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Amigo Ouvinte - Como foram
os seus primeiros passos na Rádio?
BETINHO - Eu fiz vestibular
para Engenharia Eletrônica, mas passei para o 2º semestre.
Ia ficar parado 6 meses, e perguntei a uma tia que trabalhava no
MEC se ela me conseguia algum estágio - "Ah, tenho um
amigo que trabalha na Rádio MEC, você procura ele".
Que era o Heitor Salles. Eu nunca tinha ouvido falar na Rádio
MEC, nunca tinha entrado em uma Rádio. E eu vim, em 1978,
e conversei com o Dr. Heitor, que me ofereceu um estágio
na Manutenção. Na época, na técnica
era o Luís Glielmo, o pai da Lia Glielmo (ex-funcionária),
que era o superintendente; o José Oscar, o pai do Cacá
e da Lídia (Oscar Santiago e Lídia Costa, funcionários
da Rádio), chefe da Manutenção ; e o Sr. Hamilton
Reis, de suspensório, paletó e gravata, que era o
meu chefe, que eu amei só de ver o cara. E na manutenção
tinha o Vítor 'Português' e o Sr. Dirceu. Funcionava
no 5º andar, onde hoje é o ar condicionado, e a chefia
era na salinha onde era a antiga frisa do Sinfônico. Aí,
o Sr. Hamilton falou: "Vamos conhecer a Rádio."
E, basicamente, era o 4º andar. Tinha ensaio da Orquestra,
no Sinfônico, e o Sr. Hamilton me mostrando tudo. No estúdio
B, quem estava era o Serginho Langoni, uma flor de pessoa, filho
do grande Langoni, um técnico famoso aí, na Rádio
Nacional, que era colega nosso, aqui. E nesse dia eu entrei na transmissão
e conheci o Lindolfo (Lindolfo Moreira Alves), o locutor - era a
voz da Rádio Tupi - que era o primeiro locutor que eu conhecia.
Aí, o Lindolfo falou e eu reconheci a voz. Eu cheguei em
casa e: "Mãe, sabe aquele cara que fala na Rádio
Tupi? Ele apertou a minha mão e falou comigo." Eu tinha
17 anos, e fiquei todo bobo. O Lindolfo era brincalhão. Nessa
época era o maior time de locutores: William Mendonça,
Maravilha Rodrigues, o Lindolfo, Estelita Lins, Anita Taranto, Linda
Alves, Antônio Ivan - que era até chefe de operações
na Tupi -, o Zanloni Nunes. E tinha o Sérgio Chapellin, o
Cid Moreira, o Lauro Fabiano - ele lendo os textos do Ópera
Completa era emocionante, a narrativa dele é demais - e ainda
tinha o Paulo Santos. Era só fera. E, detalhe, nessa época,
de mais novo, só tinha eu, o Ribamar e o Serginho Muniz:
dos outros, o mais novo operador devia ter 57, 60 anos. O Eduardo
Caetano trabalhava no radioteatro. Nessa época, o time era
o seguinte: Mário Lúcio, Nélio Costa, que foi
depois para a Escola Nacional de Música - ele e o Vítor
da manutenção. Na transmissão era o Carlos
Cardoso, o Sérgio Langoni, e, de noite, Walter Gildo. No
Sinfônico, era o José Aparecido Monteverde. Tinha o
Jorge Baraúna, que ficava na copiadora; e o Hilton Lousa,
que era sonoplasta; e tinha o Macieira - nessa época, ele
era o coordenador e o road da Orquestra. Onde hoje é o cinco
e meio, é que ficavam guardadas as partituras e um monte
de instrumentos. Mas, em 78, era uma sala com telhados de amianto,
e no final tinha uma sala fechada, era uma grande varanda lá
no fundo que era do "Esporte para Todos". E tinha uma
salinha de audição com umas duas ou três máquinas,
que era para as professoras avaliarem os programas. Nesse dia, eu
vi também o elenco de radioteatro gravando "O Contador
de Histórias". E o Sr. Hamilton me mostrando e, aí,
ele foi chamado e eu fiquei lá. Estava o Floriano Faissal
dirigindo o Dilmo Elias e o Edmo fazendo contra-regra. Eu nunca
tinha ouvido novela em rádio, aquilo já não
se fazia em lugar nenhum, e eu pensei... "Poxa, não
é possível, como é que eu nunca ouvi essa Rádio?"
Foi incrível, foi muita sorte que eu dei, nesse primeiro
dia..
AO - Como era o trabalho na
manutenção?
BETINHO - Eu ia para a manutenção, mas não
conseguia parar lá. De vez em quando, tinha uma máquina
para arrumar, mas ficar plantado naquela salinha era chato Tinha
o Ivo, que era o auxiliar de manutenção do Sr. Dirceu
e do Vítor 'Português'. Então ele andava com
algodão e um vidrinho de álcool, e todo dia ele ficava
rodando nos estúdios, e limpava as cabeças de gravação.
A bem da verdade, as máquinas antigamente davam muito pouco
defeito. Eram aquelas Ampex, aquelas Studder, até Scud -
às vezes queimava um display, cabeça gasta, mas era
uma coisa muito difícil, porque era full-track, e só
quando a cabeça 'abria', mesmo, é que não tinha
mais condição de você tocar nada nela. E também
as máquinas de audição das professoras, que
eram essas Akai, antigas, na salinha de audição no
cinco e meio. E o Ivo também ajudava nas externas, que, nessa
época, eram só Sala Cecília Meirelles e no
Theatro Municipal.
AO - Como é que era
esse equipamento de externa?
BETINHO - Eu fiz muita externa, e era uma desgraça, porque
a mesa era aquela Langer, que tinha a alimentação
por pilha - eram 16 pilhas grandes, tinha uma alça nela e
você botava um monte de pilhas grandes ali. Mas a gente usava
com a fonte, que era uma caixa de ferro, separada. Aí você
tinha: a mesa, que pesava uns 20 quilos e mais um monte de pilhas,
ou então a fonte, que era do tamanho de uma caixa de sapato,
pesada pra burro, aí você interligava a fonte e levava
a máquina, uma daquelas Ampex, que já pesava, só
ela, outros 20 quilos, e montava numa caixa de madeira grossa, com
uma alça, que devia pesar mais uns 10 quilos - só
essas duas 'coisinhas', e os pedestais, aqueles RCAs antigos, grande
e pesado, e um monte de cabo, e ia embora. Aí o Ivo ia com
a gente. E sempre a gente ia gravar concertos, que iam ser usados
em programas. Quando tinha externa, o produtor marcava - o Lauro
Gomes, o Maurício Quadrio e o Antônio Hernandez - e
todos iam. O Zito Baptista não ia, não. Quando a gente
gravava alguma ópera ia algum assistente - às vezes
ia o Macieira... O Macieira, coitado, "jogava nas onze":
ele trabalhava como road da Orquestra, e como assistente de produção.
Ele fazia essa parte da Orquestra e fazia essa coisa de abastecer
a transmissão de fitas, e recolher as fitas que já
tinham ido ao ar, essas coisas todas.
AO - Você continuava
na manutenção?
BETINHO - Não, nessa época da externa não.
O meu estágio não era remunerado , mas o José
Aparecido Monteverde, que trabalhava no Sinfônico, de manhã,
foi tirar licença-prêmio, e o Sr. Hamilton, como eu
já sabia operar, falou: " Sr.Roberto, o senhor não
quer ganhar um cachê -na época era cachê - para
cobrir a licença-prêmio do sr.Monteverde?" Poxa,
era tudo o que eu queria.
AO - Como você aprendeu
a operar?
BETINHO - Eu chegava antes do meu horário para poder ver
a gravação, e tinha o Danielzinho, que era assistente
de produção. Eu ficava vendo o Daniel operar. E, quando
tinha um intervalo entre uma gravação e outra, eu
pedia para gravar alguma coisa, e começava a mexer no equipamento
e acabei aprendendo. E o Sr. Hamilton já sabia que eu estava
muito mais interessado em sentar na mesa do que ficar na manutenção.
Foi uma maravilha. Nisso, eu já estava começando as
aulas, e o horário batia certinho. Eu estudava na Gama Filho,
saía daqui e já pegava o trem na Central, era uma
beleza. E rolava muita coisa engraçada. O William Mendonça,
por exemplo, era muito engraçado. Ele chegava às 7
da manhã, às vezes estava arrasado, aí o Danielzinho
- o Daniel Mendes, esse cara era demais - ele era assistente de
produção: ele trazia as fitas e os textos que tal
locutor ia gravar. E o William era o que chegava mais cedo - porque
ele saía daqui e ia para a JB. Ele vinha com um copinho descartável
de café, e chegava, sempre reclamando, aí: "Vamos
contar uma piada para relaxar, eu não gosto de começar
o dia assim." E contava a piada, a mesma piada, e a gente tinha
que rir, era muito gostoso; aí ele sentava, e 'dava conta
do recado', rapidinho.
AO - Nessa altura você
já estava gravando?
BETINHO - Já, eu já estava cobrindo a licença-prêmio
do Monteverde. Mas aí, quando estava para acabar o estágio,
apareceu uma verba do "Esporte para Todos", eu não
sei qual era a história, e me contrataram - eu entrei e outras
pessoas também. Aí eu fiquei contratado como operador
de áudio. Mas, nessa época, era complicado esse negócio
de cachê, porque o pagamento atrasava. Você trabalhava
dois, três meses, e aí saía o pagamento lá
do primeiro mês. Mas eu não estava nem aí, eu
estava curtindo - isso aqui era bom demais.
