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Os 80 anos de Edino, que ganhou de
presente a caricatura ao lado, de Chico Caruso, foram calorosamente
festejados em todo o país. Publicando esta entrevista,
realizada há 5 anos, o Amigo Ouvinte vem se juntar
às comemorações natalícias do
nosso mui-valoroso presidente, que está exercendo
esse cargo pela quinta vez e é, alem de tudo que
já realizou, um dos maiores responsáveis pela
produtiva existência da SOARMEC.
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AO Que circunstâncias o levaram a trabalhar na
Rádio MEC?
Eu havia voltado dos EUA, em 1949, onde tinha passado 1 ano, como
bolsista. Voltando pro Rio de Janeiro, eu não tinha nada:
nem onde ficar, nem coisa nenhuma. Então, recebi um convite
do Koellreutter para participar do primeiro Curso Internacional
de Férias de Teresópolis. Ele me deu uma bolsa pra
esse Curso de Férias, e eu funcionei lá como uma
espécie de auxiliar dele, de assistente e tal. Depois do
curso, ele perguntou: E agora, o que você vai fazer?.
Eu não tinha mais bolsa, e disse que ia pro Rio de Janeiro
e que tinha de trabalhar em algum lugar. Aí, ele disse:
Olha, quem sabe a gente apresenta você ao René
Cavé, da Rádio Ministério, e quem sabe você
arruma alguma coisa pra fazer lá?. Eu disse: Boa
idéia.
AO Quem fez a apresentação?
Foi a Geny Marcondes, que tinha um programa lá, O reino
da alegria, e, na época, namorava o Koellreutter.
Então ela me apresentou ao René Cavé,
e o René disse: Olha, o único trabalho que
eu tenho, pra você começar, seria na discoteca.
Está bem. O que é que eu vou fazer lá?
Você vai ajudar o Rei Momo que era o
Nelson Nobre, o Rei Momo do carnaval.Você vai ajudar
o Nelson a fazer o fichário dos discos, essa coisa toda.
AO O ano era?
1950. Aí eu comecei a trabalhar na discoteca, e, nessa
mesma época, o Francisco Mignone e a mulher dele me
convidaram pra escrever na Tribuna da Imprensa, jornal do
Lacerda, que tinha começado no ano anterior. Eles eram
responsáveis pela seção de música.
E o Mignone disse: Eu já estou meio cansado,
essa coisa de escrever em jornal não é muito pra
mim. Eu tinha feito um artigo sobre o Curso de Férias
de Teresópolis. Mandei para o Mignone e ele disse: Eu
falei com o Lacerda, ele gostou do artigo, então você
vai lá conversar com ele. Aí eu fui, falei
com o Lacerda e passei a fazer a coluna de música do jornal.
Estavam começando nessa época os Concertos para
a Juventude um programa da Rádio, que era aos domingos,
às 10 horas da manhã, no Salão Leopoldo Miguez
da Escola de Música.
AO Quem apresentava?
Acho que o Paulo Santos, que era o locutor padrão
da Rádio MEC, na época. E era o mais culto. Ele
gostava de música, sabia pronunciar direito o nome dos
compositores, das obras e tal. Era uma transmissão ao vivo,
com o microfone no palco, não era nem gravado nem nada.
Aí eu fiz uma crítica na Tribuna da Imprensa, com
uma série de críticas e observações,
sobre o programa: o conteúdo, a maneira de apresentar e
tal. Quando saiu o artigo, o René me chamou: Olha,
eu achei bastante pertinentes as coisas que você criticou,
e eu acho que é por aí mesmo: o programa tem que
ter uma linguagem mais descontraída, mais voltada pro jovem,
um caráter mais didático. Então, como
castigo pelo artigo que você fez, você vai ser o responsável
pelo programa a partir de agora. E eu saí da discoteca
e passei a cuidar dos Concertos para a Juventude. Como o René
gostou da maneira como eu escrevia, ele começou a me dar
outras tarefas, outros programas.
AO Como era o formato desses programas?
Era um programa ao vivo, com concertos. Eu escolhia o repertório,
os intérpretes, fazia o texto de apresentação,
fazia tudo isso. E comecei a produzir outros programas. Passei
a participar, por exemplo, da programação do Grupo
Música Viva, que tinha um programa semanal na Rádio.
Cada semana era um integrante do Grupo que redigia o programa.
Era o Santoro, era o Guerra-Peixe, era a Eunice Catunda.
AO E a Helza Camêu, a Esther Scliar e a Geny
Marcondes?
Helza Camêu não fez parte do Música Viva:
fez parte da programação do Música e Músicos
do Brasil. Esther Scliar não fazia parte diretamente do
Grupo. A Geny, evidentemente, fazia parte. O Koellreutter também
fazia muitos textos. Ele praticamente criou o padrão do
programa Música Viva: a redação, o tipo
de comentário que se fazia das obras. Muitas obras eram
apresentadas em gravações que a gente conseguia
de pessoas que vinham da Europa. Música contemporânea
de um modo geral, e também de música antiga. E também
havia programas ao vivo, com os integrantes do Grupo, do movimento
Música Viva, que incluía intérpretes.
