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Cristiano Menezes
Diretor da Rádio Nacional

Entrevista concedida no dia 09 de
dezembro de 2003.
Amigo Ouvinte -
Como você começou a trabalhar em rádio?
Cristiano Menezes - Em 1977, na Rádio Roquette-Pinto
do Rio de Janeiro. O diretor era o Maestro Julio Medalha, e eu comecei
fazendo um projeto para o Centro de Tecnologias Educacionais da
Secretaria de Educação do Estado. Eles encomendaram
uma série de programas voltadas para dia disso, dia daquilo
outro, e eu apresentei um projeto, com uma rádionovela. Criei
uma família que vivia essas circunstâncias todas: dia
da arvore, dia dos animais, do índio e por aí vai.
E foi legal, ficou bem feito. Porque eu fiz um pouco de teatro -
fiz faculdade de Direito, depois fui fazer teatro e comecei a fazer
rádio, porque como ator vivia duro. Mas acontece que o rádio
me absorveu de tal forma que o teatro dançou, ficou esquecido
e eu assumi o rádio com muita paixão, com muito prazer.
Daí eu ter começado a fazer no rádio uma rádionovela.
Depois disso, a Roquette me deu um programa. Fazia um programa lá
que se chamava "Panos e Mulambos" - um programa voltado
pra colocar no ar artistas que tinham um trabalho pronto, mas que
não tinham tido um espaço. Eu me lembro da Angela
Rô Rô, no meu programa, dizendo: "Ano que vem eu
vou gravar meu primeiro disco, vai ser um estouro, tipo Roberto
Carlos você vai ver". O Zé Renato, o Juca Filho,
o Lourenço Baeta, o Cláudio Nucci, eles passaram lá,
também, e o pessoal da área de teatro e cinema...
Foi muito legal essa experiência, mas, aí, eu me apaixonei
por uma mulher e ela morava em Brasília. Pedi demissão
e passei pro poeta Chacal o meu programa. Cheguei em Brasília
meio no grito e a Radiobrás estava começando. Era
bem incipiente a programação pra Amazônia, e
eles estavam precisando de gente. Eu fiz uma prova e me contrataram,
e eu comecei a fazer então um programa pra toda a Amazônia,
em onda curta - a empresa tem essa programação até
hoje. E foi um processo riquíssimo, esse. Eu me lembro que,
a principio, eu conhecia alguma coisa da Amazônia, tinha amigos
jornalistas que cobriam a área e conversava muito com eles.
Comecei a conhecer alguns sertanistas em Brasília, conheci
índios, mas era pouco, era coisa meio de orelhada. Aí,
preocupado em não ser mais um colonialista entrando na Amazônia,
eu criei uma coisa assim "Conte o seu Conto" e, então,
estimulava as pessoas a escrever histórias baseadas na sua
realidade, no seu dia a dia, e comecei a receber muita carta pra
época - eram 2200 cartas, mais ou menos, por mês. Eu
começava a selecionar as cartas que davam pra selecionar
e fazia um roteiro pra rádioteatro, e eu fazia todas as vozes.
Quando eu precisava de voz feminina, ia na redação
e pegava uma amiga minha.
E funcionou: eu devolvia pra eles a realidade deles, porque os povos
ribeirinhos, os povos da floresta e da Amazônia em geral,
eles se sentem exilados, hoje talvez nem tanto, mas naquela época,
em 1978, eles sentiam assim, um pouco à parte do Brasil.
Eu me lembro, lá no interior da Amazônia, um senhor
70 anos de idade - foi pra lá como soldado da borracha há
muitos anos - e ele dizendo: "Desci dois dias de barco pra
falar comtigo porque eu ouço aquelas histórias na
"radia" que o senhor fala, que eu fico com o radinho dando
risada e povo acha que eu tou doido." Em Boca do Acre, eu me
lembro, uma família andou 40 e tantos km a pé, pedindo
pra eu falar na "rádia" pro governo asfaltar aquela
BR porque eles foram do Sul pra lá, e eles plantavam de tudo
lá, mas não tinha como escoar a mercadoria. Enfim,
foi um barato. E as histórias, as lendas... Essa experiência
durou uns dois anos. Eu colocava no ar também músicos
que faziam a autêntica música sertaneja, e o programa
deu muito pé. Depois eu fui fazer um programa de televisão
na TV Brasília e, depois, fui pra Salvador, pra Rádio
Sociedade, depois voltei pra Nacional de Brasília, até
que finalmente voltei pro Rio, minha cidade, e fui pra Rádio
Globo FM, nos anos 80, e trabalhei como produtor no Circo Voador.