Eu lembro do dia que o Sr. Hamilton saiu. O Sr. Hamilton como chefe,
eu vou te contar: eu nunca vi uma coisa assim. Ele fazia tudo, e
de paletó, gravata, suspensório - parecia um lorde
inglês. Chegava, tirava o paletó, arregaçava
as mangas e ia editar fita, ou ia gravar alguma coisa - era demais,
o Sr. Hamilton. E de uma educação! Uma vez, eu não
sei o que é que eu fiz, eu atrasei ou fiz alguma coisa errada,
e o Sr. Hamilton veio me dar a bronca: "Sr. Roberto, esse negócio
que o senhor fez não ficou bem, vamos ver se a gente presta
mais atenção, para não acontecer isso de novo."
Eu fiquei tão envergonhado dele falar assim comigo, que eu
nunca mais fiz uma besteira. Para você ver como é que
são as coisas: uma bronca do Sr. Hamilton era uma coisa assim,
era um carinho, e eu aprendia, eu aprendi muito com o Sr. Hamilton.
Eu chorei no dia em que ele saiu da Rádio.
AO - O quê você
aprendeu, com ele?
BETINHO - Aprendi a lidar com as pessoas, a respeitar, a tratar
todo mundo de igual para igual - isso é uma coisa que ele
tem. Ele sempre tratou todo mundo com educação, sem
afobação, sem pisar em cima de ninguém - era
um cara fantástico. Eu lembro que, quando ele estave para
sair, eu falei: "Mãe, o meu chefe vai embora, eu queria
dar um presente para ele." E eu fui com o meu pai e comprei
uma gravata, que era o que eu podia comprar, e dei em nome de todos
os colegas, para não ficar sem graça de entregar.
Eu chorei ali na porta do Estúdio B. Ele veio se despedir
de todo mundo, cumprimentou um a um - é uma pessoa de bem.
AO - Nisso, você já
estava há quanto tempo na Rádio?
BETINHO - Uns três anos. Eu já estava gravando regularmente,
e fiquei na Transmissão. Antigamente tinha uma tabela: tinha
uma turma que trabalhava de segunda a sexta, e outra que trabalhava
só - o horário era maior - sábado, domingo
e feriados. E eu fiquei um ano, mais ou menos, nesse horário
de sábado. E, um dia, ligou o Sr. Hamilton para mim, num
domingo: "Olha, Sr. Roberto - ele chamava todo mundo de Sr.
- o Sr. Cardoso - que era o que abria a Rádio - está
doente. Daria para o Sr. vir amanhã, para abrir a Rádio?"
Eu disse que sim - tudo o que ele pedisse eu faria com o maior prazer
- e fui dormir, preocupado. Eu cheguei cinco e meia da manhã,
e bati no portão. Aí surgiu uma cabeça, lá
atrás, e sumiu. Aí eu falei: "Ué, não
vai abrir o portão, não?" Bati de novo, o cara
botou a cabeça outra vez, e voltou. Parece piada. E eu: "Ei,
dá para abrir aqui?!" Aí ele levantou, veio mais
perto, era o Sr. Barbosa, e eu falei: "Dá para o senhor
abrir o portão? Eu vou fazer o horário do Sr. Cardoso,
o Sr. Hamilton me pediu". E êle: "Eu não
tenho ordem de deixar ninguém entrar, não." E
ele entrou de novo. Aí eu olhei no relógio da Central
a hora passando: "Pelo amor de Deus, moço! Não
vai dar tempo de botar a Rádio no ar." Ele não
me conhecia porque eu fiquei trabalhando só fim-de-semana,
e ele não trabalhava no fim-de-semana. Eu falei: "Moço,
pelo amor de Deus, liga para a casa do Sr. Hamilton!" E ele:
"Eu não vou incomodar o Sr. Hamilton uma hora dessas."
E eu, desesperado. Nessa época não tinha orelhão,
então eu corri para o hospital Souza Aguiar e liguei: "Sr.
Hamilton, está acontecendo isso, assim, assim..." E
já eram dez para as seis. "Vai ligando lá para
a Rádio, que eu vou correndo daqui!" E ele: "Pode
deixar Betinho". Aí eu saio correndo, chego na porta
e o cara lá, trancado. Eu gritei: "Pelo amor de Deus,
abre o portão. O Sr. Hamilton não ligou para você
aí?" E o cara: "Ligou, mas quem garante que era
o Sr. Hamilton?" E ele estava certo: no telefone, quem garante
que era o Sr. Hamilton? E eu já queria pular aquele negócio,
arrombar o portão, mas logo chegou o Sr. Hamilton, de carro.
Ele morava na Tijuca e em quinze minutos ele chegou, me apresentou
ao Barbosinha, e a Rádio entrou atrasada, às seis
e quinze da manhã. Foi uma comédia.
AO - A Rádio funcionava
em que horário?
BETINHO - De seis à meia-noite. O meu horário era
de tarde, mas eu gostava de fazer a Voz do Brasil, porque logo depois
você falava com a Rádio Nacional, com a Rádio
Globo, para fechar as linhas de transmissão da Portaria 568.
Era uma coisa que eu gostava mais, porque a programação
era tudo 'fitão', de 2.500 pés, com programa de uma
hora. Então, praticamente, era de hora em hora que você
trabalhava, na transmissão - não tinha nem cartucheira,
nessa época.
AO - Havia programas ao vivo?
BETINHO - Alguns, mas era muito pouco. Eu gostava muito mais da
gravação movimentada do radioteatro - Magalhães
Graça, Estelita, Leonardo José. E o Edmo, eu ficava
maravilhado com o Edmo do Vale, fazendo a contra-regra.
AO - Como era o material de
efeitos do Edmo?
BETINHO - Era uma portinha, uma escadinha, aquela caixa de brita
- que até pouco tempo estava por aí - e tinha telefone,
para fazer barulho de discagem. Então na hora de gravar,
usava-se o ..... , e o microfone bidirecional. Os atores ficavam
se revezando, cada um vinha por um lado, à medida que fosse
entrando a cena. O Floriano, nessa época, já ficava
lá sentadinho, cochilando, e quem dirigia, mesmo, era o Dilmo
Elias. Mas eu ainda peguei o Floriano antigo, eu não peguei
o Floriano só sentado na cadeira, não. Mas aquele
pessoal não precisava de direção, era um time
de primeira. Magalhães Graça, Leonardo José,
Estelita Lins, Aymmê, e aquele menino baixinho, que fazia
a voz do Robin, esqueci o nome dele, que era bom demais.
AO - Nessa época tinha
o Projeto Minerva, não é?
BETINHO - Tinha. Eu peguei o Minerva e depois virou Portaria 568.
Era ótimo: a gente preparava as três máquinas
porque eram três programas diferentes. Distribuía um
programa para a Rádio Nacional, que distribuía para
algumas emissoras; para a Rádio Globo ia um outro programa.
Vamos dizer: um era aula de Matemática; outro, de Português;
e o outro, de Estudos Sociais, e a Rádio MEC transmitia.
Algumas rádios 'linkavam' com a gente. Então eu tinha
que fechar os pets, e na caixa da fita vinha o número da
LP(Linha Privada), que a gente ia usar, endereçando: esse
programa vai para a Rádio Globo; esse, para a Rádio
Nacional
Era muito organizado. Eu gostava porque rodava aquela
manivelinha do magneto e lá, na Rádio Globo, atendiam.
Foi quando eu conheci o Cafuringa: "Ah, é o Cafuringa?
É o Betinho, da Rádio MEC. Está chegando o
áudio direitinho?" Eu adorava. Isso aqui era bom demais.
AO - E você sentia alguma
espécie de segregação entre o pessoal do Projeto
Minerva e o pessoal da Rádio?
BETINHO - Existia sim, porque o Projeto Minerva tinha dinheiro.
Tinha recursos para as professoras irem para os estados. O "Esporte
para Todos" tinha, mas a programação da AM não
tinha, entendeu? Eu recebia cachê através do "Esporte
para Todos", porque a Rádio mesmo não tinha dinheiro
para contratar. A verba do pessoal, dos atores, saía por
um outro negócio qualquer. Se uma produção
da casa quisesse montar um elenco e usar, não tinha recursos.
A discriminação existia, mas não entre os colegas.
E existia também o pessoal que era do SRE (Serviço
de Rádio Educativo), e teve uma época que fizeram
uma opção. Mas, nessa época, houve uma distribuição:
um monte de gente saiu da Rádio. Foi em 82, na época
do Luiz Brunini, que foi quando começou a estragar a Rádio.
AO - Que foi quando a OSN saiu
da Rádio.
BETINHO - Exatamente: acabou a Orquestra. Foi muito triste, foi
quando saiu o Sr. Hamilton. Convidaram ele para ficar, mas eu acho
que ele ficou tão desgostoso que acabou saindo, foi em 82.
AO - Como é que era
o ambiente, antes?
BETINHO - O ambiente era maravilhoso, com essas professoras maravilhosas:
Dona Benirá, a Yedda, a Lourdinha, a Amelinha, a Yara, a
Virginia Palermo, era tanta gente...
AO - E a antiga turma da produção:
Maurício Quádrio, o Paulo Tapajós, Paulo Santos,
Haroldo Costa?
