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detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002
A SOARMEC RADIO MEC

Ouvinte Permanente

por Carlos Acselrad


"A NIVEL DE" NIVELAR POR BAIXO

Meu taxista era corpulento, peludo e suado;mal cabia no seu fusca. Do fundo dos meus preconceitos fiz previsões: deve ser do tipo truculento. Era. Arrancadas bruscas, freiadas, acelerações nas curvas, tudo temperado com berros alusivos à integridade moral da mãe dos outros motoristas, pedestres, guardas, quem fosse. O braço esquerdo batia na lataria do carro à guisa de sai-da-frente, enquanto a mão direita manipulava o botão do rádio, frenética, procurando sintonizar alguma coisa,operação também ilustrada com exuberante escatologia, agora alusiva à qualidade do rádio. Novas previsões: o que ouve um motorista de táxi? Certamente ele procurava o programa "Patrulha da cidade" que
lhe fazia o gênero ("o presunto tava lá esticadão com cinco azeitonas na testa! "). Já vi o que me
espera pela próxima meia hora... Errei. Ele, finalmente, acha o que procurava: rádio MEC. Voz de soprano acompanhada de orquestra. Ele aproveita para abrir o vidro da direita, afim de tecer breve comentário acerca da orientação sexual do taxista engarrafado ao lado. Acomodasse de novo, e me pergunta, indicando, com o queixo, a música que vem do rádio: "sabe o que é isto, doutor?". Não quero humilhar o povo; vou me nivelar por baixo: "olha... acho que é negócio de ópera... não sei...". Ele deixa cantar a soprano mais uns segundos e arrasa-me o pretenso socialismo: "é Turandot, dr! Puccini! Olha aqui o meu braço - cada vez que escuto fico todo arrepiado...". Outro taxista, outra surpresa. Verdadeiro gentleman, acomoda bagagens na mala. Não me parece um simplório, apenas um simples. Aguardo, no banco traseiro, já ouvindo algum som no carro. Estranho, mas não há dúvida: Rádio MEC (pela hora, deve ser o programa "Seis séculos de música", que, pela quinta vez
esta semana, transmite a Dança Eslava, de Tchaicovsky; é verdade que, desde os renascentistas
até os dodecafônicos, qualquer coisa serve; além disso, nada contra Tchaicovsky - acho até legal - mas, francamente, para seis séculos de música, está sobrando dança eslava...). Para puxar conversa, pergunto: "isso aí que está tocando é rádio ou CD?". É a vez de o povo nivelar por baixo: ele interpretou a pergunta como queixa, e pensa "esse sujeito nem conhece Tchaicovsky e nem quer saber de Dança Eslava - deve estar querendo ouvir "Patrulha da Cidade" ou, sei lá, algum pagode...", e vai mudando de estação. Intervenho rápido: "não não! Eu ia até pedir para aumentar o volume...". Ele, surpreso, por sua vez me surpreende: "bom, se o senhor quiser... é o seguinte: eu só
liguei o rádio porque o CD aqui do carro está meio ruim, mas tenho aqui todas as sinfonias e concertos para piano de Mozart...". "Ah, Mozart, é? Por quê?". "Vou lhe dizer: dirigir neste trânsito, com esse stress, sem Mozart, não dá!". Refletindo sobre os episódios, constata-se dois equívocos de expectativa: subestimei o primeiro motorista de táxi e fui subestimado pelo segundo. O nivelar por baixo é atitude comum na nossa cultura. Baseia-se na presunção, no pressuposto, no preconceito. Em última análise é fruto da diferença social, e, certamente, destinasse a manter diferença social, privilégio e exclusão. Pode surgir num simples relacionamento taxista & passageiro, mas pode até configurar uma política de governo. É o velho "eles só querem mesmo é pão e circo pois não estão preparados para coisa melhor". A nós, identificados como "o público", ou "o povo", nos é impingido o pãozinho dormido e seco da cultura - o circo se resume aos pobres com bolinhas no sinal fechado. Reconheça-se: o poder reserva algum investimento, não no pão, mas na embalagem (no nosso caso particular, temos os ouvidos diariamente alcançados por uma flagrante discrepância
- as chamadas para programação e as vinhetas de comercialização de CDs são visivelmente cuidadas e competentes; já a produção em si é, quase sempre, pífia, anacrônica e clientelista).
Felizmente temos bons poetas (populares, mas não o bastante) que merecem citação: "gente amassando o pão /...arrancando a vida com a mão.../quer durar, quer crescer/ gente quer luzir".
Assim também temos revolucionários históricos a quem podemos parafrasear: "motoristas de táxi de todo o mundo, uni-vos!".


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