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Ouvinte Permanente

por Carlos Acselrad


"Incrível, fantástico, extraordinário!"

Estes três exclamativos ficaram definitivamente vinculados à figura do lendário radialista e musicólogo Henrique Fôreis Domingues, o Almirante, “a maior patente do rádio”. Lá pelo final dos anos 40 ele – também interessado em cultura popular, tradições orais e literatura do folclore brasileiro – produzia um programa que levava justamente os três exclamativos como título. Eram histórias de terror narradas e dramatizadas, povoadas pelas tradicionais figuras e cenários devidamente aterrorizantes: os mortos-vivos, a alma do outro mundo, os cemitérios, o lobisomem, as assombrações e mais uma que gozava de especial prestígio entre a geração de crianças então ouvintes assíduas de rádio – a mula-sem-cabeça. Esta merecia longos debates teóricos na hora do recreio: existiria mesmo a mula-sem-cabeça?

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Incrível e, justamente por isto, boa surpresa. Em meio à profusão de horários preenchidos por títulos meramente burocráticos e inúteis (Manhã MEC, Grandes clássicos, Harmonia, Balcão nobre) eis que surge – sem dizer água vai – o Café concerto. O programa se propõe a abordar o que chama de música ligeira. O termo é vago, dado seus vários significados. A primeira vista parece tratar-se de equivocada tradução do francês léger (leve). A palavra “ligeiro” refere-se, principalmente, à idéia de velocidade (para os músicos, andamento). Assim, a rigor, música ligeira seria qualquer tipo de música tocada em andamento rápido, entre allegro molto e prestissimo. Rabujices à parte, o uso consagrou e todos sabemos que ligeira será a música de dança de salão, de cabaré, de bandas marciais, as operetas e a música popular em todas as suas formas e nacionalidades. A boa surpresa vai por conta do texto condizentemente ligeiro além de informativo, e da cuidadosa seleção propriamente musical, preocupada com coerência mas também variedade. A narração em tom intermediário entre a ironia e o simples bom humor, inevitavelmente deixa no ar um aroma de “gosto muito disso, mas lá no seu lugar”. Tirante algum desleixo (troca nos nomes de intérpretes – Marcio por Mario, Pedro por Paulo), depois de muito tempo, há algo no ar (além dos aviões de carreira, como dizia o Barão de Itararé).
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Fantástico, mas no sentido fantasmagórico do termo – algo que se passa num mundo de fantasmas, ou seja, desvinculado da realidade. A Ouvidoria das Rádios da Empresa Brasil de Comunicações ocupa 15 minutos semanais de seus canais de rádio com algo intitulado “Rádio em debate”. Segundo o texto inicial do programa, ele pretende ser um espaço para contato com os ouvintes de quem se espera mandem sugestões, críticas e elogios (sic). Além de não haver espaço propriamente para debates, o foco tem sido a midia e seus profissionais que, em entrevistas relâmpago, opinam sobre assuntos de interesse restrito aos próprios. O primeiro programa homenageou o dia internacional da mulher, dando voz a algumas mulheres que faziam ou fazem programas femininos, quase todas de restrita expressão e com tempo apenas suficiente para expor alguma qualidade de suas produções (uma delas mencionou discriminação trabalhista que sofreu, mas nem por isso houve debate). Há, é verdade, a tal luz no túnel: ao abordar o papel da imprensa na cobertura de movimentos sociais, as entrevistas procuraram professores de comunicação de algum renome e até um militante, liderança de um desses movimentos. Talvez seja cedo, mas, até aqui, apenas um ouvinte da MEC FM teve visibilidade ao reclamar do site da emissora. Chama atenção a entonação geral da leitura dos textos, desde o próprio ouvidor-adjunto até várias mocinhas, a lembrar tia em festa de fim do ano no primário (agravante: o contraste com a irretocável equipe atual de locutores da MEC FM). A cereja do bolo é o inacreditável intervalo musical: inopinada e gratuitamente irrompe o anúncio em toda a extensão (Mourão, trecho da Suíte Nordestina de Guerra Peixe na execução da Orquestra Brasileira de Folclore sob a regência do maestro...) do qual se ouve alguns compassos e ... chega. Espera-se que a ouvidoria, além de ouvir, passe também a escutar.
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Extraordinário não passa de algo tipo assim meio que vírgula quando um discurso é superpovoado por superlativos (sempre elogiosos) e adjetivos (idem) bombásticos. Assim, os sucessos serão sempre retumbantes, as competências inexcedíveis e as belezas deslumbrantes. O programa – que tem Pixinguinha como prefixo – convida artistas da área dita popular e adota aquele formato o entrevistado e seu CD. É justificável dar espaço para as novas gerações de compositores ou intérpretes. Ouvimos com certa confiança que a experiência longa investida e exibida no programa merece – embora ignoremos o critério que chegou a fazer-nos ouvir isto ou aquilo. Quando a gravação recupera a História, todo adjetivo a favor caberá: qualquer lançamento será admirável e valerá a pena mostrar (e tudo se desculpará – até Carmen Miranda cantando “Tchikabum-tchi” em português com ritmo de mambo). No entanto, o mesmo ocorrerá com principiantes que conseguiram gravar seu primeiro CD: virão precedidos e seguidos dos devidos exclamativos de incondicional admiração. Em recente programa, a matéria era um disco (o mais recente?) de uma pianista (“essa sensibilíssima musicista e, por que não dizer, minha queridíssima amiga”) que trafega entre “a nossa nunca assaz louvada compositora, pianista e maestrina Chiquinha Gonzaga” e “esse monumental gênio da criação musical universal que foi... Mozart”. A certa altura somos informados de duas faixas que se farão ouvir. Trata-se de compositor brasileiro jovem, egresso de uma banda de rock de nome espanholado, que a pianista conheceu num estúdio e que – embora não sendo chamado aqui de gênio da criação musical universal – já vem coroado de, pelo menos, “músico fantástico”. Ouve-se a obra, piano solo, e com alguma distração ou inadvertência, você se levantaria para ir até a sala fechar o piano onde a sobrinha de 6 anos tenta tirar o bife. Com paciência, porém – e algum senso de humor – ouve-se até o fim. Era uma incrível simultaneidade de incompatibilidades. Na melodia, uma costura de lugares comuns da MPB ou do folclore infantil, na esperada harmonia, apenas outra linha melódica sambando entre o óbvio e o aleatório. Diz a pianista: “eu acho ele assim... um músico completo”. Diz o anfitrião: “aí está, portanto, o nosso jovem e magnífico compositor abrindo-nos novos caminhos...”.

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Mas como íamos dizendo... existirão, mesmo, as mulas-sem-cabeça?


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