AO Como foi o seu começo na rádio?
Eu estudava Direito na UFRJ. De repente me veio a idéia
de fazer um programa Universitário, com a música,
a literatura, e as idéias dos universitários, enfim.
Tomei coragem e fui procurar o Diretor da Rádio, o sr.
Fernando Tude de Souza. Ele me recebeu muito bem, achou a idéia
boa, e disse: "Agora você procura o René Cavé
que é o organizador da programação".
Eu fui, e o René, que também foi muito amável,
disse : "Eu só peço a você que tenha
continuidade, porque já fizemos vários programas
com estudantes, e eles brigam entre si e o programa acaba".
E assim eu comecei, no final de 1955, a fazer o Programa Universitário,
todas as quartas-feiras, às cinco da tarde. Tinha um colega
que me ajudava, depois fiquei praticamente sozinho. Fiz o programa
quatro anos. Aí eu me formei e passei o programa para um
amigo meu, chamado João Paulo Santos Gomes, que hoje é
psicanalista e levou o programa adiante por mais algum tempo.
AO E quando o sr. se tornou profissional?
Eu era filho de viúva, e buscava trabalhar para sustentar
os meus gastos. Casa e comida minha mãe dava, porque ela
era funcionária pública. Então apareceu uma
vaga de locutor na Rádio, que, naquele tempo, não
tinha mais de 30 pessoas. Todos se conheciam, todos se queriam
bem. Até hoje há esse espírito na Rádio.
A Fernanda Montenegro passou por lá, a Joana Fomm também.
Trabalhava também a Edna Savaget e tantos outros. Enfim,
uma porção de pessoas que depois se tornaram famosas,
e algumas que já tinham nome, como o Alfredo Sotto de Almeida,
o Paschoal Longo e a Baby de Oliveira. Era um período muito
brilhante, em que os ideais do Roquette-Pinto estavam muito recentes.
Porque, se você examinar, são 20 anos depois da passagem
da Rádio para o Ministério.
Nós sabíamos que a Rádio não era uma
Rádio de audiência. Naquele tempo era o império
da Rádio Nacional. Mas todo mundo trabalhava com um interesse
muito grande. O René Cavé era muito suave, mas muito
exigente. Era uma espécie de diretor artístico da
Rádio. E o Fernando Tude de Souza, que era ligado à
Fullbrigth Comition, era um homem muito suave e encantador, de
muita cultura, e muito querido por todos. Havia na Rádio
um 'esprit de corp' , um espírito de corpo muito presente.
AO Mas o sr. se tornou locutor em que época?
Foi no governo Juscelino Kubitschek, e o diretor era um cidadão
chamado Celso Brant, que também era chefe de gabinete do
Ministro da Educação. Enquanto o Fernando Tude de
Souza era um universalista, o Celso Brant era um homem mais ligado
à música. Também muito idealista, mas, como
era chefe de gabinete, ia pouco à Rádio. Mas ia
todas as noites. Trouxe muita gente de Minas Gerais, mas manteve
o René Cave, que era a alma da programação.
O Celso Brant era um intelectual; depois ele se transformou em
político, um político profético em muitas
coisas. Ele olhava o Brasil com uma perspectiva futura, e ficou
muito solitário na questão política, porém
marcou a sua passagem com muita honradez.
Então, no tempo do Celso Brant, abriu-se uma vaga de locutor
e houve uma conspiração do bem para que eu entrasse.
A parte administrativa da Rádio ficava aos cuidados de
um senhor chamado Nelson só tinha ele no setor administrativo.
Como eu estudava Direito na faculdade, em 1956, eu tinha 20 anos,
me foi dado o horário da noite na Rádio, e algumas
transmissões externas nas quais eu era o reserva do locutor
oficial: o Paulo Santos.
AO Havia treinamento para os locutores?
Porque o Paulo Santos deu aulas na Rádio...deu cursos de
locutagem, de Jazz... Eu fiz um breve curso de impostação
de voz, mas foi fora da Rádio, nem me lembro aonde. Nessa
época, nem se falava em fonoaudiólogo, havia apenas
a Esther Leão, que era uma grande especialista em colocação
de voz, mas eu não tinha dinheiro para pagá-la.
AO E como era o trabalho ?
