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Ela é a nossa maior autoridade
em Camões e Fernando Pessoa. Professora Emérita
de Literatura Portuguesa da UFRJ e da PUC-RJ; Doutora Honoris
Causa da Universidade de Lisboa; Visiting Professor da Universidade
da Califórnia, campus de Santa Barbara; Professora
Convidada da Pós-Graduação da Universidade
de Lisboa; e autora de livros publicados no Brasil e em Portugal,
que lhe valeram o título de maior especialista dessa
disciplina no Brasil, Dona Cleo, que, desde abril, ocupa a
cadeira nº 8 da Academia Brasileira de Letras, também
trabalhou na Rádio MEC, durante quase 20 anos, produzindo
um programa semanal. Dona Cleo, em vez de nos receber em sua
casa, fez questão de visitar a Rádio, para matar
as saudades e conceder esta entrevista.
Como se deu a sua vinda para a Rádio MEC?
Quem me trouxe para cá foi um amigo querido: o grande
poeta Manuel Bandeira. Conversando com ele, um dia, disse-lhe
que descobrira uma falha na programação da
Rádio MEC a única que ouço,
desde longo tempo, por ser uma admiradora constante dos
seus programas musicais e, naquele tempo, literários.
Eu sabia que ele era muito amigo de Murilo Miranda, então
diretor da estação, e resolvi aproveitar o
encontro para lhe dizer, sem cerimônia: Manuel,
estou estranhando que a Rádio MEC tenha um belíssimo
programa sobre Dante, feito por Adolfo Celli, outro sobre
Shakespeare, e não tenha nenhum sobre Camões.
Não acha isso mau? Ele respondeu-me, rápido:
Você o faria? Respondi-lhe, sem hesitar:
Claro! Então, aguarde. No
dia seguinte, ligou para me dizer: Cleonice, amanhã
vamos à Rádio MEC, porque o Murilo nos vai
receber.
Fiquei muito contente. Lá, à minha pergunta
sobre se de fato estava sendo convidada, o diretor respondeu:
Sem dúvida. A senhora entra logo que quiser.
O mais depressa possível respondi.
Nosso primeiro programa foi sui generis. Fizemo-lo Manuel
Bandeira e eu. Foi dele a idéia de chamar ao programa
Camões, poeta de todos os tempos. Adorei o título.
Durante os três primeiros meses, só falei do
poeta máximo.
Numa de suas crônicas para o jornal A Manhã,
mais tarde publicada no volume intitulado Colóquio
unilateralmente sentimental, Manuel, parodiando-se a si
mesmo, dirigia-se aos meus possíveis ouvintes, dizendo-lhes:
Meus amigos, meus inimigos. Aos sábados, às
15 horas, liguem seus rádios na onda da Rádio
Ministério da Educação e Cultura, para
ouvir, na voz bonita de Cleonice Berardinelli, Camões,
poeta de todos os tempos. Isso foi no ano de 1962,
quando ainda não havia televisão, nem tínhamos
computadores, dactilografando os programas em nossas
velhas máquinas de escrever.
Preparei, então, o primeiro programa, seguindo a
ideia de Manuel: Cleonice, que tal se começássemos
a série com uma conversa entre nós?
Achei ótimo. Não ensaiamos nada e viemos os
dois para cá, sem grande preparação.
Ele começou por fazer-me a pergunta: Cleonice,
você se dispõe mesmo a fazer vários
programas sobre Camões?, e eu lhe respondi
Naturalmente, com a maior satisfação:
falar sobre Camões para mim é sempre uma alegria
imensa. E aqui, na Rádio, descobriram um prefixo
musical lindíssimo, que infelizmente esqueci
com ele os programas passariam a ser apresentados. Conversamos
ainda mais, e ele: Você vai começar pelo
épico ou pelo lírico? Pelo lírico.