BETINHO - Os programas deles eram gravados, regularmente, mas as
gravações aconteciam, normalmente, na parte da manhã.
Eu fiquei muito tempo na transmissão, e depois muito tempo
nas externas. Então, eu encontrava com eles, mas não
aqui - eu gravava para programas deles, fora da Rádio. O
radioteatro que eu vi, foi de ir lá 'bisbilhotar', mesmo,
antes ou depois do meu horário - eu era um ouvinte dentro
da Rádio.
AO - Fale sobre o período
do Luiz Brunini.
BETINHO - O período do Brunini, inclusive, foi uma época
em que eu fui mandado embora, mas fui em fevereiro e voltei em maio.
Foi em 83. Ele entrou em 82, e fez essa devassa toda, acabou com
a Orquestra e o radioteatro ficou prejudicado, porque cortaram a
verba para pagar o cachê dos radioatores. Tinha alguns projetos
da Portaria 568 que funcionavam, mas tinha alguns programas, que
eram da produção da Educação, e não
tinham verba, porque não eram da 568. O "Contador de
Histórias", por exemplo, era da Portaria 568, do Projeto
Minerva, mas tinha programas que eram da Educação
e tinha radioteatro, também, e cortaram esses - na época
do Brunini cortou-se essa coisa toda. E o processo de saída
da Orquestra, também foi demorado, não saiu logo em
82: ficou uns seis meses ainda para sair. Teve uma discussão,
se ficava ou se não ficava, porque os músicos teriam
que optar. Teve muita gente que saiu fora. O problema maior, daquela
época, foi o seguinte: ia se criar a Fundação
Roquette-Pinto. Então, quem quisesse ficar na Fundação,
teria de abrir mão do tempo, dos direitos do SRE, e passava
a ganhar um salário melhor. Eu era 'cachê' - para mim
não servia nada -, mas teve colegas, locutores, que optaram,
porque não ia ter como ficar cedido, como hoje os servidores
estão cedidos à ACERP. Também ofereciam - e
quando criaram ACERP, também ofereceram - que o servidor
pedisse licença sem remuneração, ou então
se desligasse pra ser contratado como celetista. Assim, colocaram
o cara na parede: "Pedir demissão do serviço
público para passar a ganhar salário aqui, como celetista?"
Ninguém quis, e a Orquestra acabou por causa disso. Na verdade,
foi colocado isso para 'acabar' com a Orquestra, sem dizer que foram
eles que acabaram. Alguns queriam, porque na verdade o salário
ia ser um pouquinho melhor. Outros foram aqui para a Faculdade de
Direito: foi aquela Dulce; até hoje está ali o Miguelzinho,
na portaria; o Pedro, que era da portaria aqui e também está
na portaria da Faculdade. Houve um esvaziamento muito grande da
Rádio, como é o caso de hoje. Muita gente, muito servidor
pediu transferência - foi exatamente a mesma coisa que aconteceu
nessa época: foi uma desgraça.
AO - A Orquestra saiu, mas
ficaram alguns músicos por aqui, durante certo tempo?
BETINHO - Tinha um negócio do Coral, que a Gulnara participava,
um Coral pequeno; tinha um Conjunto de Música Antiga, que
eu não sei se acabou indo para lá também. Mas
não durou muito, não... E outra coisa, eu sei que
não tinha dinheiro para contratar todo mundo como celetista,
ou seja, a opção deles foi ir para lá mesmo,
A Orquestra acabou se desmanchando porque a maioria do pessoal era
idoso. Aí entrou a história de só poder contratar
por concurso, entrou o negócio de só poder comprar
equipamento nacional, foi uma época de desgraça da
Rádio, mesmo. Então, nós, acostumados a trabalhar
com máquina Ampex - que não cobrava nem manutenção,
só limpar a cabeça-, e Studer, começamos a
trabalhar com máquina Akai, que desafinava no ar. Foi na
época do José Alberto, da manutenção,
que se comprou equipamento, mas só máquina nacional,
de rolo, essas máquinas Akai 4000 DS, que era a única
fabricada no Brasil. A mesa que tinha que comprar era Áudio
Line, e a gente trabalhava com mesa Gate - era antiga mas era uma
baita duma mesa. E passou a usar microfone Leson - foi uma desgraça.
Foi de 82 até 86 esse inferno. Ou seja, foi o sucateamento
completo da Rádio, em termos de qualidade, os programas desafinavam
no ar, o tempo todo reclamação de ouvinte - aquele
gravador Akai, quando chega, vamos dizer, a fita tem 30 minutos,
quando chega nos 25 minutos já começa a desafinar,
e você ficava na transmissão segurando fitinha com
o dedo: era uma desgraça.
AO - Isso coincide com a entrada
da FM?
BETINHO - Coincide. Montaram o estúdio da FM, novinho, tudo
com material nacional. Era lá no cinco e meio: logo que descia
a escada, no cantinho à direita. Em maio de 83, o Argemiro,
que entrou no lugar do Sr. Hamilton, como tinha uma ficha minha
lá, feita pelo Sr. Hamilton, me elogiando, ou seja, pedindo
que eu fosse contratado, caso houvesse chance, o Argemiro, que não
me conhecia, ligou lá para casa: "Betinho, você
quer trabalhar na Rádio?" O Argemiro era um cara...
era uma diferença! O Sr. Hamilton não falava um palavrão,
todo educado, e o Argemiro era a grossura em pessoa. Mas eu acabei
me dando bem com ele. Eu voltei em maio de 83, justamente para inaugurar
o estúdio da FM, que estava montado com uma mezinha Áudio
Line, três maquinazinhas de rolo, um toca-discos Super Som.
E o José Alberto, que era o Superintendente de Engenharia
e Operações, tinha essa firma, era dono da Lys - eu
não vou levantar falso testemunho, ele pode ter entrado na
licitação e se dado bem, ter menor preço, e
tal - mas o transmissor era Lys, o excitador de FM, o link, era
tudo Lys.
AO - Qual a programação?
BETINHO - A FM funcionava poucas horas por dia. Ela ficava linkada
com a AM até uma hora da tarde, e funcionava de uma até
a hora da Voz do Brasil. Ás sete linkava com a Voz do Brasil
e, a partir daí, seguia até meia-noite com a AM. Mas
ela só tocava Paul Mauriat, e não tinha locutor -
a gente ficou mais ou menos um ano assim, não tinha anunciar
nem desanunciar, era só vitrolão. Ela entrou em maio
de 83 e ficou até o fim do ano só tocando em experiência,
com umas vinhetinhas dizendo: "Rádio MEC FM, transmitindo
em caráter experimental." Aí vinham aquelas bolachonas
de Paul Mauriat, botava o disco para tocar, ficava rodando algumas
horas e a gente fazendo ajuste no transmissor, e mexendo nas coisas
lá. Em 84 é que começaram, mesmo, a fazer uma
programação específica para a FM. Aí
veio aquela história: "Vamos tirar a música clássica
da AM!", e veio aquela discussão de se jogar a música
clássica para a FM, de botar na AM a música popular,
foi daí que começou, em 84 pra 85, a ter vida própria.
AO - E já estava resolvido
o problema de som da FM?
BETINHO - Não, nessa época tinha muito problema de
som. Mas o Brunini, na verdade, ficou pouco tempo, mas veio mesmo
para acabar. O que todo mundo dizia na época é que
ele entrou para acabar com o Serviço de Rádio Educativo
do MEC, o SRE. Foi ele quem colocou o José Alberto como Superintendente
de Operações.
AO - Foi na época do
Brunini que se pensou em fracionar o Estúdio Sinfônico?
BETINHO - Foi na época do José Alberto - não
sei se era com o Brunini, ainda. Antes de se fazer o cinco e meio
- tinha recursos do FNDE, acho -, ele queria montar várias
ilhazinhas de edição e de montagem, como é
o cinco e meio, para vender equipamento. A firma dele fabricava
equipamentos, e ele ficou doido para desmanchar o Sinfônico,
para montar vários estudiozinhos. Graças a Deus, alguém
falou que não, e inventaram o cinco e meio. Mas enfim, deu
tudo certo, ele montou e colocou equipamento dele ali, 'de cabo
a rabo', no cinco e meio inteiro. Graças a Deus o Sinfônico
foi poupado.
AO - Mas voltando aos primórdios
da MEC FM.
BETINHO - A programação da FM, começou já
com o Luiz Paulo Porto, mas o José Alberto continuou, e ficou
muitos anos essa coisa de equipamento nacional, e foi uma época
triste para a Rádio. Ainda tinha algumas Ampex, algumas Studer,
mas era muito ruim. As mesas viviam dando problema, mau contato,
vazamento, inversão de fase, o transmissor era uma porcaria
- como sempre foi, até a compra desse novo transmissor, já
na gestão da Regina Salles.
AO - E o Flávio Moricone?
