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Entrevista com Claudio Roquette-Pinto
Bojunga, jornalista, escritor, neto do Edgard Roquette-Pinto, feito
para o programa Especial sobre Roquette-Pinto da Rádio MEC
no dia 3 de maio de 1990.
Amigo Ouvinte - Você
fecha os olhos e pensa no seu avô: qual é a primeira
coisa que lhe vem a cabeça?
Claudio Bojunga - Ele morreu, eu tinha 14 anos. Eu me lembro dele,
muito: um avô não muito próximo, mas extremamente
carinhoso, amigo - ele gostava muito de mim. Mas, por outro lado,
tem a figura publica que é uma coisa indissociável
disso. Eu vivo sempre com uma espécie de responsabilidade.
AO - Que idéia você
fazia dele em criança e qual a que faz hoje?
CB - Quando criança, evidentemente, você não
tem uma dimensão muito exata da história publica.
Ele era um homem ilustre e ao mesmo tempo modesto. Eu o conheci
morando no apartamento da Avenida Beira Mar - aquele prédio
São Miguel - ele morava num andar e o Manoel Bandeira em
outro. O apartamento era pequeno, cheio de livros... Ele era visivelmente
um homem dedicado a uma coisa que não batia com certos valores
banais, de prestígio, dinheiro - isso dava pra sacar criança,
ainda. Era um homem de estudo e um homem que infundia um respeito
espontâneo, tanto na família, como nas pessoas, mas
que não era baseado nunca na força e na autoridad:
era uma coisa espontânea, como um maestro com a orquestra.
Ele realmente era um homem de estudo, mas que volta e meia, nos
domingos, a gente almoçava junto todo mundo, e chegava com
aquele cachecol, já estava curvado, tinha um reumatismo crônico
- ele sofria muito, tomava aspirina, muita aspirina. E ele era um
causer, como se dizia antigamente, quer dizer, um conversador, cheio
de casos, cheio de explicações, e as pessoas falavam
menos que ele- e eu via de fora da mesa, mas sentia um pouco isso,
essa coisa. E nós éramos cinco netos: 3 filhos do
filho dele - o irmão mais velho de minha mãe -, e
eu e minha irmã, filhos de Beatriz, que era o xodó
dele, certamente. E ele botava um apelido em cada neto, como "Cientista"
era um, como "Princesa" era outra, e eu era o "Moleque".
Eu tenho muita pena de não ter podido, porque com 14, 15
anos, você está na soleira de começar a entender
as coisas, e eu não pude aproveitar o que poderia, se ele
tivesse vivido mais. Só um pouco mais tarde é que
fui perceber que ele realmente foi uma fera.
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| AO - Tem algum acontecimento
marcante nessa época? Uma coisa que dê o
perfil dele como figura humana? |
| CB - Uma coisa que me impressionava é que ele
nunca fazia apelo no sentido da autoridade, quer dizer,
ele tava sempre interessado em esclarecer. Ele dizia que
o título do qual ele mais se orgulhava era o de
professor, quer dizer, ele achava que havia um sentido
militante nessa profissão,que não se esgotava
na sala de aula. A gente quando ia a Petrópolis,
por exemplo - ele tinha um belo |
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| Ford azul, que era dirigido pelo Mateus, amicíssimo
da vida inteira dele -, e, pela estrada, durante a viagem, ele
falava das arvores, que arvore era aquela, que nuvem era aquela,
as montanhas começavam a ter nome, quer dizer, tinha
toda uma história, que, de repente, você via o
mundo de maneira diferente. E assim o garoto senti-se o naturalista,
o cientista. Qualquer pergunta que eu fizesse pra ele sabia
que ia ter resposta. Uma coisa estranha e agradável.
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AO - Qual a seu ver, a dimensão
histórica de Roquette-Pinto?
