Eduardo Fajardo

Renato Rocha: Fale de como e quando você se tornou radialista.
Eduardo Fajardo: Na verdade eu acho que eu já nasci radialista.
Eu tenho foto, pequeno, no Corcovado - lembra quando lançaram
o radinho de pilha, o Spika? E eu já tinha um radinho daquele,
sempre fui curtidor de rádio, grande ouvinte da Rádio
Jornal do Brasil. Em 1960 eu fui embora para Brasília, minha
mãe é funcionária pública, e terminei
meus estudos lá. Em 67 eu entrei para o rádio, para
a Rádio Nacional de Brasília, trabalhei nos Diários
Associados. E quando veio a Radiobrás, em 76, eu fui um dos
poucos aproveitados, e fiquei como coordenador de rádio em
Brasília. E ali veio a idéia da gente criar a FM Nacional.
Eu, com o Pedro Paulo Vandek Leone Ramos, o presidente da Radiobrás,
o Paulo Gomide, diretor de programação, e o general
Peri Bevilarde, falecido. Imaginamos a Rádio Nacional FM,
que foi um grande sucesso, Brasília e Rio de Janeiro. Lançamos
a Rádio Nacional da Amazônia, nós viramos duas
antenas, com dois transmissores de 250 quilowatts, para invadir
a Amazônia. E essa Rádio passou a ter uma média
de 40.000 cartas por mês, o maior sucesso. Coordenava também
a Rádio Nacional Internacional, que transmitia em Ondas Curtas
em 5 idiomas, para o mundo todo: inglês, italiano, francês,
espanhol e português. Então, depois de muitos anos,
em 1985, cansei de Brasília, e em janeiro de 86 voltei para
o Rio.
RR: Você é da época em que não existia
Escola de Comunicação, como você começou
nesse ofício radiofônico?
EF: Não, eu fiz faculdade. Mas antes eu já estava
no rádio. Foi um negócio muito interessante, um dia
um cara chegou para mim e disse: "Você tem uma voz boa,
rapaz, por que você não vai pro microfone? Vai procurar
o Maciel." Maciel era um sargento - aquelas coisas da ditadura
- dirigindo a Rádio Nacional. E eu cheguei lá, para
conversar com ele, e ele disse: "Olha, você realmente
tem uma voz boa. Bota esse rapaz para falar...", e eu fui fazer
propaganda no rádio. Então eu tinha toda uma noção
do que era fazer o rádio, e comecei a aplicar, na base da
inventiva, mesmo. Tanto que depois de algum tempo eu consegui começar
a fazer os primeiros convênios para estágios, dos estudantes
de Comunicação, notadamente da UNB (Universidade Nacional
de Brasília), dentro do rádio.
RR: E em 85?
EF: Aí eu vim para o Rio, em janeiro de 86 vim dirigir a
Rádio Nacional. E retomei a carreira aqui, e depois, por
problemas políticos, eu saí da Rádio Nacional,
fiquei na Rádio Capital, no Sistema Capital. Quando eu cheguei
aqui, existia a Rádio Nacional, a Ipanema e a Rádio
Nacional FM. Mas a Rádio Nacional era o seguinte: uma Emissora
que vivia basicamente do passado, eles não procuraram se
modernizar. Aliado ao mau pagamento, à verba pequena, os
grandes que poderiam fazer alguma coisa foram embora, para outras
emissoras, e notadamente para a televisão. Eu fiquei na Rádio
Nacional de 86 a 1988. Houve um problema político, e eu saí
da direção, fiquei como produtor. Aí eu fui
chamado para a TVE. O Frota Neto, em 1988, assumiu a presidência
da Radiobrás, me ligou de Brasília e disse: "Eu
quero falar com você." Veio ao Rio e me convidou, e eu
fui dirigir a TV. Ficamos lá na TV uma temporada e - eu gosto
mais de rádio, na realidade - eu vim para a Rádio,
com a promessa do Frota de que daria equipamento novo, transmissor
e tudo mais. E muita gente achava que eu era um sujeito antipático,
porque eu fiz diferente de todo diretor que chega aqui, faz uma
reunião lá no auditório e diz: "Bem, nós
agora vamos fazer isso, vamos fazer aquilo...", e eu não
falei nada, eu escaldado. Fiquei aqui três meses, eu acho,
e quando eu vi que não ia sair pedi demissão
RR: Como é que você encontrou a Rádio MEC?
