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Pensando o rádio em
muitas línguas
por Adriana Ribeiro
Há dez anos a Rádio Educación,
da Secretaria de Educação Pública do
México, promove um encontro entre radialistas do mundo
todo para discutir os rumos do veículo, proporcionar
intercâmbios e premiar programas.
A Bienal, que ocupou o Centro Nacional de Artes por cinco
dias, em maio de 2006, reuniu profissionais de diversas emissoras
da América Latina Chile, Argentina, Venezuela
e Bolívia, entre outros e radialistas de países
considerados pioneiros na radiodifusão e na organização
de encontros dessa magnitude, como Alemanha e Inglaterra.
A necessidade de democratização dos meios e
a iminente mudança da plataforma de transmissão
analógica para digital foram os principais temas do
evento. A parte da manhã era dedicada à palestras
e debates e as tardes eram ocupadas pelo Terceiro Encontro
Internacional de Radioastas. Lançamentos de livros,
audições e performances encerravam os dois períodos
de palestras.
Após os eventos no CENART (Centro Nacional das Artes)
que começavam às dez da manhã
e só terminavam às 21 horas , havia transmissões
de radialistas convidados, veiculadas por uma rede de rádios
formada pela Rádio Educación, Rádio UNAM
(da Universidade do México), Ibero Radio (da Universidade
Ibero Americana) e Rádio Horizonte. Um dia inteiro
de acontecimentos.
Digitalizar e democratizar: imperativos
"Comunidade mais comunicação
é igual à democracia", esta frase do jornalista
e advogado paraguaio Benjamin Fernandez Bogado, resume o pensamento
dos participantes da Bienal, que foram unânimes em considerar
a importância da democratização dos meios
de comunicação. Com a chegada inevitável
da digitalização, no entanto, a conquista de
um canal de transmissão por uma comunidade pode se
tornar algo bem mais difícil do que já é.
Um mexicano, estudante de comunicação, perguntou,
durante um debate, se, com tantas ferramentas como
os blogs e mesmo a produção de áudios
para Ipods (chamada de podcast) a briga por canais
convencionais não seria algo ultrapassado. Em resposta,
a pesquisadora da Universidade Autônoma do México,
Carmen Mont Gómez, citou uma pesquisa reveladora, indicando
que, na América Latina, o rádio e TV serão
meios hegemônicos por pelo menos cinquenta anos, ainda.
Reforçando a revelação da pesquisadora,
o assessor do Secretário Geral da ONU, Cees Hamelink,
também afirmou que a digitalização e
os avanços tecnológicos não vão
atingir a todos agora". De fato, até o momento,
o número de proprietários de computadores na
América Latina não chega a 10 % da população.
Ainda segundo Hamelink, a única maneira de se garantir
uma mídia democrática é investimento
governamental em rádios públicas, contanto que
essas tenham independência editorial.
Quem resumiu a questão foi o argentino Gastón
Montells, diretor da rádio independente FM La Tribu:
a tecnologia não pode ser pensada sem um projeto.
Há que se desenhar um modelo de políticas públicas.
Se não houver uma legislação as pessoas
podem ter as idéias mais brilhantes, que não
chegaremos a lugar nenhum".
Radioarte também rima com rádio
pública
O investimento dos governos em rádios
públicas com liberdade editorial não foi mencionado
apenas nos debates da manhã. Ficou evidente no Terceiro
Encontro de Radioastas, que o espaço para a radioarte
foi aberto pelas rádios públicas. Tais rádios,
no entanto, estão perdendo sua força, até
em países com tradição de investimentooficial
em rádio, como a Alemanha e a Holanda.
Este quadro pouco animador repetiu-se no relato de radialistas
de outros países. Seguindo uma tendência mundial
de diminuir o tamanho do Estado, os governos têm paulatinamente
investido menos em radiodifusão e, algumas vezes, assumido
uma lógica de mercado.
O radialista holandês Armeno Alberts, foi categórico
ao afirmar que, para os políticos holandeses que estão
atualmente no poder e são de extrema direita, seria
melhor que os subsídios para as rádios públicas
fossem cortados.
Os representantes espanhóis na Bienal concordaram que
as rádios com financiamento estatal estão acabando.
O professor Arturo Merayo, por exemplo, crê que a radiodifusão
de qualidade terá de ser paga pelo ouvinte, assim como
o é a TV à Cabo.
Já o produtor da Radio Nacional da Espanha, José
Iges, acredita que a sobrevivência da radioarte independe
das rádios públicas. Ele levantou algumas hipóteses
como incorporação estética da linguagem
dos DJs (Disck Jóqueis), ou a aproximação
da radioarte com a produção de CDs do tipo "paisagens
sonoras para meditação".
Incentivando a produção
Um dos aspectos mais positivos da Bienal foi
o concurso de programas radiofônicos. Dar prêmios
às produções é uma excelente maneira
de valorizar o trabalho dos radialistas e de suas estações.
Dos mais de 300 concorrentes, cerca de 10 eram brasileiros.
Julio de Paula, produtor da Radio Cultura de São Paulo,
levou o primeiro prêmio da categoria Programas Musicais.
Hilton Abi-Hian, da Rádio Mec recebeu menção
honrosa na categoria Radio-revista como o programa Alô
Rio.
A maioria dos prêmios foi para produtores mexicanos,
com idades entre 20 e 30 anos. Isso pode indicar que, pelo
menos no México, a mídia rádio tem mão-de-obra
qualificada garantida.
Um número expressivo de participantes relatou que,
devido à Bienal, começou a pensar e fazer um
rádio diferente, mais bem produzido temática
e esteticamente. Fica a sugestão: porque não
promover concuros regulares no Brasil, premiando as nossas
melhores produções radiofônicas?
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