|
Beatriz Roquette-Pinto Bojunga
Entrevista para o programa especial sobre Roquette-Pinto,
gravada em maio de 1990.
Transcrição: Gisele Pimentel
entrevista em quatro partes
Terceira parte:
R. A senhora falou, ainda
há pouco, que Roquette-Pinto não tinha temperamento político. Mas
ele foi um dos fundadores...
B. Foi. Foi, eu vou explicar
porque que eu digo isso: ele foi convidado pelo Partido Socialista,
e ele aceitou. Bom, porque ele era um homem de esquerda, quer dizer,
um homem de esquerda no sentido humano da coisa, que todos nós somos.
Mas ele não tinha o senso, o sentido político, e eu vou te explicar
porquê. Ele aceitou ser candidato. Mas o meu irmão até caçoava,
meu irmão dizia assim: "Papai não é político, não é? Papai
vem assim, com cinco cédulas na mão, e diz assim: 'Olha, toma aqui;
quantas você quer? Três, quatro?". Papai não tinha dinheiro
para ser político, papai não tinha espírito político, papai não
sabia o que era a Política. Quer dizer, não sabia, papai sabia tudo
no sentido, quem sou eu para dizer isso! Mas, quer dizer, era uma
política diferente. Sabe o que ele me dizia? Ele me dizia assim:
"Minha filha, o meu ideal de político seria este: eu estou
deitado, na minha rede, estudando ou lendo; vem um grupo de brasileiros
dizendo: 'Dr. Roquette, o senhor foi escolhido para ser eleito Deputado'.
Aí, eu ia ver se aceitava ou não".
O senhor acha que este homem era político na nossa terra? Sinceramente,
não? Seria um grande político, entende? Ele é que sabia como era
o político, como deveria ser a Política.
R. Mas, segundo me consta,
ele foi um dos fundadores do Partido Socialista.
B. O nome. Quer dizer, eu
não digo só. Papai não era homem de dar só nome. Ele tinha afeto!
Talvez ele acreditasse naquilo, entende? Mas o que eu digo... Eu
lhe contei a história que eu acho que não era político, entendeu?
No sentido da coisa em si. Ele tinha idéias políticas! Ele era um
homem que não podia viver sem idéias políticas, sem pensar. Pois
um homem que dá uma Rádio para um povo, para gente ter, quer um
homem mais político que esse? Não pode ser! Ele era político, humanamente
político! Mas não era (eu digo) uma outra espécie de político, entendeu?
Eu não quero fazer ao meu pai um agravo, quando eu achava que meu
pai... Não é que ele fosse perfeito, ninguém é perfeito, nem ele
era perfeito, mas ele foi um grande brasileiro! E digo mais: talvez
um dos maiores brasileiros, do ponto de vista de educador, porque
ele sempre dizia isso: "Minha filha, eu não sou nada disso
de grande que dizem. Eu sempre fui, e serei, um simples e modesto
professor". E ele parava e dizia assim: "Na nossa terra,
é título de honra". Quer dizer, ele é um homem que nasceu para
isso. Então, ele não tinha essa faceta, digamos assim. Não vamos
dizer que ele não fosse político; ele não tinha a faceta do político
normal. O Jornal do Brasil, aqueles artigos que ele escrevia sobre
o Jornal do Brasil, que houve uma ocasião. Essa coluna, que hoje
é do Josué Montelo, ele herdou de papai. Quando papai morreu, ele
estava justamente na máquina não sei se o senhor sabe como
ele morreu na máquina, escrevendo esse artigo sobre educação,
e a última frase que ele escreveu foi essa: "Ensinem os que
sabem o que sabem aos que não sabem". Aí ele caiu com o derrame,
que me telefonou, ainda falou comigo no telefone, apesar de estar
com o derrame. Mas era a coluna do Jornal do Brasil, que ele escrevia
diariamente. Eu tenho a coleção toda aqui, isso eu posso lhe ver,
depois. Eu tenho uns, depois eu lhe mostro o que eu tenho, o material.
R. Já que a senhora falou
da morte, continuando a falar, e o funeral de Roquette-Pinto?