Muito bem. Aquilo me intrigou. Por que
muito bem? Porque, em geral, se privilegiam
Os Lusíadas e esquece-se toda a poesia lírica
de Camões. Foi por isso mesmo que eu
quis começar com o lirismo, porque sei que há
bastante gente que tem pelo menos noções d
Os Lusíadas, que terá, talvez, lido um soneto
ou dois de Camões, mas que nunca leu as lindíssimas
canções, as elegias, as bucólicas,
toda a sua poesia da medida velha, ainda com sabor de Idade
Média. Depois de Camões, vieram muitos outros
autores, abrangendo oito séculos de uma literatura
rica e variada. Não me lembro agora quantos programas
fiz, mas, se pensarmos que, durante quase 20 anos, de 62
a 82, fiz um programa por semana, tendo cada ano 52 semanas,
terei apresentado, seguramente, cerca de mil. Perdi, infelizmente,
os originais.
A senhora tinha experiência anterior com rádio?
Nunca. Isto é, quando tinha uns 8 anos de idade a
diretora do colégio entrou na sala e perguntou: Quantas
de vocês gostariam de ler um poema na rádio?
Claro que fui a primeira a levantar a mão, porque
eu dizia versos em casa, e adorava experiências.
Quando chegou o dia, fomos, as meninas e a diretora, à
única rádio que havia em São Paulo
vejam bem, isso foi em 1924 ou 25, no máximo.
Era ainda a infância da radiofonia brasileira, pois
a Rádio Sociedade é de 1923. Ficava situada
no Pavilhão das Indústrias, numa torre que
ainda lá está. Cada uma de nós disse
um poema. O meu era de A. E. Zaluar, poeta hoje quase completamente
esquecido. Era a história triste de um pobre passarinho
que, quando pela primeira vez viu um homem, foi por ele
morto com um tiro. Lembro-me ainda dos seus versos finais:
Ai, o filho das florestas / teve um bem fatal destino,
/ no homem que viu primeiro, / viu o primeiro assassino.
Vejam, ainda me vem à lembrança este último
quarteto do pequeno e dorido poema, que me deve ter marcado
a sensibilidade infantil.
Como era o formato do programa?
Era para durar meia hora: um dia na semana, às 3
da tarde, o programa ia ao ar. Eu fiz o texto e o li em
voz alta, para calcular o tempo, não esquecendo
que haveria intervalos musicais rápidos, intervalando
os meus períodos; fiz marcas onde seria bom fazer
as pausas, e fui gravar. Quando acabei, fiquei feliz de
ver que tudo coubera dentro do tempo reservado. O técnico
que fizera a gravação, Sr. Amílcar,
muito simpático, perguntou-me: A Senhora quer
ouvir-se? eu queria, naturalmente. Eu, em geral,
gravava de manhã e o programa era apresentado depois,
à tarde, nos sábados.
E quantas edições o programa teve?
O camoniano? Eu tenho a impressão de que uns três
meses, no mínimo. Depois, achei que seria oportuno
passar a outros autores, poetas ou não. Sabia que
o público da Rádio MEC tem um bom nível
intelectual o fato de escolherem a Rádio MEC
já sinaliza a escolha de música de alto nível,
o que se devia estender à literatura. Falei sobre
prosadores, poetas e dramaturgos, em séries de extensão
variada, mas a nenhum dediquei tanto espaço como
a Camões; que eu me lembre, só a Eça
de Queirós, muitos anos depois, e Fernando Pessoa.
Os programas eram sempre sobre poetas e escritores de língua
portuguesa?
De Portugal. De vez em quando eu punha um brasileiro
Manuel Bandeira, Drummond, Cabral, é claro; e prosadores
como Machado de Assis e José de Alencar.
Esses programas também geraram séries?
Sobre o Eça de Queirós, uma série de
3 meses. E fiz uma tentativa, uma espécie de provocação
ao público: falei durante 3 meses sobre a Demanda
do Santo Graal novela medieval, cheia de aventuras,
profundamente religiosa. O Santo Graal é a taça
preciosa na qual José de Arimatéia, que fora
ao enterro de Cristo, guardara gotas do seu Sangue. Depois,
ela desaparecera e os cavaleiros se disputavam a glória
de encontrá-la e levá-la a um lugar onde seria
reverenciada pelos católicos, naquele tempo de devoção,
não sei se mais profunda, mas pelo menos mais publicamente
manifestada.
