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Elas dão o que falar
A eterna batalha das rádios comunitárias
e as novidades de 2008 que causaram alvoroço no movimento
por Robson
Santos
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Depois de muitos anos
de luta e dificuldades, o movimento das rádios
comunitárias conquistou em 2008 uma vitória
significativa. Agora, aqueles que respondiam a processo
por atuar sem licença poderão ser anistiados,
o que representa o fim da ameaça de prisões.
Em contrapartida, no mesmo ano, a aprovação
de um outro projeto de lei, gerou polêmica e colocou,
em lados opostos, rádios comunitárias
e universitárias.
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Uma luz no fim do túnel
De autoria do deputado Walter Pinheiro (PT-BA), o substitutivo
ao Projeto de Lei 4.549/98 (do ex-deputado Salvador Zimbaldi),
aprovado em dezembro do ano passado pela Comissão de
Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática
(CCTCI) da Câmara dos Deputados concede anistia a operadores
de rádios comunitárias que atuavam sem outorga.
De acordo com o relatório de Pinheiro, presidente da
comissão, "os operadores dessas rádios
clandestinas, em sua maioria, foram forçados a operar
na ilegalidade, seja devido à falta de regulamentação
dos serviços de radiodifusão comunitária,
seja devido à demora do Poder Público para conceder
as outorgas".
Criado pela Lei 9.612, de 1998, o Serviço de Radiodifusão
Comunitária ainda não foi capaz de anular a
imagem de persona non grata de tais emissoras, que continuam
a ser vistas como piratas. Apesar do caráter educativo-cultural
e do objetivo social de muitas delas, parte dessas rádios
acaba atuando na clandestinidade devido à burocracia
para obter sua autorização de funcionamento.
Segundo dados de agosto de 2007, do Ministério das
Comunicações, das 19.170 entidades que desejavam
atuar como rádio comunitária, apenas 2.867 obtiveram
a concessão. A pesquisadora da UERJ/Faculdade de Educação
da Baixada Fluminense (FEBF) Helen Ferreira, desenvolve profundo
estudo sobre esse tipo de emissora. Apesar de considerar uma
prova de articulação do movimento e um avanço
a existência de uma legislação para as
comunitárias, Helen faz importante observação:
"depois de dez anos de vigência, percebemos que
o discurso sobre a concessão ainda paira sobre questões
de apadrinhamento para a conquista das mesmas. A legislação
não abrange as necessidades das comunitárias".
Na opinião de Helen, propostas como o apoio cultural
para conseguir verbas financeiras são insatisfatórias
em relação a obrigações como contas
de telefone, de luz e manutenção de equipamentos.
Aliás, um estúdio para funcionar precisa de
materiais de trabalho como um transmissor FM homologado pela
ANATEL, antena, mesa de som, microfone, tape-deck, toca discos,
cd-player, gerador estéreo, cabos etc. A mestranda
destaca ainda outro ponto que inibe a comunicação
popular: "alguns políticos oprimem a rádio
comunitária quando não há parcerias com
eles".
A pesquisadora comenta inclusive o andamento das autorizações
para funcionamento de uma rádio comunitária.
Para ela, os processos de legalização "ocorrem
dentro do mesmo parâmetro legal junto ao Ministério,
porém alguma coisa acontece". Helen Ferreira cita
o caso da Rádio Comunitária Novos Rumos (101,7
FM), atuante no município de Queimados: "foi uma
das pioneiras na luta por uma legislação que
contemplasse as rádios comunitárias e no entanto,
teve quatro processos arquivados junto ao Ministério
e depois de dez anos de legislação conseguiu
sua concessão. É no mínimo estranho que
isso ocorra, pois há rádios que entraram depois
com o pedido e obtiveram a concessão num prazo mais
rápido do que outras", diz.