Em geral, eu ficava de 19 às 22 horas. Às vezes
ficava até 23 horas. Um pouco depois desse período,
a programação começou a acabar, como grande
conquista, meia noite. Porque os transmissores na época
eram de válvula e era preciso apagar as válvulas
para não haver um excesso e queimá-las. Eu saía
da Rádio e ia até a Central do Brasil, onde havia
um angú que ficou famoso e depois desapareceu: o Angú
do Gomes. O Angú do Gomes era um carrinho que vendia um
angú, com aquelas carnes, quentinho, e eu saía com
fome... aí eu pegava o ônibus 12, o Estrada de Ferro
- Ipanema, e vinha para casa. Morava em Ipanema, em uma outra
Ipanema também.
AO E quando o sr. começou a escrever programas?
Quando eu estava no quarto ano da Faculdade, trabalhei em um escritório
de advocacia, para treinar. Então eu pedi à Rádio
para que eu passasse de locutor para redator. Não tinha
nada a ver com o salário, nada disso, e eu comecei a redigir
textos de alguns programas de música, porque já
havia acumulado algum conhecimento musical. A rádio foi
muito importante na minha formação musical: ela
foi minha escola de música. Mesmo como reserva do Paulo
Santos, nas transmissões externas eu treinava o improviso.
Me deu oportunidade de assistir àquela época
a rádio transmitia muito do Municipal grandes regentes,
o primeiro Concurso internacional de piano, tudo isso eu transmiti.
Uma vez me enviaram para transmitir um balé, o que foi
um erro grave, porque o barulho das sapatilhas... era a Rapsódia
espanhola de Rimsky-Korsakov, e era um tal de pular, e do barulho
das sapatilhas...
Eu tive também uma situação muito embaraçosa
com o André Segóvia, o grande violonista. A gente
transmitia perto do palco, atrás de uma cortina. Com a
orquestra aquilo não tinha problema. Sempre foi pecado
em rádio deixar espaços em aberto: os ouvintes poderiam
pensar que tinha saído do ar, etc. O André Segóvia
exigia o silêncio absoluto, e ele era um mestre maior do
violão. Para não atrapalhá-lo, eu comecei
a falar baixo na coxia. Ele esperou todo mundo parar de se mexer
e, quando ele ia começar, eu disse "então ouviremos
agora..." e ele me ouvia e parava. Aí, eu não
podia falar com os ouvintes o que estava acontecendo, e parava
também. Aí de novo ele ameaçava começar,
eu falava e ele parava. Isso umas três ou quatro vezes
eu fiquei num embaraço danado, porque ele olhava zangado
para mim, na coxia, com o microfone na mão. Na quarta vez,
eu saí com o fio, que não ia muito longe, e expliquei
aos ouvintes o que estava acontecendo. Eu lembrei disso porque
são exercícios de improviso que a vida radiofônica
pode ensinar.
Uma outra vez, estavam apresentado a ópera Aída,
de Verdi. Tem a cena em que o Radamés volta do Egito trazendo
a escrava Aída, por quem ele era apaixonado, e há
um desfile para o rei com todos os escravos que eles fizeram no
Egito. E o tenor que fazia esse papel era um tenor gordo, que
entrava carregado por quatro "escravos" segurando nos
ombros a parte do tablado onde ele ficava. E quando ele estava
no auge da ária, chamada Ritorna Vincitor (Volta vencedor),
começando a dialogar com o Rei, o fundo do palanque onde
ele estava rompe pelo peso dele. Alfredo Colósimo era o
tenor, e ele cai, aquele homem enorme, com as pernas para cima.
Ele era um homem de tão bom humor que foi para o fundo
da cena e riu até não mais poder. Depois, fez sinal
para o maestro e continuou, sob os aplausos do povo. E eu fui
obrigado a explicar aos ouvintes o que estava acontecendo, porque
eles só tinham ouvindo o barulhão da queda. Aí
falei "senhores ouvintes, aconteceu o inusitado... se demorar
muito voltaremos a nossos estúdios". Porque tínhamos
esse hábito também, qualquer coisa voltávamos
para os estúdios. Então havia essas situações
que foram muitas na vida.
AO E o Paulo Santos?
O Paulo Santos a esta altura já estava meio cansado, nem
sempre ele ia, etc. Tinha lá seus descontentamentos. Era
uma pessoa de temperamento diferente. Embora locutor com uma voz
lindíssima, uma das vozes mais bonitas que eu conheci no
Rádio, e um boa praça na conversa, um homem muito
agradável.