O texto original, escrito em língua arcaica, não
era de fácil apreensão. Desejosa de torná-lo
acessível aos ouvintes, eu lia parte de um capítulo,
explicando-o miudamente, depois fazia um resumo e o explicava
em língua moderna, atual, comen-tando, ao mesmo tempo,
os termos arcaicos, valo-rizando-os. Eu não queria
apenas contar a histo-rinha, porque só contá-la
não lhe atribuiria nenhum valor literário
e não ressaltaria para o ouvinte a categoria do seu
possível autor. Quando cheguei ao fim, li, para encerrá-lo,
a expressão latina com que se dão graças
a Deus e com a qual o autor fechava a sua longa história:
Deo gratias. Não havia mais nada a ler. Calei-me
por segundos, e acrescentei: É o que estarão
dizendo os meus ouvintes, depois de 3 meses de Demanda do
Santo Graal. Graças a Deus terminou essa Demanda...
Acredito que alguns terão rido da minha brin-cadeira.
Se já estivéssemos no tempo da comuni-cação
eletrônica, talvez me tivessem chegado al-guns e-mails,
mas ouvi, de alunos meus que ouviam a Rádio MEC,
que tinham realmente achado graça, e talvez, entre
si, tenham dito: Deo gratias!
Agora vou-lhes contar duas pequenas histórias, bem
diversas, resultantes da recepção do programa
por duas pessoas bem diferentes: uma, desconhecida; outra,
um amigo muito fiel.
Meu marido tinha comprado para nós um apartamento
em Copacabana, num prédio dos mais antigos. O apartamento
necessitava de reparos mais ou menos sérios, entre
os quais mudanças na parte elétrica. Fomos
a uma pequena casa recém-inaugurada, em busca de
interruptores. Lá estavam três pessoas: um
homem bastante jovem possivelmente o dono, que atendia
a uma senhora e um rapazola, que era o empregado.
Enquanto este nos atendia, o mais velho olhava insistentemente
na nossa direção. Fiquei cismada:De
onde ele me conhecerá?, talvez tenha sido meu aluno
eu tinha àquela altura 36 nos de magistério
e já era freqüente encontrar, por toda parte,
alguém que se identificava como meu ex-aluno.
Depois que acabou de atender, ele veio para junto de nós
e disse: Bom dia, professora Cleonice Berardinelli.
Eu perguntei-lhe: Você me conhece, de onde?
Estou vendo a senhora pela primeira vez, mas reconheci
a sua voz da Rádio MEC. E passou a atender-nos
com imensa simpatia.
Paulo Autran dizia que ficou famoso com as crônicas
que lia diariamente no programa Quadrante, pois era reconhecido,
em todos os lugares, pela voz. Maria Muniz também
contava coisas parecidas.
Lembro-me bem dos programas de ambos. Eram excelentes e
muito valorizados por suas vozes e interpretações.
A outra historinha é mais bonita e mesmo tocante.
Um meu ex-aluno da Faculdade, agora colega, muito mais jovem
que eu, sempre se mostrou muito meu amigo. Um dia, chegou-se
para mim e disse: Dona Cléo, queria agradecer-lhe
muito. Agradecer o quê, Júlio?
Queria agradecer-lhe o que a Senhora fez pela minha
mãe. Intrigada, perguntei-lhe: Espere,
Julinho, sua mãe? Mas eu não a conheço.
Pois é, vou-lhe explicar.
A minha mãe passou a escutar os seus programas todas
as semanas; foi assim que eu consegui mantê-la interessada
na vida. Ela estava doente, sem poder sair da cama, tinha
perdido o meu pai, sentia-se muito só. Um dia eu
tive a idéia de ligar o rádio para ela na
hora do seu programa. Ela nunca mais o esqueceu e toda semana
ficava esperando o dia de ouvi-la. De modo que a Senhora
fez o trabalho de enfermeira da minha mãe, de médica
até. Pena que eu não tenha conhecido
a sua mãe, mas gostaria de tê-la visitado,
porque foi uma pessoa à qual estive muito ligada,
mesmo sem o saber.
Além do Eça e do Camões, que outros
escritores a senhora abordou no seu programa?
Falei de Camões, de Fernando Pessoa, de Miguel Torga,
com certeza; de Camilo Castelo Branco, de Júlio Diniz,
também; de Antero de Quental, é claro; devo
ter falado de Antonio Ferreira, contemporâneo de Camões
e autor da única tragédia que se escreveu
em Portugal, em língua portuguesa, Castro, cujo tema
é o fim desastrado de Inês de Castro. É
belíssimo o texto. Sem esquecer Fernando Pessoa,
não é?