BETINHO - A condição da Rádio só foi
melhorar quando entrou o Moricone, que era durão, carrancudo,
mas foi um baita de um superintendente. Ou seja, desde a época
que eu estou , como Superintendente de Operações,
eu passei pelo Luiz Glielmo, o José Alberto, o Flávio
Moricone, o Roberto Lira, depois o Armando 'Beleza'Menezes, aí
veio o André 'Tachinha', depois o 'Formiga' e agora o Renato
Dias. O 'Formiga' também foi um excelente superintendente,
mas, na totalidade, o Flávio Moricone foi o que mais deu
ouvido às bases. Eu me lembro, porque, antes do Moricone,
fizeram um projeto para refrigerar o 4º andar, o Sinfônico
e o cinco e meio. Aí tem uma máquina no 4º andar,
uma no 5º e uma no 6º. A máquina do 6º alimenta
o cinco e meio, a máquina do 5º andar alimenta o Sinfônico
- só a cabine do Sinfônico - e a máquina do
4º andar alimenta os estúdios do 4º andar, inclusive
a técnica do Sinfônico. Eu fiz Engenharia Mecânica
e fiz Refrigeração, aí eu fui, todo animado,
fazer um projeto - porque eles tinham feito um projeto e eu não
concordava - que teria resolvido o problema de barulho do estúdio
e tudo. Aí eu quis participar, mas você não
podia participar, era tudo meio escondido, com o José Alberto.
E foi a época que eu comecei a me meter, a me interessar,
saber o que é que estava acontecendo, e tentar, de uma forma
meio idiota, evitar algumas coisas desagradáveis, que prejudicassem
a Rádio. Mas foi uma confusão tão grande, porque
eram três firmas para fazer os três projetos, cada uma
montando uma máquina. Por que é que não foi
uma firma só? Aí, enfim, quando entrou o Flávio
Moricone e acabou esse decreto aí, ele comprou equipamento
decente, comprou as máquinas Studer, as máquinas Revox.
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"O meu sonho, daqui a vinte, trinta
anos, o meu filho vir aqui e ver uma plaquetinha, qualquer
coisa: 'Porta Roberto Monteiro'. "
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AO - Acabando o decreto que
inviabilizava a compra de material estrangeiro, o que é que
foi comprado?
BETINHO - O decreto acabou antes, mas continuou o José Alberto,
então, enquanto ele esteve aqui, a gente ficou com essas
máquinas Akai, e tal. Eu acho que foi em 85 ou 86, já
era a gestão do Heitor Salles, de novo. O Flávio comprou
essas máquinas Revox que a gente tem até hoje, essas
PR-99, ou Studer, aquela 810, que são máquinas excelentes
- e você vê que com o cara não teve falcatrua
nenhuma, que o cara morreu duro, e andava de carro velho, e você
vê que foi um cara honesto. Era durão, chamado de 'Peito
de Aço', um cara grosso. Microfones ele comprou os Senheiser,
tinha comprado vários microfones Bayer, monitor ele comprou
JBL, essas caixas JBL que tem, essas Control 12, que tem no Auditório.
A maioria do equipamento que se tem hoje, com exceção
dos MDs e daquele toca-discos Technics, é tudo da época
do Flávio Moricone. As mesas Studer, aquelas DDA, do Auditório,
do Estúdio B, foi tudo comprado na gestão do Flávio
Moricone, que, na minha opinião, foi o melhor Superintendente
que a casa já teve. O 'Formiga' também foi outro,
que chegou e 'vestiu a camisa'- a saída dele foi meio estranha,
eu não entendi direito.
AO - Vamos chegar lá.
A época do Moricone coincide com a saída da Embrafilme
(ex-INC) daqui. Fale a respeito da montagem do Auditório.
BETINHO - Até o 2º andar, tudo isso aqui era do INC,
e eu tinha entrado uma vez só no Auditório. Fisicamente
a sala não mudou. Aquele palco já existia, a cabine
de projeção ficou - eles botaram um eucatex lá,
que eu pedi para botar, quando eu era chefe de operações,
porque a parede era toda nua e reverberava muito. Não tinha
refrigeração na cabine, depois colocaram ar condicionado.
Fizeram um projeto - a administração fazia e não
consultava a técnica - e não botaram saída
de ar condicionado para o auditório. Foi feita a montagem,
da época do Flávio, da mesa DDA, que existe até
hoje lá, com aquele rack, com as máquinas Revox. De
obras não foi feito nada, apesar de que coincidiu também
com a época do Roberto Parreira como Presidente da Fundação,
que foi uma ótima gestão para a casa, porque foi feita
nessa época a obra da parte externa do prédio, que
era cheio de fio pendurado, uma bagunça, uma janela de cada
tamanho. No gabinete tinha uma janela que dava lá para a
rua. Então o prédio era todo cheio de puxadinhos,
pelo lado de fora, canos de esgoto saindo para lá, virava
para cá, pingava dali, e o Parreira, nesse ponto, foi bom
para a
Rádio, pois houve essa padronização das janelas
e essa recuperação da fachada toda, externa, do prédio.
E coincidiu também com essa compra de equipamento, só
não foi trocado o transmissor da FM, que continuou o mesmo
- esse Lys continuou durante muitos anos, até a gestão
da Regina Salles, quando conseguiu-se verba para comprar o transmissor
atual da FM. Mas a parte interna de equipamento foi tudo trocado
na gestão do Moricone.
AO - A informatização
também?
BETINHO - A informática já veio bem depois, na época
do Armando Menezes.
AO - Fale a respeito das apresentações
ao vivo, aqui na Rádio.
BETINHO - Olha, eu vi uma vez a transmissão ao vivo da Orquestra,
com o Alceo Bocchino regendo. Foi lá no Sinfônico,
e a gente botou microfone e esticou cabo pelo corredor até
a transmissão - que era ali no quarto andar. Tinha muito
programa ao vivo, mas pequenos, com locutor apresentando. Programa
musical a gente não tinha muito, mesmo depois, com o Auditório.
Aí teve, bem mais tarde, o programa "Marlene Total",
com a Marina e a Maura Mello, produtora e assistente. Era ao vivo,
no Auditório, e enchia. Vinha a turma da Marlene, da Emilinha,
veio o Braguinha, veio todo mundo - era bom demais. E tinha também
os programas do Paulo Tapajós.
AO - Como eram os programas
dele?
BETINHO - Eram fora do meu horário, mas eu também
nunca ouvi, no rádio. Eu ouvia mesmo os programas que ele
fazia para a 568, que eu trabalhei muito tempo colocando no ar o
Projeto Minerva, mas esse programa era narrativo. Os musicais, que
ele fazia lá onde é o Estúdio B hoje, eu não
participava, não era o meu horário.
AO - E a aparelhagem de externa?
BETINHO - O Moricone modernizou isso, também. Na época
em que eu fazia externa com aquele equipamento pesado, a gente gravava
e colocava no ar depois, porque era o maior risco de se fazer ao
vivo, porque as linhas viviam caindo, os telefones, chegava lá
e não tinha as LPs. Já na época do Flávio,
não - a gente fez muita coisa direto da Sala Cecília
Meirelles. E bem mais recente, já bem mais próximo
da Regina Salles, a gente fez muita coisa boa ao vivo - aquela cobertura
que a gente fez no teatro João Caetano, já na época
do Paulo Henrique. Uma vez a gente fez uma transmissão no
Carlos Gomes, na época do Festival da Rádio - que
época maravilhosa! - e fechamos um link, o Tachinha já
era o coordenador, e eu falei: "Tacha, como é que a
gente vai poder fazer para botar ponto nos repórteres?"
Porque iam ter vários repórteres espalhados durante
o Festival. Aí, o Tacha: "Vamos arrumar walk-mans, a
gente monta o link dentro do teatro e transmite na mesma freqüência
da Rádio - a gente faz uma rádio-pirata dentro do
teatro, para poder ter coordenação." A gente
bolou uma parafernalia - eu o Tacha e o Alcimar - e tudo funcionava.
Então o cara ficava ouvindo o radinho sintonizado na Rádio
MEC, dentro do teatro, um estava no camarim, o outro lá na
porta, outro lá não sei onde, e pela mesa a gente
tinha como ouvir eles, que a gente estava com microfone sem-fio,
e saía na mesa. A gente tinha como chegar: o cara estava
entrevistando alguém lá na porta, e a gente através
do link que a gente montou, montamos uma antena plano-terra, para
fazer uma rádio-pirata dentro do teatro, então transmitia,
só que só transmitia ali dentro do teatro mesmo, então
o som do ar, o cara estava o tempo todo ouvindo o som do ar, com
walk-man, e aquela coisa de brasileiro mesmo: cada um trouxe o seu
, o walk-man era particular de cada um, e ouvindo o retorno da Rádio
e ouvia a nossa comunicação. Então, o repórter
está entrevistando alguém aqui e, ao mesmo tempo,
a gente avisava: "Olha, chama fulano, que fulano vai falar
com o Chico Buarque, agora." Isso o cara entrevistando o outro
e ouvindo. E o cara já chegava - nem a TV Globo faz isso
- e falava: "Vamos agora falar com o repórter fulano
de tal, que está no camarim com o Chico Buarque."
AO - E a gestão do Luiz
Porto, então?
BETINHO - Eu acho que ele era irmão de um Ministro do Exército.
Era uma pessoa muito educada, muito gentil, inclusive eu fiquei
amigo do filho dele, nem sabia que era filho dele. Gostei dele,
mas não fez nada, foi inexpressivo. Ele ficou pouco tempo,
também. Tampou um buraco da saída do Luiz Brunini.
Depois veio a Thaís, que já fez alguma coisa - ela
já tinha um objetivo qualquer, político, eu não
sei o que é que ela tinha, eu sei que ela já começou
a mexer. Eu não sei nem se foi na gestão da Thaís
ou se foi na volta do Heitor Salles, que veio o Moricone - esse
detalhe eu não lembro, não.
AO - Voltando ao Moricone,
que reequipou a Rádio.