Ademais o Paulo Santos fazia as sonoplastias do rádio-teatro
da Rádio MEC ele conhecia bastante música.
Foi na época da passagem do 78 pro disco de vinil. Os programas
iam ao ar ao vivo e a sonoplastia era marcada no texto escrito,
com lápis azul e vermelho, dizendo até que ponto
ela ia. Com esses mesmos lápis o Paulo Santos marcava a
passagem do disco onde entrava o trecho que era compatível
com a cena que estava se desenrolando. Então era muito
difícil. Era um grande trabalho para o operador, e um enorme
trabalhão para o sonoplasta. Então vinha aquela
pilha de discos e o operador tinha que estar acompanhando o texto,
colocando os discos... e ele já botava na marquinha de
cor que o Paulo Santos fazia. E assim se fazia a sonoplastia da
Rádio.
AO E como era o radioteatro, na época?
A rádio tinha um corpo de radioatores, onde se destacava
um rapaz que até hoje é meu amigo, tenho a maior
admiração por ele, embora eu o veja muito menos
do que devia: o Allan Lima. O Allan Lima tinha vindo do Colégio
Pedro II, como eu vim da faculdade. Só que ele chegou antes
de mim. Pouco depois ele foi nomeado diretor do radioteatro. Além
disso, ele fazia toda semana uma radiofonização
muito interessante de um conto da história universal. O
Allan fazia os scripts e dirigia o radioteatro. Eu tinha uma voz
mais aguda à época, e ele me especializou na narração.
Porque a adaptação radiofônica sempre caminhou,
fora da radionovela, para a narrativa dramatizada há
uma dramatização mas vários passos da história
são sintetizados pela narrativa. Até hoje há
esse modelo na BBC. É um modelo que não deveria
desaparecer do rádio, nunca. Porque o rádio é
literatura, literatura com música. O rádio não
é considerado como tal, porque depois ele caiu num populismo
desenfreado, e deixou a fala literária, que não
é uma fala elitista, pela fala coloquial. E é o
que predomina hoje, não na Rádio MEC FM, mas na
grande maioria das emissoras. A MEC AM usa uma fala coloquial.
A fala coloquial também não é um erro, o
excesso da fala coloquial é que é empobrecedor,
porque limita o universo do entendimento, de vocabulário
das pessoas. Mas tem a vantagem de pegar expressões populares...
enfim é um bom tema para discussões.
AO Quer dizer que o sr. também foi narrador?
Fui narrador e ganhei muita experiência nesse período.
Eu gostava muito de trabalhar na rádio, com todo o meu
idealismo de mocidade. E gostava muito mais do que trabalhar em
um escritório de advocacia, tanto que acabei não
sendo advogado. Eu bebia aqueles ensinamentos, aprendia rápido
como uma criança e tinha muita alegria de fazer os programas.
A rádio tinha muitos recitais: pianistas, violoncelistas,
cantoras... Tinha cantora chata, simpática, bonita, feia,
tinha de tudo. E tinha umas estrelas, umas divas. Me lembro de
uma que cismou que não queria o piano no lugar onde ele
estava. Só tinham duas pessoas da rádio, eu e o
operador. O operador disse " eu não estou aqui para
empurrar pianos". Aí eu fui conciliador. Como o piano
tinha roda, e eu tinha 21 anos, eu consegui empurrar o piano para
um outro lugar. Não ganhei nenhum muito obrigado da cantora,
mas assim ela fez o programa, e eu apresentei.
AO O sr. tem cópias desses programas?
Nessa época ainda não se gravava regularmente, a
não ser algumas pessoas que gravavam em acetato. Até
há um conto de Natal meu que foi gravado assim e eu não
sei onde está. Durante muito anos eu tive esse conto, que
foi gravado em 33 rotações pelo Manoel Cardoso.
Eu diria a você que esse período vai até um
problema jurídico na Rádio Nacional. Porque a Rádio
Nacional tinha uma estrutura de empresa privada sendo do governo,
e por 'n' razões, justas, os antigos funcionários
da Rádio Nacional reivindicavam uma estabilidade. Então,
como não podia dar estabilidade na própria Rádio
Nacional - e ali começou a decadência da Rádio
Nacional, por causa desse problema eles foram passados
para a rádio do governo. Foram nomes importantíssimos
da Rádio: Floriano Faissal, Guiarone, vários radioatores...