CB -É uma pergunta difícil. Existem varias, mas eu
vou dimensionar duas etapas. Uma primeira, que cobre as primeiras
décadas do século. Você imagina: ele formou-se
em medicina com 16 anos, na virada do século. Então,
nesse período que ele foi perito em medicina legal, ele viu
o sofrimento do povo como médico da Santa Casa, quer dizer,
ele teve contato com a realidade. Ao mesmo tempo que era físico,
químico, e estudou teologia, ele começou a se interessar
pelo homem brasileiro, pela sociedade. Na verdade esse período,
que o leva à antropologia, ao problema da reabilitação
antropológica e à dignificação do homem
brasileiro - esse que é o ponto central. Ele vê uma
republica velha, o elemento negro, caboclo, mestiço, os elementos
do interior, marginalizados, e uma incorporação de
uma visão racista importada das teorias colonialista da época,
e ele tenta lutar contra isso, na prática antropológica.
E é uma batalha que eu acho extremamente importante, porque
ele é muito marcado, aí, pelo Euclides de Cunha, no
livro Os Sertões, que é publicado em 1902. Ele lê
esse livro e fica extremamente chocado. Dizia que Os Sertões
podia vir a ser o Dom Quixote, Os Luzíadas desse período.
Então, nesse momento é que vai acontecer, pra abreviar
ao maximo, o encontro com Rondon, que é extremamente importante.
Rondon, que tem sangue índio - ele dizia que quando se conversava
com Rondon se ouvia a voz do Sertão -, e ele tinha uma admiração
extraordinária pela integridade do Rondon. O Rondon representava
uma antítese do espírito predatório do bandeirantismo:
ele levava a linha telegráfica, mas com respeito. O lema
dele era: "morrer se preciso for, matar nunca". Então,
já havia esse sentido de que o homem devia ser protegido
e respeitado em sua evolução, e não violentado.
Então, ele vai em 1907 a uma exposição dessa
e em 1912, na segunda. No meio, em 1911, tem um congresso de raças
em Londres, e ele vai a Londres já com o compromisso de voltar
pra Mato Grosso, de tão interessado que ele era no nosso
problema. O resultado disso tudo é que ele traz da Serra
do Norte uma tonelada de material, entre fichas antropométricas,
fonogramas, as músicas dos índios - nós em
crianças sabíamos cantar (ele canta um trecho de No-zaniná).
Eu acho que ele foi muito importante entre Euclides da Cunha, que
faz o primeiro resgate do homem do interior do Brasil; e a geração
dos modernistas dos anos 20, que redescobriram o Brasil. E aí,
na parte social, seria Gilberto Freire, que vai resgatar o negro,
passando também por pré-modernistas, como o Monteiro
Lobato. Na segunda metade do século, Roquette é uma
peça chave - os modernistas admitiram isso: Mario de Andrade
respeitava e gostava muito dele. Eu acho que havia, então,
essa ponte de uma consciência da nação.
Depois dessa fase inicial, que eu diria que termina com a publicação
de Rondonia, em 1917, aí, vem o professor, que precisa brigar
pra que esse homem seja educado. A marca chave da luta pela educação,
pela democratização do saber, eu acho, é o
rádio, em 1922. Eu diria que isso seria a essência
da trajetória. Tem muita coisa em volta, a escola normal,
o Museu Nacional, a Academia, mas eu diria que ele é amado
por isso, por essa luta.
AO - A respeito da atitude
do intelectual não ser patrocinado pelo estado, gostaria
que você falasse disso.
CB - No Brasil, o grande problema é que, em geral, o Estado
precede a nação. Há uma confusão enorme
na nossa história de que o Estado produz a nação,
quando na verdade não é bem assim. A nação
ela se produz também sozinha. Com os anos 30, é o
Estado forte que vai organizar a nação, etc... e aí
ele vai ter que trabalhar com os intelectuais da época, inclusive
os que pensavam a nação, que são obrigados
a trabalhar dentro do Estado - não só o Roquette-Pinto,
mas o Carlos Drummond de Andrade, Villa-Lobos, e nem por isso eles
foram cooptados, eles continuaram o trabalho deles. Mas o importante
é que mesmo nesse período ele nunca deixou de ter
bem claro a diferença entre a nação e o Estado.