BETINHO - Aí, de repente, ele morreu. Ficou o Roberto Lira,
que era chefe da manutenção e passou para a Coordenadoria,
e deu continuidade, mais ou menos, ao trabalho do Moricone.
AO - Nessa época, a
Rádio passou a ter um problema de som crônico, e o
Lira dizia que não era problema da técnica, mas da
produção dos programas, que era precária.
BETINHO - Bom, o Lira sempre foi um 'vaselina'. Agora, a verdade
é o seguinte: o nosso transmissor, que é um baita
transmissor, da AM, um Harris de 100 quilowatts, só que antigo
- de 1978, do ano que eu entrei na Rádio -, e o problema
é que ele está montado lá em Itaóca,
naquela antena triplexada, que era a Rádio Ipanema, a Rádio
Nacional e a Rádio MEC.
AO - Quem operava o transmissor?
BETINHO - O nosso transmissor nunca foi operado por ninguém
da Rádio MEC - quem fazia a manutenção, quem
fazia as coisas era o pessoal da Rádio Nacional. Eu nunca
consegui imaginar isso. Como é que uma Emissora funciona
com um transmissor na mão de terceiros? É lógico:
o cara, se pifarem os dois transmissores, ele vai correr atrás
do transmissor que é da Rádio dele. Eu nunca entendi
porque é que a Rádio MEC nunca teve, e continua não
tendo ninguém no transmissor.
Antigamente, na época do MEC, a Rádio pagava uma gratificação,
um adicional de 30 %, aos técnicos - eles eram contratados
da Rádio Nacional. Mas aí, em 82, veio essa história
de não poder pagar, que eu também não sei ao
certo como era, e ficou essa guerra: o pessoal, com razão,
o cara ganhava uma gratificação, o cara está
lá, a Rádio dele é a Rádio Nacional,
e a Rádio MEC nunca teve um operador de transmissor lá,
e nem ninguém, nem um faxineiro lá.
AO - O pessoal canibalizava
o equipamento da Rádio MEC?
BETINHO - Isso são histórias que contam, mas eu não
duvido, porque já fui lá, várias vezes, e você
vê que o pessoal vinha de má vontade, e no fundo eles
tinham razão. Eles não tinham obrigação
de ter que ficar, isso era um interesse da Rádio MEC, eu
acho, de chegar e resolver essa questão. Contratava um técnico
de manutenção e botava para cumprir horário
lá, direto, tomando conta do transmissor e fazendo manutenção
preventiva.
AO - E como se conseguiu recuperar
o transmissor?
BETINHO - Foi na época da Regina, que se conseguiu dinheiro
para reformar o transmissor. O Lira reformou, e teve uma época
em que ficou muito bom o som da AM. Mas é aquela história:
precisava era comprar um transmissor novo e desvincular da Rádio
Nacional, a não ser que se tenha um técnico permanentemente
lá. E um dos motivos da saída do Formiga foi essa
confusão que teve no transmissor, de 'rixazinha' da técnica
de lá com o pessoal daqui, eu não sei o que aconteceu,
e até hoje não temos nenhum pessoal lá, e tem
que ter.
AO - Ganhando um salário.
BETINHO - Exatamente. Não dá pra ficar dependendo
dos funcionários da Rádio que realmente vestiam a
camisa, ou seja, que se davam por inteiro para fazer essas coisas
- o Formiga foi um que entrou há pouco tempo, o cara se deu,
mesmo, para a Rádio, mas não conseguiu. A vinda do
Renato Dias, agora, eu acho que foi uma tentativa de contornar isso,
porque o Renato Dias era da manutenção da Rádio
Nacional, e ele tem um diálogo com essas pessoas. Mas eu
não acho que seja uma solução.
AO - Qual seria a solução?
BETINHO - Eu achava que tinha que enfrentar esse problema de frente,
mesmo. O transmissor é um bom transmissor. Se ele estiver
com a manutenção em dia, tiver peças de reposição,
ele vai funcionar, como funcionou um bom período, na gestão
da Regina Salles. Mas por quê? Conseguiu-se dinheiro, se trocaram
várias peças, o Lira fez a manutenção
- que ele é um bom técnico de transmissor - e funcionou.
Agora, de lá para cá, não se tem ninguém
lá, realmente é muito difícil. O Formiga tentou,
suou a camisa para tentar resolver a questão do transmissor
e não conseguiu, e eu acho que foi um dos motivos porque
ele quis sair daqui, também.
AO - E o 'apagão"
das fitas, você lembra desse período e você sabe
por que é que isso aconteceu?
BETINHO - Olha, eu não lembro que gestão que era.
Eu sei que ficamos mais de dois anos - era aquela questão
da falta de fitas, isso foi uma tristeza. Eu copiei muita coisa
para fita K-7, e o que me deixava mais triste era o seguinte, eu
falava: "Tem que copiar esse negócio, já que
tem que copiar, eu vou copiar com o maior carinho!" Eu media,
editava o áudio, copiava para K-7, aí eu pegava e
alinhava o K-7 direitinho, para tentar pelo menos, ajustava direitinho,
eu fazia isso, para no mínimo, já que vai copiar para
K-7, vou copiar bem... Botava flat, com o maior cuidado, via o tipo
de fita, se era normal, se era cromo, para pelo menos guardar da
melhor forma possível. Mas a maioria dos colegas - que já
não eram mais aqueles da Mayrink Veiga, da Rádio Nacional
- pegavam, e como era cópia, era a 'hora do café',
dava 'play-rec', soltava, o nível que viesse vinha, se o
canal direito está mais alto que o esquerdo ou se a fita
é de cromo e está para normal, já foi. Então
foi uma coisa, assim, que me deu muita tristeza, eu via que a gente
estava perdendo um monte de coisas. E, com certeza, a hora em que
for pegar essas fitas, vai ter muita coisa que vai estar desafinando,
vai ter muita coisa que vai estar sem nível - eu acredito
que uns oitenta por cento... Foi uma ignorância. Uma empresa
não pode funcionar sem ouvir o que é que os técnicos
têm a dizer. Uma direção não pode chegar
e tomar uma decisão dessas sem consultar. Será que
valeu a pena? Era preferivel ficar sem gravar, até a gente
ter dinheiro para comprar fitas. Nem que ficasse seis meses tocando
'vitrolão', era preferível do que fazer uma coisa
dessas.
AO - Você tem idéia
de quantas fitas foram nessa?
BETINHO - Olha, é muito. Porque foram mais de dois anos
copiando, todo dia tinha pilhas de fitas rolo e de K-7 para copiar
- sempre que tinha horário vago de estúdio tinha cópia
para fazer. Mas foi muito, mesmo. E tinha estúdio que era
só para fazer isso, tinha operador que vinha à Rádio,
vamos dizer, que não trabalhava nem no Estúdio A nem
no B, ficavam naquelas montagens, lá em cima, seis horas
por dia só copiando fita. Uns dois operadores, em dois horários,
só de copiagem de fitas, todo dia, mais de dois anos, faz
as contas. Em seis horas você copia cinco programas de uma
hora; em dois períodos, seriam dez programas de uma hora
por dia, por mês já seriam trezentos programas, bota
isso vezes dez meses seriam três mil programas - é
muita coisa.
AO - Depois do Luiz Porto,
veio a Dona Thaís, não é?
BETINHO - A Thaís, eu sinceramente, eu não tenho
mais o que falar dela, não. Ficou pouco tempo e passou. Acho
que ela mexeu na programação, foi quando entrou, eu
acho, o João Henrique.
AO - Quando o Heitor entrou,
a superintendência e a Direção de Programação
era do Allan Lima. Depois, com a saída do Allan - numa história
que eu não entendo até hoje - entrou o João
Henrique, escolhido pelo Roberto Parreira.
BETINHO - Eu acho que a grande mudança que teve mesmo de
programação, de formato da FM, foi o que aconteceu
na época do João Henrique. Que, falem o que quiserem,
mas ele mexeu mesmo nessa coisa. O João Henrique era um assistente
de produção da casa, que entrou pisando numa porção
de gente, mas eu acho que foi a partir dele, da gestão do
Parreira até a gestão da Regina, que a Rádio
viveu um dos melhores momentos, em termos de produção.
Aquela coisa que tinha praticamente acabado, de radioteatro, voltou
muita coisa. E, mais tarde, o FESCAN, o Festival da Rádio,
tanto da AM quanto da FM, a contribuição que a Gizélia
Fernandes também deu, na produção do Concurso
Talentos Rádio MEC.
AO - E o Paulo Salgado?
BETINHO - Eu fiquei conhecendo, mesmo, o Paulo Salgado, por causa
da Nízia Nóbrega. Tem uma história gozadíssima,
com ela. Eu estava na transmissão, ainda, e a Nízia
Nóbrega era irmã do Ministro da Aeronáutica,
e ela era grossa, mesmo. E eu estava no fim de semana, fazendo a
transmissão, e colocava as fitas: tinha um roteiro da programação
e as fitas, empilhadinhas. Eu tinha acabado de fazer 18 anos. Eu
pegava as fitas, colocava no ponto, tinha três máquinas,
e eu fazia assim: ficava lendo jornal ou estudando e, de hora em
hora, disparava as máquinas. Só que eu vacilei e na
hora de colocar na máquina, eu troquei o programa dela por
um outro lá, e botei no ponto errado. Quando deu duas horas,
eu tinha que soltar um outro programa, e eu disparei o programa
dela. E quando foi duas e dez, duas e quinze, toca o telefone: "Ah,
o programa está errado! Tira esse programa do ar agora!"