A Orquestra se transformou nessa época na Sinfônica
Nacional, porque já havia a Sinfônica Brasileira.
E foi aí que eu convivi um pouco, também com muita
alegria, com o maestro Alceo Bocchino e com outras pessoas muito
interessantes: Mário Tavares, Guerra-Peixe, cantores...
AO Então, em 1961 o sr. já estava trabalhando
como redator da rádio...
De vez em quando eu fazia locutagem, quando era necessário.
Nunca cheguei a fazer nada com o Floriano Faissal, porque eu não
era radioator, e ele tinha um time de rádioatores vindos
da Nacional. E um contra-regra formidável, o Otacílio
Tatá, que foi uma pessoa também muito querida na
Rádio e altamente competente. Ele fazia todos os barulhinhos
maravilhosos que se ouviam nas rádio novelas, com recursos
como o coco, pra fazer o andar de cavalo; queimar papel, pra fazer
barulho de incêndio; e vários outros.
A Rádio, depois que acabou o período Juscelino,
em 60, passou por uma transformação. Saiu o Celso
Brant e entrou o Mozart Araújo. O Mozart Araújo,
a princípio, me pareceu uma pessoa muito antipática,
porque ele era muito duro, muito autoritário, e ele tirava
a força do René Cavé, que ele contrariava
violentamente, nem dialogava. O tempo porém ensinou-me
a admirar Mozart Araújo, pelo fato de ser um defensor intransigente
do que havia de profundo ele tem até um livro escrito
sobre isso na música popular brasileira. Ele tinha
percepção do valor e da importância da música
brasileira folclórica e popular. E o René Cavé
era já mais um homem do mundo, filho de franceses, que
tinha uma visão universalista da música, então
os dois se "esbarravam" muito. Porém nessa época,
no final de 60, eu fui eleito Deputado Constituinte do Estado
da Guanabara essa foi uma história da vida que me
marcou.
AO Por que os anos 60 foram tão marcantes?
Em 1960, a capital foi pra Brasília. O que fazer com o
Rio de Janeiro, que era o Distrito Federal? Foi criada uma lei
que determinou que o Rio de Janeiro passaria a ser cidade-Estado,
a capital iria pra Brasília, que seria o Distrito Federal,
e seriam escolhidos 30 deputados para fazer a constituição
do Estado da Guanabara. E eu sempre fui uma pessoa dividida entre
a consciência social, a idéia de participação
social e uma sensibilidade artística que impulsiona para
outros caminhos. Tanto que eu escrevo minhas crônicas, meus
poemas. E sempre vivi muito fortemente esse conflito. Mas nessa
época eu estava saindo do movimento estudantil, tinha dirigido
um jornal chamado Metropolitano, em 1959, e, entre os 30 que foram
eleitos pra fazer a constituinte, eu era o mais jovem, na época
eu era o mais jovem do Brasil. Fui eleito com 24 anos, era um
garoto bobo, tinha me formado naquele ano e entrei logo numa vida
política que foi também um aprendizado. Engraçado:
tudo que eu fiz na minha vida eu tive que aprender no processo.
Aprendi política, veja como entrei na Rádio, como
depois fui para o exílio. São todas experiências
novas que eu fui aprendendo no processo. É muito curioso
esse tipo de formação, uma formação
de autodidata.
AO E deu para conciliar o político com o radialista?
Eu fui ser deputado, e tive que me licenciar da Rádio -
não abandonei, porque eu gostava, ia lá conversar,
mas me licenciei. E foi o período então do Murilo
Miranda, que foi quem levou o Quadrante pra Rádio, levou
muitos intelectuais. O Murilo Miranda era um promoter nessa
época não existia essa palavra , um promoter
cultural muito bom, além de ser, ele também, um
intelectual. Na época ele era da UDN, e nós éramos
contra a UDN, que seria um partido mais para a direita, um partido
muito forte, muito significativo e que participou diretamente
do golpe militar. Mas o Murilo era um homem muito bom, muito interessante,
eu acho que ele ainda manteve o René Cavé. O René
Cavé foi até o finalzinho dirigindo. Então
nessa época eu me afastei da Rádio. Em 64 eu fui
caçado, tive que me exilar numa embaixada porque havia
perseguições políticas, eu então me
exilei na embaixada da Bolívia. E de lá eu fui pra
Bolívia, e de lá eu fui para o Chile, onde fiquei
4 anos. E trabalhei em rádio lá e também
em televisão.