Helen considera que interesses distintos dificultam o diálogo
entre as rádios comerciais e comunitárias. A
pesquisadora, defensora da liberdade de comunicação
e da diversidade de programação, acredita que,
enquanto as primeiras são produzidas para obterem lucro,
os atores do processo comunitário, mais do que conseguir
uma concessão, ousam, reinventam e quebram padrões
estéticos da grande mídia: "Ouvintes sintonizados
em uma rádio comunitária acabam afetando a audiência
das comerciais. Mas isso não deveria ser o problema,
pois há espaço para todos e é o público
que deve escolher o que quer ouvir".
A voz das comunitárias
se mostra potente
Com tantas dúvidas no ar e a repressão e a discriminação
sempre marcando presença, representantes do movimento
comunitário se articulam e se organizam para exigir
mudanças. Diretor da Federação das Associações
de Radiodifusão Comunitária do Rio de Janeiro
(FARC-RJ) e diretor fiscal da Associação Brasileira
de Radiodifusão Comunitária (ABRAÇO -
Nacional), José Roberto, mesmo sem informar um número
exato, afirma que atualmente há muitas rádios
comunitárias no Rio, muitas delas nas mãos de
pessoas sem nenhum compromisso com o movimento: "as comunidades
precisam entender que as rádios são um patrimônio
e que todos têm que tomar conta. Não devemos
deixar que espertinhos tomem a frente dessas organizações,
que são puramente de formação comunitária".
Maninho, que também é secretário geral
da ARCOM (Associação de Radiodifusão
Comunitária) do Sul Fluminense, diz que as comunitárias
não são bem vistas, pois atuam em nome da liberdade
de imprensa e da verdadeira comunicação de sociedade.
O representante critica a dificuldade para se obter a tão
sonhada autorização: "o Ministério
protege as rádios religiosas ou políticas, estas
indicadas por um político de peso, e não prioriza
a rádio comunitária, que realmente educa o cidadão.
O governo não tem ação contra os grandes
empresários da mídia", afirma.
E para aqueles que tentam driblar tantos obstáculos,
o resultado de tal ousadia pode significar uma dor de cabeça
sem precedentes, com a visita inesperada da polícia,
apreensão de equipamentos e um temível processo
criminal nas costas. Para o diretor fiscal da ABRAÇO,
a aprovação do Projeto de Lei 4.549/98 na comissão
é justa: "sempre afirmamos que estávamos
sendo injustiçados. Acreditávamos em uma virada
pois não existe lei para fechar rádios comunitárias".
O substitutivo do relator Walter Pinheiro revoga o rigoroso
artigo 70 da Lei n° 4.117, de 1962 (Código Brasileiro
de Telecomunicações- CBT), que prevê pena
de detenção para toda transmissão sem
autorização. Outra medida sugerida foi uma nova
redação para o artigo 183 da Lei n° 9.472,
de 1997 (Lei Geral de Telecomunicações- LGT),
para corrigir equívocos e esclarecer "que algumas
das penas previstas não se aplicam à radiodifusão
operada em baixa potência e com fins comunitários".
Por ser mais recente, o artigo da LGT passa a ser a única
previsão legal sobre o assunto.
De acordo com o relatório do parlamentar
"as rádios comunitárias verdadeiras, operando
com ou sem outorga, não representam uma ameaça
à radiodifusão comercial, à população
ou ao sistema de controle do tráfego aéreo,
como muitos querem fazer crer".O projeto agora segue
para a Comissão de Constituição e Justiça
e de Cidadania e depois para o Plenário da Câmara.
Ondas sonoras geradoras de
polêmicas
Em 2008 uma outra notícia causou alvoroço no
movimento comunitário. Mas dessa vez, a notícia
foi considerada polêmica e vista com desconfiança.
Trata-se do Projeto de Lei 5172/05, do deputado Celso Russomanno
(PP-SP), aprovado em novembro pela CCTCI, que dá autorização
às instituições de ensino superior para
operar rádios comunitárias.