A ata de doação da antiga Rádio Sociedade ao
Brasil foi feita por razões técnicas - ele não
queria fazer daquilo uma emissora comercial, queria que fosse um
instrumento de educação, de cultura, de desenvolvimento,
então preferiu dar ao povo brasileiro, utilizando o Estado
apenas como guardião, e o Estado deveria submeter as clausulas
de não fazer proselitismo político, nem religioso,
respeitando o espírito original de uma emissora pública
- que não se confunde com uma emissora estatal. A emissora
estatal pode ser o quintal do governante, mas isso é uma
visão perversa, do que seja uma coisa pública : uma
coisa pública pertence à sociedade. Quer dizer, mesmo
quando ele lidou com o Estado, ele resguardou a sociedade civil
e a nação brasileira.
AO - Entre os escritos do Roquette-Pinto
quais os que mais lhe impressionam?
CB - Acho que sem duvida nenhuma é o Rondônia. Porque
além de ser um livro de antropologia é uma viagem
filosófica. Como eu disse de brincadeira, eu senti isso quando
eu ia de carro com ele pra Petrópolis, mas ele fez isso a
sério na Serra do Norte. Aí ele se interessa pela
vegetação, pela mineriologia, pelo canto, pelo caboclo,
pelo índio. É uma viagem filosófica: é
quase um prolongamento daquelas viagens dos naturalistas do séc.
XIX . E é um livro muito bem escrito, bonito, e que eu li
mais tarde, evidentemente, e que temo que é um livro que
não esteja sendo lido como mereceria - como, alias, até
Os Sertões e o Casa Grande Senzala não são
livros que são lidos como merecem. Rondônia, um livro
de 17, embora possa ter aqui e ali um conceito técnico datado,
é um livro de um humanismo excepcional.
AO - O que você acha que
motivou Roquette-Pinto no seu trabalho de mostrar o Brasil aos brasileiros?
CB - Eu acho que é essa coisa misteriosa de ter uma terrível
fé no seu país, no seu povo, esse amor... Eu não
sei, deve ser um profundo espírito democrático. Ele
era de uma abnegação pessoal muito grande. Ele era
um homem que não se apegava às coisas materiais, e
isso infundia respeito. Isso funcionava como exemplo num país
como o nosso em que os homens públicos não tem ainda
uma dimensão tão grande. É nesse sentido que
o Drummond fala, quando ele morreu, no feiticeiro - porque tinha
uma coisa de feiticeiro nele. Tem uma borboleta que foi batizada
com o nome dele, isso é uma coisa, você vê, bonita.
AO - Cláudio Bojunga
relatando a conversa decisiva que Gilberto Freire teve com Roquette-Pinto.
CB - Quando Gilberto Freire estava estudando nos EUA, ele vê
um navio brasileiro parar e, aí, morando no meio daquele
povo forte e bem nutrido, corado, grandão, ele vê descendo
os marinheiros brasileiros, mirrados, mal alimentados, raquíticos,
atarracados, aí ele tem uma profunda desesperança.
Quando ele volta para o Brasil, então ele tem uma conversa
séria com o Roquette-Pinto sobre esse problema da constituição
do homem brasileiro - ele gostava muito do Roquette-Pinto, tinha
muita admiração por ele. E o Roquette lhe assegura
que não, que é uma questão puramente social,
puramente de alimentação, puramente de educação.
E aí dá uma força enorme e alivia aquele momento
de dúvida do grande antropólogo.
AO - O racismo, esse capitulo
na vida de Roquette-Pinto?
CB- Isso eu acho que ele via na perspectiva histórica brasileira
como um terrível obstáculo, um terrível preconceito,
capaz de abater e paralisar um povo. Na verdade ele estava interessado
no problema mas amplo de uma cidadania plena e completa, de um povo
educado, que participasse da vida publica. Então o trabalho
de cientista estudando tecnicamente essas questões se inscrevia
dentro do trabalho do humanista, do educador - o sujeito que brigava
pra ter uma nação digna, de cidadãos completos,
saudáveis e instruídos. Algumas pessoas se seguravam
pra manter um certo pessimismo racial, que era típico dessa
virada do século XIX - o próprio Imperador se correspondia
com o Gobineau, que foi um dos maiores teóricos do racismo
da época colonial e tem um livro que se chama-se Teoria da
Desigualdade das Raças. Acho que Roquett-Pinto deixou bem
claro.que, num país mestiço, miscigenado, toda forma
de purismo é profundamente reacionária.