Aí, eu falei: "A senhora me desculpe, eu soltei errado,
mas eu não vou poder tirar agora." Porque o próximo
programa tinha uma hora de duração e o outro tinha
uma hora, se eu interrompesse aquele para trocar ia atrasar a programação
em 20 minutos. E ela: "Eu ordeno que tire! Eu ordeno!"
Aí eu falei: "A senhora vai me desculpar, mas eu não
posso fazer isso!" E ela: "Eu vou falar com o meu irmão,
que é ministro e você vai para a rua!!" Aí
desligou. E eu fiquei triste porque errei, foi uma boçalidade
minha mesmo.
Aí eu aprendi, essa é uma das coisas que eu aprendi
na Rádio MEC. Na época, o Superintendente de Programação
era o Paulo Salgado, que era homosexual, e eu era o estereótipo
do machão, moleque, um boçal. E olha só o que
é que a Rádio fez comigo: eu peguei - eu faço
questão de falar isso por causa do Paulo Salgado - eu peguei
o livro de ocorrências e botei que por culpa única
e exclusivamente minha, o programa que deveria ir ao ar tal hora,
coloquei invertido e tal, e assinei. Aí, vim trabalhar arrasado,
segunda-feira, e todo mundo: "Ih, Betinho, você tá
ferrado!", desde a portaria até lá em cima. E
eu cheguei na portaria: "O Paulo Salgado quer falar com você."
Aí eu fui lá. Quando eu estou entrando no corredor,
eu vi a Nízia Nóbrega passando, e eu pensei: "Ela
deve ter ido falar com o Paulo Salgado!" E, quando eu entrei,
ele estava sentado na mesa e eu vi o livro de ocorrências
em cima da mesa. Ele se vira e: "Você é que é
o Roberto? Você sabe quem é essa senhora que saiu daqui?
Ela chegou e pediu seu nome e eu mandei pegar o livro de ocorrências.
Mas depois que eu li o que estava escrito, eu resolvi não
dar". E ele se levantou, apertou a minha mão, e falou
assim: "Eu tenho prazer de estar apertando a mão de
uma pessoa honesta! Espero que você seja assim a vida inteira!"
E graças a Deus, eu acho que eu consegui ser honesto, e continuo
sendo honesto assim, graças ao Paulo Salgado. Eu me despi
de todo e qualquer preconceito a partir daquele dia. Foi preciso
uma pessoa que eu colocava à margem da sociedade, por uma
opção sexual dele, ele e todos os outros, ou seja,
foi preciso um cara desses me ensinar, me dar uma lição
de vida, que eu não vou esquecer. Eu queria até saber
onde ele anda agora?
AO - Faleceu há uns
10 anos.
BETINHO - Pois foi uma das grandes figuras da Rádio MEC.
Foi um grande homem. Ele, o Mário Dias. O Mário Dias
foi um exemplo de funcionário público. Quem conhece
um homem desses não pode chamar funcionário público
de vagabundo. Poxa, o Mário Dias, o cara era um sábio.
Uma das pessoas que eu mais admirei aqui dentro da Rádio.
AO - Quais foram elas?
BETINHO - O Sr. Hamilton Reis, que eu nunca vou esquecer. Eu acho
que a minha personalidade, acho que o que eu sou eu devo a Hamilton
Reis, ao Paulo Salgado e ao Sr. Mário Dias. O Mário
Dias me fez ter orgulho de ser funcionário público.
Eu tinha orgulho de ser funcionário público e de não
faltar ao serviço. Eu não sei se você sabe,
até a criação da ACERP, eu nunca faltei um
dia à Rádio, eu já vim trabalhar aqui com febre,
caído de moto, entrevado, todo arrebentado, com o pé
enfaixado - nunca faltei em 20 anos de Rádio, até
a criação da ACERP. É verdade. Eu me orgulhava
disso até o Fernando Henrique virar e falar que funcionário
público é vagabundo. Sinceramente, eu estava moldando
a minha personalidade. E graças a Deus eu me cerquei, tinha
onde me espelhar, tinha o Hamilton Reis, tinha o Paulo Salgado,
que me deu uma lição assim... e o Mário Dias,
que era demais - que homem organizado, que funcionário! Eu
tenho muita saudade dessas pessoas, é difícil você
encontrar gente de bem, gente do bem e para o bem. Eu acho que é
isso que faz a gente viver, faz a gente agüentar essa violência,
esse mundo desgraçado que tem por aí . Era gente de
bem, que gostava da Rádio, que sabia te respeitar, eu aprendi
muito. Você é um. O que você fez e faz ainda
pela Rádio, para tentar salvar, manter viva a chama do Roquette-Pinto
aqui dentro, não tem preço. Você se dispor a
passar por isso tudo que você passa, se desgastar pela Rádio.
Você, Paulo Salgado, o Sr.Hamilton, Mário Dias, esse
pessoal, são os meus espelhos. Eu já estou mais da
metade da minha vida aqui dentro da Rádio, eu vou fazer 25
anos aqui dentro, e, o que eu sou hoje, se as pessoas me respeitam,
se as pessoas me tratam bem, eu acho que tinham que agradecer a
esse pessoal, a vocês. Isso aqui era uma família, como
isso aqui era bom, é uma pena. Agora está todo mundo
passageiro demais, antigamente eu conhecia todo mundo na Rádio,
do faxineiro ao presidente da Fundação eu me dava
com todos. Hoje, tem um monte de gente que eu não conheço.
AO - E o jornalismo?
BETINHO - O Jornalismo na Rádio era inexistente. Tinha o
Santana e tinha um coronel da reserva. Era um jornalzinho de fazer
notinha cultural - era triste. Foi na época da Lurdinha que
o Jornalismo realmente cresceu. Na entrada dela, foi criado aqui
no 2º andar o Jornalismo, que ganhou uma mesa da Embaixada
americana, que até foi a SOARMEC que conseguiu. Foi uma mesa
Gate e uma série de equipamentos, e montou-se um estúdio
muito bom, ocupando o espaço que o Acervo ocupa, hoje. Foi
a primeira vez que se teve Jornalismo na Rádio, funcionando
efetivamente. E fizemos coberturas, o Sanz era também editor
do jornal, foi a primeira vez que vieram trabalhar grandes jornalistas
aqui -pelo menos que eu tenha visto. Isso aí é uma
coisa importante de ser falada, esse surgimento do Jornalismo. Não
era para ter acabado. O Jornalismo cresceu muito... e deu vida à
Rádio, não sei o que é que aconteceu que agora
acabou.
AO - E a educação?
BETINHO - A programação da Educação
começou a cair porque ficou voltada para as Ondas Curtas,
e o próprio rádio de Ondas Curtas foi acabando, tinha
um destino já, predestinado a morrer, porque a partir daí
começaram a surgir um monte de meios: veio Internet, veio
televisão a cabo, veio antena parabólica. E a Maricéia
(Drumond, última chefe do Setor Educativo) queria comprar
um transmissor de Ondas Curtas - coisa que, na verdade, atenderia
muito pouca gente. Eu não sei, mas a Educação
acabou mais ou menos por conta disso, poderiam ter se escolhidos
outros caminhos. Eu achava que se devia trabalhar em cima mesmo
da AM e da FM - as Ondas Curtas, naquela época, eu já
achava que era uma luta perdida.
AO - Fale dos produtores que
você viu trabalhar aqui.
BETINHO - Ah, tinha a Noemi Flores, que era uma pessoa incrível,
ainda é; a Helena Theodoro, que é demais, eu gosto
muitodela; a Gizélia Fernandes - são pessoas que a
gente sente saudades. E a Lílian Zaremba, que sempre foi
a pioneira, e sempre foi sub-utilizada. A Líliam é
uma pessoa inteligentíssima, é impressionante como
é que nenhuma direção que passou por aqui soube
explorar essa coisa que a Líliam tem: ela experimenta. Eu
acho que a Líliam é uma pessoa capaz de criar uma
nova linguagem para o rádio, de repente, para ressuscitar
o rádio, tirar o rádio - não só a Rádio
MEC, mas o meio de comunicação - da inércia
que ele vive hoje. Mas é aquela história, hoje em
dia as rádios não têm mais recursos para bancar
bons profissionais, que resolvam essa questão do rádio
como veículo. E a Líliam é uma, você
também é outro, o Lauro Gomes, o Zito Baptista. Reúne
e fala assim: "Gente, descobre uma fórmula mágica,
uma nova linguagem para o rádio, uma forma da gente se comunicar,
da gente passar cultura, informação!" Ou seja,
uma outra linguagem que desperte o interesse da população
para o rádio. O jornal existe há 'milhões de
anos' - quer coisa mais chata do que ficar sujando o dedo, virando
página, com aquele negócio enorme? - e todo mundo
lê jornal. Por que é que ninguém pode continuar
ouvindo o rádio?
AO - Você relacionaria
outros produtores marcantes?
