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detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002
A SOARMEC DISCOS

 

Ouvinte Permanente

por Carlos Acselrad


AO VIVO, MA NON TROPPO

Na tradição do povo hebreu comemora-se a maioridade dos varões ao completarem eles os 13 anos. Compreende-se a pressa: tratava-se de um povo sempre ameaçado pelos percalços do nomadismo indo até aos da extinção e, portanto, sempre necessitado de mão-de-obra apta ao trabalho pesado, à guerra e à reprodução. As mulheres recolhiam-se a sua insignificância. Talvez certas analogias históricas nos tenham remetido tão longe ao registrar - aqui nesta solitária trincheira - a passagem do 130 aniversário de fundação da SOARMEC. Talvez coubessem outras analogias: ao deixar a adolescência e adentrar a maturidade deixaríamos de ser contestadores, impertinentes, insuportavelmente chatos enfim, como soem sê-lo os da nossa espécie, para nos tornarmos ponderados, tolerantes, agradavelmente meio idiotas enfim, como se espera sejamos os da nossa espécie. Mas não! Ledo engano o vosso, se isso é o que esperais - aqui d` El rey! Aqui a porca torcerá realmente o rabo. Aqui o camelo acabará por passar pelo buraco da agulha. Para trás! Aqui ninguém aderirá à senhora do destino nem preferirá a América: manteremos acesas as válvulas dos nossos capelinhas (não, agora foi regressão demais - vá lá, manteremos ligado o som do carro) ainda que para ouvir as transmissões ao vivo de "Sala de concerto".
Não faz tanto tempo assim - já não se amarrava cachorro com lingüiça - a Rádio MEC volta e meia realizava transmissões externas. O programa "Cenas e bastidores" reportava noites de estréias teatrais dando voz a atores e diretores antes e depois do espetáculo; quase toda manhã de domingo era reservada aos "Concertos para a juventude"da OSN, também precedidos de longas entrevistas com o regente, críticos presentes e mesmo músicos da orquestra. Eram matérias vivas, criadas de improviso por gente da área, que conhecia o trabalho de que falava, o que cercava a produção de uma aura de respeito pela competência e mantinha interesse sempre renovado. Não nos consta que estas externas fossem consideradas uma extraordinária façanha. Hoje, as parcas transmissões de música ao vivo, de dentro da emissora ou de alguma sala da cidade, são anunciadas previamente por chamadas espetaculosas, com expressões promissoras de algo jamais visto, não perca este grande espetáculo, sendo enfatizado o "ao vivo" pela locução, como quem quer dizer "proeza! Imperdível! Tão pensando o quê?". Reconheçamos que, dadas as limitações, a penúria, o não temos verba nem pessoal, etc. ...vai ver é realmente uma proeza. Mas infelizmente o resultado tem sido sempre bisonho. O "Concerto MEC" (mais um titulozinho burocrático) brindou os ouvintes com um recital de pianista brasileiro que executou cerca de 12 obras de Chopin. O único texto lido por uma voz (depois identificada como sendo do coordenador da transmissão) foi "Rádio MEC transmitindo ao vivo da sala tal, recital do pianista tal". Isto repetido ad nauseam, a cada brecha do artista (que, aliás, colaborou com o espírito geral de pobreza - deram-lhe acesso a um microfone que usou para pedir que apagassem um refletor que iluminava o teclado, acrescentando: "se tivessem apagado antes eu teria errado menos notas").
Vamos e venhamos, toda crítica será antipática. Por outro lado, convenhamos: a única crítica realmente destrutiva é a indiferença. Exerçamo-la, pois (exerçamo-la? que língua a nossa!) sem culpa. Argumenta-se, por exemplo - acerca da qualidade final das produções da rádio - que "nem sempre a coisa sai impecável como gostaríamos". Fosse esta a realidade, seria tolerável. O que é inadmissível é quando, ao invés de exceção, são regra os tropeços, os equívocos e a desinformação. Esta regra se torna mais visível ainda justamente nas programações ao vivo, quando se espera de quem fala um mínimo de competência no dizer, um mínimo de agilidade no evitar equívocos e um mínimo de informação sobre a matéria e as pessoas com quem está lidando. Sexta-feira dessas, concerto. A simples leitura de data da composição resultou no seguinte: "mil oitocent... (pigarro) mil NOVEcentos e oito... (pigarro)... ééé... mil novecentos e VINTE oito". Um conjunto instrumental "devaneia" (sic) sobre temas universais. Após devaneios (leia-se desafinações e desencontros) sobre a Dança Ritual do Fogo, a peça termina (mais ou menos estilo atentado-homem-bomba-Bagdá). Sugere-se aos ouvintes que telefonem (os ouvintes - haja o que houver - parabenizam tudo e todos): "Liguem para a nossa Central de Atendimente... (pigarro)... Atandimento... ao Ou...vinto". Pelo visto, o esperanto ainda não caiu em desuso.


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