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Allan
Lima e Ieda Oliveira
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Entrevista com dois ícones
do rádio-teatro e da radiodifusão brasileira, Ieda
Oliveira e Allan Lima, no dia vinte e seis de junho de 2002.
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Amigo Ouvinte - Como e quando vocês
vieram para a Rádio MEC?
Ieda Oliveira - Vim com 13 anos, em 1947. Vinha de um programa
infantil, na Rádio Guanabara, o "Campeonato Infantil
Toddy". Era feito por um locutor esportivo, o Helio Paiva.
De lá saíram muitas cantoras: Claudete Soares, Dóris
Monteiro
Havia uma sessão de instrumentistas, uma
de cantores, e um "sketch" - antigamente se falava "esquete",
né? Eu cantava, mas, um dia, faltou alguém para
o esquete, e diretora me disse: "Tem muitos cantores aí.
Hoje você vai fazer esquete". E eu fiz. Depois ela
disse: "Você não vai mais cantar. Agora vai
fazer só esquete". Eu reagi: "Mas eu quero ser
cantora." "Não! Você vai fazer esquete."
E eu fiquei.
Por domingo, saía sempre um vencedor de cada categoria,
e , no esquete, eu ganhei todos os prêmios. Quando terminou
o patrocínio da Toddy, o Hélio Paiva me chamou e
disse: "Você é muito talentosa, não pode
ficar aqui, não, porque isto aqui é uma estação
comercial, mas eu vou te mandar para o René Cavé
na Rádio Ministério". Eu ainda estava no Ginásio.
Cheguei aqui, no terceiro andar, e a primeira pessoa que encontrei,
foi o René Cavé. Aí, contei a minha história,
e ele: "Você quer ficar onde? No rádioteatro
infantil, ou no da mocidade?" Eu preferi o infantil, e ele
disse: "Então você vai entrar naquela sala,
e procurar a Geny Marcondes." Essa mulher fantástica,
que é a responsável por toda a minha vida artística,
Geny Marcondes. E eu então entrei, me apresentei, e fiquei
todo o tempo em que ela escreveu e dirigiu o programa. Depois
ela foi substituída por Sílvia Regina.
Eu fiquei aqui de 1947 até 85, quando fui transferida para
a Universidade Federal Fluminense, aonde fui levada pelo Pedro
Paulo Collin Gil. Ele era professor de lá, e nós
montamos uma estação de rádio com técnicos
aqui da Rádio MEC. Mas, depois de montada, a gente não
sabe qual foi a política que aconteceu: nós não
pudemos assumir e eu fui ficando lá, até minha aposentadoria,
em 1990.
o A Geny Marcondes chegou um pouco antes de você?
I.O. - Ela chegou em 1945 ou 1946. Ela era professora de música,
e à época estava casada com o maestro Kolreuter.
Dona Geni foi contratada para fazer um programa musical infantil.
Àquela época, os programas iam ao ar ao vivo, das
17:30h às 18h. Às16:30h começávamos
a ensaiar, não só o texto - sempre era uma historinha
-, como também as músicas. E as crianças
eram ótimas!
Eu lembro que uma vez ela disse pro Orlando Prado, um grande ator:
"Ô, Orlando, imagine que você é um peixe
debaixo d'água, e fale com voz de peixe." Como o imaginário
da criança é fantástico e como a não-censura
ajuda! E ele falou com uma voz de peixe, uma voz borbulhante...
Ninguém sabe como é que ele conseguiu fazer aquilo
sem estar com um copo d'água! Mas ele ficou olhando, pensou,
e conseguiu fazer. Dona Geny era uma mulher de uma cultura muito
grande, uma cultura musical muito grande. Desse programa saíram
grandes atores. Fernanda Montenegro trabalhou conosco...
o Ela trabalhou com Geny Marcondes, também?
I.O. - Trabalhou! Nós fazíamos uma série,
"O Rei Pimpão". Ela era a Rainha Finoca, o Magalhães
Graça era o Rei Pimpão e eu era a filhinha deles,
a Princesinha Não-me-toques. Também tinha música,
e o Graça cantava maravilhosamente bem, e ela também.
E trabalhamos também com a Teresinha Amayo, que igualmente
passou pelo programa.
Quando o Jaime Barcelos teve que deixar a Rádio para se
dedicar ao Teatro, Dona Geni chamou o Magalhães Graça
para fazer o Rei Pimpão. Diga-se de passagem, que o Graça
nunca tinha ouvido o trabalho do Jaime. Dona Geni deu o script
para o Graça e mandou que lesse. Ele pegou o texto e, à
primeira vista, você jurava que era o Jaime Barcelos! Como
os dois sentiram o personagem exatamente igual! Nós ficamos
boquiabertos, não é?
Allan Lima - Ainda me lembro da apresentação que
era assim (cantando): "Eu sou o Rei Pimpão, atchim!
Pimpão, atchim! Pimpão! Também sou bonachão,
chão chão, chão chão! E faço
um figurão, rão rão, rão rão!
Porque sou bonitão, tão tão, tão tão!"
Era a música do Rei Pimpão, que tinha o contracanto
fininho da Rainha Finoca, que era a Fernanda.
o A Ieda de Oliveira já possuía prática
de rádioteatro, por conta do seu trabalho na Rádio
Guanabara. E o Orlando Prado e os outros atores? Qual era a formação
deles?
