali, tinha
Allan Lima, galã do cinema nacional, ator de teatro, até
hoje em atividade. Não tem melhor diretor de dublagem, tradutor...
esse realmente é bom! Os estudantes do Pedro II escreviam
e apresentavam o programa, e tinha ali a Theresinha Amayo, Ivan
Meira, Inácio Singer, Arion Romita, Felix Cohen, Orlando
Prado, e outros. Tudo feito por eles. Vamos lembrar, também,
o "No Reino da Alegria", a inesquecível criação
da Professora Geny Marcondes! Esse programa tinha uma audiência
incrível. Vinha gente aqui cantar, se apresentar, Festinha
de São João, estas coisas todas. No prédio
do Ministério da Educação fazia-se teatro de
bonecos, de marionetes. As vozes eram de Jaime Barcellos, o "Rei
Pimpão", Nanci do Nascimento, a "Rainha Finoca",
Vitória Régia, Álvaro Costa, etc... O Radioteatro
foi uma fase importante na Rádio MEC!
AO - "No Reino da Alegria" era um programa de radioteatro?
HR - Era Radioteatro, mas eram estórias. Levava o "Sítio
do Pica-Pau Amarelo", aquelas estórias todas. Brilhava
a Sílvia Regina, mas isso aí é uma fase. "A
Juventude Cria", "No Reino da Alegria", "Concertos
para a Juventude", programas que marcaram a Rádio MEC!
Tivemos aqui Sadi Cabral dirigindo o Radioteatro. Sadi Cabral foi
em 1950, tinha que inventar, às vezes. Não podemos
esquecer também a figura do Jefferson Duarte, que era operador,
locutor, contra-regra, rádio-ator... o que se pedisse, ele
ia lá e fazia com brilho! Quebrou muitos galhos. Waldir Finotti,
também. Mário Jorge, também dirigiu o Radioteatro,
foi um grande radioator!
Ele veio do "Radioteatro da Mocidade". Não podemos
também esquecer a figura de Sheila Ivert, ela teve uma presença
marcante, uma voz fininha muito característica, ela apresentava
de tudo.
AO - E o Celso Brant?
HR - Celso Brant vem em 55, com o Juscelino. A administração
dele, vamos dizer assim, é mais musical. Tinha "Saraus
e Serenatas", o conjunto "Os Últimos Boêmios",
do Tête de Araújo, falecido há pouco tempo.
Era um conjunto muito bom, onde tocava o Altamiro Carrilho. Sem
contar também a música lírica, a música
de câmara! Cantoras que vinham aqui ao vivo! Ele investiu
também em todo um quarteto de cordas: cello, duas violas
e um violino.
AO - Mais sobre o Celso Brant?
HR - Ele teve uma bela passagem pela Rádio. A irmã,
a Vera Brant, e o irmão, o Hélio Brant, tinham uma
grande presença aqui dentro. O Dr .Celso vinha sempre à
noite, porque ele acumulava como Chefe de Gabinete do Ministro Clóvis
Salgado. E, como bom mineiro, tinha aquele pessoal que estava sempre
com ele. Era uma bela pessoa. Atencioso. Nunca foi de criar problema.
AO - Depois veio o Mozart de Araújo?
HR - Diga-se de passagem, se temos uma discoteca hoje, algum registro
de música brasileira, vamos dar graças a Deus e a
Mozart de Araújo! Ele fazia questão de autorizar as
gravações. Então ele levava a lista: "Tem
música brasileira?" "Não senhor." "Não
grava!" "Tem música brasileira? Grava!" Alceo
Bocchino já estava na Rádio nesse período,
veio em 53. Ele entrou efetivamente, tinha contrato com a Rádio.
Sempre foi um maestro, pianista acompanhador dos bons, preferido
pela maioria das cantoras. E fazia parte de conjunto de câmara.
Fez um trio com o Iberê Gomes Grosso e o Anselmo Slatopolsky.
AO - A OSN vem com Mozart de Araújo?
HR - Exato. E esse sexto andar, que nós temos aqui, ele
mandou construir para a sala de ensaios da Orquestra. Chegaram a
fazer uma minitécnica, lá. E tinha o Quarteto da Rádio
MEC, que foi a primeira formação: Santino Parpinelli,
Marcelo Pompeu Filho, Damela e Ranewsky.