Eu sou uma pessoa do samba, adoro samba, mas, naquele tempo, eu
fiquei apaixonado por aquele movimento do Rock Brasil, onde produzi
os primeiros shows dessas bandas todas que aconteceram depois: Barão
Vermelho, Kid Abelha, Legião, Blitz, e mais Globo FM, e,
dali, eu fui pra Rádio Del Rei FM, e depois teve um outro
projeto que foi o programa "Chegando no Pedaço",
que era patrocinado pelo IBASE .
AO - O Betinho ainda estava vivo?
CM - Betinho vivo. O País estava se repensando, estava elaborando
uma nova Constituição, então a idéia
era ter um programa que aprofundasse o que a grande imprensa na
época não aprofundava, de discussão do país,
mesmo. Éramos uma equipe coordenada pela jornalista Tânia
Coelho - uma equipe fantástica, de umas 10 pessoas - e o
IBASE é que patrocinava, junto com o ISER. Fizemos durante
3 anos esse programa, e por ali passou o Brasil: todos os segmentos.
Foi muito importante ter feito esse trabalho, que resultou num convite
de eu ser o apresentador dos comícios do Lula, na campanha
contra o Collor, aqui, em 89. Aí, eu fui pra Rádio
Jornal do Brasil, onde fiz um programa sobre meio ambiente. Participava,
eventualmente, daquele programa "Encontro com a imprensa",
quando o assunto da pauta era meio ambiente, e tinha um programa,
lá, chamado "Nosso Planeta" e depois fiquei simultaneamente
trabalhando como locutor na JB FM.
Daí eu recebi um convite pra dirigir a Rádio Cultura
de Brasília e foi também uma experiência ótima.
Cheguei lá fiquei com vontade de voltar correndo, porque
saí da JB nas vésperas da ECO 92 que seria o coroamento
daquele meu trabalho todo, mas por questões pessoais - eu
estava precisando mudar de ares também, andava uma pouco
triste por aqui - achei que ia ser uma experiência profissional
interessante. E foi, porque eu consegui um quadro de funcionários
pra emissora, que a emissora não tinha, consegui montar uma
equipe, foi uma conjugação de pessoas fantástica,
e a Rádio Cultura de Brasília virou um Point na cidade,
as pessoas não só ouviam como iam pra lá, os
artistas iam pra lá. Artistas plásticos, músicos,
poetas ficavam lá, então ali era muito bom, era um
ponto de encontro. Depois eu saí e assumi a superintendência
da fundação Roquette-Pinto em Brasília. Não
foi uma experiência boa, durou muito pouco tempo, encontrei
enormes dificuldades naquele período, havia muitos vícios
lá e eu vinha de um processo tão vitorioso que foi
um choque. Então pedi demissão e voltei pra Rádio
Cultura, não mas como diretor, mas para fazer um programa
sobre Ciência e Tecnologia. O governador Cristóvão
Buarque estava querendo desmembrar a secretaria de Meio Ambiente
da área de Ciência e Tecnologia, ele queria dar visibilidade
pra ciência e tecnologia, então eles me encomendaram
um programa. Foi um desafio você falar sobre Ciência
e Tecnologia e de uma forma que não fosse chata. E foi legal,
começou pelo nome do programa: "Louco por Ciência".
O teto disso é tão abrangente, você pode falar
de projetos tão interessantes, que vão da área
de Bibliotecnologia à área de Informática,
aquelas incubadoras de empresas da UNB, diversos projetos, sempre
entrevistando quem estava com a "mão na massa".
AO - Pautas atuais.
CM - Pautas atualíssimas, da ordem do dia, que estão
no cotidiano de todo mundo. Então foi muito legal, durou
2 anos isso. De repente eu senti falta de voltar pro Rio de Janeiro,
e tinha também a questão do patrocínio do Banco
oficial de Brasília, BRB, que quando mudou a direção
do Banco o patrocínio caiu e aí eu voltei pro Rio.