A.L. - Isso eu posso contar. O Orlando Prado, inclusive, é
o culpado por eu ter ocupado o microfone pela primeira vez. Nós
éramos estudantes do Colégio Pedro II e o Colégio
mantinha, na Rádio Roquette-Pinto, um programa estudantil.
E o Orlando Prado era um dos astros. Eram dois os intérpretes
principais: o Orlando Prado e o Habib Haias. E eu ficava lá,
com o nariz colado ao vidro, doido para fazer qualquer coisa,
doido para o Professor Libânio Guedes, que era o responsável
pelo programa, me dar uma oportunidade qualquer. E um dia, exatamente,
num dia em que o Orlando Prado iria fazer um dos seus muitos protagonistas,
ele faltou, e não havia mais ninguém ali por perto.
O Professor Libânio Guedes pegou o script e pôs na
minha mão. Oba! - era a minha grande oportunidade... de
ser o grande fracasso que foi. Foi horrível! Foi mal lido,
não digo nem mal interpretado, foi mal lido!
O Professor Libânio Guedes botou a mão no meu ombro
e disse: "Olha, você tem muito jeito para escrever,
procura entrar por esse caminho... Não pensa em microfone,
não, porque não é o teu campo de batalha."
Aí eu fui para casa, tristinho da vida, e continuei escrevendo
- que eu já escrevia para esse programa -, até que
uma semana lá o Professor Libânio me chamou e disse:
"Allan, você hoje vai para o microfone. Tem um papel
perfeito para você. Nós vamos fazer a estória
de 'Mensagem a Garcia', e você vai fazer aquele que leva
a mensagem a Garcia."
Eu não dormi, não é? Pensei: "É
a grande chance!" Fiquei em casa, bolando como seria, qual
seria a inflexão... Bom, meu papel se resumia a esta frase:
"Mas... onde está o General Garcia?" Esso era
toda a minha participação. Mas o Professor fazia
questão da pausa certa nas reticências!!!
Eu estou contando isso para falar sobre o Orlando Prado, e também
de Theresa Amayo, Inácio Singer, Félix Cohen, Ivan
Meira, Aryon Romita - todos somos oriundos desse mesmo embrião.
Depois, o programa saiu da Roquette-Pinto e veio para cá,
chamando-se "A Juventude Cria", e deu muita cria, aqui,
para a Rádio MEC - a nossa antiga Rádio Ministério
da Educação e Saúde..
o Yedda, o que você aprendeu no radioteatro daqui?
I.O. - Eu vim com treze anos, e com essa idade a gente não
tem dimensão de nada. Muitos anos depois, foi que eu tive
a dimensão de como foi a minha formação aqui
dentro. Todos os atores que eu conheci, de Rádioteatro,
eram pelo talento. Primeiro tinha que se ter uma voz bonita, e
depois o talento - que é uma coisa que nasce com a gente.
Ninguém me ensinou, não; eu nasci assim. E nós
pegamos muitos bons diretores. Então, o diretor é
quem vai te lapidar. Nós tivemos o Edmundo Lys, tivemos
o Mário Jorge, tivemos Sadi Cabral, Sérgio Viotti,
Paulo Salgado, Luiza Barreto Leite e Magalhães Graça,
com quem eu fiquei muito tempo - eu devo tudo ao Magalhães
Graça...
O Sadi Cabral gostava muito do Gil Vicente! O teatro português!
E foi a coisa mais difícil que nós tivemos, justamente
pela forma, pela grafia da língua portuguesa, que era aquele
português arcaico, não é? Aí a gente
lia e tinha que reler tudo outra vez, porque era "ph",
"sh", então ficava difícil! E quando a
gente começava a falar, automaticamente, já ficava
com um tom português. Mesmo que a gente não quisesse
já falava sobre os dentes... Foi a coisa mais difícil,
o teatro mais difícil.
E nós fizemos, também, todo o Teatro Grego... Foi
com o Magalhães Graça. Outro ensaiador muito bom
foi o Martinho Severo! Um declamador português que era ensaiador
dos programas de poesia. Era ao vivo, sábado à noite,
de 22 às 23.
A.L. - Tudo era ao vivo! Não havia gravação.
I.O. - Interessante, depois que passou para a fita, como a gente
errava! Antes a gente não errava nada, não é,
Allan? Ninguém errava! Passou para a fita, a gente errava
à beça!
o Allan, vamos retomar do mesmo ponto. O que você encontrou
quando chegou?
A.L. - Eu vim com o programa do Pedro II, que era "A Juventude
Cria" e integrava um dia da semana do "Reino da Alegria".
Eu comecei escrevendo. "A Juventude Cria" era um programa
formado de seções, e cada estudante fazia uma seção.
Exatamente nessa época, em 49, Dona Geny tinha viajado
para a Europa; estava Dona Neuza Feital... Então, eu passei
a escrever para o "Reino da Alegria", a convite da Dona
Neuza, e dali comecei também a fazer umas coisas para eu
próprio ler - não vou nem dizer "interpretar".
Nisso, Dona Geny Marcondes volta, já me encontra integrado
ao "Reino da Alegria", mantém a minha posição
e começa a me dar papéis, e aí eu sou chamado
para o "Rádioteatro da Noite".
o Quem eram as pessoas?