AO - Quem trabalhava aqui na época do Celso Brant?
HR - Vamos ver: Dr. Miécio de Araújo Honkis. Ele
era médico, muito estudioso, e fez o programa "No Tribunal
da História". Aí passou a fazer o "Novos
Horizontes", também quando o Paschoal saiu. Ele era
ligado ao Observatório, então ele promoveu, dentro
do programa, visitas ao Observatório Nacional. Faziam fila
aqui, na porta da Rádio MEC, para poder ir lá. Alugavam
dois ou três ônibus.
AO - E o Murilo Miranda?
HR - Ele realmente tinha uma visão vasta, queria popularizar.
Levou a Orquestra Sinfônica Nacional para as favelas, para
a rua, queria chegar ao povo! E ele pegou aquela comemoração
toda do Jubileu da Rádio MEC, promoveu recitais importantes.
Criou o "Quadrante", que eram crônicas diárias
escritas por Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Cecília Meireles,
Carlos Drummond de Andrade. Era um para cada dia da semana.
AO - Quando o Drummond veio para cá, como funcionário?
HR - Foi com o 'Quadrante', em 61. Mas, antes, ele teve uma participação,
com a Lia Cavalcante, em 1953. Eles fizeram um programa. Depois
parece que o programa não prosseguiu, era "Temas e Variações"
ou "Temas com Variações". Ele fez acho que
um ou dois programas, e a Lia Cavalcante fazia também "Dois
Dedos de Prosa" - uma crônica diária.
AO - E o Maurício Quadrio?
HR - Ele chegou aqui antes de 50, era do Instituto Italiano de
Cultura. Conheci bem o Maurício, aquele italiano, falando
ligeiro, foi um grande amigo, de muita vivência, enxergava
longe. Ele entrou no mundo fonográfico também. Ele
fez um grande trabalho, ainda está até hoje na atividade,
produtor musical. Vamos fazer aqui também uma referência
a Zito Baptista Filho, que está aqui até hoje. O Zito
é oriundo dos concertos do Teatro Rex, todo domingo ele estava
lá! Também, é a tal coisa: é aquele
amor pela Rádio MEC. Então, ele veio, passou a produzir
o Ópera Completa, em 1950. Vamos ressaltar também
os concursos que nós tivemos aqui, onde se exibiram bons
intérpretes. Isso foi com o Tude, também.
AO - E os locutores dessa época?
HR - Locutores, nós tínhamos aqui: Fernando Menezes,
Luiz Augusto, Nelio Morales, Alfredo Souto de Almeida, José
Acrísio, Altanir Ferreira, José Vasconcellos, Décio
Luiz, Carlos Noronha, João Assaf, Mário Augusto Rocha,
Marco Aurélio de Mendonça, Paulo Santos...
DL - Paulo Santos se notabilizou, também, pela gravação
de "Pedro e o Lobo".
HR - E porque fez várias vezes no Municipal, ao vivo. Sabia
conduzir. Temporada lírica fazia muito bem. Tínhamos
sempre um concerto no Municipal, todo sábado à tarde,
às 4h, transmissão direta! Aí, veio o pessoal
da Nacional, em 57. Veio o William Mendonça, veio o Luiz
Miranda, Alfredo Canthé. Veio, também, a Maravilha
Rodrigues. E outros tantos que tinham aqui! Clarival do Prado Valadares,
era crítico literário. Também tivemos Vasco
Mariz, cantor, cantava aqui, grande musicólogo, diplomata
lá do Itamaraty, teve presença muito importante.
AO - E depois do Murilo Miranda?
HR - Poucos sabem que, na passagem de Mozart de Araújo para
Murilo Miranda, o cargo foi oferecido ao Dr. Tude de Souza - o que
foi motivo de um bilhetinho do Jânio Quadros, dizendo que
fosse reconduzido o Dr. Tude na direção. Aliás,
não era bem na Rádio, era no Serviço de Radiodifusão
Educativa, o SRE. Ele chegou a vir aqui, mas já tinha outros
afazeres, então não aceitou o convite. Aí,
foi indicado o Murilo Miranda. Depois, naquelas peripécias
todas, veio a Professora Yedda Linhares. Uma presença muito
marcante, aqui. Mas eu só estive sob a orientação
dela uns seis meses. Passei 6 meses de licença-prêmio,
e só voltei na época do Eremildo Viana.