O projeto é um substitutivo do relator, o deputado
Fernando Ferro (PT-PE), que agora o amplia:escolas de nível
médio, instituições particulares de ensino,
escolas técnicas federais e centros vocacionais tecnológicos
também poderão ter uma emissora. O texto possibilita
ainda, a outorga de mais de uma estação para
as universidades que tenham mais de um campus.
De acordo com o relatório de Fernando Ferro, a entidade
de ensino particular interessada deve se comprometer a dar
preferência a finalidades educativas, artísticas,
culturais e informativas. Segundo a Agência Câmara,
o relator argumentou que muitas escolas de nível médio,
em especial as públicas, situam-se em regiões
carentes de infra-estrutura. O deputado informou que as rádios
comunitárias ajudarão no processo de desenvolvimento
sócio-econômico. Agora, o projeto, que havia
sido rejeitado pela Comissão de Educação
e Cultura em 2007, será examinado pela Comissão
de Constituição e Justiça e de Cidadania.
Se for aprovado, segue para o plenário.
A Agência Câmara também informou que o
autor do projeto considera que "os altos custos de uma
rádio educativa, inviabilizam o seu funcionamento nas
instituições de ensino públicas. A rádio
(comunitária), mais barata, é mais compatível
com a realidade universitária", afirmou Celso
Russomanno.
A atual legislação autoriza as universidades
a executarem serviços de radiodifusão em emissoras
educativas. A paulista Rádio USP FM e a mineira Rádio
UFMG Educativa, são bons exemplos de comunicação
universitária: ambas apresentam uma programação
musical variada, divulgação de atividades no
campus, informes jornalísticos e cultura. Podemos citar
outros resultados bem sucedidos, como a Rádio Universitária
de Recife (AM e FM), pertencente à Universidade Federal
de Pernambuco, a gaúcha Unisinos FM, em São
Leopoldo, e a Rádio Universidade FM, da Universidade
Estadual de Londrina.
No Rio de Janeiro, no entanto, o quadro não é
dos mais favoráveis: a UFF, por exemplo, não
possui rádio no dial. Para driblar as barreiras, a
UERJ aliou criatividade à tecnologia: desde 2005, é
detentora de uma webrádio, responsável por uma
programação contínua (de segunda a sexta,
das 8 às 20hs). Já a Rádio Interferência,
localizada no campus da UFRJ, na Praia Vermelha, funciona
sem concessão.
Apesar das boas intenções, o movimento comunitário
vê com ressalvas a aprovação. Na opinião
do coordenador executivo da ABRAÇO Nacional, José
Sóter, o projeto é um grande equívoco,
pois emissoras comunitárias não cabem no conceito
de rádio universitária. Para Sóter, caso
haja uma segmentação das emissoras de baixa
potência, as comunitárias não terão
espaço: "Se isso for adiante será o fim
das rádios comunitárias, pois as igrejas se
legitimarão com as "suas" rádios comunitárias,
as ongs correrão para montar suas rádios comunitárias
ecológicas, do movimento negro, do punk, do hip-hop,
dos portadores de necessidades especiais, de sindicatos e
assim por diante".
O coordenador acredita que há espaço para a
criação de "rádios laboratórios"
para as escolas técnicas e superiores, sem concorrer
no espectro com as rádios comunitárias. O representante
da ABRAÇO aproveita para fazer um balanço do
quadro atual no país: "rádio de baixa potência,
autorizadas ou não, temos por volta de cinco mil. O
resto é de oportunistas se aproveitando da legalização
do serviço e usurpando esse direito das comunidades
por interesses religiosos, empresariais e ou políticos".
Sem dúvida 2008 foi um ano movimentado para as rádios
comunitárias. O medo das prisões e dos processos
perde força e fica cada vez mais distante com a aprovação
da desejada anistia, o que garante um horizonte mais ameno.