A.L. - Eu tenho aqui uma lista de nomes de pessoas que participavam,
que não está obedecendo a nenhuma cronologia: são
nomes retirados de scripts de antigos programas, nomes, como,
por exemplo: Jair Miranda, Gonzaga Filho, Zélia Guimarães,
Arlete Pinheiro...
I.O. - ...que é a Fernanda Montenegro
A.L. - Sim, e é até muito interessante porque...
Era assim: "Programa de Fernanda Montenegro, narrado por
Arlete Pinheiro", ou vice-versa, "Programa de Arlete
Pinheiro narrado por Fernanda Montenegro". E às vezes
ela entrava - eu tenho até um script em casa, é
muito interessante - , ela entrava em dois papéis no mesmo
programa. Então, na relação "tomaram
parte no programa de hoje fulana de tal, fulana de tal, Arlete
Pinheiro, Fernanda Montenegro, e tal...", como se fossem
duas pessoas diferentes.
Mas então, voltando: J. Nogueira, Jayme Barcellos, Francisco
Nunes, Paulo Renato, Augusto Araújo, Afonso Soares, Karlos
Couto - famoso Karlos Couto "com K" -, Batista Rodrigues,
Antônio Carlos, o humorista, José Ricardo, Carlos
de Souza, Célio Rodrigues, Martins Filho, Carmem Fernandes,
Aldo César, Francisco José, Dália Garcia,
Aristeu Bergher, Iracema Lopes - não sei quais dessas pessoas
integravam o "Rádioteatro da Mocidade", que o
Edmundo Lys dirigia.
Sob a direção de Edmundo Lys, eu fiz uns dois ou
três programas. Era muito bom diretor. Ele era severo e
muito cioso do que o programa tinha que ser, da maneira como teria
que sair o programa, a ponto de, se a coisa não fosse como
ele queria, ele jogava o script e ia embora. Jogava o script em
cima da bancada onde ele estava assistindo, ao lado do operador,
e ia embora. Textualmente, ia embora! Ensaiava-se, ensaiava-se
mesmo! Não era ensaio "para inglês ver",
nem leitura de programa. Ensaiva-se. O diretor dizia o que queria
e como queria que fosse feito.
Aí, voltando à minha trajetória, quando o
Edmundo Lys sai da direção, vem o Mário Jorge.
E, com o Mário Jorge, eu fui ficando e fui aumentando a
participação nos papéis. O programa do Pedro
II terminou, eu continuei no "Reino da Alegria", já
como fixo, e o tempo foi rolando, e daquele "Mas... onde
está o General Garcia?", eu terminei sendo diretor
de Rádioteatro da casa.
o Como a coisa era feita. Como os atores ensaiavam? Como era
a contraregra e a sonoplastia?
A.L. -Os atores chegavam e já encontravam quase sempre,
em cima do piano do estúdio, os vários scripts com
o nome de cada um. Cada um pegava o seu script e já sabia
o que ia fazer; já começava a marcar o seu papel
do jeito que costuma marcar - uns sublinhando só o nome
do personagem, outros passando uma linha embaixo do nome e da
fala que vai dizer.
o Os scripts vinham de onde?
A.L. - De uma seção chamada "Setor de Preparo
de Irradiação" - SPI. O autor do programa entregava
o original, esse original ia para a Datilografia, a Datilografia
batia em estêncil - aquele que tem a letra roxa - que era
rodado naquele mimeógrafo a álcool em cima de papel-jornal,
meio amarelado. Isso era posto ali, cada um dava sua "passadinha
de olhos" e esperava o ensaio. O diretor chegava e: "Vamos
lá!". Quem tinha que começar a falar começava.
Ele interrompia quando precisava interromper, dava a linha, quando
achava que era necessário, e o ensaio se desenrolava sem
maiores problemas, como é um ensaio de leitura de teatro.
o E a contra-regra e a sonoplastia?
A L - Dentro do estúdio havia um microfone para o contra-regra
e um tablado, com um pouco de areia, um pouco de cascalho; uma
porta de cerca de um metro de altura... Essa porta, com fechadura,
trinco e tal, para fazer todos os ruídos. Fora isso, havia
o material necessário. Dois cocos para fazer o cavalo,
na terra, ou no cascalho; papel celofane, para fazer incêndio;
o papel comprimido no lápis para fazer a porta que range;
uma folha de flandres; uma folha de zinco, para fazer a trovoada.
Tudo isso é da criatividade do contra-regra.
E a contra-regra era muito fruto também da imaginação,
porque às vezes vinham uns pedidos absolutamente loucos!
Vou contar uma que aconteceu na Rádio Nacional. Num programa,
lá, pediram o ruído de um corpo sendo devorado por
formigas, e o Edmo do Valle - que era o contra-regra lá
e que depois veio para cá -, deve ter "queimado muito
as pestanas" para chegar à conclusão de que
um comprimido efervescente, na água, posto ao lado do microfone,
dava o ruído que se queria.
o Não havia o efeito gravado?
A.L. - O efeito gravado existia, mas entrar no momento exato,
ao vivo, era muito difícil. A sonoplastia, era com discos
de 78 rotações, um pouco maiores, de 12 polegadas,
que eram todos marcados com lápis vermelho em cima do próprio
sulco, com vários círculos. E cada círculo,
correspondia a um trecho mais suave, menos suave... Me lembro
bem que o sonoplasta que fez a maioria dos programas era o Paulo
Santos. Ele adorava uma peça chamada "André
de Leão e o Demônio de Cabelo Vermelho", do
Hekel Tavares. Então, os vários discos do "André
de Leão" eram todos marcados, e ele punha no script
para o operador: "Disco tal, lado A, sétima faixa".