AO - O que falam do Eremildo é verdade?
HR - Foi uma situação diferente, realmente ele criou
um estado de autoridade: "Eu determino!"
AO - Dizem que ele adquiriu instrumentos para a OSN.
HR - Instrumentos, sem dúvida, ele deu. Nesse período
aí, a Rádio MEC tinha um programa, o "Concertos
para a Juventude", que passou a ser apresentado pela Rede Globo.
Ele teve uma participação, um carinho muito grande
com aquilo ali, e por alguns anos a TV Globo transmitiu o programa,
diretamente do seu estúdio.
AO - Alma Cunha de Miranda?
HR - Ah! Uma pessoa muito doce. Ela vinha da JB. Ela criou o Museu
da Rádio MEC. E era uma cantora, ela fez vários recitais
aqui na Rádio, inclusive. Não sei se vingou o Museu
da Rádio MEC. Nós tínhamos também uma
Biblioteca. Não sei porquê acabaram com a Biblioteca.
Muita coisa se perdeu aqui. Há aquele Mário Del Mônaco:
"O Escravo", com o Mário Del Mônaco, que
foi gravado pela Rádio MEC, e também se perdeu.
AO - E em termos de equipamentos? Tinha alguma carência?
HR - Não, não! Não vamos nem falar em fita
ainda, vamos falar no acetato. Primeiro tinha a 'base de vidro',
que era um perigo! Depois, veio o 'base de alumínio'. Nós
tivemos aqui um torno para a gravação de acetato -
matrizes - de alta qualidade. Inclusive a Colúmbia gravou
muito aqui, Vários filmes tiveram a trilha sonora gravada
aqui neste estúdio.
AO - E o Manoel Cardoso?
HR - Esse foi um "padroeiro". É uma figura dentro
do Rádio. Veio também da Nacional, e realizou muitos
trabalhos aqui. Ele era técnico da MUSIDISC, inclusive. Mas,
aí, também, vamos destacar o Hamilton Córdoba.
Esse também foi Diretor Técnico, aqui, foi quem também
modernizou um pouco. Tivemos aqui uma "Semana da Música",
em que fizemos uma programação toda ao vivo a partir
da "Voz do Brasil". Mas tivemos também a Orquestra
de Sopro, tivemos a Orquestra de Cordas, também, e a presença
muito grande do Edino Krieger, aqui, dirigindo este setor. O Edino
foi "cria" da casa. Marlos Nobre foi daqui também,
veio com o Mozart de Araújo. Ele criou um Concurso de Música
de Câmara, e foi vencedor com um quarteto que fez.
AO - Quando surgiu o primeiro gravador, aqui?
HR - Em 1949. Foi um gravador de fio, para D. Helsa Cameu, que
fazia programa de folclore, essas coisas... Foi a primeira vez que
vi um gravador. Depois, teve o famoso Revere, em 1950. Tinha boa
qualidade. Já era de fita magnética, de três
quartos. Depois teve o Aiko, de fita; e o Webster, também
de fita. Mas já existia Ampex, o modelo 600. Nós nos
valíamos também de um gravador que o Cardoso tinha,
um gravador guardado, dele.
Agora, o primeiro Ampex que chegou foi com o Mozart de Araújo.
Ampex 300, aquele foi bom! Daí, então, já foi
mais fácil comprar, tinha aquele Ampex 600, depois outro,
o 351. Mas gravador em disco nós já tivemos desde
48!
AO - E Avelino Henrique?
HR - Realmente, na administração dele, em termos
de equipamentos, foi quando a Rádio MEC "se fez".