AO No Estúdio Sinfônico?
No estúdio do rádioteatro, também no 4º
andar. E ali, então, se fazia também audições
ao vivo de obras, por exemplo, de compositores contemporâneos,
dos próprios integrantes do Grupo. Em 1944/45, uma das
primeiras composições que eu fiz, que era o
Improviso para Flauta, o Koellreutter fez a estréia lá,
primeira audição mundial. Imagina só, uma
musicazinha de 2 minutos! Mas a Eunice Catunda fez muitas primeiras
audições. Então eu comecei a participar mais
desse trabalho de produção e redação
de programa.
AO Era tudo ao vivo e gravado?
Tudo ao vivo, mas nada era gravado. Em acetato, algumas coisas
se gravavam, mas não eram gravações feitas
no momento do programa. Aí eu passei a produzir, redigir,
durante esses anos todos. Fiz uma série de programas, sempre
de divulgação da música, não somente
de música contemporânea. Fiz uma série, por
exemplo, cujo texto chegou a ser publicado no boletim que a Rádio
Ministério tinha na época: uma série que
se chamou 2000 Anos de Música, que pegava desde o início
da música ocidental, e sempre com um texto que remetia,
digamos, à situação dos países, da
sociedade em que essa música era produzida. Um panorama
sócio-musical, quer dizer, uma história da música
vista por esse ângulo. Pegava desde a Grécia, toda
a história da música ocidental, até chegar
à música contemporânea.
Eu fiz também um programa, muito engraçado, que
era aos domingos pela manhã. Eu não me lembro o
nome... Era um programa de variedades e que tinha também
uma parte musical. E eu fazia um intervalo musical nesse programa,
de uma ½ hora, 40 minutos, uma coisa assim, e o programa
ia ao ar, domingos ao meio-dia, e era apresentado por um locutor
muito simpático e muito competente que era o Altanir Ferreira.
Era um cara fantástico: você, perto dele, não
conseguia ficar sério, porque ele sempre tinha uma
coisa engraçada pra te falar, um comentário engraçado.
Geralmente eu chegava na Rádio pra fazer esse programa,
tipo 10 horas da manhã de domingo. E eu me metia na discoteca,
catava lá uns discos, sentava na máquina, fazia
o texto de abertura e levava a primeira página do programa
para o Altanir. Ele ficava me cobrando, interfonando: Olha,
vai começar o programa. Eu não tenho nada aqui,
ainda. Então, 2 minutos antes, eu chegava lá,
com cópias pro Altanir e pro técnico, e explicava:
O 1º disco é isso, assim, assim, dura tantos
minutos, o texto é isso, assim, assim, ele olhava
e botava no ar. Enquanto isso, eu ia pra discoteca fazer o resto
do programa. Quando chegava no final, o Altanir Ferreira, invariavelmente,
dizia: Bem, até o próximo domingo. Este programa,
que se chama Música ao alcance de todos (ou coisa assim),
tem a produção e a redação de Edino
Krieger. Sempre ele encerrava assim o programa, e eu um
dia disse: Ô Altanir, eu não boto o meu nome
nesse programa, eu faço esse programa em cima da perna,
quer dizer, não é um programa que mereça
ser assinado por um produtor, por ninguém. Aí
ele disse: Eu falo teu nome sim, eu faço questão
de falar. Por que, Altanir?. Deixa de
ser besta, rapaz! E se os ouvintes pensam que sou eu que faço
essa bagunça desse programa? Não senhor, eu tenho
que dizer que é você o responsável!.
AO Então chegamos em 1954, e o senhor ganha
outra bolsa e vai para Londres.
Voltei em 56, na época do Mozart de Araújo. Mas
eu estive uma época lá, acho que foi depois da direção
do Carlos Rizzini. Eu acho que o diretor foi o mineiro, o Celso
Brant.
AO E como ele era?
O Celso Brant era muito simpático, e tinha aquele jeito
bem descansado de mineirão, e ele era conhecido pelos funcionários
como vago simpático. Porque ele era muito vago,
mas muito simpático, daquele jeito bem descontraído,
bem sem pressa. Na verdade eu fiquei pouco tempo trabalhando com
o Celso, e sempre fazendo essa mesma coisa, porque mudava a direção,
mas as linhas gerais permaneciam, e já vinham desde o tempo
do Tude de Souza e do René Cavé. Eu me lembro, por
exemplo, que na época em que eu cheguei à Rádio,
nos primeiros anos da Rádio, não só na área
da música, mas em outras áreas, havia uma programação
que era realmente exemplar. Havia, por exemplo, um programa de
literatura e poesia, pelo Paschoal Longo, eu não me lembro
o nome desse programa, mas era um programa sensacional. O Paschoal
Longo levava para esse programa, pra fazer entrevistas ao vivo,
leituras de poema, gente como Cecília Meireles, como Carlos
Drummond de Andrade, como Manuel Bandeira, quer dizer, a primeira
linha da poesia brasileira. Quando a Neusa Feital sucedeu o René
Cavé, na época do Rizzini, eu participava de um
programa que era muito interessante. Chamava-se Falando de Música.