E voltei pra Rádio Globo. Antes disso, eu fiquei trabalhando
como assessor de imprensa da Beth Carvalho. Foi muito legal, eu
participei da produção do disco "Pagode de Mesa",
do último disco dela da Universal. Até assinei o encarte
do disco, até cantar no disco eu cantei! E caí no
samba com a Beth. Adoro samba, sempre fazia rodas de samba na minha
casa e convivi com esses poetas maravilhosos, conheci tanta gente
maravilhosa. Depois eu voltei pra Rádio Globo e em seguida
me veio o convite pra que eu montasse a Rádio Viva Rio. A
ONG Viva Rio fez um convênio com o Sistema Globo de Rádio.
O José Roberto Marinho faz parte do Conselho do Viva Rio
e a Rádio Mundial estava ociosa. Nós estávamos
com uma experiência na internet, a Rádio Favela, e
depois passamos pro AM 1180 khz. Eu estruturei a emissora dentro
das condições limitadas que nós tínhamos,
e fiquei no Viva Rio um tempo. Ali eu tive muitas alegrias e muito
sofrimento também, até que eu percebi que a missão
já estava cumprida, a emissora já estava no ar. Eu
tinha um programa lá, o "Chegando no Pedaço",
que foi muito prazeroso.
AO - Continua lá, não continua?
CM - Não, o "Chegando no pedaço" não,
até porque esse é um nome meu. Ali eu procurava botar
a pulsação da cidade do Rio, a identidade carioca,
os sambistas, os compositores e também quadros sobre meio
ambiente. André Trigueiro tinha um quadro diário no
meu programa, o "Conexão verde". Ele fala com muita
propriedade da questão ambiental, é um jornalista
que tem formação especializada nisso, tem muito conhecimento.
Tinham também repórteres comunitários entrando:
um repórter na Maré, outro repórter na Rocinha,
em diversas comunidades eu tinha os repórteres. Era interessante
porque eles traziam pautas que somente quem mora no pedaço
tem condições. Então começou a surgir
a possibilidade de eu vir pra cá assumir a Rádio Nacional
do Rio de Janeiro. Comecei a trocar uns e-mails com o presidente
da Rádiobras, Eugenio Bucci, até que ele me chamou,
me convidou pra ir a Brasília e formalizou o convite pra
assumir aqui a chefia do escritório da Rádiobras no
Rio de Janeiro. Então o caminho pra chegar até aqui
foi mais ou menos esse.
AO - Desde quando você assumiu?
CM - Em junho de 2003 eu assumi. E assumi num momento muito interessante
porque a Rádio Nacional do Rio de Janeiro passou um período
muito difícil, depois dela ter estado entre as 5 maiores
emissoras do mundo. Mas os contextos mudam e a televisão
chegou, houve aquele êxodo também, a realidade passou
a ser outra. Já Radiobrás, ela passou um período
muito difícil, de decadência mesmo. E eu assumi, num
momento, como eu disse, interessante, porque era o momento que estava
sendo articulado o convênio com a Petrobras de revitalização
da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. É um convênio
de R$1.700.000,00. Esse dinheiro não entra na Radiobrás,
porque a própria Petrobras licita, e a própria Petrobras
contrata, e nós juntos fazemos o acompanhamento de todo o
processo, e esse dinheiro vai ser empregado em quê? Na compra
de um novo transmissor de 50khz em estado sólido, é
uma tecnologia de ponta, apta a receber a tecnologia digital que
está vindo aí, e que vai dar à emissora um
som de qualidade excelente, melhor que FM, praticamente digital
já hoje.
AO - Dentro da AM a qualidade desse transmissor que vai entrar
pra Rádio Nacional, existe alguma emissora hoje que supere?
Seria o melhor?