EF: Em 1988 eu encontrei a Rádio MEC precisando de equipamento,
ruim de transmissor, de estúdios, de tudo o mais, que era
exatamente o que eu vim fazer aqui com a promessa do Frota Neto,
a Rádio MEC era cheia de gente naquele tempo, hoje ela está
vazia. Eu acho que a Rádio MEC tem um grande problema, o
"calo" da Rádio MEC atende pelo nome de TVE. É
só a constatação de um simples fato, televisão
é um negócio muito caro, todo o dinheiro que chega
é absorvido lá. Ao passo de que se a Rádio
MEC fosse desvinculada da Televisão, teria o seu orçamento
próprio e certamente estaria melhor das pernas. Na minha
opinião a Televisão discrimina a Rádio MEC
completamente, não divulga nada da gente, ninguém
sabe das vitórias que nós temos conquistado aqui na
Rádio MEC, a custa de muito esforço pessoal, porque
se você for pensar em salário, é triste. Então
eu acho que a Rádio MEC sofre mais sendo irmã da TVE,
do que se ela fosse filha única.
RR: E então aí, como é que foi?
EF: Voltei para a TVE tempos depois, porque no governo Collor,
quando o Leleco Barbosa assumiu a Televisão, me pediram.
E eu fiquei com ele de 90 a 91, depois não agüentei,
então eu saí, voltei a tocar o meu negócio,
depois desfiz o meu negócio, e fui chamado para ser diretor
da Radiobrás, no governo Itamar Franco. E fiquei lá
na Radiobrás, quando entrou o Fernando Henrique eu pedi desligamento
e voltei para a Rádio MEC. Bem, aconteceu uma coisa muito
gozada, eu cheguei aqui e estava o Paulo Henrique, o filho do "seu
presidente", eu até me dou muito bem com ele, mas ele
tinha um assessor que era um sujeito metido... Aí um dia
me chamaram e disseram assim: "Você faz um projeto rural?"
E eu falei: "Olha, eu posso tentar fazer um projeto."
"Então por favor, você faça esse projeto
e traga. Você acha que em três meses dá para
fazer?" Eu falei: "Olha, tá meio apertado mas eu
vou tentar fazer." (risos) E eu tinha na gaveta , mas ele pediu
três meses... três meses e eu fui lá e disse:
"Eu preciso que você me dê mais uns vinte dias,
aí." Você tem que valorizar o produto. (risos)
Aí o cara ficava me olhando, como quem diz: "Esse gordo
tá me enrolando! Esse cara não é de nada!"
Passados mais uns vinte dias, já estava quase com quatro
meses, eu fui para o estúdio e gravei um piloto irrepreensível,
daquele assim de arrebentar, e mandei para lá e fui embora.
Quatro dias depois ligam: "O Paulo quer falar com você."
Eu falei: "Você gostou?" E ele: "Maravilhoso".
"Deu trabalho, eu fiquei aí, você viu que foi..."
Aí esse tal cara levantou e disse assim: "Oh, Fajardo,
eu queria falar uma coisa com você, olha eu estava achando
que você não era de nada e estou aqui tirando o chapéu
e dizendo que você é um grande profissional."
Eu falei: "Muito obrigado, vindo de você isso me deixa
muito..." (risos). Aí eu fui fazer esse programa, eu
coloquei o que eu precisava. Eles me deram? Nada. Aí, peguei
a Nancy Palermo, uma criatura deliciosa, e fui fazer um programa,
o "Revista Rural", que não era nada daquilo que
eu tinha projetado, porque não deram repórter, nem
linha para você fazer um telefonema. Então nós
fazíamos o negócio na base da galhofa, mas o programa
começou a ter uma certa audiência, as pessoas ligavam
para rir de manhã cedo, levava bom humor para o pessoal.
RR: Mas qual era a tônica do programa? Música?
EF: Era música sertaneja e informações agrícolas.
Eu fazia algumas informações, ligava para a Embrapa
ou a Emater: "Qual é a grande plantação
para essa época?" Sempre no Estado do Rio. Aí
os caras conversavam comigo, e eu levava na brincadeira, dando um
toque de humor no programa, para sair daquela coisa chata, matinal.
Aí veio o "Manhã Viva", o que é o
"Manhã Viva"? O "Manhã Viva" na
realidade uma revista, é prestação de serviços.
