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Ouvinte
Permanente
por Carlos Acselrad
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"Incrível, fantástico, extraordinário!"
Estes três exclamativos ficaram definitivamente
vinculados à figura do lendário radialista e musicólogo
Henrique Fôreis Domingues, o Almirante, a maior patente
do rádio. Lá pelo final dos anos 40 ele
também interessado em cultura popular, tradições
orais e literatura do folclore brasileiro produzia um programa
que levava justamente os três exclamativos como título.
Eram histórias de terror narradas e dramatizadas, povoadas
pelas tradicionais figuras e cenários devidamente aterrorizantes:
os mortos-vivos, a alma do outro mundo, os cemitérios,
o lobisomem, as assombrações e mais uma que gozava
de especial prestígio entre a geração de
crianças então ouvintes assíduas de rádio
a mula-sem-cabeça. Esta merecia longos debates teóricos
na hora do recreio: existiria mesmo a mula-sem-cabeça?
* * *
Incrível e, justamente por isto, boa surpresa. Em meio
à profusão de horários preenchidos por títulos
meramente burocráticos e inúteis (Manhã MEC,
Grandes clássicos, Harmonia, Balcão nobre) eis que
surge sem dizer água vai o Café concerto.
O programa se propõe a abordar o que chama de música
ligeira. O termo é vago, dado seus vários significados.
A primeira vista parece tratar-se de equivocada tradução
do francês léger (leve). A palavra ligeiro
refere-se, principalmente, à idéia de velocidade
(para os músicos, andamento). Assim, a rigor, música
ligeira seria qualquer tipo de música tocada em andamento
rápido, entre allegro molto e prestissimo. Rabujices à
parte, o uso consagrou e todos sabemos que ligeira será
a música de dança de salão, de cabaré,
de bandas marciais, as operetas e a música popular em todas
as suas formas e nacionalidades. A boa surpresa vai por conta
do texto condizentemente ligeiro além de informativo, e
da cuidadosa seleção propriamente musical, preocupada
com coerência mas também variedade. A narração
em tom intermediário entre a ironia e o simples bom humor,
inevitavelmente deixa no ar um aroma de gosto muito disso,
mas lá no seu lugar. Tirante algum desleixo (troca
nos nomes de intérpretes Marcio por Mario, Pedro
por Paulo), depois de muito tempo, há algo no ar (além
dos aviões de carreira, como dizia o Barão de Itararé).
* * *
Fantástico, mas no sentido fantasmagórico do termo
algo que se passa num mundo de fantasmas, ou seja, desvinculado
da realidade. A Ouvidoria das Rádios da Empresa Brasil
de Comunicações ocupa 15 minutos semanais de seus
canais de rádio com algo intitulado Rádio
em debate. Segundo o texto inicial do programa, ele pretende
ser um espaço para contato com os ouvintes de quem se espera
mandem sugestões, críticas e elogios (sic). Além
de não haver espaço propriamente para debates, o
foco tem sido a midia e seus profissionais que, em entrevistas
relâmpago, opinam sobre assuntos de interesse restrito aos
próprios. O primeiro programa homenageou o dia internacional
da mulher, dando voz a algumas mulheres que faziam ou fazem programas
femininos, quase todas de restrita expressão e com tempo
apenas suficiente para expor alguma qualidade de suas produções
(uma delas mencionou discriminação trabalhista que
sofreu, mas nem por isso houve debate). Há, é verdade,
a tal luz no túnel: ao abordar o papel da imprensa na cobertura
de movimentos sociais, as entrevistas procuraram professores de
comunicação de algum renome e até um militante,
liderança de um desses movimentos. Talvez seja cedo, mas,
até aqui, apenas um ouvinte da MEC FM teve visibilidade
ao reclamar do site da emissora. Chama atenção a
entonação geral da leitura dos textos, desde o próprio
ouvidor-adjunto até várias mocinhas, a lembrar tia
em festa de fim do ano no primário (agravante: o contraste
com a irretocável equipe atual de locutores da MEC FM).
A cereja do bolo é o inacreditável intervalo musical:
inopinada e gratuitamente irrompe o anúncio em toda a extensão
(Mourão, trecho da Suíte Nordestina de Guerra Peixe
na execução da Orquestra Brasileira de Folclore
sob a regência do maestro...) do qual se ouve alguns compassos
e ... chega. Espera-se que a ouvidoria, além de ouvir,
passe também a escutar.
* * *
Extraordinário não passa de algo tipo assim meio
que vírgula quando um discurso é superpovoado por
superlativos (sempre elogiosos) e adjetivos (idem) bombásticos.
Assim, os sucessos serão sempre retumbantes, as competências
inexcedíveis e as belezas deslumbrantes. O programa
que tem Pixinguinha como prefixo convida artistas da área
dita popular e adota aquele formato o entrevistado e seu CD. É
justificável dar espaço para as novas gerações
de compositores ou intérpretes. Ouvimos com certa confiança
que a experiência longa investida e exibida no programa
merece embora ignoremos o critério que chegou a
fazer-nos ouvir isto ou aquilo. Quando a gravação
recupera a História, todo adjetivo a favor caberá:
qualquer lançamento será admirável e valerá
a pena mostrar (e tudo se desculpará até
Carmen Miranda cantando Tchikabum-tchi em português
com ritmo de mambo). No entanto, o mesmo ocorrerá com principiantes
que conseguiram gravar seu primeiro CD: virão precedidos
e seguidos dos devidos exclamativos de incondicional admiração.
Em recente programa, a matéria era um disco (o mais recente?)
de uma pianista (essa sensibilíssima musicista e,
por que não dizer, minha queridíssima amiga)
que trafega entre a nossa nunca assaz louvada compositora,
pianista e maestrina Chiquinha Gonzaga e esse monumental
gênio da criação musical universal que foi...
Mozart. A certa altura somos informados de duas faixas que
se farão ouvir. Trata-se de compositor brasileiro jovem,
egresso de uma banda de rock de nome espanholado, que a pianista
conheceu num estúdio e que embora não sendo
chamado aqui de gênio da criação musical universal
já vem coroado de, pelo menos, músico
fantástico. Ouve-se a obra, piano solo, e com alguma
distração ou inadvertência, você se
levantaria para ir até a sala fechar o piano onde a sobrinha
de 6 anos tenta tirar o bife. Com paciência, porém
e algum senso de humor ouve-se até o fim.
Era uma incrível simultaneidade de incompatibilidades.
Na melodia, uma costura de lugares comuns da MPB ou do folclore
infantil, na esperada harmonia, apenas outra linha melódica
sambando entre o óbvio e o aleatório. Diz a pianista:
eu acho ele assim... um músico completo. Diz
o anfitrião: aí está, portanto, o nosso
jovem e magnífico compositor abrindo-nos novos caminhos....
* * *
Mas como íamos dizendo... existirão, mesmo, as mulas-sem-cabeça?