Era produzido pelo Aires de Andrade e era uma mesa redonda que
discutia várias interpretações de uma mesma
obra, através de diversas gravações. Pegava,
por exemplo, uma sinfonia de Beethoven que tinha várias
interpretações. Além do Aires de Andrade,
participavam o Arnaldo Estrela, o Andrade Muricy, o Garcia de
Miranda Neto: essa era a equipe do programa que ia ao ar uma vez
por semana. Eram várias pessoas entendidas, eram vários
críticos, várias pessoas que tinham, por profissão,
pensar música e analisar a interpretação
da música. Era muito interessante e desse programa
eu também participei.
AO Você lembra de algum outro programa musical
desse quilate?
Não. Certamente tinham aqueles programas clássicos
tradicionais da Rádio, como, por exemplo, o programa de
ópera que era feito pela Marina Moura Peixoto. Depois ela
morreu e foi assumido pelo Perilo Galvão Peixoto. Programa
de Ópera Completa, que era um dos carros-chefes da programação
de domingo na Rádio. Tinha o programa Atendendo aos Ouvintes,
que era Lucília Figueiredo quem fazia, uma moça
muito magrinha, uma senhora já, mas muito inteligente.
Ela fazia textos muito bonitos para o programa Atendendo aos Ouvintes,
que tem até hoje. Na época, a Rádio Ministério
tinha um microfone permanente no Theatro Municipal, então
a Rádio transmitia todos os concertos da Orquestra Sinfônica
Brasileira ao vivo.
AO E era bom, o som?
O som podia não ser grande coisa, mas era uma forma de
transformar a Rádio num auditório de dimensão
nacional, porque transmitia em onda média, e transmitia
em onda curta, então a Rádio recebia muita correspondência
de vários Estados, inclusive do exterior, sobre a programação,
sobre as transmissões ao vivo. Era praticamente a única
oportunidade que eles tinham de ouvir a música ao
vivo com a Orquestra Sinfônica tocando no Theatro Municipal
do Rio de Janeiro. E, além disso, transmitia também
diretamente as óperas que eram levadas lá. E a transmissão
era feita pelo João Assaf, locutor, e também o Paulo
Santos. Eles iam lá pra coxia e anunciavam o primeiro ato,
diziam a história da ópera, ao vivo no Theatro Municipal,
e o João Assaf costumava entrevistar cantores importantes
que vinham. Ele falava inglês, falava um pouco de italiano.
Era muito engraçado, porque o Assaf tinha as suas idéias
próprias também sobre ópera, e tinha a sua
própria opinião de como a ópera estava acontecendo,
então as entrevistas dele eram às vezes muito engraçadas.
Porque o Assaf chegava assim pro Tito Schipa: Agora nós
temos aqui o grande tenor Tito Schipa, que está fazendo
o papel de fulano de tal, na ópera tal, e nós vamos
ter o prazer de entrevistar ao vivo aqui pra Rádio Ministério.
O que o senhor achou desse primeiro ato? Porque eu achei o seguinte:
que faltou um pouquinho de substância, a orquestra
estava um pouquinho precipitada, o senhor não achou? Pois
é.... Quer dizer, ele fazia as perguntas e respondia,
os ouvintes achavam engraçadíssimo. A par disso,
ele realmente fazia entrevistas fantásticas com todos esses
artistas visitantes.
AO É verdade que o microfone ficava direto no
Municipal?
Aquele microfone era uma coisa intocável. Ficava pendurado
lá, ninguém tirava, era permanente. A Rádio
levava o equipamento, colocava na coxia por meio de transmissão.
Tinha aquele microfone lá de cima e, evidentemente, alguns
microfones embaixo pra entrevistas e coisas assim. Isso ficou
durante muito tempo, não sei quando foi retirado.
AO O senhor ganhou uma bolsa, foi para a Inglaterra,
de onde volta em 56. E então?Quando eu voltei, o Mozart
imediatamente me convidou pra ser uma espécie de assistente.
AO Como é que o senhor era pago?
Isso é muito interessante, porque até 1960, 61 ou
62, quando houve o enquadramento dos chamados colaboradores, nós
todos recebíamos pela tal de verba três,
que era uma verba de programação, uma verba extra-orçamentária
que a rádio recebia proveniente não sei de onde,
provavelmente do Ministério da Educação,
que era para pagamentos de serviços prestados. Eu era serviço
prestado.
AO E dava pra viver?
Não, pelo seguinte: porque, além de o salário
ser muito pouco, a verba três demorava muito a ser liberada.
Muitas vezes o primeiro pagamento que a gente recebia era em julho,
agosto.