B. Bom, ele foi enterrado
em Petrópolis, porque... coitado do meu pai. Ele dizia sempre que
queria ficar em Petrópolis, que a mãe dele está enterrada lá. E
ele dizia: "Aliás, vocês não vão se preocupar, eu quero me
enterrar em Petrópolis porque a Academia paga tudo, porque senão
eu ficava aqui mesmo, vocês não pagavam". Mal sabia ele que
a Academia não paga fora do Rio! (risos) Mas ele morreu de repente,
escrevendo essa frase sobre Educação, ficou na Academia de Letras,
ficou desde as 11 h da manhã até as 11 h da manhã do outro dia,
e tenho os discursos todos que fizeram, que agora é que eu posso
ler até então eu não lia do Carlinhos Chagas, do Pedro
Gouveia, todos os acadêmicos (quase), o Peregrino Júnior, muito
emocionados, muito bonitos. Depois isso é interessante contar
nós saímos daqui e fomos para Petrópolis, foi aquela caravana,
família, os acadêmicos. Quando nós entramos no cemitério de Petrópolis,
não sei se o senhor conhece, é um cemitério muito bonito e parece
um jardim, tinha tanta gente, chovia e tinha tanta gente, tanta
gente... Eu olhei assim eu me lembro que eu estava com o
Elmano Cardim, ele estava de braço assim, comigo eu disse:
"Elmano, por que tem tanta gente aí? O que é isso?" Ele
disse: "É seu pai, minha filhinha (ele disse), é seu pai!".
Eu achei bonito porque o povo, em geral, se comove muito com esses
populares. É verdade que ele, naquele momento, era o "Homem
do Rádio", todo mundo estava falando do "Homem do Rádio".
Mas ele teve a sua consagração como brasileiro!
R. Eu gostaria que a senhora
falasse agora sobre as preferências do Roquette-Pinto, as preferências
artísticas e outras, principalmente na área musical.
B. Ah, bom! Na área musical
ele gostava muito de ópera, gostava muito de concertos, tudo o que
era muito bonito ele gostava muito. E ele foi não sei se
sabem ele foi, como é que chama? Ele dirigiu durante uma
certa época, o Theatro Municipal, aqui no Rio de Janeiro. Eu não
me lembro mais quem era o Secretário de Educação. E era uma coisa
com que ele se preocupava muito, com a juventude, com a mocidade.
E ele quando dirigiu o Teatro Municipal, era uma Companhia, me lembro,
Companhia Francesa. Como eu estudei na Europa muitos anos, na França,
eu conhecia até os atores que vinham Jean Lebert, Jean Archeant,
quando era mocinha lá em Paris, aquela coisa toda, e eu ia às peças
todas e papai disse: "Não, umas três peças eu vou fazer
de graça", que ele tinha uma verdadeira... quase obstinação
por educação do povo, sabe? Ele disse: "Eu vou fazer de graça
para os estudantes brasileiros." Muita gente dizia "Ah,
mas eles não vão", aquela história que "brasileiro não
entende", não é, que "brasileiro não gosta", porque
não dão! O povo não entende porque não dão! Porque é a tal história:
você pode não entender francês, mas você vai a uma boa peça, bem
representada, em que tem um livreto traduzido, você fica conhecendo
Cornail, você fica conhecendo El Cid, você fica conhecendo pelo
menos quem é o Shakespeare. Agora, você não dá. Você, você está
vendo agora a quantidade de gente que vai para a Quinta da Boa Vista,
a quantidade de gente que vai levar livro. Eu acho uma maravilha
isso, aliás. Levam um livro e entram de graça no Theatro Municipal.
Eu acho uma maravilha, porque para mim "livro é gente".
É, é uma coisa fantástica! Eu gosto tanto de livro, eu gosto de
andar sempre com um livro na mão. Eu dizia a meu pai: "Eu tenho,
eu tenho a deformação de professora sem ser", (risos) se pode
se chamar "deformação" ser professora. De maneira que
ele botava de graça, ele tinha aquela coisa. Eu nunca vi meu pai
dizer "Esse Brasil não vai pra frente". Nunca vi meu pai
dizer: "Qual, esse pessoal não vale nada!". Nunca! Nunca!