CM - É "top de linha", eu não sei se alguma
tem já emissão em estado sólido, talvez o Sistema
Globo que é um pouco mais potente. Mas a Tupi, que é
a primeira colocada, é à válvula. Além
do transmissor novo vamos fazer reformas dos nossos estúdios
e também a atualização de todos os equipamentos,
porque os equipamentos que nós temos aqui são jurássicos,
são obsoletos, e a reconstrução do auditório
da Rádio Nacional, que nos anos 40/50 tinha cerca de 500
lugares e agora vai ter 150.
AO - Essa reconstrução do auditório, assim
como a reforma dos estúdios, visa uma modernização
ou uma conservação? O Estúdio era 500 lugares
vai passar pra 150, uma redução considerável.
Nesse auditório o que se pretende fazer?
CM - Veja bem, não é real você ter um auditório
de 500 lugares hoje. Naquele tempo - esse prédio é
de 1929, foi o primeiro arranha céu, como se chamava da América
Latina, e não havia nenhum outro prédio em volta -
a Rádio podia receber tanta gente. Hoje nós dividimos
esse prédio com o INPI que ocupa vários andares. Mesmo
assim, acho que 150 lugares é um bom numero. Você me
perguntou o que nós vamos fazer. Nós vamos fazer diversos
programas de auditório. A idéia é fazer um
chamado "Porta Aberta", que é o nome de um quadro
que eu tinha, voltado só pra apresentação de
novos valores da música popular brasileira, lançamentos
de CDs, e não precisa ser só os novos valores. Há
compositores talentosíssimos que são colocados à
margem da radiodifusão pela cultura do jabá, pela
cultura da celebridade, pela cultura do consumo. Por exemplo, Luiz
Carlos da Vila está lançando um CD agora, ele é
um dos maiores poetas que esse país tem. Ele vai tocar em
que rádio? Nós fazemos questão de rodar Luiz
Carlos da Vila. Porque nós temos que enfatizar a cultura
carioca, a legitimidade da nossa expressão, enfim da nossa
identidade. Esses programas vão ser ao vivo. Nós prevemos
para o "Porta aberta" lançamentos de CDs de diversos
artistas. Ao longo da programação vai entrar o "Muito
Prazer", são quadros: um músico novo, independente,
ou de gravadoras pequenas nacionais, se apresenta e rola uma música,
deixa e-mail, telefone e segue a programação, daqui
a pouco outra, mas só uma música. No "Porta Aberta"
ele vai apresentar o trabalho dele de uma forma mais completa, mais
global. Estou tentando trazer a Dorina que eu levei pra Rádio
Viva Rio, a Dorina é uma pessoa que cresceu com o Zeca, cresceu
com o samba. Ela é de uma legitimidade, ela é tão
inteira naquilo que ela é. E conhece aquele samba do subúrbio
que é o samba que veio com o Cacique de Ramos, naqueles pagodes
do Cacique nos anos 80 e que mudou o som do samba e que revelou
tanta gente como o grupo Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, Arlindo
Cruz, Jorge Aragão, enfim, Almir Guineto, Sombra, Sombrinha,
então, a Dorina traria essa vertente. Outro programa de auditório
seria o "Homenagem Nacional", nome provisório,
em que a idéia é que eu consiga ter aqui um sexteto
de plantão na casa daqueles que você chega e diz: "ré
maior!!", e seja samba, seja o que for eles vem, e a gente
fazer a cada Quinta-feira uma homenagem a um grande nome, que marcou
época na história da música popular brasileira:
uma homenagem a Geraldo Pereira, com Lenine cantando; Zeca Baleiro
vai cantar repertório da Emilinha...
AO - Tem alguma coisa que resgatasse os próprios artistas
que começaram na Nacional ?