Mas não era faixa - a face era contínua -, era a
sétima marcação que ele havia feito com lápis
vermelho. Aí, sim, ele marcava o ponto no script onde deveria
começar a música e vinha com aquele risco por cima
da fala, até o ponto em que deveria sair, onde ele dava
dois traços oblíquos. Alí, o operador sabia
que a música deveria já ter sumido.
o Voltando á lista, quem mais você citaria?
A L - O Brandão Reis, sem dúvida. Quando eu cheguei
ele era o grande astro da narração. Era um senhor
que fumava um cachimbo britânico e um ótimo narrador!
E o Mário Jorge, que era um excelente rádio-ator,
que foi depois diretor, ensaiador, E também o Júlio
Cezar Costeira.
O Júlio Cezar era o galã da época. Fazia
os programas com a Fernanda Montenegro como primeira dama. Isso
também eu assisti, não me contaram. Os dois estavam
interpretando uma cena de amor e acabaram dando a maior demonstração
de profissionalismo que eu já vi, no Rádio. Júlio
Cezar e Fernanda estavam, cada um, de um lado do microfone. A
cena era a mais melosa que se possa imaginar. De repente, devido
ao fato de o parafuso de fixação da girafa estar
frouxo, o microfone começa a baixar lentamente. Os dois,
sem esboçar a menor hesitação, foram se acocorando
- sem parar de interpretar -, foram abaixando e terminaram quase
de gatinhas no chão, mas fizeram a cena inteira.
I.O. - Tem também o Álvaro Costa e a Dona Cora
Costa.
AL - Foram duas figuras maravilhosas, vindas do teatro, casados
os dois, ele com sotaque de português, um sotaque fortíssimo...
E ele era baiano! Por quê? Porque o teatro, na época
em que eles faziam, privilegiava o sotaque português. Tem
o Paulo Alberto, que foi locutor da casa, foi narrador e ator
também de vários dos meus programas, e fez muita
transmissão ao vivo do Theatro Municipal, do "Concertos
Para a Juventude"- este Paulo Alberto é o atual Senador
Arthur da Távola.
Deixa eu ver quem mais, aqui... Antônio Vicente da Costa
Júnior, que foi nosso rádio-ator também,
foi diretor da Faculdade de Direito aqui do lado, e acho que ele
é Desembargador, atualmente. Mais: Agnes Fontoura, Elza
Martins
e o Jefferson Duarte, que merece um capítulo
especial.
O Jefferson era operador e eu diretor de Rádioteatro. Ele
tinha muita vontade de interpretar, e me pediu. Aí, foi
fazendo papéis pequenos, foi indo, foi indo e foi a pessoa
que eu convidei para trabalhar comigo quando fui para o Consulado
Britânico. Ele foi meu "braço direito",
lá, durante 14 anos. Era uma figura espetacular, uma voz
linda. E revelou-se um excelente intérprete, além
de continuar sendo operador. Tanto é que, no Consulado
Britânico, ele era narrador e operador.
o E o Chico Anysio?
I.O. - Eu não me lembro do Chico Anysio aqui, não...
A L - Eu, também não. Sei que houve um concurso
de rádioteatro, na Rádio Guanabara - feito pelo
Afredo Souto de Almeida que era da Guanabara, também -
e o Chico Anysio foi segundo colocado. Se ele trabalhou aqui -
o que pode ter acontecido, porque muita gente desse rádioteatro
veio pra cá -, eu não tive a oportunidade de trabalhar
com ele..
o E o José Vasconcelos?
A.L. - José Vasconcelos era locutor, e teve participações
eventuais nos programas de radioteatro. Tinha um programa aqui,
produzido pelo doutor Darcy Evangelista, que foi uma figura famosíssima,
na época - ele era caricaturista num jornal, escrevia sobre
puericultura em outras publicações e, aqui, ele
tinha um programa dedicado as mães, com músicas
de Geny Marcondes, como não podia deixar de ser... E os
participantes eram o próprio Dr. Darcy Evangelista, o Zé
Acrisio, que era um locutor daqui - eu também participei
varias vezes - e o José Vasconcelos, que fazia varias vozes
num programa só, que é a peculiaridade dele. Era
capaz de dizer um poema, como era capaz de fazer um garotinho
jogando futebol com a turma, e também ser um locutor sério.
I.O. - E ele imitava outros locutores também. O Jatobá
Dentro do horário dele, ele imitava outros locutores, Dava
na cabeça dele, e ele imitava outras pessoas também
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AO - Yeda, você falou que, no Reino
da Alegria, vocês haviam feito todo o Monteiro Lobato.
Tudo com a Geny Marcondes conduzindo?
I.O. - Não, eu acho que essa fase já
foi da Silvia Regina. Fizemos as Reinações
de Narizinho, ...O Poço do Visconde; Os Doze Trabalhos
de Hercules, A Reforma da Natureza,... e por ai vai... tudo,
toda a série infantil do Monteiro Lobato foi feita
aqui na rádio.
o Todo dia tinha rádio-teatro?
I.O. - Não, o Reino da Alegria era
de segunda a sexta de 5:30 às 6:00 da tarde, ao vivo.
o Havia dramatizações para as
efemérides: 7 de setembro, Natal, etc.?.