AO - Roquette e o cinema educativo?
CB - O cinema se desenvolve a partir de 1936, já no período
quase do Estado Novo e do primeiro Getulio Vargas, em que ele aceita
criar um Intituto Nacional de Cinema Educativo, mas só se
fosse com carta branca, dentro desse espírito de educação.
E ele cria realmente o embrião do que mais tarde vai ser
o Instituto Nacional do Cinema. E ele cria com um parceiro prodigioso
que vem de Minas, que é Humberto Mauro - amicíssimo
dele e de nós todos, que nós considerávamos
uma pessoa da família. Foi um homem que, embora estivesse
nesse inicio atrelado ao cinema educativo, tem uma obra autoral
muito importante.
AO - De que maneira Roquette-Pinto
se transformou em fonte de inspiração pro trabalho
de Villa-Lobos?
CB - O Villa-Lobos, como músico modernista, retoma o tema
de como esse trabalho antropológico e cientifico do vovô
foi importante pra geração modernista dos grandes
artistas, Mario de Andrade e outros. OVilla-Lobos que apelidaram
até de "índio de casaca", o homem que tem
uma musica profundamente ligada ao Brasil, ele era amigo de vovô
e estava de olho nessas coisas todas, essas coisas brasileiras,
essas coisas primitivas. Os registros de musicas e canções
indígenas, que ele trouxe da Serra do Norte, que eram rolos
de cera, uma coisa muito precária tecnicamente, mas que existe
até hoje no Museu Nacional, foram escutados, às vezes
até gastar a cera, pelo Villa-Lobos, nessa procura, nessa
pesquisa desse primitivismo, que seria depois transfigurado em algumas
de suas composições. Havia, então, essa simbiose
da ciência com essa arte modernista.
AO - Outras preferências
artísticas do Roquette-Pinto?
CB - Gostaria de me fixar numa que eu acho fundamental, que ele
tinha varias, eu posso até dizer algumas de cor, mas uma
que é muito reveladora do que seria o espírito geral
dele, é Goethe. Ele lia Alemão fluentemente e tinha
tudo: todos os livros, todas as poesias, todas as peças,
e eu acho que ele tinha uma enorme admiração por esse
escritor humanista, absolutamente multifacetado que é um
poeta e, ao mesmo tempo, é um cientista, que ao mesmo tempo
é um grande patriota, que ao mesmo tempo é uma inspiração
pra todo mundo. Eu me lembro agora um outro inteiramente diferente
que ele gostava muito, um homem da época dele, quer dizer,
era um preferência pré-modernista: ele gostava muito
da poesia do Vicente de Carvalho. Ele fazia versos lá em
segredo: não gostava de mostrar, mas também não
se pode ser tudo.
AO - Você estava presente
no funeral de Roquette-Pinto?
CB - Estava, sim. Ele morreu em 1954; eu ainda não tinha
feito 15 anos. Eu me lembro exatamente da emoção lá
em casa de mamãe, e me lembro muito bem, durante o velório
na Academia Brasileira de Letras - nós ficamos a noite inteira,
como era de praxe - e tinha aqueles acadêmicos todos, aqueles
senhores. Uma coisa que me impressionou muito foi que chega de repente
um carro e sai o Marechal Rondon, lá por volta de 90 anos,
e ele tinha aquele tipo de índio, e estava praticamente cego.
Então ele foi levado pela mão de uma pessoa e foi
se aproximando do caixão e, aí, houve uma coisa engraçada:
aqueles escritores se afastaram um pouquinho, aí ele chegou,
deu um beijo nele e disse - até logo, meu amigo. Uma coisa
bonita e profunda.
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