AO Pagamento de janeiro?
Pagamento de janeiro. Quando tinha muita sorte o pagamento saía
em abril, maio, e era uma festa. Mas era realmente um sufoco.
Então todo mundo, evidentemente, tinha que ter outras fontes
de sobrevivência. Eu, durante alguns anos, trabalhei na
Tribuna da Imprensa, até que eu me desentendi com o Lacerda
e acabou a minha carreira jornalística na Tribuna. Mas
eu dava aulas, também, de violino, e tocava em igreja,
tocava na Confeitaria Colombo de vez em quando, e fazia esse malabarismo.
E estudava. O que facilitava é que eu não
tinha que pagar o estudo de composição. Eu pagava
o Conservatório, mas o Koellreutter me liberou de pagar
o meu estudo de composição. Enfim, eu voltei
de Londres, e o Mozart de Araújo, que tinha assumido
a direção da Rádio, criou o programa Música
e Músicos do Brasil, no início dos anos 56, por
aí.
AO Ele era muito nacionalista, não era?
Muito, não: ele era totalmente nacionalista. Mas ele tinha
certa abertura. A linha de programação de Música
e Músicos do Brasil era feita por um grupo de programadores,
do qual ele fazia parte. As reuniões eram sempre no gabinete,
com ele, o Andrade Muricy, Aires de Andrade, o Ademar Nóbrega,
a Helza Camêu. O Bocchino eu não estou bem lembrado
se participou ou não dessa fase da programação,
mas eu acho que sim.
AO Quem era o Ademar Nóbrega?
Ademar Nóbrega era um paraibano fantástico. Ele
era um estudioso de música, sobretudo um estudioso da obra
de Villa-Lobos. Ele tinha livros publicados sobre Villa-Lobos.
Um rapaz muito inteligente, com muita informação
musical, um belíssimo redator e um grande bebedor de chope.
AO E quem apresentava?
O programa era apresentado pelos locutores, geralmente dois,
duas vozes. Eram programas de 1 hora, semanais. E também
a redação era feita em rodízio. A programação
era decidida por esse corpo de produtores, que também
determinavam, dependendo das obras escolhidas, quais
os intérpretes que seriam chamados. Então se convocava
os intérpretes, e fazia-se a gravação especialmente
para o programa. Quem gravava era o Manoel Cardoso, que era o
chefe da técnica.
AO Em acetato?
Eu acho que já tinha fita nessa época. Acho que
já tinha aquelas carroçonas imensas, com aquelas
fitas rolos grandes, Ampex, tenho a impressão.
Eu me lembro bem do Manoel, fazendo gravações
com aquelas máquinas enormes. Nessa época
já existia o Estúdio Sinfônico.
AO Como começa a surgir o embrião da
Orquestra Sinfônica?
A Sinfônica Nacional começou a ser estruturada
ainda no tempo do Mozart. E foi resultado de uma opção
que os músicos da Rádio Nacional fizeram,
na época do Juscelino. Foi dada a eles a possibilidade
de optarem ou pelo serviço público ou pela CLT.
Aí, uma grande parte dos músicos da Rádio
Nacional optou por continuar como funcionários estatutários.
Como eles não tinham mais o que fazer na Rádio Nacional,
foram colocados à disposição da Rádio
Ministério. O Mozart recebeu a relação desses
músicos e me chamou. Eu era o assessor musical dele, e
disse: Bom o que é que nós vamos fazer, com
6 trompetes, 5 trombones, 1 tuba, 3 pandeiristas e 1 baterista?.
Entre eles tinha evidentemente um grande percussionista, que era
o Luciano Perrone, e alguns músicos de qualidade...
Célio Nogueira, enfim, vários músicos bons,
músicos de cordas inclusive. Tinha violinos, violas, violoncelos,
contrabaixos em pequeno número. Tinha 6 ou 7 saxofones.
Uns 40 músicos, ao todo. Aí, eu disse: Olha,
isso poderia ser uma oportunidade pra se propor a formação
de uma Orquestra Sinfônica dentro da Rádio.
AO Para quem o senhor levou essa idéia?
Para o próprio Mozart. Ele achou interessante a idéia,
viu que era factível e teve a luz verde. Então,
nós fizemos um concurso público para completaros
naipes todos e formar realmente uma Orquestra Sinfônica
completa.
AO Não era mais a verba três?