BETINHO - Ah, o Paulo Santos, com os programas de jazz, que também
foi outra figura inesquecível. O Paulo Tapajós, o
Paulo Alberto - eu montei muito programa dele. E tinha o Miguel
Proença, o Ricardo Cravo Albin, o Isaac Karabtchewsky. O
Karabtchewsky vinha uma vez por mês, e o pessoal falava: "É
fantasma..." Mas fazia um programa de música clássica
que era demais. Eu sempre tive contato com música clássica,
mas eu nunca tive educação musical - até a
minha mãe tentou, mas eu não quis saber . Então,
o Isaac tinha um programa, que eu montava com ele - ele gravava
uma vez por mês, mas gravava 12 programas, para o mês
inteiro. E ele chegava e explicava, vamos dizer, a coda, e ele tocava,
explicava o que é que era uma coda, e chegava e tocava um
pedaço e, enquanto abaixava em BG, ele falava: "A partir
desse momento começa a coda, o momento em que o maestro faz
isso e faz aquilo, os músicos fazem aquilo." Aí
explicava o porquê dos movimentos - era um programa educativo,
e não era maçante. Muita coisa que eu aprendi foi
com essas pessoas. Tinha o Antônio Hernandez, que tinha uns
programas bons, mas eu gostava mesmo era dos textos da ópera,
do Zito, lidos pelo Lauro Fabiano - aquilo era muito bom...
AO - Do final do período
do Heitor, até o Luiz Sanz, tivemos várias direções-tampão:
passando pelo Fajardo, que nem assumiu direito, depois Marcia e
Maria Angélica. Nesse período, se informatiza a Rádio
e se compra equipamento para o Sinfônico, não é?
BETINHO - Nesse período você tinha muito mais acesso
ao gabinete do que na época do Heitor. Foi a época
que eu comecei a participar mais dessas questões - eu me
metia na compra de equipamento, eu me metia em negócio de
refrigeração, eu já questionava. O Moricone
dava essa abertura, e com a Márcia, com a Maria Angélica,
a gente teve um pouco mais de abertura - começou a se abrir
o gabinete. Era uma coisa muito fechada o gabinete. Era aquela coisa
de repartição pública, mesmo, ficava o paletó
lá - quando você queria falar com alguém você
ficava duas horas sentado na cadeira. E a Rádio deixou, mais
ou menos, de ser assim. E mesmo hoje, você não pode
dizer que o gabinete não seja aberto aos outros funcionários.
AO - Fale sobre o novo equipamento.
BETINHO - A questão da compra da mesa e do equipamento do
Sinfônico já foi na época do Sanz. Parece que
foi uma verba do FNDE e, nessa época, o Diretor de Engenharia
da TV era o Orestes. Chamaram o Sólon do Vale para fazer
um projeto de acústica dentro da técnica do Sinfônico;
se questionou de novo aquela história de avançar dois
metros para dentro do estúdio. Depois teve uma coisa de puxar
o estúdio, avançar dois metros - o Sólon também
veio com essa idéia, que eu também fui contra. Aí,
na época do Sanz, era o Roberto Lira o coordenador, e o Sanz
- que na minha opinião fez uma gestão muito aquém
do que eu esperava - detonou o Roberto Lira, e trouxe o Armando
Menezes para a Rádio MEC. Nessa época, eu já
tinha uma aproximação maior com o Sanz, e questionava
mesmo, ia e discutia. Nós tínhamos um monte de equipamento
comprado na época do Flávio Moricone, e um monte de
equipamento encostado, e o Armando veio com um papo de querer padronizar
tudo com máquina Otari. E o Sanz ficou até meio melindrado,
porque eu batia de frente com o Armando. O Sanz foi colega de trabalho
nosso, aqui no Jornalismo, e eu tinha intimidade para chegar e falar,
e eu achei que foi feito muita coisa errada. E uma das coisas erradas
foi a compra da mesa Sony - que na verdade não é uma
mesa ruim, mas é uma mesa que é impraticável
para o tamanho da técnica que se tem no estúdio. E
acabaram comprando escondido de mim, porque eu via todos os processos
que o Armando passava de compra - porque nessa época eu era
Chefe de Operações - e dava palpites, e embarreirava.
E eu consegui embarreirar de vez a compra desses Otari - fiz uma
justificativa imensa, dizendo que a gente tinha que partir para
a era digital, e era um absurdo se comprar 36 máquinas analógicas
Otari, numa época, isso foi em 94, com todo mundo partindo
para o digital . Naquela época havia dinheiro - foi quando
se reformou o 7º andar. O Armando não deixava de ser
um bom administrador, porque ele chegou e fez, executou a obra,
vamos dizer, informatizou a casa, resolveu o problema de telefonia
da casa - isso aí você tem que dar crédito ao
cara - os telefones na casa eram um caos, era um inferno isso aqui.
Agora, essa questão da mesa do Sinfônico é questionável.
Levou não sei quantos anos para chegar, e ficou um ano parada,
lá em baixo. Também compramos MDs, mas ficaram guardado,
também. Ele queria só comprar, comprar, e deixar guardado.
Foi preciso eu pegar um MD, eu falei: "Mas, Armando, eu vou
pegar um MD desses que eu quero testar, quero botar ele para funcionar!"
E ele: "Não, eu não quero instalar isso agora".
Poxa, o aparelho já estava há um ano encaixotado,
e a garantia do equipamento? E como é que você ia fazer?
Ensinar os meninos a trabalhar com isso? Eu fui lá no almoxarifado,
na marra, peguei um MD daquele, botei na minha sala e comecei a
futucar o equipamento, para poder aprender a operar com ele e ensinar
os meninos. E foi aí que apresentou um monte de problemas,
foi até bom, porque eu não sei se ficou parado muito
tempo, deu um monte de falhas, dava erro de disco, aquelas confusões
todas que deram no começo, e voltaram a dar agora - também
já tem mais de dez anos que as máquinas estão
rodando, e foi isso. E essa máquina digital, que ele comprou
também, essa PCM, da Sony, é uma baita máquina,
mas é uma máquina de trezentos mil reais - você
pode gravar muito mais barato em outras mídias, ou seja,
foi uma coisa feita para se gastar dinheiro. Tanto é que
a máquina está dando um monte de problemas, hoje.
A Sony não tem tradição em áudio, a
Sony é detentora de tecnologia em vídeo. A compra
que a TVE fez com a Sony foi grande, eu não sei qual foi
a contrapartida disso.
AO - Qual é o estado
atual dessa máquina?
BETINHO - A máquina grava muito bem: é muito boa.
Se ela estivesse funcionando ela poderia ficar gravando mais uns
dez anos, sem problemas, só que ela está com um defeito
intermitente, que é arriscado você gravar e arrebentar
a fita no trabalho de um músico. Que eu tenha conhecimento
só tem uma outra máquina dessas, que é uma
no Estúdio Mega, só que são 48 canais - e o
Pedro, da Sony, que é o único técnico, que
eu saiba, no Brasil, que fez o curso específico para essa
máquina, não conseguiu resolver. Ou seja, a máquina
está fadada a ficar sem conserto e ser aposentada como aconteceu
com aquela máquina de 24 canais analógica. Eu acho
que tinha que botar a jurídica para trabalhar nisso, de se
fazer uma forma de se vender essa máquina e voltar o dinheiro
para a Rádio. Porque é jogar dinheiro público
fora - eu acho um absurdo estar com uma máquina de 24 canais,
em perfeito estado, que ainda interessa a alguns estúdios
- é uma máquina que se eu for dar baixa nela, ela
vai para a Penha (onde fica o depósito), vai enferrujar,
e eu prefiro deixar ela guardada aqui. Eu achava que tinha que ter
uma forma, com a jurídica trabalhando em cima, para chegar
e tentar não se jogar fora um patrimônio público,
que é o que vai acabar acontecendo com esse equipamento..
AO - E a mesa em si, o estado
da mesa?
BETINHO - A mesa está ótima, está tudo direitinho.
Os pequenos problemas que têm são normais, mau contato
num canal, uma coisa qualquer. O único problema dela é
que ela é grande demais, só isso.
AO - Fala do Sr. Paulo Henrique
Cardoso.
BETINHO - O Paulo me surpreendeu. Na verdade, ele é um garotão,
um playboy, mas que soube respeitar os funcionários da casa.
Ele ouvia todo mundo, era uma pessoa muito expansiva, fez coisas
erradas, como todo mundo faz, mas ele soube respeitar quem era antigo
aqui - coisa que não tem acontecido. Eu acho que a gestão
dele foi boa, não porque me beneficiou, porque me colocou
como chefe da operação. Foi uma pena, no finalzinho,
com aquela confusão daquele Presidente que entrou, o Paulo
Branco, teve aquela 'rixinha' política lá, e o Paulo
Henrique acabou largando a Direção da Rádio.
Eu achei que ele errou nisso, de ter abandonado a Rádio por
questões políticas. Depois, os funcionários
se uniram, se juntaram, fizemos aquele Encontro de Funcionários,
que foi ótimo, a SOARMEC participou efetivamente disso, e
a partir da gestão da Regina, foi maravilhoso.
AO - E a gestão da Regina?
BETINHO - Foi inquestionável: mais transparente impossível.
Eu acho assim: eu não conheci as outras gestões antes
da do Heitor, mas eu acho que nunca teve uma gestão melhor
na Rádio, e acho que dificilmente vai haver. A Regina era
uma funcionária de carreira da casa, talvez por isso que
tenha sido tão gostoso. Era uma pessoa honesta, querida,
transparente em tudo, e foi eleita pelos funcionários - que
coisa inédita, fantástica! Isso foi uma coisa, uma
herança que o Paulo Henrique deixou. Foi lindo, maravilhoso,
melhor não podia ser! Todo mundo era ouvido, ela fazia reunião
com todo mundo, todas as áreas eram respeitadas, era demais
da conta!, e tudo foi surgindo naturalmente, com a participação
dos funcionários. Virou uma grande 'família', mesmo.