Nós temos consultoria jurídica, tem um quadro chamado
"Divã", que acontece toda segunda-feira, que é
com uma psicanalista da Sobep, onde a gente conversa sobre tudo
o que está acontecendo na cabeça das pessoas hoje
em dia. Tem muito fax, muita carta, tem consultoria médica,
todo o tipo de consultoria e informações. A gente
começa com "O Dia de Hoje", quem foi a pessoa mais
importante que nasceu nesse dia, a gente sempre dá preferência
ao caso de um músico, de um escritor. Depois, nós
temos o nosso comentarista econômico, Rui Pizarro, que chega
dando o quadro da economia. Depois vem a "Pergunta do Dia",
essa é que dá trabalho para fazer, porque eu gosto
de fazer a pergunta sempre de um modo que faça o ouvinte
pensar, e eu tenho atingido esse objetivo, porque os ouvintes me
ligam para dizer: "Fajardo, gostei daquela". E entre tudo
isso - a preocupação do programa não é
musical - mas sempre que pode se colocar uma música, evidentemente
que vai uma excelente música brasileira. É importante
dizer que, no "O Dia de Hoje", quando é um grande
músico mundial, ou músico clássico, ou um grande
cantor, por exemplo o Frank Sinatra, a gente faz uma homenagem,
porque isso é cultura.
RR: O "Manhã Viva" era uma espécie de
escoadouro do trabalho do pessoal da Educação (Setor
de Produção Educativa da Rádio, extinto em
1999). O que ainda resta?
EF: Da Educação só ficou o Wagner Gomes, que
faz o condicionamento físico, terças e sextas, dando
dicas para os ouvintes. Ele se preocupa mais com a época,
por exemplo: agora, no verão, o sujeito exagera, e às
vezes acontece um fato, muitas vezes um ataque cardíaco.
Infelizmente a Educação acabou aqui, a gente vai suprindo
como pode. Mas nós tínhamos turismo, não temos
mais, era voltado para o Estado do Rio, mostrando que você,
no fim de semana - sexta-feira a gente fazia o turismo - pode sair
daqui para Miguel Pereira, o que é que tem em Miguel Pereira?
Miguel Pereira tem isso, aquilo, vamos conversar com o Secretário
de Turismo da Prefeitura. Infelizmente com a saída da Educação,
nós perdemos bons quadros no programa, hoje está restrito:
a Graça Azevedo é a produtora, junto comigo, o Kadu,
assistente de produção e roteirista, e a Tatiana Simões,
que é a estagiária, então somos nós
que fazemos. Temos o Paulo Fernando, que prossegue com o espaço
aberto aos portadores de deficiência, temos duas entradas
dele, uma na terça-feira e outra no sábado, e temos
ainda o Iata Anderson, diariamente, com o esporte, e é só,
o resto é a gente ali. Não falo com o ouvinte, a assistência
de produção anota o que o ouvinte quer dizer e eu
leio, para dar mais ritmo ao programa. Que como eu disse, não
tem a preocupação musical, embora a gente toque -
sábado ele é mais musical, sábado é
diferente, a gente tem o pastor Jonas Resende, que faz um quadro
chamado "As Boas Notícias da Semana" e depois lê
uma crônica, e o resto é música. Ah, temos também
a rapaziada da Faculdade de Comunicação da Universidade
Federal Fluminense, que faz um quadro chamado "Universidade
no Ar", esse é o "Manhã Viva". Agora,
faço outro programa, que é o "Discomania",
um programa voltado aos grandes músicos, cantores, compositores,
os consagrados da música brasileira de um modo geral. Às
vezes eu sou mal interpretado, porque liga um grupo: "Ah, a
gente queria participar do Discomania!", e eu digo: "Olha,
infelizmente..." - aqui na Rádio MEC, tinha um programa
chamado "Novos Talentos", não sei porque acabaram
com esse programa, que era exatamente um local certo para botar
esse grupos. Por exemplo, hoje, quem vai ao ar no "Discomania"
é o Hélio Delmiro, um dos cinco maiores guitarristas
do mundo, quem está falando isso não sou eu, é
a crítica mundial. Eu não posso fazer um programa
hoje com o Hélio Delmiro, e amanhã com o "Zé
Márcio", que certamente vai ser um cara formidável
lá na frente, mas hoje não é, então
eu faço com o Hermeto Pascoal, o João Donato, o Hélio
Delmiro, o Paulinho da Viola, o João Nogueira.
RR: Qual é a minutagem desse programa?
EF: 60 minutos
RR: E qual é a equipe?
EF: Sou eu. Algumas pessoas me ajudam, eventualmente, tenho a cantora
Taís Fraga, que me dá uma força de vez em quando,
fazendo contatos, mas sou eu, não tem ninguém. É
verdade que esse programa já existia na Rádio, algumas
pessoas já apresentaram, mas eu estou apresentando o "Discomania"
há uns dois anos.
RR: E você só usa discos, ou às vezes você
faz o programa ao vivo?