E, claro, falando de Fernando Pessoa, fala-se naturalmente
em Sá-Carneiro, seu contemporâneo e amigo dileto,
que se matou com apenas 26 anos. Sua obra é relativamente
pequena, mas originalíssima. Além de poeta
foi um ficcionista muito especial, com excelentes contos
de tendência ao fantástico, dos mais instigantes
da época.
Busquei a nata da Literatura Portuguesa e a trouxe para
o microfone. Entre os brasileiros, falei de Manuel Bandeira
mais de uma vez. Ao completar os 80 anos, ele teve uma verdadeira
glorificação. Uma procissão de amigos
e admiradores foi saudá-lo na José Olympio,
onde fizeram uma espécie de um nicho ao alto, um
espaço com uma escadinha por onde ele subiu, para
receber os abraços dos amigos que a subiam também
para lhe dizer coisas amigas e dar-lhe parabéns.
Achei que ele estava com um ar de cansado, e lhe perguntei:
Manuel, você está cansado, não
está? Ele me respondeu: Estou.
Mas está feliz?. Muito. Então,
está tudo bem. Foi uma das ultimas vezes em
que o vi. No ano seguinte, no mesmo dia, ele estava no hospital.
Quando fui visitá-lo, encontrei-o sozinho. Aproximei-me
do leito e disse-lhe: Vim dar-lhe um beijo de parabéns
e matar as saudades. Contei-lhe que fizera um programa
para ir ao ar no dia do seu 81º aniversário.
Ele acrescentou: Que bom! Neste ano quase ninguém
se lembrou de mim. Insisti: Mas eu não
vou esquecê-lo nunca. Vai ouvir meu programa aqui.
E ele: Cleonice, eu não tenho rádio.
Mas vai ter. Eu tinha um radiozinho azul, pequeno,
bom de se ouvir na cama; levei-o para o hospital. Ele ficou
radiante com a minha simples homenagem: um programa cheio
de afeto e de admiração pelo poeta que ele
era e é. Porque é um grande poeta, cujos poemas
percorrem vastas escalas, em vários tons, que vão
do mais dorido pianíssimo ao mais eletrizante fortíssimo;
capaz de trazer-nos lágrimas aos olhos e, no momento
seguinte, fazer-nos rir numa zombaria bem humorada dos poetas
parnasianos ele que redigiu alguns dos mais belos
sonetos parnasianos da nossa literatura. Foi chamado o S.
João Batista do modernismo. Mas também do
modernismo fez, por vezes, troça. Seu riso, porém,
não era corrosivo. No convívio com os amigos
era espirituoso, um grande companheiro de longas conversas.
Dona Cleo, quem mais, naquela época, fazia programas
de literatura? Cecília Meireles?
Não me lembro de programas de Cecília....
Sabe de quem me lembro com frequência? De Artur da
Távola. Gravávamos muitas vezes em horários
seguidos, e assim nos encontrávamos aqui. Era uma
pessoa simpática, agradável, delicada; não
me esqueço de seus excelentes programas.
E o Carlos Drummond de Andrade?
Com Drummond eu tive algum convívio, mas não
na Rádio: nunca o vi aqui. Teríamos possivelmente
horários desencontrados, pois nunca nos encontramos
nesta casa, mas eu o via fora da Rádio.
E a Maria Muniz, a senhora conheceu?
Conheci-a mais através do rádio do que pessoalmente.
Não sei se saberia reconhecer um retrato seu. Uma
colega que conheci foi a francesa Jacqueline Laurence. Assisti
ao ensaio de alguma peça de radioteatro que estavam
montando, e me lembro de vê-la representando, e muito
bem!
E o Adolfo Celli ?
Mais de nome e de voz do que de pessoa. Ouvir aquele italiano
dele, lindíssimo, falando da Divina Comédia,
era uma beleza.
Como é que era a Rádio nesse tempo?