Quem é nesse ponto eu acho, eu estou com o Paulo Carneiro
quem é bom brasileiro pega um livro do Roquette, mas não
é assim porque eu posso dizer, você pode dizer mas nós, desculpe,
mas nós não temos capacidade de antropólogo, e ele estudou. Você
sabe que a única classificação do Homem brasileiro que existe hoje
é a do Roquette-Pinto, Chatodermos (...), e ele chegou à conclusão
que o mestiço é ótimo, é formidável! Eduque esse Homem! Eduque,
ensine a ele para ver onde ele vai, longe! Aliás, vou lhe contar,
eu tenho um caso que se deu conosco, que eu me lembrei muito dele:
a minha mãe foi casada duas vezes, e meu padrasto, que eu chamo
de "segundo pai", foi o Almirante Dalzo Martins, foi Ministro
da Marinha; foi um homem maravilhoso, um outro pai eu fui
uma pessoa muito feliz, tive dois grandes pais muito bom,
mesmo! Uma pessoa humana, uma pessoa fantástica! E ele foi numa
viagem aos Estados Unidos, e nós fomos nessa viagem e tinha, acompanhando,
um chofer, um daqueles "mariners" americanos, bonito,
forte, sadio. E nós íamos para um almoço, não sei onde, e iam os
Ministros, aquela coisa toda, e o meu marido e eu, nós íamos atrás.
De repente, entramos lá e o rapaz, o marinheiro que ia guiando,
disse: "Ih, não sei, nos perdemos!". Digo: "Mas como,
perdemos? O senhor não sabe para onde nós íamos?" "Ah,
não! A minha ordem é seguir o carro da frente!". Nunca que
o mulatinho brasileiro seguia o carro da frente sem saber para onde
vai! Nunca! Me lembrei de meu pai. Nunca. Pode ser uma coisa fantástica,
mas não vai "no escuro" (risos), ele não vai "no
escuro".
R. Mas, Beatriz, ainda no
capítulo das preferências, que tipo de música popular ele gostava?
B. Ah, ele gostava muito de,
de música popular, ele gostava, naturalmente eu acredito
que a música moderna atual de Rock ele não gostasse mas ele
gostava muito de canção. Ele gostava muito desse gênero de
dessa época, não é, da Elisinha Coelho gostava muito dos
sambinhas do Noel Rosa, gostava muito, é uma pessoa muito... Sabe,
de tudo o que era bonito ele gostava! Agora, bonito e bem feito.
R. Mas ele não tem, assim
como Juscelino tem, ou tinha, adoração pelo "Peixe Vivo",
ele não teria...
B. Ah, não, ele tinha por
várias músicas! Você sabe que ele era poeta?
R. Sei, sei. É importante
para mim para que eu, eu insira no programa...
B. As músicas?
R. Sim.
B. Mas você pode inserir,
pode pôr canções, pode pôr um sambinha bonito. Pode pôr, misturado
com Mozart, que ele adorava! Pode pôr até um Wagner, porque realmente
a figura dele era tanto humana como musicalmente, era muito ampla.
Ele tinha uma concepção de vida muito grande. Olha, é uma das pessoas...
Ele nasceu realmente com o dom de explicar as coisas, nisso ele
tinha razão de ser professor. Por exemplo, uma ocasião, tinha uma
amiga nossa que tinha uma filhinha pequena, e nós íamos almoçar
com papai. E ela perguntou para o pai, que estava ao nosso lado:
"Papai, o que é sorte?"; o pai disse: "Ih, nós vamos
visitar o Dr. Roquette, você vai perguntar a ele o que é sorte."
Aí nós chegamos, aquela coisa toda, e eu disse: "Pergunta!",
e ela perguntou o que era sorte. Ele disse: "Me dá uma moeda"
naquele tempo tinha aquela moeda "Cara ou Coroa,
Cara ou Coroa? Você ganhou; então, sorte é a quem o azar protege."
