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Beatriz Roquette-Pinto Bojunga
Entrevista para o programa especial sobre Roquette-Pinto,
gravada em maio de 1990.
Transcrição: Gisele Pimentel
entrevista em quatro partes
Primeira parte:
Renato Rocha D. Beatriz Roquette-Pinto
Bojunga, a senhora feche os olhos e pense no Roquette-Pinto: qual
a primeira coisa que lhe vem à cabeça?
Beatriz Roquette-Pinto Bojunga
O grande brasileiro que ele foi, continuar sendo com tudo o que
deixou aí. E não preciso fechar os olhos, não; eu estou sempre com
ele na cabeça.
R. Num artigo da Julieta Drummond,
a filha do Carlos Drummond, eu li uma declaração em que a senhora
diz que Roquette lhe inculcou três conceitos: respeito à liberdade
alheia, compreensão humana e valorização da amizade. Gostaria que
a senhora falasse sobre isso.
B. Bom, a compreensão humana que ele tinha
era uma coisa fantástica, porque ele sabia tirar das pessoas inclusive
o que as pessoas tinham de melhor. Por exemplo, quando ele fundou
o cinema educativo, ele foi, estava com aquilo já estudando há muito
tempo com Jonatas Serrano, com o "Grupo de Brasileiros",
mas ele era diretor do Museu Nacional e, um dia, aparece um rapaz
vendendo aparelhos domésticos e, sabe quem era? Humberto Mauro.
E ele começou a descobrir o Humberto Mauro dentro do Humberto Mauro.
Então, foi a primeira pessoa no Rio de Janeiro, ele tinha vindo
para fazer uns filmes, estava mal de vida porque naquele tempo já
era difícil o cinema, e daí ele pegou o Mauro e nunca mais deixou,
e ele dizia: "O Mauro é uma das pessoas mais inteligentes e
cultas que eu conheço". Quer dizer, ele tirava das pessoas,
ele entendia as pessoas porque ele procurava dentro delas o que
tinha de melhor, ele tinha essa arte. Eu sou suspeita para falar
dele, não é? O outro é...
R. Respeito à liberdade...
B. Respeito à liberdade alheia.
Bom, isso é uma coisa fantástica. Ele achava, como ele tem vários
pensamentos dele, que ele diz sempre que nada no mundo, o pensamento
tem que ser livre como a respiração, você não pode fazer nada de
grande no mundo sem amor e sem liberdade. Isso é uma coisa primordial.
E os amigos, então, essa plêiade de grandes amigos que me fazem
muita falta: é o Carlos Drummond, é o Anísio Teixeira, é o Lourenço
Filho, é o Venâncio Filho, era o Tude de Souza, era o Murilo Miranda
na parte da Rádio, e tantos, como o Mateus Zulab, é uma plêiade.
Se eu começar a falar eu vou acabar chorando... de saudade.
R. Tinha o Garrenaud, não
é?
B. Ah, o Garrenaud, também,
muito amigo dele, e o grande amigo Capanema, também. O Capanema
foi uma coisa impressionante porque nunca, aliás, no tempo, engraçado,
no tempo de uma ditadura, isso é uma coisa que precisava até ser
dita, meu pai nunca foi político, não dava para a Política, ele
era uma pessoa que vivia da Educação, vivia da Antropologia, viva
da Fisiologia. Ele era um homem eclético, não é, ele era um homem....
Muita gente até conhecia pouco e dizia, no começo da vida, dizia:
"Ah, mas ele não pára em coisa alguma, ele faz tudo ao mesmo
tempo". Absolutamente! Ele começou a vida como médico. Ele
se formou em Medicina porque ele foi criado pelo avô na Fazenda
Bela Fama, uma fazenda linda perto de Juiz de Fora, e ele até estava
pensando em entrar para a Marinha, uma coisa de rapaz mineiro, dezessete
anos, e ele veio buscar o Chico de Castro, pai do Aloísio de Castro,
que era professor, para tratar do avô dele, que foi quem o criou,
o velho João "Roquêtte" (como dizem em Minas) Carneiro
de Mendonça, porque a nossa família é Carneiro de Mendonça. O "Roquette-Pinto"
só tem ele, ele fez o "Roquette-Pinto", naturalmente meu
irmão, agora os sobrinhos já, mas era... Ele tirou porque o avô
era conhecido por "Dr. Roquette", e ele era o "Dr.