E o engraçado foi que na gestão da Regina, que teoricamente
não era uma pessoa indicada politicamente, foi a época
em que se teve mais condição de se fazer tudo - tinha
dinheiro para se fazer tudo. Como é que pode? Uma pessoa
que não veio de Brasília, que não era 'empistolada'
de ninguém, que era funcionária de carreira da casa,
eleita, colocada lá pela pressão que os funcionários
fizeram sobre o Paulo Branco. Faz muita falta, e como a Rádio
cresceu.
AO - Na verdade, houve uma
votação em que a Regina ficou na frente do Sanz, mas
o Sanz entrou por indicação do Chico Teixeira. E ao
sair, o Sanz teve a coerência de indicar a Regina .
BETINHO - Ele se afastou para voltar para a UFF. E aí veio
o FESCAN, veio o Festival de Talentos
A participação
da Gizélia Fernandes, nesse ponto - como era trabalhadora,
como gostava da Rádio. Essas pessoas, elas marcam, eram pessoas
que você sente que gostavam da Rádio, e era um clima
muito bom. Com a Liara (Liara Avelar, superintendente na época)
eu não tenho o que falar de errado, de ruim. Todas as áreas
foram ouvidas, foram respeitadas, se conseguiu fazer tudo, fundou-se
a CAO (Central de Atendimento ao Ouvinte) nessa época, e
funcionou maravilhosamente bem, fizemos muita coisa ao vivo, da
Sala Cecília Meirelles, do Theatro Municipal, de um monte
de lugares. E a Rádio trabalhava em parceria com a SOARMEC
- foi a época que a SOARMEC cresceu, que a Rádio cresceu
junto com isso. Mesmo com a mudança do Presidente, do Paulo
Branco para o Escostegui e depois o Paulo Ribeiro, continuaram a
apoiar a Regina, souberam respeitar. E depois do Paulo Ribeiro veio
o Jorge Guilherme na Presidência, e manteve a Regina, mas
só acabou mesmo quando entrou a ACERP, que se extinguiu o
quadro, e foi uma pena a Regina ter saído, mas não
tinha outro jeito. E com ela saiu um monte de gente.
AO - E como você sente
a Rádio, hoje?
BETINHO - Eu vejo assim: são poucas pessoas, as pessoas
trabalham aqui por trabalhar, por inércia, sem alternativa
para poder sobreviver - com o salário congelado esse tempo
todo. E as outras estão só de passagem, porque se
paga tão mal, não dá tempo de você amar
isso, gostar disso, de viver o que eu vivi. Eu me considero um felizardo
- entrei aqui num momento em que só tinha profissional da
Mayrink Veiga e da Rádio Nacional, que eram as potências
do rádio. Eu estou com 42 anos, hoje, eu não vivi
a Era do Rádio, mas eu acabei vivendo porque os profissionais
que trabalhavam aqui, todos vieram dessa Era do Rádio, todos
eram oriundos daquilo ali, e eu consegui voltar no tempo e pegar
uma carona nessa história - eu cresci muito, eu aprendi muito.
Às vezes eu fico pensando, eu perdi o meu tempo, eu me apaixonei,
é aquela coisa de você se apaixonar, e mais tarde você
ficar meio arrependido. Eu nunca tive ídolos, eu nunca fui
fã de Beatles, de nada, eu gostava mas nunca tive ídolos,
os meus ídolos eram o Sr. Hamilton, era o Paulo Salgado,
era o Sr. Mário Dias, eram essas pessoas de bem que a vida
me deu a oportunidade de ir esbarrando com elas. Eu sempre que eu
esbarro com uma pessoa assim eu tento tirar o que eu posso, e aprender,
e é isso que me fez o que eu sou hoje.
AO - A Rádio MEC, ela
é uma Rádio Educativa 'da antena para fora', mas ela
também é uma Rádio Educativa, no sentido de
que ela treina e profissionaliza pessoas. Não é só
você: o Ary André, o Dinho, o Ribamar, essas pessoas
todas aprenderam aqui dentro. Porque o Ary André, numa entrevista,
disse: "Eu formei algumas pessoas, mas ultimamente eu lamento
não poder ter feito pelos técnicos o que fizeram por
mim!" Você formou pessoas aqui dentro?
BETINHO - O próprio Ary André foi um deles. E foi
legal isso, porque ele era meu estagiário quando tinha um
estudiozinho lá em cima, no 6º andar. Quando eu entrei
na Rádio, era tudo mono - eram aquelas máquinas Ampex,
e tal. Esse pessoal que tinha vindo da Nacional e da Mayrink Veiga
que era onde tinha a maior tecnologia de rádio - que na verdade
eram a 'TV Globo' da época. Lá, os programas eram
ao vivo; aqui, eles já faziam gravado, mas eles eram bons
profissionais. Então, eu dei a sorte de entrar na Rádio
num momento em que estavam essas pessoas disponíveis. Por
onde quer que eu olhasse, só tinha gente boa trabalhando,
não tinha ninguém fraco. Então eu tive muita
sorte, eu sempre fui muito curioso, eu sempre questionei. E muita
coisa eu aprendi fora da Rádio, fazendo externa pela Rádio.
Eu aprendi muito com o Frank Justus - aquele americano que gravou
muito disco por aí. Eu ia para a externa e encontrava o Frank
- ele era uma pessoa fantástica. Eu ia lá para gravar
um programa de rádio, e ele estava lá gravando um
disco qualquer, eu perguntava a ele. E eu sentava com o Monteverde
e perguntava: "Por que é que tem que alinhar isso aqui?"
- "É porque você tem que fazer a leitura da reprodução,
para ver se o seu nível de áudio está entrando
direito." Todos eles sabiam me responder isso, hoje em dia
a maioria não sabe responder. E eu gosto de ensinar, eu acho
que eu daria um bom professor, talvez, de qualquer coisa, porque
eu gosto de ensinar. Esses meninos que eu treinei, o Ary André,
o Dinho, o Kley, eu gosto de sentar e explicar, e dar oportunidade
de fazer, porque eu tive essa oportunidade de aprender e eu não
gosto de guardar nada, eu gosto de passar isso adiante. Eu dei sorte.
Tudo que aprendi de 'microfonação' foi principalmente
com o Frank - na parte de orquestra, eu não conhecia nada,
para mim um violino e uma viola eram a mesma coisa, um violoncelo
e um contrabaixo eram a mesma coisa, e o Frank que foi me ensinando
isso, me mostrando o porquê daquela microfonação,
e me explicando. E eu comecei a experimentar. Ia fazer uma gravação,
numa Sala Cecília Meirelles ou no Theatro Municipal, eu experimentava,
partindo do princípio que 'microfone nenhum é surdo,
desde que esteja funcionando', qualquer lugar que você colocar
o microfone ele vai sonorizar aquele saxofone, aquele trompete,
mas com o tempo você vai experimentando e vendo onde você
pega menos vento num instrumento de sopro, onde você pega
mais grave num instrumento de cordas, mais agudo, e essa coisa o
Frank me ensinou muito, nessa parte musical, que hoje eu uso muito
no Sinfônico, por conta principalmente do Frank. E na parte
de rádio, muita coisa eu aprendi com esses profissionais,
que já falei, e o Flávio Moricone, que tentou implantar
de se gravar nas fitas sempre um tom de referência, que foi
uma coisa que não vingou, mas ele estava certo, o que já
teria facilitado muito na época dessa copiagem de fita. Eu
aprendi dessa forma.
AO - Tem alguma coisa a mais
que você gostaria de contar ainda, que a gente não
falou?
BETINHO - Eu queria, mas eu acho que não vai acontecer mais.
Mas eu sempre sonho, eu sempre espero que a Rádio volte a
ser o que era, eu tinha muita vontade, mas cada vez mais eu acho
que a gente está distante disso. Dificilmente uma pessoa
vai se apaixonar, como eu me apaixonei quando eu entrei aqui pela
primeira vez, porque hoje em dia a gente vive uma estagnação
muito grande. Eu não acredito que a pessoa vá se deslumbrar,
como eu fiquei deslumbrado, de entrar aqui no primeiro dia e ver
a orquestra ensaiando, o radioteatro gravando, eu não sei
de que forma a pessoa vai se interessar mais pelo que está
acontecendo. A gente não tem mais jornalismo, não
tem mais nada. Eu queria que voltasse, mas cada vez mais eu acho
que não vai mais ser, não vai mais acontecer, eu queria,
mas eu estou feliz, de uma forma ou de outra, de ter participado
um pouco da história da Rádio, de ter vivido essa
história. Não me arrependo em nenhum momento de tudo
o que eu fiz, de tudo o que eu me dediquei aqui dentro da Rádio,
eu tenho maior orgulho disso.
Eu acho que o meu sonho era morrer e ter uma placa na porta de um
estúdio: "Estúdio Roberto Monteiro". Eu
acho que seria a alegria da minha vida - eu gostaria de ser lembrado,
quer dizer, associado ao nome do Roquette, associado ao nome de
tanta gente boa que passou aqui, e Floriano, e Paulo Tapajós,
e Paulo Salgado e Hamilton Reis, e você e todo mundo. É
uma coisa que é o meu sonho, daqui a vinte, trinta anos,
o meu filho vir aqui e ver uma plaquetinha, qualquer coisa: "Porta
Roberto Monteiro".
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