EF: Eu trago o entrevistado e a gente rola o disco dele. Quando
há condição de se fazer, estúdio disponível
- eu tenho até a casa de um amigo, uma casa noturna, aberta:
"Olha, pode vir aqui, entrevistar, usar equipamento, fazer
o que quiser." Seria interessante, fazer um show com o cara,
ao vivo ali. Mas aí complica um pouco, a execução
disso, porque você não tem patrocínio. Uma vez
eu tentei vender aí, cheguei a conversar com algumas pessoas,
mas não tem comissão, e eu falei: "Bom, mas então
não me interessa vender, porque se eu vou vender e não
tenho comissão...", "Não tem, não
pode dar comissão...", eu falei: "Bom, então
quando puderem dar comissão, me avisem que eu vou vender..."
E não vai ser muito difícil vender esse programa,
você há de convir, um programa que está bem,
você não vai ter muita dificuldade para vender.
RR: Fajardo, você com essa experiência de rádio,
e inclusive de direção de rádio, você
falou que sentiu na prática a falta do programa "Novos
Talentos". Que buracos você acha que existem na grade
atual da nossa programação AM?
EF: Eu acho que existe uma falta do "Novos Talentos",
de um bom programa de literatura, existe a falta de um programa
infantil - eu acho que o Zé Zuca faz uma falta enorme aqui,
fazia um programa espetacular. Acho que faz falta um programa de
debates da atualidade, trazer alguém que está acontecendo,
esquece a política, vamos falar da área de ciências,
da área de cultura, enfim. Sabe, está faltando esse
tipo de coisa na Rádio MEC, e eu acho que ela tem que se
preocupar com essa área.
RR: Você conhece bem a história do transmissor
de Itaóca, e agora, o nosso Diretor de Operações,
o Formiga, acabou de sair. Ele esteve lá muito tempo, conta
essa história.
EF: O Formiga é considerado um dos maiores técnicos
em radiodifusão do país. Foi da Rádio Globo,
da Tupi, além de tudo isso é um cara dedicado. Eu
sei que o Formiga e o Alcimar passaram duas semanas enfurnados lá
dentro de Itaóca, porque aquilo foi um projeto de um italiano,
chamado Luchesi, que resolveu fazer um transmissor, uma antena triplexada.
Ali você punha no ar, na mesma torre, a Nacional, a Rádio
Mauá - que depois virou Ipanema - e a Rádio MEC. Depois
a Rádio Ipanema foi vendida, saiu de lá o transmissor,
hoje lá estão os transmissores da Nacional e da MEC,
numa torre só. O problema é o seguinte: a Rádio
MEC não tem um operador lá, existe o operador da Radiobrás,
tem que ter alguém da Rádio MEC cuidando do nosso
equipamento lá. Enquanto o Formiga aqui estava, o que houve
com a Rádio MEC? O crescimento do sinal foi vertiginoso,
uma coisa espetacular. A minha mãe mora em Guarapari, ouvia
toda segunda-feira o "Discomania", pela Onda Média,
são 600 quilômetros, chegava com som local. E esse
é o medo: a gente conquista uma audiência grande -
uma emissora, para conquistar audiência, precisa de três
coisas: primeiro, sinal, é você ligar o rádio,
aquela portadora forte está no ar; segundo, som; e terceiro,
uma excelente programação, para segurar o ouvinte.
Eu temo que com essa falta de verba, com a saída do Formiga,
principalmente a falta de verba, porque o Formiga é fantástico,
mas certamente pode se contratar um outro excelente profissional
para cuidar disso. Mas essa falta de verba vai fazer com que a gente
caia muito, de novo, na audiência. É lamentável.
RR: Tem mais alguma coisa que você gostaria de falar?
EF: Eu gostaria de dizer o seguinte: que eu espero, francamente,
que nós consigamos fazer com que as pessoas que têm
efetivamente o poder na Rádio MEC - eu digo o pessoal de
cima mesmo, lá de Brasília - enxerguem esse trabalho
que a gente faz aqui, dêem condições à
Rádio MEC de executar um excelente trabalho. E nós
podemos fazer isso muito melhor, se forem dadas condições
para nós, mais dinheiro para se executar - como é
que se pode ter mais dinheiro? Vamos botar uma turma boa aqui de
marketing, vamos botar um pessoal que realmente seja do ramo, e
que venha aqui e faça essa Rádio acontecer. Tem ótimos
profissionais aqui dentro, profissionais que com certeza brilhariam
muito mais em outras emissoras. É isso que eu espero, que
a Rádio MEC consiga isso, e mais do que isso, que nós
consigamos sensibilizar a nossa co-irmã, a TVE. E que ela
nos dê maior cobertura em seus excelentes programas, para
que nós possamos aparecer mais, e assim ganharmos mais audiência.
Aí, sim, seria formidável.
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