Edgard", era estudante de Medicina. Quando ele se formou, ele
sempre contava isso, a minha bisavó, a avó dele que o criou, chamou
todos os escravos (naquele tempo havia escravos na fazenda), pôs
todos alinhados e disse: "De agora em diante não existe mais
Dr. Edgard aqui, existe Dr. Roquette. É o nome do avô".
Ele então, em homenagem ao avô, tirou o Carneiro de Mendonça e ficou
Roquette-Pinto. E o interessante é que ele ficou tão conhecido por
"Dr. Roquette" que, até no momento em que ele morreu,
os, os repórteres perguntavam: "Como é o nome dele?" E
eu me lembro que eu gritei: "Edgard!".
E ninguém sabia, era "Dr. Roquette", "Dr. Roquette".
Ficou o nome dele. Ele tinha paixão por esse avô, não é, quem o
criou. E daí ele foi, casou-se com a minha mãe. O meu avô, pai da
minha mãe, era médico, parteiro, e ele foi trabalhar com meu avô.
Começo de vida, trabalhou na Santa Casa (que chamava na sala do
banco) ele sempre contava isso, não é do meu tempo, mas ele contava.
R. Ele casou com a sua mãe
em que ano?
B. Bom, aí eu posso fazer
o cálculo pelo meu irmão. É duro ter que declarar isso, mas eu declaro,
fagueira, eu não me importo, não. Nasci em 1911, e... quer dizer,
uns quatro anos antes, faço cálculo, mais ou menos, não é? Ele deve
ter casado em 06, 07, por aí. Mas depois ele foi trabalhar, fundou
o Laboratório , foi fantástico! A vida dele é uma coisa, é uma epopéia!
Ele foi trabalhar como laboratorista, e fazia sucesso, ganhava dinheiro,
quer dizer, sucesso do ponto de vista do dinheiro, que é uma coisa
que a nossa família, inclusive aprendemos com ele, nunca se interessou
muito. Aí largou, aí ele fez um concurso para Professor do Museu
Nacional, para Antropologia. Daí ele ficou com aquela paixão pela
Antropologia. E, nesse intervalo, ele conheceu Rondon. E aí, apaixonado
pelo estudo da Antropologia, o Rondon, em 1911, parece-me que em
11, foi o ano em que eu nasci, ele foi para Londres, no Congresso
das Raças, representando o Brasil. Ele tinha vinte e sete anos.
Eu fui com seis meses. Tinha vinte e sete anos, representando o
Brasil no Congresso das Raças em Londres. Depois ele voltou, em
1912 ele foi com o Rondon para Mato Grosso, estudar os índios em
Ambiquaras e Boros, na Serra do Norte. E, na volta, ele fez uma
sala de exposições toda "Roquette-Pinto", toda com material.
Daí é que ele trouxe os fonogramas com as músicas "Nozanina
Aurecuá Couaá Casaetê", as dos índios Bororos, da Serra do
Norte, em Ambiquaras, que o Villa-Lobos aproveitou para orquestrar,
não é? E, depois dessa parte, ele foi Diretor do Museu Nacional.
Aí, ele ficou muito tempo no Museu Nacional. Ele estudou antropologicamente,
profundamente, o Homem brasileiro. E ele tem uma comparação muito
interessante: ele chegou à conclusão que você não pode dizer que
as raças têm "uma raça melhor do que a outra". Ele apresenta
a raça humana como "espectro solar", não sei se isso está
no livro dele. As raças têm as mesmas coisas que o espectro solar;
você não pode pedir a uma que dê calor, quando ela dá luz. À que
dá luz, você não pode pedir calor. É assim que ele compara as raças.
Cada uma tem as suas qualidades, a que dá calor não pode dar luz.
Em 1916 ele fez um curso para Professor da Escola Normal, naquele
tempo Escola Normal, agora Instituto de Educação.
R. Professor de quê?
B. Professor de História Natural.
E ele escreveu até um livro lindo, que é "História Natural
dos Pequeninos", para as crianças, que até no outro dia eu
li no artigo de Drummond, ele falou sobre esse livro. Uma História
Natural, para os pequenos, para as crianças.