I.O. - Sim, todas essas datas eram comemoradas
na Rádio MEC. Muitos desses acontecimentos eram dramatizados,
como rádioteatro..
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o E quem escrevia?
A L- Dona Geny escrevia bastante. Silvia Regina escrevia, também.
I.O. - Ela era jornalista e professora. Tinha uma enorme facilidade,
e um grande um poder de síntese. Uma peça que levava
2 horas ela condensava em 30 minutos e não perdia nada.
o E o Magalhães Graça?
I.O. - O Graça veio pra substituir o Jaime Barcelos. Ele
era um grande ator.
A L - Embora ele tenha chegado um pouco depois da minha época,
a influência dele na maneira de interpretar foi geral. Ele
veio dirigir o rádio-teatro à noite e depois ele
dirigiu um pouco do Reino da Alegria Diga-se de passagem que,
além de ser um ator maravilhoso, o Graça era pianista.
E não era pianista só, não - era pianista
concertista. Então, a sensibilidade dele como artista era
enorme. Ele foi aluno dileto da Madalena Tagliaferro.
o Luiza Barreto Leite?
A L - Ela teve uma passagem rápida, como diretora. Mas
foi uma figura de teatro de bastante importância, que a
gente deve considerar como integrante dos quadros da antiga Rádio
Ministério, assim como Sadi Cabral, e como o Sérgio
Viotti. Eu relacionei aqui os diretores que a minha memória
registrou, desde Edmundo Lys: Mario Jorge, Sadi Cabral, Telmo
de Avelar, Paulo Salgado, e Dilmo Elias. Na época do Governo
JK, houve uma invasão de mineiros, aqui, desde o diretor,
Celso Brant, que trouxe consigo o "Minastério".
E aqui veio parar um diretor de rádio teatro...
I.O. - F. Andrade Eu ia falar dele agora
AL - Nessa época, eu era diretor de rádioteatro
e fui deslocado, voltei pra função de interprete,
e o F. Andrade, sem conhecer o elenco, passou a ser o diretor
de rádioteatro. Por isso eu prefiro que você fale,
porque o que eu disser talvez possa soar como uma certa magoa
que, realmente, não existe.
I.O. - O Sr. F. Andrade era uma pessoa muito tímida e
quando ele pegou o elenco - um elenco muito bom, porque estávamos
juntos a muitos anos, né? - , ele ficou deslocado. Mas
ele não se colocou arrogantemente, não. Foi bem
humilde. Ele veio da rádio lá de Minas, e tinha
um programinha chamava-se "Conversa puxa Conversa" -
sempre era um assunto atual e era muito rapidinho, tinha uma boa
dinâmica. Mas ele conseguiu levar bem o tempo todo.
o E o Pascoal Longo?
AL - Pascoal Longo, quando eu cheguei aqui, era o principal produtor
de programas da Rádio. Uma pessoa com uma facilidade enorme
de escrever, de criar, e que fez, na minha opinião, a série
de programas mais importante que já houve aqui. Chamava-se
"Clube dos 13", e deve ter sido por volta de 56...57.
Ele reuniu 13 escritores famosos, da época. Eu me lembro
de Dináh Silveira de Queiroz; José Condé,
que depois ficou escrevendo aqui pra Rádio; Marques Rebello,
que também depois escreveu outros programas
enfim,
foram 13 autores, 13 escritores. E cada uma história especial,
para o nosso rádioteatro. E havia uma expectativa de quem
seria o 13º programa. E o programa dava um livro de presente,
porque a Rádio tinha muito disso. "O Reino da Alegria"
dava sempre livros aos ouvintes - sorteava entre as cartas que
recebíamos
I.O. - Os programas de poesia do Geir também davam livros.
o Otto Maria Carpeaux?
AL - Otto Maria Carpeaux tinha uma crônica diária,
aqui. Era uma figura facilmente encontrável nos corredores.
Era um pouco difícil falar com ele, porque ele tinha um
problema de articulação - independentemente de ser
um estrangeiro - e falava com muita dificuldade.
o Miécio Hônkis?
A L - Esse, pra mim, também merece um pedestal aqui na
Rádio. Miécio Araújo Jorge Hônkis.
Era médico - quando jovem fez uma viagem à Amazônia
- e, nunca tendo feito nada no rádio, achou que aquilo
dava uma história. Chegou aqui com os textos em baixo do
braço, e o René Cavé, que tinha uma visão
espetacular - ele pressentia as coisas que poderiam dar certo
-, concordou, e ele começou a escrever o programa, que
se chamava "Viagem Maravilhosa" - as aventuras de um
jovem médico na Amazônia descendo, não me
lembro se era o Amazonas ou o rio Negro, acompanhado de caboclos,
e contando histórias realmente maravilhosas. A partir daí,
ele se tornou produtor radiofônico de primeira linha, ele
fez "Esse mundo Maravilhoso"...
I.O. - Fez "Novos Horizontes", também, e no
"Tribunal da Historia".
o Como era o formato desses programas?