Não, porque aí já tinha dotação
específica para a orquestra. O nome foi sugerido pelo próprio
Mozart de Araújo, porque tinha a Orquestra Sinfônica
Brasileira, e ele disse: Essa orquestra tem que ter uma
marca de que ela vai ser voltada especificamente para a música
brasileira e para música contemporânea. Vamos fazer
uma orquestra de rádio pra tocar música brasileira
e, sobretudo, música contemporânea. E assim
foi. Então, fizemos um concurso. Bocchino, inclusive,
escreveu as músicas para muitas das provas, e Mignone
também. A orquestra foi completada por músicos
da Sinfônica Brasileira e do Theatro Municipal, porque a
gente anunciou que essa orquestra ia ter um horário especial
de ensaios e de gravações, que não ia
colidir com as funções do Theatro Municipal
nem com os ensaios da OSB. Ia ser uma orquestra específica
de rádio. Então, com isso, se formou talvez a melhor
orquestra que o Rio de Janeiro já teve. Porque imagina
que tinha: no naipe de flautas, o primeiro flautista da OSB, que
era o Moacir Liserra; o primeiro do Theatro Municipal, que era
o Lenir Siqueira. Oboé, você tinha o primeiro
oboé do Theatro Municipal, o primeiro oboé da Sinfônica
Brasileira. Tinha as primeiras estantes de cordas. A OSN, no seu
inicio, foi tranqüilamente uma orquestra de padrão
internacional. Os primeiros fagotes se alternavam. Porque
aí começou: Quem é que vai ser primeiro?
Quem é que vai ser segundo?. Então eu dizia:
Vamos fazer regime de rodízio, não tem porque
o primeiro fagote ser sempre o mesmo. Eram o Devos
e o Ângelo Pestana, dois monstros. Então, numa gravação,
um era primeiro fagote e outro, segundo; e, na outra gravação,
vice-versa. O spalla era Ancelmo Zlatoposky. Então,
esse era o nível da Orquestra Sinfônica Nacional:
uma orquestra de primeiríssimo-
nível.
AO Quem regia? A Orquestra se consolidou ainda no
tempo do Mozart. Aí, houve uma eleição, quem
ganhou foi Jânio Quadros. Eu me lembro que o Mozart, depois
da eleição, chegou pra mim e disse: Puxa,
eu votei nesse cara e a primeira coisa que ele fez foi me demitir..
E aí assumiu o Murilo Miranda, que convidou o Karabtchevsky
pra reger a orquestra.
AO Mas o primeiro regente não foi o Mignone?
O Mignone era o regente titular, e me designou para assistente.
Vez ou outra eu regia um concerto ou uma gravação.
Mas aí o Murilo Miranda assumiu a direção
e continuou com a programação da Orquestra
só que ela deixou de ser uma orquestra exclusivamente de
estúdio. Porque o Murilo já tinha uma outra
visão: Nós temos que levar essa orquestra
pra rua... e, aí, começou, inclusive,
a desvirtuar um pouco a linha de atuação e a finalidade
da Orquetra Sinfônica Nacional. Começou a fazer concertos.
Era o Mignone ainda o regente titular.
AO Esses concertos eram transmitidos?
Eram transmitidos, também. Mas o que foi feito no Jacarezinho,
na favela, não foi transmitido. Acho que era difícil
levar equipamento pra lá, problema de instalação
elétrica e tal. Os outros, foram transmitidos, sim.
AO Os quintetos, quartetos e trios que a Rádio
teve foram criados a partir da OSN?
Esses conjuntos da Rádio, conjuntos de câmara, eles
não foram uma decorrência da criação
da Sinfônica Nacional. Na década de 50 já
existia a Orquestra de Câmara, que foi criada inclusive
pelo Cláudio Santoro, que regia essa Orquestra, e depois
ela foi assumida pelo Mário Tavares que ficou 10
anos como regente dela, até a chegada do Eremildo Viana,
quando então ele se demitiu da Rádio, por uma série
de razões pessoais e políticas. Mas essa Orquestra
de Câmara da Rádio teve uma função
muito importante. Fazia gravações de música
brasileira, de obras contemporâneas, não só
com Mário Tavares como regente: vários regentes
trabalharam. Eu mesmo fiz uma série de gravações.
Gravei, por exemplo, algumas obras do Breno Blauth, que na
época não eram conhecidas. Além do Santoro,
do Mário Tavares, durante um certo tempo teve um regente
muito bom, que era um excelente violista também, o Leonelo
Forsanti. Um italiano, que, como alguns outros músicos
europeus, fizeram do Brasil uma espécie de trampolim para
outros países, ou da América do Sul ou da América
do Norte. Um outro violinista e regente italiano também
foi Guido Mansuino. O Mansuino também era um belíssimo
instrumentista, que também atuou com a Orquestra de
Câmara da Rádio e depois acabou sendo contratado
por uma orquestra americana.
AO Alguns dos componentes da Orquestra de Câmara
participaram depois da OSN?
Alguns deles. O Zlatopolsky, por exemplo, que era o spalla da
Orquestra de Câmara, também foi o spalla da Sinfônica
Nacional. O Francisco Coruco já participava da Orquestra
de Câmara, e também foi o spalla das violas da OSN.
E vários outros. Muitos desses músicos da Orquestra
de Câmara passaram a integrar a OSN porque, como era um
concurso aberto, eles se apresentaram também, fizeram prova,
pró-forma, porque eram todos músicos fantásticos.
Além disso, a Rádio tinha, antes da Sinfônica
Nacional, um quarteto de cordas, que teve várias formações.
