Na tradição do povo hebreu comemora-se
a maioridade dos varões ao completarem eles os 13 anos.
Compreende-se a pressa: tratava-se de um povo sempre ameaçado
pelos percalços do nomadismo indo até aos da extinção
e, portanto, sempre necessitado de mão-de-obra apta ao
trabalho pesado, à guerra e à reprodução.
As mulheres recolhiam-se a sua insignificância. Talvez certas
analogias históricas nos tenham remetido tão longe
ao registrar - aqui nesta solitária trincheira - a passagem
do 130 aniversário de fundação da SOARMEC.
Talvez coubessem outras analogias: ao deixar a adolescência
e adentrar a maturidade deixaríamos de ser contestadores,
impertinentes, insuportavelmente chatos enfim, como soem sê-lo
os da nossa espécie, para nos tornarmos ponderados, tolerantes,
agradavelmente meio idiotas enfim, como se espera sejamos os da
nossa espécie. Mas não! Ledo engano o vosso, se
isso é o que esperais - aqui d` El rey! Aqui a porca torcerá
realmente o rabo. Aqui o camelo acabará por passar pelo
buraco da agulha. Para trás! Aqui ninguém aderirá
à senhora do destino nem preferirá a América:
manteremos acesas as válvulas dos nossos capelinhas (não,
agora foi regressão demais - vá lá, manteremos
ligado o som do carro) ainda que para ouvir as transmissões
ao vivo de "Sala de concerto".
Não faz tanto tempo assim - já não se amarrava
cachorro com lingüiça - a Rádio MEC volta e
meia realizava transmissões externas. O programa "Cenas
e bastidores" reportava noites de estréias teatrais
dando voz a atores e diretores antes e depois do espetáculo;
quase toda manhã de domingo era reservada aos "Concertos
para a juventude"da OSN, também precedidos de longas
entrevistas com o regente, críticos presentes e mesmo músicos
da orquestra. Eram matérias vivas, criadas de improviso
por gente da área, que conhecia o trabalho de que falava,
o que cercava a produção de uma aura de respeito
pela competência e mantinha interesse sempre renovado. Não
nos consta que estas externas fossem consideradas uma extraordinária
façanha. Hoje, as parcas transmissões de música
ao vivo, de dentro da emissora ou de alguma sala da cidade, são
anunciadas previamente por chamadas espetaculosas, com expressões
promissoras de algo jamais visto, não perca este grande
espetáculo, sendo enfatizado o "ao vivo" pela
locução, como quem quer dizer "proeza! Imperdível!
Tão pensando o quê?". Reconheçamos que,
dadas as limitações, a penúria, o não
temos verba nem pessoal, etc. ...vai ver é realmente uma
proeza. Mas infelizmente o resultado tem sido sempre bisonho.
O "Concerto MEC" (mais um titulozinho burocrático)
brindou os ouvintes com um recital de pianista brasileiro que
executou cerca de 12 obras de Chopin. O único texto lido
por uma voz (depois identificada como sendo do coordenador da
transmissão) foi "Rádio MEC transmitindo ao
vivo da sala tal, recital do pianista tal". Isto repetido
ad nauseam, a cada brecha do artista (que, aliás, colaborou
com o espírito geral de pobreza - deram-lhe acesso a um
microfone que usou para pedir que apagassem um refletor que iluminava
o teclado, acrescentando: "se tivessem apagado antes eu teria
errado menos notas").
Vamos e venhamos, toda crítica será antipática.
Por outro lado, convenhamos: a única crítica realmente
destrutiva é a indiferença. Exerçamo-la,
pois (exerçamo-la? que língua a nossa!) sem culpa.
Argumenta-se, por exemplo - acerca da qualidade final das produções
da rádio - que "nem sempre a coisa sai impecável
como gostaríamos". Fosse esta a realidade, seria tolerável.
O que é inadmissível é quando, ao invés
de exceção, são regra os tropeços,
os equívocos e a desinformação. Esta regra
se torna mais visível ainda justamente nas programações
ao vivo, quando se espera de quem fala um mínimo de competência
no dizer, um mínimo de agilidade no evitar equívocos
e um mínimo de informação sobre a matéria
e as pessoas com quem está lidando. Sexta-feira dessas,
concerto. A simples leitura de data da composição
resultou no seguinte: "mil oitocent... (pigarro) mil NOVEcentos
e oito... (pigarro)... ééé... mil novecentos
e VINTE oito". Um conjunto instrumental "devaneia"
(sic) sobre temas universais. Após devaneios (leia-se desafinações
e desencontros) sobre a Dança Ritual do Fogo, a peça
termina (mais ou menos estilo atentado-homem-bomba-Bagdá).
Sugere-se aos ouvintes que telefonem (os ouvintes - haja o que
houver - parabenizam tudo e todos): "Liguem para a nossa
Central de Atendimente... (pigarro)... Atandimento... ao Ou...vinto".
Pelo visto, o esperanto ainda não caiu em desuso.