A L - Rádioteatro. "Tribunal da História"
era muito interessante. Era um Tribunal, que contava com um Relator
e um Juiz como personagens fixos. O Meirinho iniciava o programa
dizendo : "Está aberta a sessão! Em pauta,
o julgamento de Maria Antonieta. Tem a palavra o senhor Relator
para a leitura do processo." Isso era fixo. Ai, o Relator,
que era o narrador, dizia: "De tanto a tanto, aconteceu isso,
isso..." Então, num determinado ponto na narrativa,
entrava o rádioteatro e voltava depois o narrador. E, quando
terminava a exposição da figura ou do caso histórico,
o Juiz dizia: "Tem a palavra o Sr. Promotor, para a acusação".
Aí, o promotor dizia: " Ela deve ser condenada, por
isso, por isso..." - e relatava os pontos de condenação,
de acordo com o que havia sido apresentado antes. Depois era dada
a palavra ao advogado de defesa que expunha seus argumentos. E
os ouvintes, por carta, condenavam ou absolviam - para ganhar
um livro. O programa era super-inteligente.
I.O. - E era muito ouvido: o volume de cartas era imenso. Um
dia ele falou assim: "Eu me surpreendi ao perceber que a
maioria das cartas era enviada por marinheiros que estavam em
alto mar e que ouviam a Rádio MEC". E os julgamentos
deles eram muito inteligentes, e ele ficou muito feliz com isso.
E "Novos Horizontes" é porque ele também
gostava muito de ciência, principalmente astronomia. O Miécio
foi o fundador do Planetário da Gávea
Ele
andava muito no Observatório Nacional e sabia de todas
as novidades científicas. Foi ai que ele bolou esse programa
"Novos Horizontes".
o E o Sadi Cabral?
A L - Sadi Cabral foi um grande mestre. Foi meu mestre, não
só aqui, como no teatro. Havia um espetáculo anual,
chamado "Poeira de Estrelas", que reunia gente de todos
os elencos, e, num deles, eu tive o privilégio de ser dirigido
pelo Sadi e ter contracenado com Oscarito. Depois, foi feita uma
montagem do Mambembe, dirigida igualmente por Sadi Cabral, em
benefício da Casa dos Artistas. Eu estava no elenco, também.
De modo que, quando ele veio para cá dirigir o rádioteatro,
nós já nos conhecíamos. Ele modificou, na
época, o ritmo do rádioteatro daqui, porque ele
era um pouco mais acelerado, e o rádioteatro nosso era
um pouco mais descansado. Para mim, ele foi um mestre sensacional.
I.O. - Ele foi o mestre de todos nós. Quando entrou aqui,
ele deu uma alavancada no pessoal. Ele gostava muito do teatro
português. Nós fizemos quase tudo do Gil Vicente.
Foi uma pedreira, mas saiu muito bem, e ele ficou muito satisfeito.
o Essas peças do Gil Vicente, também eram condensadas?
I.O. - Claro, eram condensadas em 30 minutos, direto, sem intervalos,
e ao vivo. Ninguém errava.
o E a Aymê?
I.O. - Aymê foi do rádioteatro daqui, também.
Ela fazia teatro de comédia, daquelas bem apimentadas,
não é?, com aquele sotaque de baiana. Eu sou muito
amiga dela e, quando ela veio pra cá, eu fui uma das pessoas
que ajudaram a Aymê, porque ela, com aquele sotaque e vindo
do teatro
O rádio é muito diferente do teatro.
Mas ela se achou num programa de poesia que nós tínhamos.
o Dilmo Elias?
I.O. -- Dilmo Elias foi um dos últimos. Mas ele teve sorte,
porque pegou um elenco fabuloso e não teve trabalho nenhum.
Ele atuava muito pouco como diretor, porque só havia estrelas
aqui e era muito difícil ele ensaiar aquelas estrelas todas.
Nós fazíamos tudo, e ele quase não dizia
nada. Agora no final, muitas pessoas foram saindo, umas foram
para a dublagem, e entraram pessoas novas. Aí, sim, ele
pode usar os conhecimentos dele como ensaiador e diretor de teatro.
Mas ele foi um bom diretor e é uma boa pessoa.
o E o Telmo Avelar?
AL - Telmo D. Avelar. Ele vazia questão desse "D".
Um intérprete de enorme talento, que veio do rádio
comercial e foi um diretor que honrou sua presença.aqui.
Aliás, foi com a saída dele que eu assumi a direção
do Rádioteatro. Quando foi embora, ele escreveu um bilhete
pra botar na tabela onde nós deixávamos as comunicações.
Um bilhete super-simpático - que guardo com muito carinho
- dizendo que deixava nas minhas mãos o rádioteatro,
depois de uma série de adjetivos bondosos. O Telmo foi
um diretor que passou por aqui deixando sua marca brilhante.
o Allan, fale do teu trabalho como diretor.
A. L - Quando passei a dirigir o rádioteatro, eu já
redigia programas. É interessante dizer que, quando eu
redigia o programa, a voz da pessoa para quem eu estava escrevendo,
o tempo de leitura, a respiração da pessoa, estava
tudo na minha cabeça. Você trabalha tanto tempo com
as pessoas que passa a saber como elas respiram, com que ritmo
elas falam, qual interpretação que vão dar.
Então dirigir era muito fácil - o elenco era maravilhoso,
Não houve uma vez que eu dissesse: "Puxa, escalei
mal".
o O Estúdio A era conhecido como estúdio de rádioteatro.
Houve algum plano, em alguma época, de fazer ali um estúdio
mais completo?