CM - Mas é claro. Na Sexta-feira será o "Memória
Nacional". A idéia é poder contar com o Ricardo
Cravo Albin apresentando. Eu fui ver recentemente um espetáculo
dele, ele homenageando a Nora Ney, reunindo no palco a Carmélia
Alves, a Violeta Cavalcante, a Elen de Lima e a Carminha Mascarenhas,
em que ele se colocava como apresentador e um conjunto tocando a
vinheta "Ninguém me ama, ninguém me quer...",
essa era a vinheta que separava os quadros. E foi genial. Um espetáculo
assim que ele fez com pouquíssimas condições
e ficou muito bonito, ficou com uma dinâmica muito bem feita,
um roteiro muito bom, a vinheta entrava na hora certa, separava
bem os quadros, uma seqüência bacana. Aí eu visualizei
ali um programa, ele fazendo aquele - porque o Ricardo já
é muito formal, pra ele fazer o gênero antigo não
é muito difícil - "apresentadorr" com os
"erres" todos característicos da época da
"PrrrE8", "Rrádio Nacional", apresentando
Cauby, Marlene, Emilinha, Carmélia Alves, Carminha Mascarenhas,
essas pessoas estão todas aí, Adelaide Chiozzo. Eles
foram contratados, eles foram artistas de grande sucesso na Rádio
Nacional. Então você fazer isso significaria você
reverenciar a história, você reverenciar o significado
desses artistas e você proporcionar ao público essa
oportunidade de ter uma idéia do que foi aqui a Rádio
Nacional.
Também essa área do centro da cidade está
sendo revitalizada e nós entendemos que esse prédio
aqui é histórico, e até arquitetonicamente,
como o primeiro Arranha Céu da América Latina, ele
inaugura a chegada da Art dêco no Brasil. E ele é o
prédio da Rádio Nacional, então você
imagina os turistas, não só as pessoas da cidade,
mas os turistas "vamos a Rádio Nacional, tem um programa
de auditório com Cauby Peixoto, com Emilinha, com Marlene",
é genial isso, memória viva. Então nós
vamos estar inscrevendo a Rádio Nacional nesse contexto todo
de revitalização até da área. A revitalização
da Rádio Nacional em si já vai colaborar não
só pra melhoria da auto estima dos funcionários da
Casa, como da própria Cidade, porque essa emissora está
na memória afetiva do carioca, a Radio Marinck Veiga foi
muito importante, mas ninguém chora por ela, nem por outras
emissoras que desapareceram, ninguém faz passeata. Agora,
a Rádio Nacional está presente na memória,
ela é uma referência, como o Copacabana Palace é,
como o Tabuleiro da Bahiana era na Galeria Cruzeiro, que não
existe mais, o Cassino da Urca, enfim, a Rádio Nacional faz
parte disso.
AO - Saiu uma matéria em maio do ano passado no
JB, que desencadeou uma passeata em favor da Rádio Nacional,
com as diretrizes do que seria a nova programação
da Nacional, e que muita coisa viria de Brasília. Por conta
disso pessoas no Rio se mobilizaram, os artistas que trabalharam
na Nacional, os radialistas que continuavam aqui, e fizeram uma
manifestação dizendo que não queriam aquilo.
Quando você assumiu, teve uma diretriz de programação
ou você está tendo "carta branca" para pensar
a programação? E os atuais funcionários da
rádio, como é que eles estão reagindo às
suas idéias?
CM - Isso são águas passadas, essa história
que causou essa mobilização toda. Eu assumi com o
compromisso primeiro de trabalhar internamente. A casa tinha muitos
problemas internos e eu senti que havia uma fragmentação
muito grande: o jornalismo voltado exclusivamente pra Brasília
produzindo nada para o Rio de Janeiro, a Rádio Nacional do
Rio estava mais próxima de Brasília do que dos estúdios
que ficam aqui no 21º andar, o jornalismo fica no 20º.
Então havia uma fragmentação desse fluxo interno,
a produção não estava fluindo, a produção
e o jornalismo não estavam interagindo. Problemas também
de fragmentação no próprio comando, eram 3
áreas em choque, mais ou menos uma coisa nesse sentido assim,
pelo menos foi o quadro que eu percebi e isso foi neutralizado porque
eles recriaram o cargo de chefe de escritório justamente
pra resolver essas coisas. Eu faço a interlocução
com Brasília e tudo se reporta a mim aqui hoje. E aí
eu passei a trabalhar no sentido de promover essa integração,
então nós fizemos alguns remanejamentos de chefia.
Hoje nós acabamos com a gerência da Rádio, e
designamos a produtora Fatima Bonfin - que está aqui a 25
anos, entrou aqui como estagiária é uma pessoa fantástica,
entusiasta, "veste a camisa", enfrenta as dificuldades
como se estivesse trabalhando na BBC, com todas as condições
-, e ela assumiu a chefia da Rádio. Trouxemos o Agilson Guimarães
de Brasília que já tinha sido daqui, pra checar o
jornalismo. Então conseguimos promover essa integração
entre o jornalismo e produção, e alguns remanejamentos
na grade de programação. Mas sem trazer ninguém
de fora, eu não trouxe até hoje nenhuma pessoa.