R. Paraguai...
B. Bom, aí ele, como tinha
trabalhado com os dois irmãos, Álvaro e Miguel Osório, grandes amigos
dele, porque eu considero como tios. E com os dois ele trabalhou,
fez uma experiência de Fisiologia e se encantou, e tudo aquilo que
o encantava ele estudava profundamente, e acabava um professor na
matéria. Então, ele foi mandado pelo Governo brasileiro para ser
criador da Cadeira de Fisiologia na Universidade do Paraguai, porque
não havia ainda essa Cátedra, ele que fundou essa Cátedra. Tanto
que, muitos anos depois, ele ainda recebia, ele me telefonava: "Minha
filha, você quer receber o Ministro da Educação do Paraguai, que
foi meu aluno ?" (risos)
Muitas vezes eu recebi vário Ministros que foram alunos dele nessa
ocasião. Ele foi Professor de lá e tem uma... O Paraguai tinha uma
paixão, o Roquette-Pinto lá era qualquer coisa!
R. 22:
B. Ah, é a Rádio! 1922 ele
na... Os grandes festejos, se trata do Brasil naquela coisa toda,
e eu estava lhe contando, que até isso Amaral Peixoto contou no,
no Centenário de papai, que ele era "mignonzinho" e que
estava com o pai, e que ouviu um caixote assim, numa parede, de
onde saía música, e umas vozes dizendo uns versos, de vez em quando.
Se eu não me engano, um dos versos era do Luiz Alberto Torres, que
dizia "...lá na Praia Vermelha", e que ele perguntou o
que era aquilo, e que o pai dele disse: "Ah, isso são as experiências
que um grande brasileiro, um sábio, Roquette-Pinto, está fazendo!"
O primeiro rádio. E engraçado que, três anos depois do rádio ter
aparecido nos Estados Unidos. E quem deu o nome a ele de "Pai
do Rádio do Brasil" não foi o Brasil, não; foi lá, dos Estados
Unidos. Quando ele chegou a primeira vez lá, depois de ter instalado
o Rádio aqui, veio nos jornais: "Chegou aqui o 'Pai do Rádio
Brasileiro' ". Ele sempre dizia isso: "Eles lá é que me
deram o nome, Pai do Rádio".
Aí, em 1923, a paixão dele começou, então porque ele via, ele dizia
mesmo "Cada vez que eu ouvia aquelas ondas sonoras do telégrafo,
eu dizia, 'que força, que poder tem para a educação da nossa gente!'
Porque o nosso povo, é um Brasil imenso. Onde entra livro? Não sabem
ler! Agora, entrando pelos ouvidos, a Educação vai entrando".
E eu até queria lhe contar, não sei se eu vou me estender muito,
o meu filho, Cláudio, ele tinha uns sete anos, mais ou menos, seis
anos, estava fazendo um dever de colégio, e me perguntou: "Mamãe,
qual é a diferença entre Educação e Instrução?" O senhor sabe,
eu sei, todos nós sabemos. Mas dizer em cinco minutos a uma senhora,
uma moça que estava se vestindo para um "cocktail" numa
Embaixada. Eu disse: "Ah, vou tocar para papai." E o meu
marido dizia "Você pensa que seu pai sabe tudo?", e eu
digo "Não, mas é que com ele eu não fico sem resposta."
O importante era a resposta. Porque ele ia, às vezes ele dizia:
"Procura aí no dicionário, vou procurar aqui no Veftel, você
procura no..." Eu não procurava, não é? Daqui há pouco ele
tocava (ele me chamava de "Tizinha"): "Tizinha, achou?"
E eu dizia "Não, papai, não achei." "Preguiçosa!
Na página tal está assim, assim, assim..."
E ele dava a resposta. Então nesse dia ele me disse: "É muito
fácil, minha filha: você, quando obriga o seu filho, Cláudio, a
lavar os dentes todos os dias, você está educando. Quando você explica
que, se não lavar o dente, vem a cárie, a infecção, a moléstia,
você está instruindo. Então, educar é criar hábitos de significação
social. No nosso país há muita gente instruída, que sabe que tem
que lavar e não lava, não está habituado."