A L - Não, acho que nunca passou na cabeça de ninguém
fazer qualquer reforma ali. Para nós ele era um verdadeiro
estúdio de rádioteatro. Servia perfeitamente pra
finalidade. Tinha duas girafas, cada uma com um microfone bilateral
- isso no começo, depois era um microfone omni-direcional,
que capta o som de todos os lados -, um cantinho da contra-regra,
cadeiras para os atores se sentarem enquanto esperavam, em suma,
um ambiente perfeito para rádioteatro, com visão
plena da técnica e contato visual com diretor e operador
- quando o diretor ficava do lado de fora.
o A rádio produziu alguma novela?
A L - Novela, não. Mas teve coisas seqüenciadas.
Por exemplo, eu fiz "Fogo Morto", seqüenciado,
mas não posso chamar isso de novela. Era uma história
que continuava no dia seguinte, mas não terminava num ponto
de suspense, como é normal em novela.
I.O. - Eu queria lembrar o Garcia Xavier, porque ele é
que era o narrador do Fogo Morto. Garcia Xavier, também
foi um ator, na época, marido da Agnes Fontora. Ele me
disse que foi você, Allan, que trouxe ele pra cá.
Depois ele ficou no lugar do Paulo Santos, transmitindo os concertos
do Teatro Municipal.
o Eu queria que você falasse, Allan, sobre a contribuição
do rádioteatro nos programas educativos.
AL - É evidente que alguma coisa apresentada a várias
vozes e dramatizada tem muito mais encanto que um programa feito
a uma só voz ou a duas. Existe o que nós chamamos
de "programa do sabido", onde o locutor sabe e todos
os ouvintes não sabem. Estou me referindo a programas educativos,
tipo depoimento ou palestra. O segundo formato primário
de programa é "o burro e o sabido". São
duas personagens: um entrevistador e um entrevistado - o entrevistador
é o "burro" e o entrevistado, o "sabido";
o entrevistador é aquele que não sabe (posição
que se acredita ser a do ouvinte), e o entrevistado é aquele
que sabe, e vai transmitir seus conhecimentos ao entrevistador
e a todos aqueles que ouvem. Existe uma forma muito mais suave
de transformar aquilo que tem que ser passado aos ouvintes, aquilo
que tem que ser mensagem positiva de ensinamento, de educação,
no sentido amplo da palavra, e que é muito mais encantadora,
muito mais suave e muito mais gostosa de se ouvir: quando há
várias vozes e, principalmente, quando é dramatizado.
Portanto, a utilização do rádioteatro em
programas educativos é da maior importância - é
a maneira mais suave e interessante de se passar para o ouvinte
aquilo que se deseja que ele aprenda. Não vejo outra forma,
melhor, no rádio.
I.O. - Tanto a obra cientifica, como a literária, em rádioteatro
acho que a gente assimila muito mais rápido.
A L - E deixamos de tocar no que eu considero o ponto mais importante:
o apelo à imaginação - aquilo que o rádio
tem de mais poderoso e que deixa a televisão a centenas
de anos luz. A televisão dá tudo como pronto - quem
assiste à televisão não tem margem pra criar,
na sua imaginação, o que é o ambiente, o
que é a figura, o que é o comportamento da figura,
o que é a maneira de falar. Ouvindo pelo rádio,
você cria na sua imaginação a figura que quiser
- a mulher bonita do rádio é a mulher bonita que
você quer, é a mulher que você imagina bonita;
um ambiente pobre no rádio, é um ambiente pobre
que você sabe que é um ambiente pobre, e não
aquele ambiente pobre que um cenógrafo idealizou. Eu acho
que o mais forte do rádio é onde, infelizmente,
ele não está sendo aproveitado: o apelo à
imaginação. As crianças de hoje recebem tudo
pronto e não têm esse apelo. A imaginação,
o poder de criatividade dessas novas gerações estão
sendo tolhidos. Não sei como serão os escritores
do futuro.
o Há pouco vocês falaram que quando as peças
começaram a ser gravadas, vocês erravam, e antes,
não. Por quê?
I.O. - A gente errava por isso, porque, muitas vezes, você
não concorda com o que você fala. Antes, a gente
acabava de falar e: "puxa podia ter dito isso melhor"
- mas era ao vivo e ia assim mesmo, e dava certo. O nosso nível
de exigência fica maior quando você tem uma fita.
Eu lembro que o Allan, quando vieram as fitas, ele mandava a gente
ouvir. "Você concorda com o que você disse?",
e muitas vezes a gente não concordava, não..
o Ao que parece, de todo o rádioteatro feito aqui na Rádio
MEC, o que sobrou foram cerca de 60 peças radiofônicas,
adaptadas, traduzidas ou mesmo escritas pelo Sérgio Viotti.
Eu queria que você falasse do Viotti e desse trabalho.
I.O. - Quando eu comecei, quem estava no radioteatro eram pessoas
que não eram de teatro: eram de rádio, mesmo. A
dinâmica do teatro é muito diferente da dinâmica
do rádio, e o Sérgio Viotti, eu sinto que ele se
adaptou muito bem ao rádioteatro. Ele é um homem
com muita cultura, com muita sensibilidade, e sabia extrair do
ator o máximo que ele podia dar. O elenco de suporte daquela
época não era muito grande, mas éramos muito
bons e muito amigos.
o Como era a mecânica do trabalho?