Mas nem tudo são flores, pois um clima desagradável
pode surgir entre as emissoras universitárias, locais
nos quais jovens colocam em prática seu aprendizado
comunicativo, e as comunitárias, muitas delas dedicadas
a dar voz às suas localidades. Polêmicas à
parte, a luta das comunitárias por mais espaço,
respeito e menos burocracia vai continuar. Definitivamente,
essas rádios dão o que falar.
O que é?
Radiodifusão Comunitária
Trata-se de radiodifusão sonora, em freqüência
modulada (FM), de baixa potência (25 Watts) e cobertura
restrita a um raio de 1km a partir da antena transmissora.
Podem explorar esse serviço somente associações
e fundações comunitárias sem fins lucrativos,
com sede na localidada da prestação do serviço.
As estações de rádio comunitárias
devem ter uma programação pluralista, sem qualquer
tipo de censura, e devem ser abertas à expressão
de todos os habitantes da região atendida.
Radiodifusão Educativa
É o Serviço de Radiodifusão Sonora
(rádio) ou de Sons e Imagens (TV) destinado à
transmissão de programas educativo-culturais, que,
além de atuar em conjunto com os sistemas de ensino
de qualquer nível ou modalidade, vise a educação
básica e superior, a educação permanente
e formação para o trabalho, além de abranger
as atividades de divulgação educacional, cultural,
pedagógica e de orientação profissional.
Tópico em discussão (referente ao projeto
de lei que permite a instalação de rádios
comunitárias em universidades e escolas técnicas)
no site Radiotube, enviado por Rosangela Fernandes, no dia
19 de novembro de 2008: "Você é a favor
de rádios para Universidades?". Abaixo, algumas
respostas a respeito do assunto:
" João Malerba Retrocesso travestido de avanço
(Enviado em 21Novembro 2008 12h49)Essa é uma daquelas
propostas com finalidades positivas, mas com conseqüências
danosas. Todos aqui somos a favor do fortalecimento das rádios
educativas e de vínculos mais estreitos entre as rádios
comunitárias e as Universidades. Acontece que essa
lei favorece as rádios educativas a custa das comunitárias.
A gente não pode perder de vista as limitações
da lei de radiodifusão comunitária do Brasil
que reserva somente um canal no dial e impede que mais de
uma emissora opere numa pequena área de abrangência.
Quando esse projeto de lei enquadra as rádios educativas
no processo de outorga das rádios comunitárias
o que ele faz é limitar ainda mais um espaço
que já é restrito. O que temos que fazer é
lutar por MAIS espaço, não pelo MESMO espaço...
Se a atual lei de rádio educativa inviabiliza a criação
dessas emissoras, o ideal é alterar a própria
lei de radiodifusão educativa. Temos que tomar muito
cuidado com essas armadilhas jurídicas.
" Douglas Vieira Concessão tem que
ser para comunidade. (Enviado em 21Novembro 2008, 12h27)Eu
acho que a concessão tem que ser exclusivamente para
as comunidades. Se a Universidade quiser participar beleza.
Se a escola der qualquer tipo de apoio melhor ainda. É
com a participação popular que se faz as rádios
comunitárias. É isso que eu acho.
" Clara Araújo Ideal x Real (Enviado
em 21Novembro 2008, 08h28)Idealmente, a proposta é
boa. As universidades, as públicas principalmente,
são em geral muito elitistas, voltadas para uma pequena
minoria. Por isso, todo e qualquer caminho que possa abrir
as universidades para que a comunidade usufrua mais diretamente
de seus benefícios, pra mim, é bem vindo. Agora,
a gente sabe que as coisas são muito bonitas na idéia,
no papel. Colocadas em prática, a coisa muda muito
de figura. Mas eu ainda acho que temos que lutar para que
os ideais se tornem realidade. Não dá para não
tentar. Voltando ao começo, as universidades são
públicas e têm que ser ocupadas pelo público.
E, talvez, criar uma rádio comunitária dentro
delas seja um bom começo.
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