AO - E o curso de educação, no exílio?
Fiz um curso de especialista em educação na Unesco.
Consegui uma bolsa da universidade. Mas eu precisava trabalhar.
Tinha 28 anos quando fui para o exílio, foi outra experiência
que eu tive que aprender na prática. Não existe
escola de exílio. Mas eu tinha tanto amor pela rádio
que, quando eu saí, fiz uma carta, dizendo que "por
razões acima da minha vontade fui obrigado a me exilar
numa embaixada", e eu pedia à Rádio que me
colocasse em licença até que o país voltasse
à normalidade, porque o meu desejo era continuar a trabalhar.
Não sei se a carta chegou ou não. O fato é
que eles se esqueceram de mim e nada fizeram comigo, ou seja,
não me demitiram, nem me deram a licença. Eu virei
um absurdo administrativo. E aí foi pra Rádio o
Eremildo Viana, que foi um verdadeiro terror, substituindo a Maria
Yedda Linhares de quem ele tinha muito ciúme porque
a Maria Yedda era a professora de história mais querida
e ele o mais detestado. Era um homem extremamente arbitrário.
O Élio Gaspari, que foi aluno dele, criou a figura de 'Eremildo
o Idiota' por causa do Eremildo. Porque ele denunciou todo mundo,
denunciou alunos, ele teve aquele papel horroroso. Eu tinha sido
aluno dele no colégio Andrews, no secundário. Mas
o Élio Gaspari era mau: durante vários anos, várias
vezes, ele ligava de madrugada para a casa do Eremildo com notícias
alarmantes: "Seu filho foi atropelado, eu estou ligando aqui
da 9ª delegacia..."; dizia que a Rádio estava
pegando fogo, enfim fez o diabo. O Gaspari era muito engraçado.
Depois criou o 'Eremildo, o Idiota', com ele ainda vivo.
AO A professora Maria Yedda foi presidente da SOARMEC
o senhor mesmo participou de uma reunião com ela
, e quando ela assumiu, o Elio Gáspari deu uma nota bastante
explícita na sua coluna dominical. De fato, parece que
o Eremildo foi uma unanimidade.
Absolutamente autoritário... Eu estava exilado. Foi um
momento terrível da Rádio. Não podia tocar
música russa, umas barbaridades dessa ordem... Ele tomou
conta manu militar da Rádio. Como ele era bem visto pelo
sistema, o sistema deixou. O que ele queria era ir em cima da
Maria Yedda, tirar a Maria Yedda, punir. E a Maria Yedda é
uma pessoa muito cordata, é uma pessoa de diálogo.
Ela é muito firme nas idéias dela, ela tem muita
clareza do que ela pensa. Então, na Rádio, ela não
teve nem tempo de desenvolver o trabalho dela. Ela ficou pouco
tempo, porque o Eremildo foi em cima dela. E um cronista chamado
Henrique Pongetti, que durante muitos anos escreveu no O Globo,
era implacável com a Maria Yedda. Disse mentiras a respeito
dela, uma coisa muito dolorosa, ela sofreu muito com isso. Nesse
período todo eu estive fora da rádio. E aí
eu voltei, se não me engano, em 85. Era diretor uma pessoa
que foi muito correta comigo, o Heitor Salles. O Heitor facilitou
a minha volta ainda era ditadura, e ele podia ter ficado
com medo porque eu era 'cassado'. Quando eu voltei para o Brasil,
no princípio de 68, o presidente Costa e Silva tinha dado
uma relativa abertura e proclamado aos brasileiros que estavam
exilados que voltassem. Mal sabia ele que logo depois viria sobre
ele o AI-5, e a ditadura ia ficar muito pior. Mas, nessa época,
só duas pessoas voltaram: o Samuel Wainer, que queria recuperar
o jornal Última Hora ; e eu, mais ninguém. Eu, porque
já estava com 3 filhos 2 nascidos no Chile, o mais
velho já falando castelhano e não queria
desenraizar o meus filhos do Brasil. E eu também estava
enraizado na vida chilena. Eu já era professor da Universidade,
tinha produção de um canal de TV, fazia um programa
de rádio. Mas minha saudade era muito grande.