I.O. - Como bom diretor de teatro, ele explicava e dava a linha
do personagem. Veja bem, a pessoa tem uma formação
de rádioteatro e ele vem com uma personagem de um teatro
francês, por exemplo, que eram peças ligeiras, e
que tem que ter um ritmo também rapidinho. Então,
ele falava sobre a peça, falava sobre o autor, falava sobre
a época em que aquela foi escrita, como era a linguagem
da época, como era a época e inseria a peça.
Claro que na época dava a linha de cada um e muitos tinham
dificuldades, ai ele dava mais informações pra ajudar.
Mas era como se fosse um teatro.
o Rememorando, então, os textos que foram feitos aqui:
tem "Fogo Morto"; tem todo o Monteiro Lobato; tem as
peças do Miécio Hônkis, tem "O Clube
dos 13", e o Teatro Sérgio Viotti. O que mais?
A L - Tem o "Ouvindo, Lendo e Contando", que era o
programa que eu herdei da Fernanda Montenegro. A Fernanda tinha
um programa chamado "Lendo e Contando". Ela se afastou
da Rádio e eu continuei. Fiz alguns com o mesmo título,
e depois passei para "Ouvindo, Lendo e Contando", que
também eram radiofonizações de contos. Esse
programa ficou no ar 5 anos.
o Foi gravado?
A L - Claro que não foi gravado, nada foi gravado. Quer
dizer, houve gravações, sim, em discos de acetato
de 16 polegadas. O técnico de gravação era
o senhor Antônio Tognetti, o "seu" Tognetti, como
o chamávamos. O equipamento que ele manejava tinha um microscópio.
A agulha tinha que ser colocada no ponto certo, para começar
a riscar os sulcos. A gravação começava e,
de repente, alguém errava. Era como se pisassem num calo
do "seu" Tognetti: com uma chave de fenda, ele riscava
os sulcos já feitos e iniciava um novo sulco mais adiante.
Se acontecia outro erro, ele jogava aquele acetato fora e pegava
outro disco virgem. Mas isso tudo se perdeu. O que o Sérgio
Viotti gravou agora, é resultado de uma tecnologia mais
avançada, que permitiu que tudo fosse gravado com facilidade.
Nós, Yedda e eu pegamos a gravação em fio,
em arame, que, de repente, embolava e todo o trabalho era jogado
fora, porque não servia mais pra nada. Depois, veio a fita,
mas o acetato foi anterior a tudo isso. Mas era uma dificuldade
gravar um acetato. Os programas eram sempre feitos ao vivo e,
quando o ator tomava conhecimento de que, naquele dia, ia ser
gravado, ficava mais apavorado do que os atores de hoje em dia
( cujos trabalhos são todos gravados e só são
exibidos depois de devidamente editados, equalizados, etc.), ao
receberem a notícia de que terão de fazer uma apresentação
"ao vivo". Eles vão tremer do mesmo jeito que
nós tremíamos, quando diziam, "vai ser gravado".
É estranho, mas é verdadeiro.
I.O. - Verdade. Sobre o trabalho de poesia, nós tivemos
a Íris de Carvalho, que tinha um programa muito bonito
chamado "Presença da Poesia". E outro dela, também,
é "Mulheres Inesquecíveis", todas as mulheres
da história ela enfocou, utilizando o rádioteatro.
Geir Campos tinha o "Poesia Viva", ele fazia um concurso
em que os poetas novos traziam seus trabalhos e, ao final, o primeiro
colocado tinha as poesias editadas e os demais colocados recebiam
um livro de poesia. Foi uma figura muito importante na Rádio
MEC, o poeta Geir Campos.
AL - Seria bom deixar registrado, fosse no rádioteatro,
fosse na música, fosse na locução, fosse
no que fosse, o nome de René Cave, a quem essa rádio,
se não deve tudo, deve quase tudo.
I.O. - Uma pessoa, um diretor de rádioteatro que a gente
esqueceu foi José Valuzi. José Valuzi ainda está
na ativa e foi uma pessoa que também teve uma passagem
brilhante pela Rádio MEC.
o Allan, você acha possível que haja uma revitalização
do radioteatro, no Brasil?
A L - A cabeça dos nossos dirigentes é como a pena
do juiz: você nunca sabe o que vai sair dali. Há
pouco tempo, um governante brasileiro teve uma idéia feliz
de tentar revitalizar o rádioteatro, lá no extremo
norte, lá no Amapá. Num primeiro momento, fui convidado
a orientar um grupo de intérpretes locais. Fui e me apaixonei.
É uma gente séria, talentosa, que pode surpreender,
se houver interesse dos governantes em proporcionar as mínimas
facilidades necessárias, o que estou aguardando até
agora. Aquilo fez sacudir o meu coração. Vai sair
dali um gen que pode se desenvolver por esse Brasil a fora. Porque
a não existência do rádio de broadcasting,
do rádioteatro, a triste constatação de que
o rádio transformou-se nesse monocórdico vitrolão,
é triste pra nós que conhecemos uma outra importância
do rádio, o rádio servindo a um outro propósito.
Agora, tudo mais que se poderia dizer entra no terreno da utopia,
aquilo que nós gostaríamos que fosse e que não
é. Um dia, ainda haveremos de ter um dirigente, alguém
com força suficiente pra dizer: "Vamos renascer o
rádioteatro" e ai todos vão saber, essas novas
gerações, qual a importância desse gênero
de arte.
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