Chamava-se Quarteto de Cordas da Rádio MEC. Teve várias
formações, com Santino Parpinelli, primeiro violino,
o Jacques e o Henrique Niremberg, e teve um violoncelista italiano,
fantástico, Renzo Brancoleon, que era um belíssimo
violoncelista, e também participou desses conjuntos de
câmara da Rádio MEC. Também foi um desses
que fez do Brasil um trampolim para depois ir para outro país.
Havia um Quinteto de Sopro da Rádio MEC, também
antes da Orquestra. O Quinteto de Sopro era formado por Lenir
Siqueira, flautista; o Hans Braitinger, oboísta; Noel Devos,
fagotista; Jairo Ribeiro, trompista, e o José Botelho,
que era o clarinete do quinteto. A Rádio Ministério
era considerada uma espécie de BBC sul-americana. Era uma
referência para a radiofonia das Américas.
Não sei se as emissoras oficiais americanas teriam esse
conjunto de corpos artísticos, estáveis.
AO E o Coral?
O Coral foi posterior à Orquestra. Foi criado na época
do Murilo Miranda.
AO E o Conjunto de Música Antiga?
Era anterior. O conjunto tinha uma atuação muito
constante na programação da Rádio. Enfim,
tinha realmente um elenco de conjuntos musicais
de excelente qualidade, todos eles.
AO Durante esse tempo, você continuava produzindo
programas?
Eu continuei fazendo programas, e fiz muitos. Eu fiz, por exemplo,
Concerto Moderno. Eu acho que foi o Murilo Miranda quem criou
uma programação para cinco dias da semana, de segunda
a sexta, chamada Concerto Antigo, que era de música antiga
pré-barroca música medieval, renascentista.
Depois, tinha o Concerto Barroco; depois, o Concerto Clássico;
depois, o Concerto Romântico; e, depois, tinha
o Concerto Moderno sempre no mesmo horário,
para os ouvintes se familiarizarem com os vários estilos
de época.. E eu, durante muitos anos, produzi o Concerto
Moderno, fazendo a seleção das obras e textos dos
comentários. Mas não apresentava.
Eu também fiz programas de formação
de críticos musicais, transmitindo, pelo
ar, critérios de avaliação crítica
de uma audição de música.
AO Você apresentava esses programas?
Esses, eu apresentava. Eu fiz, dentro dessa programação,
por exemplo, concurso de críticas musicais.
Eu fazia executar uma determinada obra musical e dizia:
Agora os senhores estão convidados a fazer uma crítica;
a melhor crítica vai ser lida no microfone da Rádio.
AO O senhor já era funcionário?
Sim, eu já tinha sido enquadrado.
AO E o salário era melhor?
Nunca foi um grande salário, mas as condições
melhoraram bastante. Pelo menos ganhava-se 13º, e todo o
fim de mês recebiamos direitinho o contra-cheque. Mas eu
participei também do início da programação
dos Concertos para a Juventude, quando a TV Globo começou.
AO Quem dirigia a Rádio era o Eremildo?
Acho que era Murilo Miranda, ainda. Na época do Eremildo
eu não me lembro de ter feito muita coisa. Foi um período
em que fiquei muito doente, com um problema de coluna muito
sério.
AO Sua função nos Concertos era qual?
Era de organização, e de participação
nos concursos que se faziam. A gente organizava o júri
dos Concertos para a Juventude, fazia concursos para jovens
instrumentistas, cantores etc.
AO Nesse período, havia qualquer coisa
parecida com um conselho de programação,
que garantisse a continuidade da linha de programação,
apesar dos diferentes diretores?
A linha de programação era sempre determinada
pelo diretor artístico. Ele, sim, reunia os produtores,
comentava, e orientava. Mas um conselho, não
lembro, a não ser em casos específicos
como o do Música e Músicos do Brasil,
ou o do Falando de Música, em que um grupo de
produtores se reunia e definia o que fazer.
AO Estamos chegando em 1964, chegando ao
famigerado diretor Eremildo Viana. O que aconteceu
com a sua vida profissional?
Na verdade, quando o Eremildo assumiu, no bojo dessa chamada revolução,
eu estava doente, com uma crise de coluna que me deixou três
meses fora de combate. Estive, inclusive, internado no Hospital
dos Servidores, para ser operado de hérnia de disco. Eu
sabia que, de vez em quando, o Eremildo perguntava por mim, e,
quando fiquei bom, eu me apresentei. Ele fez, evidentemente, uma
caça às bruxas, e eu sabia, pelas minhas vinculações
políticas, que estava também na mira. Mas ele não
me disse nada disso. Disse: Eu soube que você estava
assessorando a parte musical da Rádio, e gostaria muito
que continuasse. Posso contar com a sua colaboração?.
E eu disse: Olha, eu agradeço o seu convite, mas
a minha saúde não me permite. Quer dizer,
eu tive um álibi pra sair fora. Mas eu posso continuar
fazendo o meu trabalho na programação....
