de Utilidade Pública Federal - Portaria no. 3935
de Utilidade Pública Estadual (RJ) - nº2464
de Utilidade Pública Municipal (RJ) - nº3048
detentora do Prêmio Estácio de Sá 2002
A Soarmec Links

 

Ouvinte Permanente

por Carlos Acselrad


São 8 horas; faz sol; já é dia. Se acaso nos restasse alguma dúvida sobre a regularidade do fenômeno nictemérico (sucessão alternada de dias e noites) a Rádio MEC, a esta altura, já a teria desfeito: é de manhã. O fato de ser dia claro e os relógios marcarem as 8 horas pode, é verdade - para os mais dubitativos - não representar indiscutível evidência de que, de fato, é de manhã. Não seja por isso: a Rádio MEC nos alivia os últimos resquícios de dúvida anunciando que, incontornavelmente, é de manhã: "Manhã MEC-FM". Em se tratando de uma difusora cultural e educativa, a ciência merece respeito: a manhã se estende até às 12 horas quando, então, iniciar-se-á o período de rotação da terra intitulado "tarde" (isto nas línguas lusas, pois ingleses, franceses e italianos usam uma expressão mais clara que é o "pós-meio-dia").
Pois bem. Cumprido o compromisso com a educação, passemos à cultura. No âmbito da nossa emissora, cultura é música - e estamos conversados. Música sem prolegômenos, sem delongas: som na caixa! O produto é prático e garantido. A música (que já foi apenas dança) apela para alguma profundeza do inconsciente humano, gozando, talvez mais que as outras artes, de poderes peculiares: tranqüiliza, emociona, dispensa educação e cultura. E não apresenta contra-indicações. Isto é "Manhã MEC-FM" (que oferece também burocráticos noticiários de 5 minutos, cuja anemia não exigirá nenhum esforço de imaginação pois leva o instigante título de... "MEC notícias").
Muito bem. Como era de se esperar, também na Rádio MEC a manhã é seguida pela tarde. Assim, tudo faria crer que um programa que ocupe o período de 13 às 18 horas vá ser batizado "Tarde MEC FM". Pois eis que alguém terá pesquisado, ponderado e concluído: "Tarde MEC" superaria o ridículo, raiando o desrespeito. Que tal "Grandes clássicos"? As duas palavras atendem à manutenção do prestígio da emissora, inspirando erudição e elegância: aqui se encontra não apenas a música clássica, mas composta somente pelos grandes. O ouvinte sente-se valorizado por seu gosto e pela excelente companhia com que é visto.
Seja-nos permitido, no entanto, dar vazão ao pensamento dedutivo peculiar dos racionais e questionar: se a tarde é reservada para a audição dos grandes clássicos, teremos passado a manhã inteira a ouvir o que? Os pequenos clássicos? É inelutável reconhecer o quão banalizado se tornou o qualificativo "grande". Nos meios da música popular, dificilmente alguém deixará de acrescentá-lo ao citar o nome de artista consagrado (nunca apenas Cartola, mas "o grande Cartola").
A coda da Marcha Eslava, de Tchaicovsky, dura cerca de 3 minutos. Além de longa, anuncia o fim da música com aquela exuberância romântica, emblemático orquestrador que foi. Metais e percussões se alternam, se misturam, ameaçam, recuam, recomeçam; repete-se algumas vezes o encadeamento harmônico dominante-tônica (os dois acordes finais, aquele "tchan! tchan!", sabe?) até que se prolonga suficientemente o último, ficando patente que, desta vez, foi o derradeiro. Onde aprendemos tanta teoria musical? No "Grandes clássicos", ouvindo, repetidamente, a Marcha Eslava. A repetição é mola mestra da didática. Pois graças a alguma trama obsessivo-compulsiva entre ouvintes e produtores foi que aprendemos tanto à custa de ouvir, compulsoriamente, a Marcha Eslava. Correm, aliás, rumores sobre a criação de horário especial na programação com o título "Atendendo aos ouvintes da Marcha Eslava", dispensando-os, assim, de pedir por carta ou telefone.
Neste ínterim, não muito longe dali... enquanto aqui ouvíamos Manhã MEC, a rádio Cultura FM, de São Paulo, transmitiu 4 programas produzidos por dois regentes e dois historiadores: "Tema e variações"(sobre o centenário de morte de Dvorak), "Da capo" (repetição de programa com obras raras para quarteto de cordas), "Ciranda" (compositores brasileiros) e "Contraponto"(biografias ilustradas de compositores correlacionadas com sua atualidade histórica).
.


e-mails contra a coluna: acselrad@globo.com

 

© Copyright SOARMEC 1999 -2005. Todos os direitos reservados.