Era sempre muito movimentada, o elevador freqüentemente
estava cheio. Mas eu subia para o quarto andar, mergulhava
na sala de gravação, ficava lá
uns 40 minutos era o tempo de preparação
e gravação , e despedia-me dos dois
simpaticíssimos técnicos, dos quais só
me lembro do nome do Amílcar. Mas era um movimento
grande, corredores cheios de gente. Vínhamos assinar
o ponto no dia da entrega do programa.
Todas essas séries sobre literatura portuguesa foram
durante a gestão do Murilo Miranda?
Não, depois houve mais. A Maria Yedda manteve os
mesmos critérios, e nós continuamos naquele
bom meio em que estávamos sempre trabalhando. Eu,
pelo menos, me senti sempre muito bem. Só quando
mudou para um certo professor que, infelizmente, era meu
colega da Faculdade Nacional de Filosofia, de que foi, desgraçadamente,
diretor, é que as coisas ficaram desagradáveis
e eu tirei uma licença sem vencimentos, pois era
difícil convivermos no mesmo espaço.
Estamos falando do Eremildo Viana, não é?
Exatamente. Não era uma pessoa com quem se pudesse
conviver, pelo menos eu ...
Mas houve alguma atitude censória aos seus programas?
O que houve?
Logo de inicio, os programas, que tinham sido sempre lidos
por mim, passaram a ser lidos por um locutor que, frequentemente
os deturpava; depois, eu tinha que trazer o texto escrito
para submetê-lo a alguém que eu nem identificava;
além disso, fui forçada a substituir os meus
programas sobre literatura, que poderiam enriquecer a cultura
de quem os ouvisse, por outros sobre regiões de Portugal,
como se eu fosse uma guia turística. Tentei fazê-los
o mais possível interessantes e comecei pelo sul
de Portugal, por uma viagem ao Algarve. Achei que isso talvez
atraísse os ouvintes: o fato de ser uma região
de praias, pedras e turistas, talvez fosse um chamariz.
Lembro-me de me ter referido também às lindas
chaminés, decoradas com capricho e dizia que as
chaminés algarvias eram um dos encantos que eu tinha
encontrado no Algarve. O meu locutor leu sempre as
chaminés algárvias, fazendo proparoxítona
a palavra que eu escrevia, como era natural, sem acento
na segunda sílaba. Tal leitura, que me punha absolutamente
arrepiada, cada vez que era repetida, destruía toda
a graça da paisagem. A essas decisões que
diziam respeito ao nosso trabalho, acresceram outras ainda
mais graves, tais como perseguições a funcionários
de vários escalões. Tomei a decisão
já que eu tinha feito algumas reclamações,
não atendidas, não cumprimentava o diretor
ao cruzar com ele, podendo ser processada por desrespeito
ao chefe dentro da repartição em que eu trabalhava
, resolvi pedir uma licença sem vencimentos
e só voltei depois que o ambiente ficou saneado.
Aí a senhora retorna e retoma os programas?
Retomei os meus programas, dentro dos mesmos padrões,
lidos por mim, como sempre fiz e gostava de fazer. Porque
eu fazia o programa em tom um pouco coloquial com meu ouvinte
e chamava a atenção para pontos de um texto,
principalmente em verso, e mais, quando o poeta era difícil,
como no caso de Fernando Pessoa. Nunca recebi correspondência,
mas encontrei várias pessoas que reconheciam a minha
voz e vinham conversar comigo a propósito de alguma
coisa que me diziam ter aprendido ao ouvir-me ou, por vezes,
para debater algum ponto por mim salientado, com o qual
não concordaram inteiramente. Retomávamos
assim o tom coloquial que eu desejava manter.
O formato do programa foi sempre igual, com a senhora lendo
o seu próprio texto? A senhora nunca pensou
em fazer uma mesa redonda pra discutir Camões ou
outros poetas, ou usar depoimentos e entrevistas
de outros escritores ou de populares?
Era sempre assim, porque tudo isso que você sugeriu
como possibilidades, e que teriam sido interessantes, nunca
me tinha sido facilitado. Achei que era melhor ficar fazendo
o melhor possível aquilo que me tinha sido proposto.
E fiz assim o tempo todo.
Que fim levaram esses textos?
