
 |
Ouvinte
Permanente
por Carlos Acselrad
|
"A NIVEL DE" NIVELAR POR BAIXO
Meu taxista era corpulento, peludo e suado;mal cabia
no seu fusca. Do fundo dos meus preconceitos fiz previsões:
deve ser do tipo truculento. Era. Arrancadas bruscas, freiadas,
acelerações nas curvas, tudo temperado com berros
alusivos à integridade moral da mãe dos outros motoristas,
pedestres, guardas, quem fosse. O braço esquerdo batia
na lataria do carro à guisa de sai-da-frente, enquanto
a mão direita manipulava o botão do rádio,
frenética, procurando sintonizar alguma coisa,operação
também ilustrada com exuberante escatologia, agora alusiva
à qualidade do rádio. Novas previsões: o
que ouve um motorista de táxi? Certamente ele procurava
o programa "Patrulha da cidade" que
lhe fazia o gênero ("o presunto tava lá esticadão
com cinco azeitonas na testa! "). Já vi o que me
espera pela próxima meia hora... Errei. Ele, finalmente,
acha o que procurava: rádio MEC. Voz de soprano acompanhada
de orquestra. Ele aproveita para abrir o vidro da direita, afim
de tecer breve comentário acerca da orientação
sexual do taxista engarrafado ao lado. Acomodasse de novo, e me
pergunta, indicando, com o queixo, a música que vem do
rádio: "sabe o que é isto, doutor?". Não
quero humilhar o povo; vou me nivelar por baixo: "olha...
acho que é negócio de ópera... não
sei...". Ele deixa cantar a soprano mais uns segundos e arrasa-me
o pretenso socialismo: "é Turandot, dr! Puccini! Olha
aqui o meu braço - cada vez que escuto fico todo arrepiado...".
Outro taxista, outra surpresa. Verdadeiro gentleman, acomoda bagagens
na mala. Não me parece um simplório, apenas um simples.
Aguardo, no banco traseiro, já ouvindo algum som no carro.
Estranho, mas não há dúvida: Rádio
MEC (pela hora, deve ser o programa "Seis séculos
de música", que, pela quinta vez
esta semana, transmite a Dança Eslava, de Tchaicovsky;
é verdade que, desde os renascentistas
até os dodecafônicos, qualquer coisa serve; além
disso, nada contra Tchaicovsky - acho até legal - mas,
francamente, para seis séculos de música, está
sobrando dança eslava...). Para puxar conversa, pergunto:
"isso aí que está tocando é rádio
ou CD?". É a vez de o povo nivelar por baixo: ele
interpretou a pergunta como queixa, e pensa "esse sujeito
nem conhece Tchaicovsky e nem quer saber de Dança Eslava
- deve estar querendo ouvir "Patrulha da Cidade" ou,
sei lá, algum pagode...", e vai mudando de estação.
Intervenho rápido: "não não! Eu ia até
pedir para aumentar o volume...". Ele, surpreso, por sua
vez me surpreende: "bom, se o senhor quiser... é o
seguinte: eu só
liguei o rádio porque o CD aqui do carro está meio
ruim, mas tenho aqui todas as sinfonias e concertos para piano
de Mozart...". "Ah, Mozart, é? Por quê?".
"Vou lhe dizer: dirigir neste trânsito, com esse stress,
sem Mozart, não dá!". Refletindo sobre os episódios,
constata-se dois equívocos de expectativa: subestimei o
primeiro motorista de táxi e fui subestimado pelo segundo.
O nivelar por baixo é atitude comum na nossa cultura. Baseia-se
na presunção, no pressuposto, no preconceito. Em
última análise é fruto da diferença
social, e, certamente, destinasse a manter diferença social,
privilégio e exclusão. Pode surgir num simples relacionamento
taxista & passageiro, mas pode até configurar uma política
de governo. É o velho "eles só querem mesmo
é pão e circo pois não estão preparados
para coisa melhor". A nós, identificados como "o
público", ou "o povo", nos é impingido
o pãozinho dormido e seco da cultura - o circo se resume
aos pobres com bolinhas no sinal fechado. Reconheça-se:
o poder reserva algum investimento, não no pão,
mas na embalagem (no nosso caso particular, temos os ouvidos diariamente
alcançados por uma flagrante discrepância
- as chamadas para programação e as vinhetas de
comercialização de CDs são visivelmente cuidadas
e competentes; já a produção em si é,
quase sempre, pífia, anacrônica e clientelista).
Felizmente temos bons poetas (populares, mas não o bastante)
que merecem citação: "gente amassando o pão
/...arrancando a vida com a mão.../quer durar, quer crescer/
gente quer luzir".
Assim também temos revolucionários históricos
a quem podemos parafrasear: "motoristas de táxi de
todo o mundo, uni-vos!".