Voltei e fui procurar o Eremildo "Olha eu vim aqui
porque eu sou funcionário". Aí, o Eremildo
o que faz? Me demite, e comete a barbaridade de me demitir em
1968, com data retroativa a 1964. E eu tenho pena de que eu até
hoje não entrei nessa comissão de anistia porque
eu tenho direitos aí que foram inteiramente violados. Mas
enfim, em 85, eu voltei. Trabalhava n'O Globo e comecei a fazer
uns programas lá na Rádio. Ocorre que em 86 eu fui
eleito Deputado Federal e trabalhando como constituinte
eu não poderia trabalhar na Rádio, ou seja, eu não
poderia receber por duas fontes. Com isso me licenciei da Rádio,
novamente. Acontece que eu fiquei um período de 16 anos
no parlamento em Brasília. Mas numa certa altura eu não
agüentei mais de saudade e propus voltar, sem ganhar nada,
fazendo um programa. E assim foi: abriram os caminhos tanto na
AM como na FM, e eu fazia os programas que eu estou fazendo agora,
e mais uma crônica, que foi cortada pela nova administração.
E fiquei fazendo a Rádio vários anos sem receber.
Fazia pelo prazer, faço até hoje. Quando eu perdi
a eleição e deixei o meu mandato, eu tratei de conseguir
voltar para a ACERP, de ir pra rádio, e não para
a televisão. Eu gosto de rádio. E assim foi. E aí
veio a nova gestão, que foi muito correta comigo, nunca
interferiu, ao contrário.
AO Como jornalista o senhor defendeu a rádio
pública, o rádio educativo, o rádio infantil,
a Rádio MEC inclusive, a permanência da Rádio
no Rio de Janeiro , e como político?
Eu lutei 2 vezes contra tentativa dos desvios da rádio
de suas funções. A primeira delas foi ainda antes
de 64, quando o Deputado Adauto Luiz Cardoso, da UDN, partido
do centro direita com grandes talentos da oposição,
quis que a Rádio passasse a transmitir os debates da Câmara
dos Deputados. Aí com a filha do Roquette-Pinto, dona Beatriz,
que era uma mulher lindíssima, nessa época, fizemos
campanhas aqui no Rio de Janeiro inteiro. Não só
eu e ela, várias pessoas: fizemos aquela chamada 'onda'.
E um outro período em que eu agi como político.
Assim também como eu por 3 vezes impedi a privatização
da Rádio Nacional. Isso é uma coisa minha pessoal,
fui eu quem fez. Fui eu quem fui ao Itamar Franco, quando houve
uma tentativa, e no governo Fernando Henrique duas tentativas.
E eu fui ao Fernando Henrique e obtive dele a não privatização
da Rádio Nacional. Por que? Não é por ser
contra o rádio privado. Mas o espectro radiofônico
brasileiro já é mais de 90% privado, e o caráter
público da rádio é um caráter que
o país nunca compreendeu bem. Eu creio que o Brasil ainda
não acordou pra importância do rádio. Os patrocinadores
não acordaram, os governantes não acordaram e o
grande predomínio da privatização e mais
a entrega de concessão a muitos políticos, ainda
recentemente, para ganhar votação lá na Câmara,
constituíram uma verdadeira tragédia no âmbito
radiofônico. Que é um âmbito completamente
abandonado também do ponto de vista da fiscalização
e da legislação.
AO A concessão da maneira como é feita
resulta em uma forma perversa de privatização (veja
matéria na página 6). O senhor que estava lá
dentro do Congresso, o que acha?
Muitas pessoas conseguem uma concessão de uma rádio,
não exploram e alugam a rádio: botam o dinheiro
no bolso sem fazer nada. A concessão não é
dada para você alugar, para você explorar. Ela é
dada pra você prestar um serviço público.
Então eu penso que o setor de rádio no Brasil precisa
de mudanças profundas e drásticas que nenhum governo
até hoje teve coragem de fazer. Nem o governo do meu partido.
E eu creio que algumas emissoras públicas deveriam ter
canais dados pelo Estado que cobrissem o Brasil inteiro. Como
muitas emissoras privadas já estão fazendo, até
burlando um pouco a legislação. Você imagina
a Rádio MEC podendo ser ouvida em todo o país. Uma
emissora, uma só, não vai atrapalhar o espectro.