Vou contar-lhe uma coisa terrível. Eu tinha os programas
todos guardado. Um dia, desesperei-me por não ter
mais espaço para guardar nada. Peguei todos os programas,
abri a lixeira e joguei-os todos nela. Foi uma decisão
iconoclasta, auto-iconoclasta. Logo depois, morri de arrependimento,
mas era tarde.
No Acervo da Rádio encontramos 31 dos seus programas,
da série Literatura portuguesa hoje, e alguns deles
sobre escritores de Moçambique.
É porque, a partir de certo momento, a literatura
em língua portuguesa lusófona, como
se passou a dizer foi sendo incrementada na África,
sobretudo em Moçambique, Angola e Cabo Verde. De
Cabo Verde foram os primeiros livros que adotou o Prof.
Thiers Martins Moreira, na nossa Faculdade: o primeiro deles,
Chiquinho, de Baltasar Lopes, eu o trouxe para meus ouvintes
da Rádio, dando-lhes a oportunidade de entrar em
contato com uma literatura emergente, mas já senhora
de si. Não garanto, mas acho que também os
fiz ouvir uma ótima cantora, Cesária Évora,
natural da ilha e dotada de uma voz magnífica, que
canta no crioulo de Cabo Verde, uma língua graciosa,
muito bonita. Esclareço-lhes que se chama crioulo
qualquer uma das línguas mistas nascidas do contato
de um idioma europeu com línguas nativas, ou importadas,
e que se tornaram línguas maternas de certas comunidades
socioculturais: entre os crioulos oriundos do português,
está o crioulo de Cabo Verde.
Tivemos, recentemente, a formação da comunidade
de países de língua portuguesa, baseada em
acordos internacionais, e passamos a conhecer, um pouco
mais, literaturas que mal se conheciam. E a senhora, na
década de 80, já estava trazendo isso pra
nós. A senhora sabe de outros lugares onde essas
literaturas são divulgadas?
Creio que, em Portugal, se encontram disciplinas de Literaturas
Lusófonas em qualquer universidade onde haja cursos
de Letras. No Brasil, estas disciplinas são cada
vez mais estudadas. Só no Rio de Janeiro, na UFRJ,
na UFF, na UERJ e na PUC-Rio, você encontra com muito
mais facilidade cursos de literatura contemporânea
do que da literatura mais antiga. Acho ótimo que
se fale da contemporaneidade, é essencial, mas não
que professores não dêem cursos sobre autores
anteriores ao século XIX.
A senhora conheceu o fundador da cadeira que hoje ocupa
na ABL, não é? Eu vi no seu discurso de posse
aquele poema, uma graça de poema que ele fez para
a senhora, a Senhora tinha 9 anos, só faria os 10
em agosto, não é verdade?
É a pura verdade. E dou-lhe mais um acréscimo
de informação: quando eu estava escrevendo
o discurso, ouvi-me dizendo em voz alta: Meu Deus,
um discurso desses acaba por ser maçante: primeiro,
você fala do patrono da cadeira, Cláudio Manoel
da Costa; a seguir, do fundador Alberto de Oliveira; passo
a quem lhe sucedeu, Oliveira Viana, um historiador que eu
conhecia muito pouco; depois vinha Austregésilo de
Ataíde, Antonio Calado, e, por fim, Antonio Olinto,
em cuja vaga entrei. E com muita pena repeti o que já
dissera outras vezes: afligia-me pensar que, para entrar
na Academia, era preciso que alguém morresse: é
a pura verdade. Mas lá estou e, como já disse,
não me arrependo. Sinto-me bem entre os meus pares.
Como foram os seus últimos anos aqui, na rádio?
Foram inteiramente iguais aos primeiros, porque aquele intervalo,
aquele hiato e a palavra hiato me lembra, agora,
hiante, aquela coisa que engole, que devora
como uma goela , aquilo passou, graças a Deus!,
e voltaram os tempos amenos. Agora, depois que me aposentei,
perdi os contatos diretos: meu contato com a Rádio
agora é de ouvinte.
E, como ouvinte, o que a senhora acha da programação
da Rádio, hoje?
Eu sinto nela revitalização de programas.
Gosto de um modo geral de todos os programas, dos falados
e dos musicais: são todos muito bem escolhidos. Acho
que poderia haver mais programas literários.
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