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Ouvinte
Permanente
por
Carlos Acselrad
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A Fronteira entre o Maravilhoso
e o Genial
O dia 25 de setembro é o Dia Mundial da Radiodifusão.
Foi também num setembro de 85 anos atrás que o rádio
nos foi apresentado sem despertar maior interesse popular, na
exposição comemorativa do centenário da independência.
A efeméride far-nos-á cogitar ("a efeméride
far-nos-á cogitar"? que língua a nossa!) em
torno do seu significado. Não seja ele análogo ao
Dia do Perdão judaico ou ao da Confraternização
Universal, ou seja: irmãos, é hoje só amanhã
não tem mais! abusai, exorbitai, relaxai - tudo vos será
permitido. Não; é dia de refletir: estaremos a merecer
a herança do "pela cultura dos que vivem em nossa
terra, pelo progresso do Brasil"? Ou dar-nos-emos por satisfeitos
em termos o rádio apenas como alternativa, onde se possa
ouvir uma musiquinha e ser estimulado com questões um pouco
acima de "quem matou Taís"?
Em meio à simples sequência musical do programa intitulado
Manhã MEC surgem eventuais notas históricas sobre
os autores. Numa destas ficamos sabendo que "Carl Maria von
Weber foi um grande compositor, maestro e... arranjador".
Anos atrás - era a explosão dos corais de empresa
- em conversa com uma mocinha sobre o repertório do coral
dela, comentei que, no meu coral, fazíamos um trecho do
moteto de Bach Jesu meine freude. E ela: "ah, que legal!
arranjo de quem?". O termo "arranjo"é mais
revelador do que parece. É claro - nem Bach e os barrocos,
nem Weber e os românticos escreveram arranjos; compuseram
sozinhos suas missas, concertos e óperas. O arranjo denota
um procedimento típico da música popular: trata-se
de tomar uma melodia que se acompanharia apenas por um instrumento
e reinventá-la, enriquecê-la, de modo a ser executada
por conjuntos (regional de choro, orquestra sinfônica, coral,
etc). Famosos instrumentistas brasileiros, desde os princípios
do século XX, produziram arranjos que fazem parte do repertório
popular até hoje. O que ocorre atualmente com o arranjo
é que músicos de origem popular mas com formação
teórica (acadêmica ou não) produzem obras
sinfônicas sofisticadas, verdadeiras rapsódias stravinskianas
ou mesmo composições originais (vide, por exemplo,
uma Suite para violão de 7 cordas e orquestra). Este fato
vem lançar mais luz (ou mais sombra, sei lá) sobre
a velha questão: onde está, afinal, a fronteira
entre o popular e o clássico?
O termo 'arranjo' é um bom vetor para se entender melhor
a questão. Ele serve a ambos os lados nas inevitáveis
escaramuças que os fazem se confrontar. Para a mídia
que milita na área do clássico será considerada
heresia chamar arranjo a uma versão sinfônica que
Schoenberg escreveu para um quarteto com piano de Brahms. Por
outro lado, entre os populares, será ostentado como tal
o arranjo do saxofonista Naylor Azevedo de choros de Pixinguinha
para orquestra sinfônica (diga-se, de notável competência
e criatividade). A tal fronteira, porém, ainda é
larga e espinhosa: raros músicos populares terão
sequer ouvido falar de Schoenberg, e quase todos os clássicos
ignoram a obra do sr. Azevedo.
Outra instância que demarca fronteiras é a curiosa
distinção de tratamento entre as duas áreas,
visível nas atuais emissoras públicas brasileiras
(exceto a inefável Cultura FM-SP). Sem muita crítica
nem argumento, a adjetivação que acompanha qualquer
referência a músicos - intérpretes ou compositores
- populares é de uma profusão entusiástica
próxima do ufanismo. O estilo pode variar de acordo com
o agente da divulgação: pode ser gongórico
("aqui está o estupendo arranjo magnificamente realizado
por este genial saxofonista...") ou limitar-se a surrados
qualificativos, quase um cacoete, com que se rotula músicos
populares (mesmo apenas adolescentes que mal dominam seu pandeiro)
sempre "o maravilhoso" ou, ao menos, "o grande".
A grande maioria dos textos improvisados na referida programação
(gratas exceções na MEC: Tempos Modernos, Música
de Invenção e Mosaico) nos remete aos profissionais
de talk-show da TV: diante do vazio da desinformação
e da ausência de conteúdo cultural, nas entrevistas
com estrangeiros famosos ou mesmo a caminho da fama, disparam
a eletrizante pergunta: "primeira vez que vem ao Brasil?".