Nesse dia, eu fui para a Embaixada do Chile; um grande professor
de Tisiologia, desses especialistas do pulmão, do físico, era homenagem
a ele lá no Chile, na Embaixada do Chile, e eu vejo ele comendo
com a colher que ele estava pondo na boca, e diz: "Señora,
este es delicioso!"
E, com a mesma colher que ele pôs na boca, ele pôs no prato. Eu
disse: "instruidíssimo, um dos maiores professores, mas não
é educado". Eu sou educada, nunca faria uma coisa dessas. Ele
sabe que não podia fazer, mas esqueceu! Aí, ele começou então a
trabalhar, e tenho até uns casos interessantes, que ele fazia aquelas
experiências. Eu o vi, muitas vezes, com radiozinho de galena, ele
fez para mim, eu digo lá de minha casa, eu via o Tito Skipa cantar,
eu punha aqueles fones, ficava procurando ali até ouvir. Daí ele,
então, chamou um grupo de brasileiros, e ele foi procurar na Academia
de Ciências o Dr. Morize. Por isso é que eu digo, o nosso Rádio
começou muito alto, ele não pode se... desculpe o termo, se prostituir,
não pode! Ele começou muito alto! E daí ele juntou esse grupo de
brasileiros e ele contagiava as pessoas. Então, todos entraram para
sócios, e eu me lembro que todos faziam tudo de graça, porque não
tinha dinheiro. Então, as irradiações, por exemplo, eu fiquei contando
o quarto de hora infantil, eu dirigia a parte artística, o Sérgio
Vasconcelos ia lá falar de música, o Mesquita era o secretário,
toda semana tinha a Confederação Brasileira de Radiodifusão, sabe
o que era? Na Rua da Carioca, 45, onde a Rádio funcionava, uma mesa
enorme, papai sempre andava com aquele avental de professor, não
é, de médico, sempre usou, aquele branco. Ele chegava e dizia: "Ô
Mesquita, avisou todas as Rádios? Todos?" E o Mesquita: "Avisei,
Dr. Roquette."
O único que ia de vez em quando era o Elber Dias, da Rádio Clube.
Mais ninguém aparecia. Então ele chegava, sentava na cabeceira,
ficava ali quinze minutos esperando, ninguém aparecia, daí encerrava
a sessão. Aquilo era para ver os problemas do Rádio no Brasil!
R. Por que que o Rádio começou
muito alto?
B. Começou na Academia de
Ciência! Não pode ser, não pode ser lugar melhor para um país começar!
Eu acho que foi o único país no mundo em que esse Rádio começou
tão alto, na Academia de Ciência! Alto, que eu digo, na parte cultural.
Bem entendido, não é? Porque, a parte financeira foi sempre muito
alijada, pode-se dizer pelo Roquette. E eu, até, estava lhe contando
isso. É que, quando acabavam as irradiações, que aliás, eu não sei,
é uma pena que não tenham continuado, a Rádio Ministério da Educação
e Cultura, os diretores mudavam, eu sempre dizia "Por que não
acabam...", ele sempre acabava assim: "Acabaram de ouvir
a PRA2, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, que acabou de irradiar,
pela cultura dos que vivem em nossa terra, pelo progresso do Brasil."
Tocava o Hino Nacional e acabava. Vamos dizer que tirem o Hino Nacional;
mas a frase, ele não botou para os brasileiros, não, olha como isso
é extenso: "Pela cultura dos que vivem em nossa terra, pelo
progresso do Brasil". E ele, antes disso, ele dizia: "Cooperam
para o fundo da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro Irineu Santos
e Cia., Rua Chile, 23, fulano de tal, Rua da Carioca..."
Aí entrava um anúncio daqueles que mandavam válvula para ele de
presente, coisas que ele não pagava, não é? Então, a Rádio começou
por isso. Era um ideal. Começou e acabou como um ideal, quer dizer,
acabou não, porque ela não acabou. A Rádio Ministério da Educação
continua tendo o mesmo espírito da Rádio Sociedade. Tem que continuar!
Se não continua, ela tem que continuar! Agora, essa Rádio, eu queria
muito... Eu posso falar agora sobre a doação?
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