Chegamos a questão da programação em si. Eu
conversando com o Presidente, Eugênio Bucci, mostrei para
ele uma proposta de grade de programação. Essa proposta
já foi transformada, e novas idéias de programas são
frutos da minha reflexão, da minha vivência e das conversas
que eu tenho internamente e também externamente. Eu recebi
o Forum de Música, junto com o Vereador Eliomar Coelho, e
com de várias outras pessoas que são representativas,
para ouvir as expectativas que eles tem em relação
a uma Rádio como a Nacional, que é uma emissora pública.
Nós estamos num momento em que eu estou elaborando o plano
editorial. É um método de trabalho que a diretoria
da empresa tem e eu acho que é interessante, porque isso
aqui precisa ser uma coisa estruturada. São alicerces, você
tem que plantar. É muito lento o processo, exige muita paciência,
é muito meticuloso mas eu acho importante porque ele instala
o alicerces, as condições pra um processo sólido,
e desse plano editorial eu vou ter, ele aprovado, a noção
das contratações possíveis, quer dizer, se
eu poderei contratar além do concurso, porque eu preciso
trazer alguns talentos. Já liguei para o Aldir Blanc e ele
já se predispôs a vir fazer um programa aqui, uma crônica
diária, ainda se ofereceu a fazer texto humorísticos.
Achei um luxo poder ter o Aldir Blanc, ainda mais num processo em
que a gente quer fortalecer, evidenciar a identidade carioca da
emissora, nada mais carioca do que Aldir Blanc. Mas o Aldir eu não
posso trazer por concurso, tenho que trazer pelo que se chama de
função comissionada, justificar como? É a contratação
de um talento. Então assim como ele há outros talentos
que eu gostaria de ter conosco pra complementar o quadro, e a gente
produzir impactos na cidade. Isso tudo está sendo discutido.
A programação não virá de Brasília.
Fica muito claro que essa direção quer que as emissoras
todas, que tem contrato com a Radiobras, tenham um foco bastante
acentuado no espaço político, no jornalismo cobrindo
o espaço político brasileiro. Tudo bem, e aí
eu acho que nós temos que trabalhar com música e informação.
Agora é claro, não se está reconstruindo o
auditório da Rádio Nacional pra ficar fazendo noticiários
exclusivamente ou programas jornalísticos. Então eu
vejo como proposta nossa uma conjugação de música,
com muita informação e com muito entretenimento. Essa
programação está nascendo, ainda não
posso garantir pra você se esse programa ou aquele outro programa
vai, nós estamos passando por um momento de discussão
interna e finalizando esse processo. Eu preciso ter aprovado esse
nosso plano editorial, porque ao aprovar o plano editorial não
significa você aprovar só uma idéia, significa
você aprovar um conjunto de providências, todo um apoio
logístico. Não existe nem a "carta branca",
porque é uma equipe, e eu faço parte dessa equipe,
mas também não existe a imposição, o
que existe é todo um estudo coletivo e um debate de idéias,
de propostas e disso aí você pode ter certeza que virá
uma nova Rádio Nacional, e acredito tanto nisso porque não
se faria convênio com a Petrobras, repito, pra se reconstruir
o auditório, pra se fazer um concurso público, fazer
tantas melhorias se não fosse para a emissora revitalizar
também a sua identidade, e toda aquela força cultural
que a Rádio Nacional sempre teve.
AO - Ela continua sendo ouvida no Brasil inteiro?
CM - Não, nós hoje temos um transmissor de 100 khz,
valor nominal, mas operando com 20khz no máximo, é
valvulado e as válvulas se desgastam e vão perdendo
a potência. O que acontece hoje é o seguinte: nós
temos a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, que agora com o
novo transmissor, com essa tecnologia de estado sólido, vai
atingir grande parte do Estado. Nós temos a Rádio
Nacional de Brasília, que atinge a região Centro-Oeste,
e temos a Rádio Nacional da Amazônia. O que pode acontecer
é a Rádio Nacional do Rio de Janeiro ter programas
que por sua excelência ou por sua pertinência sejam
transmitidos em cadeia, então nós vamos ter momentos,
em grande parte do país, lincados.
