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Ouvinte
Permanente
por Carlos Acselrad
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São 8 horas; faz
sol; já é dia. Se acaso nos restasse alguma dúvida
sobre a regularidade do fenômeno nictemérico (sucessão
alternada de dias e noites) a Rádio MEC, a esta altura,
já a teria desfeito: é de manhã. O fato de
ser dia claro e os relógios marcarem as 8 horas pode, é
verdade - para os mais dubitativos - não representar indiscutível
evidência de que, de fato, é de manhã. Não
seja por isso: a Rádio MEC nos alivia os últimos
resquícios de dúvida anunciando que, incontornavelmente,
é de manhã: "Manhã MEC-FM". Em
se tratando de uma difusora cultural e educativa, a ciência
merece respeito: a manhã se estende até às
12 horas quando, então, iniciar-se-á o período
de rotação da terra intitulado "tarde"
(isto nas línguas lusas, pois ingleses, franceses e italianos
usam uma expressão mais clara que é o "pós-meio-dia").
Pois bem. Cumprido o compromisso com a educação,
passemos à cultura. No âmbito da nossa emissora,
cultura é música - e estamos conversados. Música
sem prolegômenos, sem delongas: som na caixa! O produto
é prático e garantido. A música (que já
foi apenas dança) apela para alguma profundeza do inconsciente
humano, gozando, talvez mais que as outras artes, de poderes peculiares:
tranqüiliza, emociona, dispensa educação e
cultura. E não apresenta contra-indicações.
Isto é "Manhã MEC-FM" (que oferece também
burocráticos noticiários de 5 minutos, cuja anemia
não exigirá nenhum esforço de imaginação
pois leva o instigante título de... "MEC notícias").
Muito bem. Como era de se esperar, também na Rádio
MEC a manhã é seguida pela tarde. Assim, tudo faria
crer que um programa que ocupe o período de 13 às
18 horas vá ser batizado "Tarde MEC FM". Pois
eis que alguém terá pesquisado, ponderado e concluído:
"Tarde MEC" superaria o ridículo, raiando o desrespeito.
Que tal "Grandes clássicos"? As duas palavras
atendem à manutenção do prestígio
da emissora, inspirando erudição e elegância:
aqui se encontra não apenas a música clássica,
mas composta somente pelos grandes. O ouvinte sente-se valorizado
por seu gosto e pela excelente companhia com que é visto.
Seja-nos permitido, no entanto, dar vazão ao pensamento
dedutivo peculiar dos racionais e questionar: se a tarde é
reservada para a audição dos grandes clássicos,
teremos passado a manhã inteira a ouvir o que? Os pequenos
clássicos? É inelutável reconhecer o quão
banalizado se tornou o qualificativo "grande". Nos meios
da música popular, dificilmente alguém deixará
de acrescentá-lo ao citar o nome de artista consagrado
(nunca apenas Cartola, mas "o grande Cartola").
A coda da Marcha Eslava, de Tchaicovsky, dura cerca de 3 minutos.
Além de longa, anuncia o fim da música com aquela
exuberância romântica, emblemático orquestrador
que foi. Metais e percussões se alternam, se misturam,
ameaçam, recuam, recomeçam; repete-se algumas vezes
o encadeamento harmônico dominante-tônica (os dois
acordes finais, aquele "tchan! tchan!", sabe?) até
que se prolonga suficientemente o último, ficando patente
que, desta vez, foi o derradeiro. Onde aprendemos tanta teoria
musical? No "Grandes clássicos", ouvindo, repetidamente,
a Marcha Eslava. A repetição é mola mestra
da didática. Pois graças a alguma trama obsessivo-compulsiva
entre ouvintes e produtores foi que aprendemos tanto à
custa de ouvir, compulsoriamente, a Marcha Eslava. Correm, aliás,
rumores sobre a criação de horário especial
na programação com o título "Atendendo
aos ouvintes da Marcha Eslava", dispensando-os, assim, de
pedir por carta ou telefone.
Neste ínterim, não muito longe dali... enquanto
aqui ouvíamos Manhã MEC, a rádio Cultura
FM, de São Paulo, transmitiu 4 programas produzidos por
dois regentes e dois historiadores: "Tema e variações"(sobre
o centenário de morte de Dvorak), "Da capo" (repetição
de programa com obras raras para quarteto de cordas), "Ciranda"
(compositores brasileiros) e "Contraponto"(biografias
ilustradas de compositores correlacionadas com sua atualidade
histórica)..