Sim, certamente.... E, aí, eu continuei,
durante um tempo, responsável pela Sinfônica Nacional.
O Mignone não era mais o regente titular, e tinha
uma espécie de diretor artístico, o Avelino.
O Avelino era um homem ligado ao Jarbas Passarinho e depois ele
assumiu a direção da Rádio.
AO Estamos em que ano: 68, 69?
Deve ter sido por aí. Um dia o Avelino chegou e disse:
Lamentavelmente, vou ter que substituir você na coordenação
da orquestra e da área musical, porque o SNI diz que você
é uma pessoa que foi ligada às esquerdas. Eu
acho isso um absurdo, e vou a Brasília discutir isso.
Me encheu de confetes. Dias depois, ele disse que foi a Brasília,
e: Olha, não tem jeito. Mas tinha um cara do
SNI, dentro da rádio, não me lembro o nome, mas
era um rapaz simpático, que falou: Vou
promover um encontro seu com a cúpula do SNI, para
esclarecer isso, porque, na verdade, eu tenho me informado
sobre o seu comportamento, e não consta que você
tenha tido nenhuma participação
política ativa dentro da Rádio. E você
é um funcionário. Você vai lá,
explica pra eles e resolve logo esse problema. Eu fui
e falei com o pessoal do SNI: me fizeram uma série
de perguntas, fui embora e continuou tudo a mesma coisa. Eu não
tive mais nenhuma função de chefia, mas continuei
fazendo programas.
AO E o seu trabalho da Rádio JB?
Na Rádio MEC, trabalhava um locutor que era jovem e muito
inteligente: o Ivan Meira. E, quando o Reynaldo Jardim assumiu
a direção artística do Jornal e da Rádio
JB, o Ivan, que também trabalhava na Rádio
JB como locutor e programador, me convidou para ir lá,
conversar com o Reynaldo. E o Reynaldo então me propôs
fazer um tipo de programa. Uma coincidência engraçada
é que, na Rádio Ministério, eu entrei pra
trabalhar com o Rei Momo; e o primeiro programa que eu fiz na
Rádio JB, chamou-se 20 Anos de Carnaval. Aí eu saí
catando material, gravações antigas de carnaval,
fui à Rádio Nacional, enfim, fiz uma pesquisa de
gravações, e fiz uma série de programas.
AO Quanto tempo você trabalhou lá?
Até completar pelo menos 25 anos. Na verdade, 25 anos de
efetivação, porque, antes disso, trabalhei
uns anos como serviços prestados na JB.
AO E nessa época, na Rádio MEC, com que
tipo de produção você estava envolvido?
Produção de programas, sempre. Programas
de música contemporânea, de música brasileira
eu era redator de programas, na época. O que eu
não falei foi sobre a criação do coral da
Rádio Ministério, que foi uma coisa importante.
Na época do Murilo Miranda, ele achou que a Rádio
precisava ter um coral pra atuar junto com a orquestra, um Coral
Sinfônico. Enfim, todo esse repertório de coro e
orquestra. E eu participei também da organização,
porque o Murilo, quando o Mozart saiu, me convidou pra continuar
as funções que eu tinha de assessor na área
de música, e aí ele deu a idéia de criar
esse coral. Era um coral de Rádio, de talvez umas 30 vozes,
por aí. O coral começou na época em que exatamente
estava sendo feita a vinculação definitiva dos funcionários.
De repente, houve uma abertura para a classificação
dos funcionários prestadores de serviço e aí
entraram como funcionários públicos. Todo mundo
que fazia alguma coisa na Rádio o Murilo listou tudo e
transformou em funcionário publico.E nessa época
o coral estava recém formado também, e também
entrou nessa leva.
AO Fale da importância da OSN e do que significa
ela estar hoje na UFF?
Eu acho que, na verdade, a OSN começou a sair da Rádio
muito antes de sair fisicamente. Porque, com o Murilo Miranda,
ela passou a perder a sua finalidade radiofônica, sua característica
de orquestra radiofônica: isso acho que foi o começo.
Se bem que ela continuou gravando e deixou um acervo grande de
gravações. Ela foi pra Niterói em 81. Essa
data eu sei porque foi quando eu estava assumindo a direção
do Instituto Nacional de Música da FUNARTE. O Aloísio
Magalhães, logo assim que acabou a solenidade, me chamou
a Rádio Ministério da Educação
estava com uma nova direção, com uma diretora de
São Paulo, a Taís. E o Aloísio Magalhães
me disse: A Taís não quer mais os corpos artísticos
da Rádio e propõe que a Orquestra Sinfônica
Nacional seja transferida pra FUNARTE. Eu digo: Meu
voto é contra. A OSN foi criada como orquestra de rádio,
então o habitat dela é a Rádio, ela
não deve sair de lá. Você tem que convencer
essa direção de que isso é uma estupidez.