AO - E o inverso você também acha que é
possível, vir de Brasília ou da Amazônia?
CM - É, porque nós temos também o Nacional
Informa, por exemplo, que entra no ar no momento de meia em meia
hora, ele vem de Brasília. Nós temos outros programas,
o Revista Brasil, que está sendo discutido, mas ele também
vem de Brasília. Eu entendo a Rádio Nacional do Rio
de Janeiro, como qualquer emissora Radiobras. Nessa maneira de se
pensar as comunicações, o regional e o local, é
muito importante evidente a população da área
em seu entorno tem que se identificar com a emissora. Então
é esse equilíbrio que nós estamos procurando
construir e tenho certeza que nós vamos conseguir. A Nacional
tem que recuperar a sua identidade carioca, ela tem que ser uma
emissora um pouco regional e também nacional, então
através da Rede Radiobras ela tem que ter os seus momentos
de rede e os seus momentos locais, isso tem que ser feito de uma
maneira bem equilibrada.
AO - Esse auditório está previsto pra ser reinaugurado
dia 3 de maio, essa data tem algo de especial?
CM - Tem, porque a Petrobras encerra o ciclo comemorativo do seu
cinqüentenário , e isso vai dar uma visibilidade muito
grande pra a gente, porque é um marco, e é muito importante
porque a Petrobras tem um papel muito forte na construção
da nacionalidade, no fortalecimento da noção de nação,
e Rádio Nacional também. Ela foi muito utilizada,
foi muito manipulada, todos nós sabemos, mas é incontestável
que a Nacional colaborou muito para a idéia de Nação.
Outro dia eu recebi um pesquisador lançando um disco "Piauí
dá samba", um negócio desse, e tinha escolas
de samba dos anos 40 que ele recuperou através da pesquisa
e tinha escolas mais recentes, eu perguntei: "mas vem cá,
como é esse negócio do samba no Piauí nos anos
40?", "ué, Rádio Nacional". Porque
eles ouviam na Rádio Nacional e reproduziam. Então
o motivo do 3 de maio é esse, "Petrobras encerrando
o ciclo comemorativo do seu Cinqüentenário, reinaugurando
o emblemático Auditório da Rádio Nacional".
AO - Aproveitando que a gente tá falando de parcerias,
como essa bem sucedida com a Petrobras, pretende-se outras parcerias?
CM - Eu acho que o caminho é esse, acho que nós temos
que ampliar esse leque de parcerias porque por exemplo, agora esse
projeto todo de revitalização prevê também
a construção do Museu Rádio Nacional e esse
museu implica numa parceria, porque, veja só, onde está
a nossa memória? 60% da nossa memória está
no Museu da Imagem e do Som, aqui nós temos 40%, que tem
os seus problemas também. Então o acervo, a memória,
de uma certa forma está ameaçada. Além do MIS
e da Rádio Nacional a nossa memória também
está em acervos particulares, está no Arquivo Público
Estadual, na Biblioteca Nacional, está espalhada. A primeira
coisa é você reunir o conteúdo dessa memória,
porque nós estamos na era digital e o que interessa é
o conteúdo, cada um fique com os seus suportes, vamos reunir.
Isso é um trabalho grande, longo, ninguém pode ter
a presunção que vai fazer isso da noite pro dia, tudo
tem que ser iniciado, tem que ter a catalogação, depois
digitalização, e esse conteúdo são partituras,
são roteiros de novelas, PRK30, gols históricos, etc.
AO - Pensam em lançar essa coleção depois
de catalogada, como você vê hoje em CDs ou DVD?
CM - Existe aí uma tal de Colector Estúdio que comercializa
isso, nós estamos até preocupados com isso, e estudando
isso, porque não houve nenhum convênio com a Rádio
Nacional, e utiliza esses programas e a marca Rádio Nacional.