Quer dizer, ele tinha o dom, então ele falava com as crianças. Por
exemplo, ele morava na Rua Vila Rica, aqui perto do túnel, e ele
tinha aquela "sensitiva", não é, aquela plantinha. Os
meninos iam lá, adoravam! Porque o papai pegava uma folha e contava
uma história, sabe? Ele não contava assim uma. Aliás, eu peguei
isso com ele, estou contando à minha neta agora a história dos castelos
da França, do "Chambor" ela não sabe o que é "Chambor",
nem nada disso - mas ela sabe que o castelo tem um terraço, que
o Rei ia caçar, porque eu acho que, é como ele dizia: "Toda
dona-de-casa tem que ser uma professora na sua casa". Tem que
ensinar; você não pode chegar para uma pessoa e dizer, não é: "Faça!
Não faça!"; tem que explicar por quê. Você fazendo assim, você
é muito mais bem servido em tudo, na vida.
R. Eu, na minha pesquisa,
eu encontrei uma parceria curiosa do Roquette-Pinto, em que ele
escreveu a música sobre um poema do Vicente de Carvalho. A música
chama: "Folhas Soltas".
B. Eu tenho aqui! Eu tenho
esse poema, quer dizer, eu tenho a música escrita.
R. Eu queria!
B. Eu vou procurar (risos).
Eu tenho.
R. Eu queria para tentar produzir.
B. É, eu vou ver onde é que
eu tenho.
R. Gravação não tem, não é?
B. - Não, gravação não tem.
R. Roquette-Pinto e Villa-Lobos:
B. Ah, Roquette-Pinto e Villa-Lobos,
eles eram muito amigos! Quando o Villa-Lobos veio porque
o Villa-Lobos morou muitos anos em Paris. Eu até o conheci em Paris,
ele morava num apartamento e nós, os brasileiros, íamos lá uma vez
por semana, ele chamava "Club de Sardine", o "Clube
das Sardinhas", porque a gente sentava no chão, aquela coisa.
Depois, ele veio para o Rio, e ele estava com aquela idéia de fazer
os orfeões, não é, de organizar o orfeão. Daí que ele começou. Que
é uma coisa muito boa, é uma coisa que o Roquette sempre dizia,
"O nosso povo tem que ser educado é pelo futebol, é pela música,
é pelo orfeão, é a disciplina". Tanto que existe a profissão
de fé do orfeão, foi feita por papai: "Eu (se não me engano)
assim prometo..." não sei; eu sei que acaba assim: "...usar
a disciplina cantando." Eu posso até lhe ver o juramento do
orfeão, foi feito por papai, que o Villa-Lobos pediu. E o Villa
era muito amigo dele. Quando o Humberto Mauro fez "Descobrimento
do Brasil", papai falou com Villa-Lobos para fazer a música,
para escrever a música. E é muito engraçado, este caso que eu vou
lhe contar, porque ele compunha lá na Praça da República, nós trabalhávamos
em cima, no Cinema Educativo, Humberto Mauro, o Roquette, eu, todos
nós, e embaixo tinha um estúdio grande. Então, papai cedeu e fazia,
o Villa ficava compondo. E quando ele fazia uma coisa assim, mais
bonita, ele subia: "Vem cá, Roquette, vem ver!" Papai
descia, e os dois ficavam ouvindo aquela música do Villa, aquela
coisa. Um dia, ele subiu e disse: "Ah, Roquette, vem ver que
beleza! Vem, Tizinha, vamos, vamos!"; descemos. Descemos, uma
beleza de música! Não sei qual foi o trecho, era "O Pássaro"!
Não era o uirapuru, não, era um outro pássaro, não me lembro agora
o nome. E ele botou a música, e "tam, tam", fortíssima!
Uma beleza de música! Quando acabou: "Então, Roquette, que
tal?" Papai disse: "Uma beleza! Só tem uma coisa, sabe,
Villa? É que esse pássaro, ele canta... fininho, baixinho. Mas não
muda, não, que ninguém sabe." (risos) Está lá, no "Descobrimento
do Brasil"! Eles foram feitos para se entender, não é?
PRÓXIMO>>
Primeira
parte
Segunda parte
Quarta parte
|