Porque tem dezenas de emissoras a repetir, porque não dizer,
um lixo musical. Então eu creio que o rádio é
parte integrante de uma revolução cultural que nunca
foi percebida no Brasil. Porque o rádio pode fazer uma
revolução cultural maior até do que a da
televisão. Porque, pela natureza da comunicação
radiofônica, ela é mais profunda do que a da TV.
Primeiro, que a maioria dos aparelhos receptores hoje é
também de uso individual, o que individualiza a recepção;
Segundo, que o rádio trabalha no ouvido com a imaginação
solta, e o ouvido é um sentido mais profundo do que o olho.
O olho é muito volúvel, ele precisa normalmente
de variação você não consegue
ficar meia hora olhando pro mesmo lugar. E isso faz com que a
natureza profunda da comunicação radiofônica
seja de uma penetração maior no ouvinte. Por isso
ele é um instrumento cultural. O Aiatolá Khomeini
retomou o governo da Pérsia quando exilado em Paris, com
fitas cassete que ele mandava, que circulavam secretamente, defendendo
a volta do Irã às suas raízes muçulmanas.
Eu não estou discutindo se o Aiatolá é radical,
eu estou falando do valor do auditivo. Então eu acho que
o Rádio é literatura oral com a possibilidade da
música, e nesse sentido o caminho dele está completamente
ignorado no Brasil. O que transforma uma rádio como a Rádio
MEC numa rádio de resistência. E existem outras,
a Rádio Cultura de São Paulo, existe uma rádio
universitária no Rio Grande do Sul, existe outra em Pernambuco,
existe até uma entidade que une essas rádios, mas
elas não conseguem força política porque
esse espectro está dominado por essas igrejas mercantis,
ou pelas concessões para políticos conforme a simpatia
dos governos. Eu tive a oportunidade de ter uma concessão
de uma rádio quando era político, nunca quis, exatamente
para não usar de um modo que me parece equivocado. As pessoas
não compreenderam. Os intelectuais não ouvem, é
um meio sem prestigio, e não existe uma política
de governo pra isso. Esse atual governo ensaiou uma política
de governo, deu uma condição melhor para a TVE,
para a Rádio MEC, para a Rádio Nacional, mas parou
por aí também. Eu lembro que uma vez uma verba que
eu consegui quando era da ACERP para comprar discos foi prometida,
autorizada e nunca chegou. Em suma, é isso, eu acho o Rádio
um instrumento que precisa ser redescoberto pelos intelectuais,
pelo governo, pelos políticos, pelas pessoas de bom senso.
AO O senhor acha que o papel da Rádio MEC nesse
cenário seria um papel de resistência?
Um papel de resistência cultural. A Rádio cultural
resistiu até a ditadura, até a esse diretor maluco
que não podia tocar música russa ela resistiu. Através
de um trabalho de formiga dos seus funcionários, mantendo
viva aquela chama de rádio cultural, ora de uma maneira
mais bem feita, ora menos bem feita. Ela está vivendo um
momento bom agora, um momento de interesse das pessoas, uma tentativa
de aglutinação no funcionalismo e isso tudo ajuda
muito.
AO Tem alguma coisa mais a respeito da Rádio,
que o senhor gostaria de falar e que não perguntamos?
Poderíamos ficar horas falando... Mas essa é a história
de 50 anos, abreviada, e que eu sintetizaria nisso: a rádio
foi uma paixão e ainda é. A rádio foi uma
lição pra mim. Eu me aperfeiçoei muito no
conhecimento musical com a obrigação dos programas,
porque eu sou autodidata. A rádio me ensinou muito, eu
devo muito à Rádio. E ano que vem fará 50
anos que eu comecei. Eu sou o funcionário mais antigo de
lá. Sendo que eu faço 70 anos junto com a Rádio.
É claro que a rádio começou em 23, mas em
36 ela foi passada. Então, isso quer dizer o seguinte:
eu vivi como partícipe e como ouvinte - nas fases em que
eu estava fora, nunca deixei de ouvir a rádio. Eu vivi
a rádio - como eu a conhecia por dentro eu mesmo olhando
de fora percebia. Fui membro do Conselho da ACERP quando era Senador.
Para mim foi uma aventura a Rádio MEC, sempre foi uma aventura
.