Foi a época do Minerva. Poucas pessoas da Rádio MEC
foram aproveitadas no Projeto Minerva - e tínhamos bons elementos,
inclusive na parte técnica. Fizeram dentro da Rádio
Ministério uma outra rádio, quer dizer, a Rádio
cedeu só as instalações. Tudo era concentrado
para o Projeto Minerva, eles tinham prioridade em tudo - o Mobral
também, que ficou aqui depois. Aí é que veio
aquele negócio: "Mas isso não presta! Isso é
coisa velha!" E muita coisa aí se foi. Tinha um acervo
de 78 rotações
Eu vi, uma ocasião, um
sujeito mandar dispor de um material que eram gravações
únicas, ao vivo! "Ah, isso é velharia, não
se usa mais! Não tem valor" - "Não, rapaz,
isso tem! Isso aqui é uma audição pública
e ninguém vai repetir isso, se teve erro, se não teve
erro, ninguém vai repetir!" Mandaram doar, não
sei se conservaram alguma coisa.
AO - Consta que o Avelino desativou o Museu e mandou o material
para a Penha, que virou um depósito, depois que o transmissor
foi para Itaóca. Por que o transmissor saiu de lá?
DL - Quando dos preparativos para a inauguração do
Aeroporto do Galeão, mandaram todos os transmissores para
o "lado de lá" da Baía da Guanabara, ficando
o "lado de cá" só para a recepção.
HR - Exato, isso deve ter sido em 1979.
AO - Alguma coisa a mais sobre o Avelino?
HR - Ele era amigo de todos, acho que ninguém tem a dizer
nada dele. Pode discordar da orientação dele, porque,
para uns, a Rádio MEC deveria ser sempre aquele "santuário".
Mas ele realmente teve sua presença. No tempo dele, a Discoteca
passou para o 3º andar, e o 4º andar foi reformado. No
Estúdio Sinfônico, ele botou aquele vidro grande, comprou
uma mesa Langeli de doze canais, coisa boa na ocasião, importada.
AO - Armando Tróia, o que ele fez?
HR - Ah, o Brigadeiro Tróia! Ele deu continuação,
deu aquela ênfase toda ao Projeto Minerva, ao Projeto do Mobral.
Não foi mal. Tive pouca convivência com ele, já
não era aquele "come e dorme" dentro da Rádio
MEC, porque antes eu morava aqui dentro, praticamente. Tinha a chave
da Rádio - tanto fazia chegar às 7 da manhã,
como sair às 2 da manhã. Todo mundo ia embora, eu
ainda ficava. Sábado e domingo eu estava aqui dentro - tinha
sempre alguma coisa por fazer. Uma ocasião, foi o André
Segovia. Veio aqui num domingo à noite e ficamos lá,
meia dúzia de convidados, ele tocou e ainda recebeu o cachêzinho
dele aqui.
AO - José Cândido de Carvalho?
HR - Eu já não tive contato com ele. Tive com o Heitor
Sales, que o sucedeu. No período dele, tivemos a vinda do
Sérgio Chapellin, do Cid Moreira. Eles vieram por causa do
Projeto Minerva e acabaram como funcionários. Paulo Tapajós,
Floriano Faissal e as filhas dele. O Heitor foi o último
diretor que eu tive.
AO - E o Ghiaroni?
HR - Ghiaroni veio em 57. Vale lembrar que tivemos também
a inclusão do Haroldo Costa, em 54. Ele e Aloysio de Alencar
Pinto faziam o programa "Estampas Brasileiras". A música
brasileira popular, não é? Trouxeram até escola
de samba aqui no nosso Estúdio. Fizemos o programa "Ao
Redor do Mundo", o mais antigo da Rádio MEC! Vinha o
Grupo Folclórico da Casa do Porto, se apresentar aqui. São
fases, são eventos que não podemos esquecer.
AO - O que você ainda gostaria de acrescentar ao que falou?
HR - Bom, eu vivi tão intensamente a Rádio MEC
Eu vim para cá em 48; e em 55, veio a Delci, trabalhar na
Administração. Cinco anos depois nós estávamos
casados, como estamos até hoje. Até diziam: "Ah,
o Hamilton não vai casar, porque ele não sai da Rádio
MEC!" Saí daqui em março de 82, com 34 anos de
casa. Por trabalhar na Rádio MEC, me chamaram para a Globo,
passei sete anos lá. Depois, fui para a Voz da América,
e lá me aposentei. A Rádio MEC realmente marcou a
minha vida! Se eu sou alguma coisa, agradeço à Rádio
MEC! Se tivesse que começar, começaria pela Rádio
MEC outra vez!
|