Enfim nós vamos fazer o museu da Rádio Nacional ,
e o pesquisador virá aqui e vai acessar o que ele quiser,
vai ter à sua disposição também os suportes,
do lado do nosso estúdio de radio teatro que era o centro
de sonoplastia e nossas novelas que tá sendo recuperado.
AO - Você vai voltar a ter rádio teatro?
CM - Vamos. E do outro lado, no final no 22º andar, faremos
o Café Rádio Nacional, lá no terraço,
onde estamos criando a Sociedade dos Amigos da Rádio Nacional,
que vai explorar esse café. Então a coisa está
se formando, está ficando bonita. Radio novela nós
vamos ter sim. A princípio episódios. Eu quero muito
um convênio, eu já tive uma conversa rápida
com Guti Fraga sobre isso, eu queria muito o "Nós do
Morro" aqui, eles são patrocinados também pela
Petrobras. Seriam episódios, não só o "Nós
do Morro", mas grupos comunitários que estão
se proliferando e também alunos de escola de teatro, e aí
seria interessante ter episódios. Com o "Nós
do Morro" a minha expectativa é que eles produzam episódios
baseados no contexto deles, coisa de 10 / 15 minutos. Eu acho também
importante o humor, a gente quer voltar a ter o humor no ar, e vocês
estão falando em dramatizações. Eu estou aberto
pra estudar possibilidade de novelas mesmo, com capítulos,
mas nós queremos estudar isso muito bem. Nós não
temos que fazer a rádio antiga, "rádio mofo"
nós temos é que fazer a nova rádio reverenciando
o que existe de mais significativo na história da rádio
no País, mais é uma rádio atualizada.
AO - Aproveitando o assunto parcerias, quais são as possíveis
parcerias com a Rádio MEC, além da utilização
do mesmo local de transmissão. A MEC também vai ser
beneficiada pelo convênio com a Petrobras para a compra do
novo transmissor para a Nacional?
CM - Vai, esse convênio com a Petrobras prevê um transmissor
para Radiobras, para a Radio Nacional e para a Rádio MEC
também. Eu faço parte do grupo do Rio que tem se reunido
com a Petrobras, que tem elaborado todos esses documentos, estudos
e relatórios, todo esse trabalho necessário para a
realização das licitações e referentes
a esse projeto de revitalização da Rádio Nacional
do Rio de Janeiro. O transmissor da Rádio MEC que vem junto,
ele está nesse momento, sendo objeto de discussão.
AO - Não é o mesmo?
CM - Não, não é o mesmo, o da Rádio
Nacional já tá definido, agora, eu não tenho
elementos suficientes quanto que tá destinado para a Rádio
MEC. A licitação para o transmissor da Rádio
Nacional já tá em processo, e a licitação
do transmissor da Rádio MEC, ou a solução referente
ao transmissor da Rádio MEC, está sendo objeto de
discussão com a direção da ACERP. Então
eu acho que é uma outra espera, uma outra instância
e não me sinto com elementos pra te definir melhor isso.
Agora o que eu percebo, o que eu acompanho é que a Rádio
MEC faz parte desse convênio. Vamos torcer para que a Rádio
MEC possa ter também um transmissor de 50khz como a Rádio
Nacional.
Nós já dividimos o mesmo parque de transmissores,
e agora estamos resolvendo também o problema do gerador,
que estava quebrado há 1 ano. Lá há muita falta
de energia e toda hora as emissoras saem do ar. Mas eu estava numa
reunião na Petrobras, justamente discutindo o futuro brilhante
que é o novo transmissor, os novos equipamentos, mas a Rádio
tinha saído no ar no sábado a tarde inteira. Deixamos
de transmitir um monte de coisa e me ligam no celular pessoal me
informando que em 40 minutos a Rádio Nacional tinha saído
do ar 5 vezes, e aí quando teve uma brecha eu coloquei pro
pessoal da Petrobrás essa questão. Eles imediatamente
disseram "isso não pode continuar". Porque já
há um envolvimento entre a Petrobras e a Radiobras. Então
eles criaram uma licitação de emergência para
esses itens do reparo no transmissor e o reparo do gerador. Agora
eu tenho certeza que essa questão do transmissor da Rádio
MEC muito em breve vai estar equacionada.
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