Eu acho que você deve fazer força para que a Orquestra
continue na Rádio Ministério, que é o lugar
dela, e continue a cumprir sua função original,
que é fazer gravações e, sobretudo, gravações
de música brasileira. Se a orquestra vier pra FUNARTE,
o que eu vou fazer com ela? Concertos no Theatro Municipal,
na Sala Cecília Meireles, no João Caetano,
concertos ao ar livre, não sei mais o quê? Eu vou
fazer um convênio com a Rádio Ministério da
Educação pra que essa Orquestra se apresente na
Rádio Ministério da Educação? Então,
eu não vejo sentido nisso. Eu não quero uma orquestra
aqui pra tocar Beethoven, fazer concertos populares, não
é isso, esse não é o papel da Orquestra,
porque outras Orquestras fazem isso. Ele disse: Está
bem, eu aceito seus argumentos, a Orquestra não vem pra
FUNARTE. E ele tentou manter a OSN na Rádio, mas
não conseguiu. A direção botou pé
firme que não queria mais, e mandou a Orquestra pra Niterói...
AO A OSN deveria voltar para a Rádio?
Eu acho que é desejável. Acho que uma Rádio
como a Rádio Ministério devia ter a sua própria
orquestra. Uma orquestra que fosse capaz de produzir uma
programação musical que não fosse baseada
em gravações estrangeiras. O repertório
clássico é muito bom, é necessário,
mas falta esse repertório alternativo que a Rádio
não tem mais. A Rádio não tem mais, porque
o que tem foi o que a Orquestra Sinfônica Nacional gravou
nos anos 60. Porque não tem, na verdade, nenhuma orquestra
brasileira gravando esse repertório alternativo de música
brasileira, música contemporânea. Isso, infelizmente,
a Rádio Ministério da Educação perdeu,
e se ela conseguir recuperar isso acho que seria um grande
beneficio pra cultura brasileira, certamente.
AO A respeito daqueles primeiros LPs feitos na Rádio,
como foram feitos?
Foram feitos dois discos, ou três. MEC 70, MEC 71. Isso
aí foi um projeto de um regente, o Rinaldo Rossi,
que era um compositor radicado na Bahia, e que foi convidado
pelo Avelino para assumir a regência da OSN. Ele conseguiu
convencer a orquestra a fazer esses dois primeiros discos.
Na verdade foram LPs pioneiros, com gravações feitas
especialmente para os discos.
AO Sua saída da Rádio foi em 78, mas
o senhor voltou a trabalhar pela Rádio, voluntariamente,
na SOARMEC. Fale disso.
Na verdade, eu fui por três vezes Presidente da SOARMEC.
Isso é uma adesão a esse pequeno batalhão
de Brancaleones, que é feito de pessoas que têm esse
espírito de participação, esse espírito
de manter acesa a chama de um ideal, na área da radiofonia,
sobretudo na radiofonia educativa. E tem sido muito
gratificante pra mim. Não sei dizer se a contribuição
que eu dei foi importante ou não, mas eu acho que é
um trabalho de voluntariado que se move pela força
da esperança de você um dia resgatar uma série
de valores, uma série de ações, uma série
de sonhos, inclusive, que em certos momentos chegaram até
próximos da realidade. Você já teve uma
Rádio Ministério que foi um grande centro de promoção
e de irradiação, no sentido lato da palavra, da
cultura, e, sobretudo, da cultura brasileira. E a gente vê
que essa dimensão da Rádio foi perdida ao longo
do tempo, ela foi sendo esvaziada, gradativamente, como
outras instituições, como a própria FUNARTE
que hoje não é mais aquilo que foi na origem.
Eu acho que esse trabalho da SOARMEC é um
trabalho de resistência cultural, de inconformidade
com a perda de certos valores, de certas fronteiras,
de certas conquistas que foram relegadas.
AO A Rádio MEC era um point onde fervilhava
a arte e a inteligência. O senhor conseguiria
descrever um dia normal lá?
Era um local onde se cruzavam pessoas das várias áreas,
e não só dessa cultura, vamos dizer assim, sofisticada,
da musica erudita, da alta poesia, do Drummond, Manuel Bandeira,
Cecília Meireles, mas também de outras áreas.
Um personagem muito importante da Rádio, durante
muito tempo, foi aquele professor de educação
física, o Oswaldo Diniz. E tinha também alguns egressos
da própria Rádio Nacional, músicos que não
couberam na Sinfônica Nacional, porque eram pandeiristas,
eram saxofonistas. Então a gente tinha, por exemplo,
gente como o K-Ximbinho, que andava por lá sempre. E tinha
Os Últimos Boêmios, que era o grupo do Omero Gelmine,
do Altamiro Carrilho. Com Pixinguinha eu cruzei várias
vezes, por ali, pelos corredores da Rádio, indo participar
de algum programa da Rádio sobre música popular.
Tinham muitos músicos estrangeiros, Brailowsky esteve lá
conosco, Segovia esteve lá... A Rádio era um centro
de convergência de toda essa família cultural.